<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441</id><updated>2011-08-19T09:14:20.050+01:00</updated><title type='text'>Ideias sobre Letras</title><subtitle type='html'>Olho em redor e cada vez que volto a olhar nada me parece igual.  As letras ajudam-me a fixar esse olhar e a partir daí as ideias ganham forma.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>60</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-5026380742964995579</id><published>2008-06-19T16:31:00.002+01:00</published><updated>2008-06-19T16:32:35.626+01:00</updated><title type='text'>O encontro</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SFp79NCdtCI/AAAAAAAAB7Y/elbNClHg_ms/s1600-h/pg_32.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://2.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SFp79NCdtCI/AAAAAAAAB7Y/elbNClHg_ms/s400/pg_32.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5213615810037003298" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;São vinte cinco quilómetros até à vila, onde o grupo o espera. Amigos de longa data, interesses comuns a juntar gente diferente. Vão chegando, com o entusiasmo à frente e as palavras por arrasto; é sempre assim quando se encontram, parece que os anos se espantam e fogem muito lá para trás, já nem a memória se recorda. São vinte e cinco quilómetros para lá, vinte e cinco para cá. Cinquenta ao todo. Não tem gasolina que chegue e nem vale a pena imaginar outro meio de transporte, pois ele não existe. Situação deprimente, não se confessa ao melhor amigo. Nunca se viu assim. Dinheiro raramente é tema de conversa, na roda dos aflitos. Mesmo que não exista, convém agir como se houvesse. É de bom tom. Ele hesita. Talvez ir para o meio da estrada, apanhar boleia, mesmo sabendo que está fora de moda, que até pode ser perigoso. Sempre disfarçava o estado de penúria. Ganhava tempo, com um golpe de sorte podia inverter a situação. Subitamente, ri-se do próprio pensamento. São apenas amigos. Amigos de sempre. O resto do saldo ainda dá para fazer um telefonema. “Estou? É para dizer que não posso ir. Não tenho dinheiro. É como te digo. Ris-te? Se é partida de Carnaval? Nunca falei tão a sério. Diz-lhes.” O espanto do grupo é geral, cá deste lado. Por vinte e cinco quilómetros? Mas porque é que ele não nos disse? Não fazia a menor ideia. Sim, andava desanimado. Já pouco falava. Sempre foi introvertido. Mas por vinte e cinco quilómetros? Podia ter dito. O que é que tinhas feito? O que tu farias. Emprestar dinheiro. Se fosse contigo: Confessavas? Talvez não. Ah, voltamos então ao princípio. Não exageres. Não é o fim do mundo, faltar a um encontro de amigos. Hão-de haver mais oportunidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-5026380742964995579?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/5026380742964995579/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=5026380742964995579' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/5026380742964995579'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/5026380742964995579'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/06/o-encontro.html' title='O encontro'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SFp79NCdtCI/AAAAAAAAB7Y/elbNClHg_ms/s72-c/pg_32.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-3211766383489583087</id><published>2008-06-12T09:35:00.003+01:00</published><updated>2008-06-12T09:37:20.383+01:00</updated><title type='text'>Um ladrão especial</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SFDgEiR67JI/AAAAAAAAB7I/EJ7OVPPJrMM/s1600-h/ladrao.JPG"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SFDgEiR67JI/AAAAAAAAB7I/EJ7OVPPJrMM/s320/ladrao.JPG" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5210911137393732754" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Há um artista em digressão. A comitiva que o segue não é grande, mas à medida que vão chegando, com as suas carrinhas pintadas de cores vivas e carimbadas com a fotografia dele, toda a gente o reconhece. As pessoas juntam-se, numa primeira euforia, a ver quem sai das carrinhas, na esperança de ver e seguir o artista. A polícia aproxima-se, tentando pôr ordem na já razoável multidão, criando largueza para que o artista e a sua comitiva possam passar descansados. Decepcionados, os fãs dispersam, resignados ao concerto da noite. Os músicos e todas as pessoas envolvidas no espectáculo atarefam-se, nos últimos preparativos. Ninguém repara num rapaz, que ficou ao pé das carrinhas vazias. A noite chega, tarde para uns, cedo para outros e o espectáculo começa, numa explosão de luzes, alegria e som. A multidão envolve-se, pula e grita desenfreadamente. Os aplausos não acabam, pedem-se bis, bis e mais bis e o artista lá vai, todo inchado, com as canções extra preparadas, a voz já cansada, sem admitir. Por fim, público, artista e músicos encerram o espectáculo, suados, cansados, roucos e satisfeitos. O som apaga-se de repente, deixando ainda um zunido nos ouvidos. Um doce zunido das melodias tocadas. E a luz diminui, a multidão começa a dispersar e a adrenalina volta ao lugar. É noite avançada e o rapaz deixou as carrinhas vazias. No dia seguinte, a comitiva assusta-se com os berros do artista. Roubaram-lhe uma valiosa colecção de cd’s. Os seus favoritos, ainda por cima. Discos raros, encontrados aqui e acolá. Mas não roubaram tudo. Isso é que ele não consegue explicar. Apenas sobraram um montinho deles, criteriosamente arrumados numa gaveta. Os álbuns que ele gravou, como artista. Esses, o ladrão não os quis.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-3211766383489583087?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/3211766383489583087/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=3211766383489583087' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/3211766383489583087'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/3211766383489583087'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/06/um-ladro-especial_12.html' title='Um ladrão especial'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SFDgEiR67JI/AAAAAAAAB7I/EJ7OVPPJrMM/s72-c/ladrao.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-3964311146433146573</id><published>2008-06-04T12:20:00.002+01:00</published><updated>2008-06-04T12:22:15.978+01:00</updated><title type='text'>A despedida</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SEZ6zObCFFI/AAAAAAAAB7A/gDezExe_pxM/s1600-h/Star+Cafe.JPG"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SEZ6zObCFFI/AAAAAAAAB7A/gDezExe_pxM/s320/Star+Cafe.JPG" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5207985039563953234" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;As costas arqueiam, sobre o balcão do café. As pernas, que os clientes não vêem, mal suportam o peso de um corpo disforme, alterado pela doença que os anos trouxeram. Coxeia, a adivinhar pelos movimentos trôpegos com que se balanceia, entre tirar bicas e servi-las ao balcão. O rosto é luminoso e chama a atenção: uma simpatia contagiante, o jeito natural para mimar cada cliente, com a palavra certa, o comentário que não se espera, mas que a todos faz sentir únicos, ao tomar o café da manhã. Entre o desfilar de empregadas, que vão cumprindo turnos sem vontade, aparece ela, a fingir que não traz a doença, a ludibriar os clientes, com a energia à frente e as costas dobradas a atraiçoá-la. Os dias perseguem-na, minando-lhe o ânimo e as forças. Coxeia cada vez mais, atrás do balcão e vai além dos comentários habituais; começa a partilhar histórias suas, troca experiências e de sinceridade armada, confessa, do nada, o que sempre escondeu. A pergunta e a resposta saltam, vivas, espontâneas, na cara de cada um: “Venha cá no dia trinta e um. Não sabia? Vou-me embora. Não posso mais. Viu como me mexo? É impossível, estou cada vez pior. Empregadas? É complicado. Já agora, gostava de o ver, mais uma vez. O café? Fica entregue em boas mãos, não se preocupe. O mesmo nome, o mesmo espaço, tudo como dantes”. No dia trinta e um o café enche-se de gente, que a cumprimenta com um olhar diferente. No dia seguinte, a vida recomeça, no café, com os novos donos. Os clientes entram e bebem o habitual café, estranhando o sabor, o espaço e o silêncio que paira sobre o balcão.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-3964311146433146573?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/3964311146433146573/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=3964311146433146573' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/3964311146433146573'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/3964311146433146573'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/06/despedida.html' title='A despedida'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SEZ6zObCFFI/AAAAAAAAB7A/gDezExe_pxM/s72-c/Star+Cafe.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-8647485316199234877</id><published>2008-05-27T13:49:00.004+01:00</published><updated>2008-05-27T14:05:58.449+01:00</updated><title type='text'>Histórias inventadas</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SDwHHyesR9I/AAAAAAAAB6o/IMEQpz2zqNI/s1600-h/bd_telemovel_educacao_ing.gif"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://2.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SDwHHyesR9I/AAAAAAAAB6o/IMEQpz2zqNI/s400/bd_telemovel_educacao_ing.gif" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5205043099724433362" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;As mensagens sucedem-se, umas após as outras. O telemóvel foi-lhe oferecido, um topo de gama, como qualquer presente de estimação merece ser. É ele, a dizer que a adora, sem nunca estar. Seguem-se declarações de todo o género, citações de autores, frases inventadas na hora sobre o tema. Ela suspira. É um momento de poesia que a faz saborear a ausência. Uma história inventada à volta de um personagem que criou e que, no fluir da virtualidade, cumpre os desejos do seu imaginário. Ouve-se um ruído, de repente. É o telemóvel a tocar, chamando-a à realidade. Ainda por cima, é ele, de viva voz. Ela apressa-se a mostrar uma disponibilidade irreal, cerrando fileiras a todos os minutos que ainda se escondem do resto do dia. Ele surpreende-se, como sempre; hesita entre a súbita vontade de a ver e a vontade de a ver ao longe, de a preservar dentro do mini ecrã do telemóvel, emoldurada com aquelas frases bonitas, que têm trocado. Uma história inventada por ele, também, à medida dos seus desejos. Quando se encontram, sobra uma estranheza no ser e no estar. Desaparecem as frases românticas, para dar lugar a uma série de mal-entendidos, que ficam sempre por explicar. Ela abate-se, nesta curta vivência. Não compreende porque é que as peças do puzzle não encaixam. Só pode ser por sua culpa. O único conforto é a chegada a casa, refugiando-se na esperada chuva de mensagens. Hoje, o telemóvel não apita, à hora do costume. Ela olha para o relógio, inquieta. Agarra no telemóvel e sacode-o, com força, tentando que este despeje as mensagens que lhe deve. De repente, o telemóvel toca, em vez de apitar. É a voz dele, que desabafa: “ Quero dizer-te que a minha história contigo já terminou. Acabou de vez a inspiração”.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-8647485316199234877?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/8647485316199234877/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=8647485316199234877' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/8647485316199234877'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/8647485316199234877'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/05/histrias-inventadas.html' title='Histórias inventadas'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SDwHHyesR9I/AAAAAAAAB6o/IMEQpz2zqNI/s72-c/bd_telemovel_educacao_ing.gif' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-8970762128724275370</id><published>2008-05-20T17:55:00.004+01:00</published><updated>2008-05-20T18:03:31.725+01:00</updated><title type='text'>A horta da cidade</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SDMDjI9wfmI/AAAAAAAAB1Q/PdvwY6W7_PU/s1600-h/oldlady.gif"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://2.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SDMDjI9wfmI/AAAAAAAAB1Q/PdvwY6W7_PU/s400/oldlady.gif" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5202505896779873890" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Duas vizinhas conversam sobre a vizinha da cave. Ninguém se apercebeu, parece que houve um telefonema, o neto estava de passagem, atendeu, chamou-a vezes sem conta e nada. Pois, no Domingo passado. Uma vizinha queixou-se toda a vida do desassossego causado por esta, a morte não lhe foi indiferente, mas também não a transtornou. Sobra um minúsculo vazio, sob a forma de silêncio. De facto, de infernos já não se pode falar. E por falar na defunta vizinha, é espantoso como debaixo de uma base que agarrava o pó de arroz se escondiam as rugas de alguém que estava a desafiar os 90 anos. Cabelo pintado, sem deixar escapar um branco, costas direitas, andar desempenado, ar enérgico, voz esganiçada, todos os dias  refilou sobre tudo e sobre nada, moendo os cinco andares de vizinhas que a comprimiam e que a observavam, do alto das suas janelas. De resto, pouco se sabe, a não ser da horta cultivada em plena cidade, dos taipais construídos aos poucos, a roubar mais um centímetro de terra, que se livra de ser passeio. Pelo  meio, o estendal de roupa a desfilar, pendurado num jogo de paus, que parece definir os limites do território.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A vizinha aprende a estreitar o olhar entre a janela da cave e a horta, fazendo orelhas moucas aos comentários e atacando antes de ser atacada; saboreia a vingança de forma ritmada, batucando a vassoura no tecto contra um ressonar mais ruidoso, ou correndo a tocar as campainhas das vizinhas, escondendo-se nas esquinas, de riso amordaçado ao ouvir o “quem é? quem é?” Grosseira no tom e nos modos, confina-se à horta, colhendo couves e alfaces, cuidando do estendal e da roupa, voltada de costas para o prédio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SDMD8Y9wfnI/AAAAAAAAB1Y/aiJybGmsSyw/s1600-h/oldlady2.gif"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SDMD8Y9wfnI/AAAAAAAAB1Y/aiJybGmsSyw/s400/oldlady2.gif" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5202506330571570802" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;O tempo teima em se arredar daquele “ghetto” e da sua dona, apesar dos comentários e protestos. A filha explode em beleza e sensualidade mal atinge a adolescência; o duche pode ser observado da janela da cave, coleccionando admiradores, mesmo em frente à horta. O estendal passa ter outras cores estendidas e outras peças de vestuário: corpetes, ligas, cuecas especiais, roupa sofisticada, veludo carmim, verde esmeralda. A seguir vem um neto, entre outros, fruto do acaso e das vidas que andarilham para lá e para cá, em que a única certeza que existe é aquele pequeno mundo feito de paus e taipais; uma mescla de asfalto e hortaliças, mais seguro que tudo lá fora. Os companheiros da vizinha também aparecem à luz do dia; contemplam os repolhos e vão-se sucedendo uns aos outros, sem grande alarido. Por fim, e ainda antes do fim, nasce a bisneta, que desconhece a mãe e pouco vê o pai, já que este fugiu com a tia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A bisavó, entregues os maridos à Divina Providência e sempre de olho nas alfaces e couves, dedica-se a tratar da menina com a mesma garra com que criou filha e neto, cuidando da roupa pelo meio, da casa, do prédio, dos vizinhos, das batucadas com a vassoura na vizinha de cima, pregando as mesmas partidas no jogo das escondidas, não vão as pessoas pensar que o tempo se meteu com ela, furando-lhe as paredes da cave e entrando pela horta adentro, apodrecendo o precioso cultivo de uma vida.&lt;br /&gt;Nisto, toca o telefone e o neto atende. É altura de ficar na preguiça e deixar-se ficar para sempre, imaginando como seria ter uma horta bem maior do que aquela, longe da estrada e do bairro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-8970762128724275370?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/8970762128724275370/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=8970762128724275370' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/8970762128724275370'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/8970762128724275370'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/05/horta-da-cidade.html' title='A horta da cidade'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SDMDjI9wfmI/AAAAAAAAB1Q/PdvwY6W7_PU/s72-c/oldlady.gif' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-6508174018611461922</id><published>2008-05-18T10:46:00.003+01:00</published><updated>2008-05-18T11:04:43.564+01:00</updated><title type='text'>Delito menor</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SC_-vo9wfkI/AAAAAAAAB1A/sr5I7EvlcBw/s1600-h/20070526-bolsa.JPG"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://4.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SC_-vo9wfkI/AAAAAAAAB1A/sr5I7EvlcBw/s320/20070526-bolsa.JPG" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5201656189039967810" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Ela enfia as mãos na sacola larga, sem divisórias. As mãos apalpam no escuro os objectos que lhe são familiares. A escova, o telemóvel, a carteira, o porta-moedas, a chave de casa, o pacote de lenço. Todos, menos as chaves do carro. Aflita, vasculha melhor; os olhos enfiam-se no escuro, ao mesmo tempo que as mãos confirmam freneticamente a falta das chaves. Logo hoje, que está cheia de pressa. Terão vindo agarradas ao molho de objectos e caído sem ter dado conta? Já não era a primeira vez  que pensava em tirar algo e vir o resto atrás. Era habitual e normalmente verificava se alguma coisa caía. Não se lembra de nada. Será que as tinha perdido em casa? Na rua? Ou estariam escondidas nalgum buraco invisível?  Subitamente, interrompe o pensamento e agarra na chave suplente, levando a rotina por diante. Talvez se voltem a enredar naquele molho que costuma apalpar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; Os dias atravessam-se e a chave suplente toma o lugar da original, levando o carro da sua dona para todo o sítio. Os gestos dela tornam-se maquinais; liga a ignição, desliga o motor, mete a chave dentro da mala. Por vezes, existem pequenos momentos em que a dona a espreita; sobretudo o porta-chaves, que é de plástico, ao contrário do outro, de pele e com a marca inscrita. Será que alguém apanhou a chave? Ou terá sido em casa? A dúvida persiste, com a certeza de que terá sido impossível ter-se evaporado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tempo volta a distanciar-se do dia em que ela descobriu que tinha perdido as chaves. Nos últimos tempos pensa inclusive fazer uma segunda cópia, não vá a suplente perder-se. Seria catastrófico. Até que entra no carro, parado há vários dias. A chuva caiu forte, o vento fustigou as árvores e as folhas soterraram o capot do carro. Os vidros estão cobertos por uma camada de pó fina, que lhe turva a visão. Liga a ignição, pondo o limpa pára brisas a funcionar, ouvindo de imediato um ruído estranho. Pára e liga. Torna a parar e a ligar, repetindo a operação várias vezes, conseguindo identificar o objecto pendurado na escova do limpa pára brisas: a chave perdida, desta vez, sem o porta-chaves de pele. Parece tratar-se de uma brincadeira, alguém que apanhou aquela chave e a colocou ali, quando há tantos carros da mesma marca. Um calafrio percorre-lhe a espinha. Se a puseram ali, foi porque experimentaram o carro.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SC_-149wflI/AAAAAAAAB1I/GhKCuuECnnM/s1600-h/ladrao-televisao.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SC_-149wflI/AAAAAAAAB1I/GhKCuuECnnM/s320/ladrao-televisao.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5201656296414150226" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Ela observa a chave, limpando o pó e a lama e raspando a ferrugem que se instalou. Experimenta-a, confirmando a ideia do ladrão. É mesmo aquela. Abre a mala com divisórias e guarda-a num compartimento. Não deve ser difícil arranjar um porta-chaves como aquele que lhe levaram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-6508174018611461922?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/6508174018611461922/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=6508174018611461922' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/6508174018611461922'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/6508174018611461922'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/05/delito-menor.html' title='Delito menor'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SC_-vo9wfkI/AAAAAAAAB1A/sr5I7EvlcBw/s72-c/20070526-bolsa.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-4658461556175328749</id><published>2008-05-11T11:07:00.003+01:00</published><updated>2008-05-11T11:12:41.441+01:00</updated><title type='text'>Para além do ermo</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SCbFu49wfgI/AAAAAAAAB0g/eiAqH6xq_Vg/s1600-h/AS+MAOS.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://4.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SCbFu49wfgI/AAAAAAAAB0g/eiAqH6xq_Vg/s400/AS+MAOS.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5199060229201886722" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Dora e a amiga. A amiga e Dora. Inseparáveis. Risos colados, mãos dadas, segredos que moram nelas, jurados por dedos cruzados. A brincadeira desde sempre, as casas vizinhas, os pátios contíguos. As mães por ali envoltas nas tarefas domésticas, a correr para os mais novos, que se arrastam até ao abismo, nem que seja para tropeçar numa inocente poça de água e mergulhar em gargalhadas. Nem o cão da vizinha escapa ao remoinho das tropelias, sempre de dentes arregaçados, a acusar o cansaço da corrente grossa e pesada que o prende ali.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;     Dora e a amiga transpõem a cancela e atiram para trás das costas o mundo seguro. Direitas pelo carreiro, rumo à escola, sem desviar o olhar raiado de medo do desconhecido… o ermo que lhes passa debaixo dos pés em passo de corrida. A escola, ufa! Chegaram.&lt;br /&gt;   Dora prefere, junto com a amiga, a carteira de trás. Assunto sério. O riso fica suspenso e as duas enchem-se de cautela, sem saberem porquê. Sempre temerosas, lá aprendem a ler e a escrever por respeito à professora. O caminho de volta é sempre feito em passinhos rápidos, sem mais contemplações. A vida só recomeça quando se abre a cancela. Três ou quatro casinhas isoladas, os mesmos vizinhos, a mesma algazarra, o cão neurótico, o vizinho adolescente que as espia por detrás das cortinas amarrotadas. Casa, ufa! Estão ali.&lt;br /&gt;   Ao fim da tarde, Dora esquece o silêncio do ermo. A amiga também. Recuperam o tempo, danadas pela brincadeira. O mundo é enorme e explode dentro delas. Correm, saltam, escondem-se, atropelam-se e encontram-se novamente. O jantar engole-se, a banana já vai no ar, Dora nem aquece o lugar. A amiga chega e ali ficam, as duas, a inventar coisas.&lt;br /&gt;   Um dia, o ermo acena às meninas. O passo abranda, a timidez ganha olhos vivos.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;      – Ia jurar c’ aquela árvore nunca existiu…&lt;br /&gt;      – Árvores, queres tu dizer…&lt;br /&gt;      – Pois… mas nunca demos por isso!&lt;br /&gt;– Não sei…devíamos ‘tar tontas ou cegas! Anda lá, senão a professora prega-nos um sermão daqueles…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegam à escola, o pensamento a voltear no ar, pela primeira vez. Prestes a completar a primária, o medo acanha-se, as cadeiras arrastam-se para a segunda fila das carteiras. Cresce a curiosidade, avolumam-se as perguntas, a professora responde. Riem-se menos, porém. Trilham o caminho de mulher, ainda sem o ser. O futuro não lhes larga as costas, não pára de lhes puxar os cabelos, não se coíbe de lhes sarrazinar os ouvidos: Como é? Como vai ser a vida daqui por diante? O ermo, carreiros a caminhar para o obscuro? O colinho do pátio? Não sabemos, não sabemos…, balbuciam os corpos imberbes, a meninice por acabar.&lt;br /&gt;   Dora avança, a despontar peitos, corpo esticado, cabeça erguida, olhos muito além do ermo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      – Eu vou…&lt;br /&gt;      – Vais pa’ onde?&lt;br /&gt;      – …vou… vou continuar a estudar…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   A amiga olha-a, espantada e estremece. Uma utopia. Antes o trabalho infantil, as fábricas, o dinheiro imediato, pois sim, para ajudar a família, mas certamente a sobrar alguma coisa para ela. Não a compreende. A liberdade a assomar-lhe com evidência e ela a alongar carreiros sem fim à vista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      – Tens a certeza?&lt;br /&gt;      – Tenho… já tomei a decisão.&lt;br /&gt; – Mhmm… e só agora é que me falas nisso… ´tá bem… não contes comigo pa’ te acompanhar… eu também já decidi, já falei com os meus pais. Eles acharam bem… sempre vou ganhar algum, percebes?&lt;br /&gt;      – Percebo… não temos que andar sempre pegadas uma à outra, não é?&lt;br /&gt;      – Bem.. ‘tá decido, ‘tá decidido… vemo-nos amanhã?&lt;br /&gt;      – Não sei, se calhar… tenho que ir às matrículas de manhã cedo, logo se vê…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   A amiga levanta-se e corre esbaforida em direcção ao pátio. Voa pelo ermo sem se deter até casa. Sem olhar. Sem hesitar. Dora fica ali, pregada à sua decisão, a ver a menina de longe, cada vez mais longe, a diminuir a cada passo até desaparecer. Vai…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   Dora levanta-se sem esforço, apesar da noite em vigília. A amiga virou-lhes as costas. Sem hesitar. Pela primeira vez, separava-se do seu outro eu. Come em silêncio e mastiga a realidade. Pela primeira vez, outra realidade. A mãe estranha a torrada quase inteira no prato, o leite entornado, o ar de fastio com a comida, se calhar com ela, mãe e com tudo o resto. Melhor será não dizer nada, isto são os nervos, a criança já não anda bem há uns dias, porque é que ela meteu aquilo na cabeça?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      – Vou à escola, mãe.&lt;br /&gt;      – Fazer?&lt;br /&gt; – Matricular-me, não vou ficar aqui a vida toda, né?&lt;br /&gt;      – Eu não disse nada!! Vais com a Dina?&lt;br /&gt;      – Não, vou sozinha.&lt;br /&gt;      – Então???&lt;br /&gt;      – Então, nada. Ela já não vai, não quer continuar…&lt;br /&gt;      – Ah... então, vou eu contigo!&lt;br /&gt; – Não precisas ir comigo… já sou crescidinha, ou não?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SCbFvI9wfhI/AAAAAAAAB0o/c0neR4rmIiY/s1600-h/A+FACE+DA+ESCURIDAO.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SCbFvI9wfhI/AAAAAAAAB0o/c0neR4rmIiY/s400/A+FACE+DA+ESCURIDAO.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5199060233496854034" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Pisca-lhe o olho, esboça um sorriso, mostra-se confiante e sai, airosamente. A cancela parece mais pesada. Alguém a empenou. Tenta mais uma vez e desta cede, abrindo de rompante. Os primeiros raios de sol iluminam o carreiro, distinguindo-o do ermo misterioso. Sente o corpo dividido, os pés pesados a empatar a marcha, a alma a fugir para o pátio. Respira fundo, lança um braço mais à frente e depois o outro, num ritmo cadenciado. Os olhos estão fixos lá para o fundo, já no final de todos os carreiros.&lt;br /&gt;   A aragem calma inquieta-se, subitamente. O carreiro mexe-se, os ramos sussurram ao vento, primeiro de mansinho, depois mais vigorosos, entrelaçados uns nos outros numa dança agitada. O vento uiva pelo ar e revolve as folhas à sua passagem. A natureza, agora tão barulhenta como uma multidão, espia-lhe os gestos e alonga o caminho no tempo e nas passadas.&lt;br /&gt;   Dora esforça-se por um sorriso, um trago de confiança que engole de embute. Alinha a passada com o ritmo do burburinho envolvente até tropeçar num ruído diferente. Estaca, põe-se à escuta e agarra uma respiração ofegante à solta no ar. A sombra envolve a sua própria e descobre o vulto grande de cheiro forte e diferente. Morde o monstro, pontapeia-o, até o ver puxar de uma navalha, com um sorriso maléfico, o olhar esbugalhado e suado, de tão transtornado. Que imaginação a dela! Dora, o receio do destino a pregar-lhe o corpo ao chão. Dora que se faz crescida, que mergulha no vento, galgando folhas e árvores e o caminho a direito pelo carreiro fora. Foge da sombra  e do medo. E fica maior, bem maior que ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Dina ficou lá escondida. Que é feito da minha amiga? Que caminho foi o dela? Dora abraça o regresso. Move a curiosidade, percorre o caminho inverso pelo marulhar das folhas, pelos ramos altos e distintos. Não tão vigorosos nem imponentes como outrora. Tropeça outra vez. O medo bisa neste caminho de volta. Mas já não é o vulto glutão que a engole. É a ausência. É o lapso de tempo, tanto tempo. O tino recupera a passada da mulher feita. Dina descobre-se do lado de lá da cancela. Também ela mulher feita. Um confronto de meninas. As duas mulheres feitas, sem mágoa de anos, anos de histórias opostas. O medo infantil cresceu na proporção do percurso adulto, cheio de cautelas e receios antecipados. Os passos já não seguem lestos para sítio algum. Os carreiros são apalpados antes de serem caminhados. As meninas encontram-se para lá do portão, as mulheres abraçam-se, as experiências cruzam-se. Desconfiam do acaso e protegem-se mutuamente. O pátio parece-lhes agora mais pequeno.&lt;br /&gt;    Ainda assim, a velha cancela continua lá, cada vez mais empenada, a dificultar a passagem a quem tanto quer sair. Ufa! Estamos aqui.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-4658461556175328749?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/4658461556175328749/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=4658461556175328749' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/4658461556175328749'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/4658461556175328749'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/05/para-alm-do-ermo.html' title='Para além do ermo'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SCbFu49wfgI/AAAAAAAAB0g/eiAqH6xq_Vg/s72-c/AS+MAOS.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-3120426981884429294</id><published>2008-05-08T17:02:00.005+01:00</published><updated>2008-05-08T17:07:54.441+01:00</updated><title type='text'>O desabafo</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SCMko0dfLeI/AAAAAAAAB0Q/EXO4O22jLaU/s1600-h/1146154862.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://4.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SCMko0dfLeI/AAAAAAAAB0Q/EXO4O22jLaU/s320/1146154862.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5198038678611373538" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;É quase fim de tarde quando ela entra no café. Um hábito de anos, depois de despejar compras em casa, mudar a comida ao gato, orientar o jantar, ao som da televisão que desperta o marido para outras vidas, muito para além das quatro paredes. Cabelo arranjado, corpo ainda direito, lá vai ela, ladeira acima, passada rápida, a desprezar a respiração ofegante, até à portinhola do café. Àquela hora, já desapareceram os clientes do dia, a confusão dos almoços e dos cafés, da gente apressada de dedos no ar, da comida a chegar às mesas, em espaço pequeno e patinhado. Desta vez ela faz um ar sério. A dona, que se desprendeu do balcão para limpar o chão, pergunta-lhe, enquanto o cheiro a lixívia se vai impregnando no ar: “Parece triste. O que aconteceu?” “Estou velha. São seis da tarde. O que eu já teria feito até a esta hora, há uns anos atrás. Agora faço as camas, limpo a casa, vou às compras e estou acabada. É uma vida estúpida. Arranje-me outra coisa para fazer, ou morro de vez.” “Quer trocar comigo, só para experimentar?” pergunta-lhe a dona, meio a gozar. “Está a brincar, mas eu respondo-lhe de verdade: gostava. Silêncio tenho de sobra em casa. E a canseira não me assusta. Iria rejuvenescer.” A dona encolhe os ombros, sem resposta.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SCMkpEdfLfI/AAAAAAAAB0Y/mi5tpD_tBYk/s1600-h/516515014_abecf00810_o.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SCMkpEdfLfI/AAAAAAAAB0Y/mi5tpD_tBYk/s320/516515014_abecf00810_o.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5198038682906340850" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;É mais um desabafo, ao fim do dia. Ela regressa a casa e acaba de fazer o jantar, com o gato a ronronar, colado às suas pernas. Ao serão, sentada na poltrona ao lado do marido, dormita, sonhando com a troca. De repente, a voz da televisão confunde-se com a da dona do café, que lhe segreda ao ouvido: “ Dê-me o meu café, que eu não aguento mais. E mais, não estou velha. Felicito-a. Deve ter inventado muito, ao longo destes anos todos.”&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-3120426981884429294?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/3120426981884429294/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=3120426981884429294' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/3120426981884429294'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/3120426981884429294'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/05/o-desabafo.html' title='O desabafo'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SCMko0dfLeI/AAAAAAAAB0Q/EXO4O22jLaU/s72-c/1146154862.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-5618138931178244948</id><published>2008-05-03T13:21:00.003+01:00</published><updated>2008-05-04T15:08:12.492+01:00</updated><title type='text'>Sai da frente</title><content type='html'>&lt;object type="application/x-shockwave-flash" data="http://www.tiagopapoose.com/musica/dewplayer.swf?son=http://www.emcnformacaomusical.com/Rita/Excertos%20musicais/chetbakertooeasily.mp3" height="20" width="200"&gt; &lt;param name="movie" value="http://www.tiagopapoose.com/musica/dewplayer.swf?son=http://www.emcnformacaomusical.com/Rita/Excertos%20musicais/chetbakertooeasily.mp3"&gt; &lt;/object&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;    O meu amigo jurou sair do apartamento até ao final da semana. Após uma acesa discussão, é claro, a revermos metodicamente – e desde o início – a podridão das nossas vidas em conjunto. Não conseguimos chegar a conclusão nenhuma, à excepção do desamor que nutrimos um pelo outro desde há muito, para não falar na quantidade de vezes que tomámos as mentiras por verdades, abafando a vontade de gritar bem alto, estou farto(a), desampara-me a loja!&lt;br /&gt;  Rosa ainda não sabia disto, quando na manhã seguinte entrou no nosso quarto, sempre com medo de encontrar mais vestígios que lhe comprovassem as lágrimas que iam caindo aqui e acolá, ao longo deste penoso processo.&lt;br /&gt;  Saímos os dois de manhã, calados e atrapalhados – imaginem a nossa noite – após a costumada rotina da manhã, que curiosamente, fluiu com naturalidade e sem atropelos de maior. Ele pedia-me licença para respirar e desculpa por se atrever a passar por mim. Decididamente, estava mais formal que nunca e eu não estava preparada para reagir a tão súbito respeito.&lt;br /&gt;  Despedi-me baixando a cabeça e acenando-lhe com vergonha. «Até logo…», murmurei, para que não me ouvisse, apavorada com a ideia.&lt;br /&gt;  Vi Rosa no nosso quarto, a abrir as persianas, deixando a luz matinal entrar através das vidraças, aclarando o ambiente, fazendo realçar a forma e a cor dos objectos ali existentes. Estremeci. Aproximava-se do nosso edredão liso, cor-de-salmão, enrolado ao fundo da cama, descobrindo o lençol de baixo, cujas rugas delineavam os contornos de dois corpos, claramente separados.&lt;br /&gt;     – Bem, a ver pelo sítio das almofadas, tão apartadas, vê-se que a coisa não anda bem… Valha-nos Deus, não sei como não caíram ao chão…&lt;br /&gt;  Fiquei embaraçada – como explicar esta maçada, depois de tantos anos? – e logo comovida, quando imediatamente tratou de desfazer as ‘impressões corporais’, puxando o edredão para cima e alisando-o dos lados. Ajeitou ainda a bata, respirou fundo e começou a apanhar a roupa suja do chão.&lt;br /&gt;  À saída voltou-se, olhou a cama composta e sorriu, satisfeita. Afinal, aquilo não tinha passado de uma mera ilusão de óptica.&lt;br /&gt;  O pesadelo do dia iniciou-se. Estava sentada à secretária de uma multinacional, com um dos directores mesmo em frente de mim, separados apenas por um vidro.&lt;br /&gt;  Os telefones inundavam-me os ouvidos, a papelada acumulada – discretamente empilhada, criava um pequeno reduto, onde pelo menos conseguia esconder o olhar e o gesto por escassos segundos – a que tinha que dar vazão, enlouquecia-me de vez.&lt;br /&gt;  Naquela manhã atrevi-me a mostrar-me, onde não existia pilha de papéis que me valesse, excomungando a filosofia ‘trabalhar, trabalhar para rentabilizar’. Gesticulei, bati com os punhos na mesa, bufei, levei as mãos à cabeça e enfrentei o olhar desconfiado que o director me lançava, de quando em quando. Como não passou do olhar esporádico – com o meu nível de responsabilidade lá dentro, só mesmo com o pescoço apertado – foquei antes a mira telescópica em Rosa e concentrei nela toda a atenção.&lt;br /&gt;  Pôs a roupa suja na máquina, agarrou num pano de pó e entrou no escritório. Hesitou. Onde começar? Enquanto se decidia por uma ponta ou outra, os seus olhos passaram distraidamente sobre uns papéis espalhados sobre a secretária. Daqueles amarelos, pequenos, quadrangulares, que já vêem com cola e que servem – em princípio – para apontar assuntos fundamentais.&lt;br /&gt;  Pousou o pano, intrigada. O Senhor Doutor tinha-os colado alinhadamente, à beira da secretária. Não anunciavam datas de julgamentos, audições, ou encontros com clientes, mais parecia uma conversa a dois, furtiva – talvez a situação em que se encontrassem não fosse favorável – e já com sabor de romance. A letra dela era gorda, redonda e grande, obviamente precisaria de vários papéis amarelos para transmitir o sentimento avassalador que a cobria todos os dias mais um bocadinho. Ele ainda tinha tentado manter o decoro no primeiro bilhete, em letra pequena, apertada, misturando a hesitação com assuntos profissionais, mas logo tinha ultrapassado essa barreira, escrevendo outros, talvez ainda mais atrevidos que os dela.&lt;br /&gt;  Rosa deixou cair uma lágrima, jurando a si mesma que o assunto nunca iria chegar aos meus ouvidos. Pegou nos bilhetes, arrumou-os, mantendo a ordem e guardou-os numa gaveta da secretária.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Findo o turno da manhã, apressei-me a sair do escritório, aproveitando a pausa para me ausentar a cem por cento. Não me senti chocada – ao contrário do que Rosa pudesse pensar – nem tão pouco surpreendida. O encontro amoroso era a desejada fuga ao nosso desencontro, que em certas fases, era extremamente doloroso de se conviver. Significava apenas um esconderijo de eleição, a hipótese de se poder passar bons momentos, sem a rotina a corroer-nos o coração e a boa vontade a apanhar-nos desgrenhados, indesejáveis e de mau hálito, logo pela manhã.&lt;br /&gt;  Pergunto-me porque não me lembrei de semelhante ideia. Andarei demasiado work aholic, ou nem sequer chego a ter percepção de mim, das minhas vontades e desejos? Serão os tempos modernos, que na magia da tecnologia e da informação em tempo real, nos consomem? Será que os mais ínfimos pormenores perderam o encanto das pequenas e agudas vibrações?&lt;br /&gt;  Se é vida virtual ou desvirtuada, não o sei, o certo é que escorreguei pelo túnel da insegurança, atravessei cruzamentos inesperados e ainda por cima de luz apagada. Estrebuchei, ripostei, tentei revestir-me de fortes convicções, mas apenas obtive a imagem do escuro, que entretanto me ocultou outros caminhos.&lt;br /&gt;   Passei por umas montras espelhadas e utilizei-as discretamente, para me avaliar. Roupas demodé, corte de cabelo ultrapassado, objectivos fora de prazo, desejos sobre desejos, comprimidos, entretanto esquecidos. Em suma, tinha-me tornado numa ‘não-pessoa’, comandada pelo piloto automático. Só a minha indiferença – que revestia o meu pobre invólucro de alto a baixo – me tinha conseguido proteger da infelicidade prolongada.&lt;br /&gt;  Voltei para casa, depois de aterrar firme com os pés na terra, desejosa de encontrar Rosa. Os papéis amarelos assolavam-me a memória. Precisava da cumplicidade dela, até à máxima indiscrição, para me identificar novamente, ganhar rosto, cor e sombra. Para viver sem receio.&lt;br /&gt;  O Luís apareceu, convicto da sua decisão. Seria no fim-de-semana. Baixei os olhos, atravessei o hall e entrei na sala de estar, oprimida com os objectos construídos a dois, as fotografias de mais de uma década e surpreendida pelo pano de pó, que me rasou o nariz, fazendo-me espirrar mesmo em cima dela.&lt;br /&gt;    – O que fazes?&lt;br /&gt;    – Cuido da casa. Que mais poderia fazer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Rosa sorriu, pediu desculpa por ter despoletado a súbita alergia e continuou com a sua tarefa, certa de que eu iria direita ao escritório, no encalço dos papelinhos amarelos.&lt;br /&gt;  As portas bateram, simultaneamente. Abri a minha, confirmando se teria sido a porta da rua, pesada, que tinha fechado, contrariada. Luís tinha saído, provavelmente atrofiado pelo ar pesado que se respirava em casa. Suspirei, incomodada com o silêncio forçado. Alheei-me e abri a gaveta, alimentando a curiosidade mórbida em conhecer o perfil do terceiro elemento.&lt;br /&gt;  Reconheci imediatamente o molho. Agarrei-o de repente, não fosse algum papelinho esvoaçar, e com ele, sumisse também o sentido do alucinado diálogo.&lt;br /&gt;  Recomecei a fazer o puzzle do Luís. Devia ser uma sucessão de mensagens muito importantes, talvez daquele tipo de declarações que muitos não se atrevem, sequer a experimentar.&lt;br /&gt;  Desfolhei-os. Procurava a letra redonda e gorda. Procurei novamente, desta vez com mais cuidado. Estava perturbada e a visão desfocava, à medida que a ansiedade aumentava. Como se não tivesse visto nada semelhante, comecei a colá-los por aquela ordem. Talvez nascessem entretanto, dos cantos do escritório.&lt;br /&gt;   A letra continuava pequena, escondida, tímida. Inclinava-se por vezes para a direita, como se quisesse apressar o destino. Era um diálogo imaginado a dois, escrito pela mesma pessoa. Luís falava comigo, tal como éramos, há quinze anos atrás, doces, apaixonados, próximos um do outro.&lt;br /&gt;  Quedei-me, estupefacta, com o grau da traição. Comigo mesma? Espera… com quem foste… procura-se rosto! Loira, morena, mais ruga, menos ruga, alguém que consiga protagonizar a história que se passou, alguém que esteja à altura… a partir do próximo fim-de-semana… sai da frente…&lt;br /&gt;  Rosa tinha acabado as limpezas. Despiu a bata, vestiu o impermeável, atou o lenço por baixo do pescoço, pontas espetadas, e deixou a patroa a braços com a vida.&lt;br /&gt;  Fiz as malas. Antes do fim-de-semana. Já não conseguia recuar no tempo. Não tive ânimo para ir de encontro ao Luís.&lt;br /&gt;  Talvez andasse a precisar de um novo rosto, colado a uma história antiga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-5618138931178244948?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/5618138931178244948/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=5618138931178244948' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/5618138931178244948'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/5618138931178244948'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/05/sai-da-frente.html' title='Sai da frente'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-3147917894024022079</id><published>2008-04-29T21:41:00.001+01:00</published><updated>2008-04-29T21:43:26.396+01:00</updated><title type='text'>O pedinte</title><content type='html'>&lt;object type="application/x-shockwave-flash" data="http://www.tiagopapoose.com/musica/dewplayer.swf?son=http://www.emcnformacaomusical.com/Rita/Excertos%20musicais/grapellichansondesrues.mp3" height="20" width="200"&gt; &lt;param name="movie" value="http://www.tiagopapoose.com/musica/dewplayer.swf?son=http://www.emcnformacaomusical.com/Rita/Excertos%20musicais/grapellichansondesrues.mp3"&gt; &lt;/object&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Todos os dias o Zé entra no bairro, dentro do prédio rosa, do cinzento, do creme desbotado. Todos os dias à mesma hora, a campainha ouve-se e a porta abre-se, deixando-o subir por ali cima, andrajoso, vagabundo, imundo, de físico decrépito a anunciar os maus tratos auto-infligidos de quem não se gosta, talvez por desgosto. De passado suspeito, mas a quem ninguém ousa perguntar, o Zé impõe-se pelo seu ar, assumido com naturalidade e sem nada exigir. Pede qualquer coisinha. Qualquer coisa que seja. Sai do bairro carregado de pão, leite, fruta, arroz, farinha e até de roupa que já não serve aos vizinhos. De dia para dia o Zé vai perdendo o corpo, até que mal pode andar, das dores que o invadem e das tremuras que o assaltam. Mesmo assim, não deixa de visitar o bairro. As pessoas, de consciência tranquila, perguntam-lhe:   “... O que é que se passa Zé? Isso não anda bem... devias ir ao médico...”. Passados uns meses o Zé desaparece, sem deixar rasto, deixando as campainhas silenciosas àquela hora. Todos estranham a ausência e questionam-se sobre o que terá acontecido. Tempos depois, talvez por alguém ouvir falar do generoso bairro, aparece um novo pedinte, de ar robusto e saudável, a cumprir o mesmo horário.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-3147917894024022079?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/3147917894024022079/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=3147917894024022079' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/3147917894024022079'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/3147917894024022079'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/04/o-pedinte.html' title='O pedinte'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-9173477364021420579</id><published>2008-04-18T12:41:00.002+01:00</published><updated>2008-04-18T12:46:21.206+01:00</updated><title type='text'>A brincadeira</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SAiJcpsmZ-I/AAAAAAAAByg/mWQ-i8OTaJU/s1600-h/images-4.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SAiJcpsmZ-I/AAAAAAAAByg/mWQ-i8OTaJU/s400/images-4.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5190549695866759138" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;O quarto tem a porta entreaberta. Os brinquedos, espalhados por todo o lado, rolam até cá fora, entupindo a passagem, a quem queira entrar. Num mundo diferente, onde não se pára de correr, de brincar, de rir, de cair e chorar, está ela, travessa, endiabrada, a saltar de brinquedo em brinquedo, a aborrecer-se, a procurar nova fonte de diversão, a cansar-se outra vez, e, novamente, a explorar, sem desistir, outros jogos. Imagina que o quarto está numa selva; paredes derrubadas, limites fora de vista, árvores gigantes, vegetação cerrada e o perigo, sempre iminente, pregado a qualquer som, a qualquer movimento.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SAiJdJsmZ_I/AAAAAAAAByo/HsEBduAHHZg/s1600-h/images-2.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SAiJdJsmZ_I/AAAAAAAAByo/HsEBduAHHZg/s400/images-2.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5190549704456693746" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Os bonecos são a sério; animais selvagens que se animam, e os brinquedos, armas de defesa, lianas que tecem uma rede, de árvore em árvore, barcos improvisados, que atravessam rios infestados de crocodilos. Do outro lado do mundo, a mãe chega, desbravando a vegetação. Tropeçando por mais que uma vez, chama-a, irritada. Os trabalhos da escola por fazer, uma jarra de estimação partida, a bulha com as irmãs, os ouvidos moucos, que nunca dão sinal de si. A mãe dá-lhe um safanão e puxa-lhe as orelhas; desta vez, tem que a ouvir. Há um castigo a cumprir. O mundo interrompido, a visita àquelas terras distantes, os brinquedos escondidos.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SAiJdJsmaAI/AAAAAAAAByw/6Q6FhYU4ngM/s1600-h/images.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SAiJdJsmaAI/AAAAAAAAByw/6Q6FhYU4ngM/s400/images.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5190549704456693762" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Ela sai do quarto, por instantes. A mãe está na cozinha, atarefada. Ela dirige-lhe a palavra, docemente, falando-lhe duma mala que viu, linda, na montra de uma loja. “Compras-me?” Do outro mundo, já não há sombra. A mãe mal acredita. “Não te lembras? Estás de castigo!”. Ela acena negativamente com a cabeça. Os brinquedos estão proibidos, mas nada a impede de inventar uma nova história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-9173477364021420579?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/9173477364021420579/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=9173477364021420579' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/9173477364021420579'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/9173477364021420579'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/04/brincadeira.html' title='A brincadeira'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SAiJcpsmZ-I/AAAAAAAAByg/mWQ-i8OTaJU/s72-c/images-4.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-6709978120217416179</id><published>2008-04-18T12:26:00.004+01:00</published><updated>2008-04-18T12:39:42.635+01:00</updated><title type='text'>O segredo</title><content type='html'>&lt;object width="320" height="266" class="BLOG_video_class" id="BLOG_video-17de4a59e1f1629c" classid="clsid:D27CDB6E-AE6D-11cf-96B8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/get_player"&gt;&lt;param name="bgcolor" value="#FFFFFF"&gt;&lt;param name="allowfullscreen" value="true"&gt;&lt;param name="flashvars" value="flvurl=http://v24.nonxt7.googlevideo.com/videoplayback?id%3D17de4a59e1f1629c%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D47D00B4CECFC307C0874D73C58A0FB281C72FC83.76AE105E7006AB55821885CFCAC85F5764E07F02%26key%3Dck1&amp;amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3D17de4a59e1f1629c%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DerbknIih_oXZc4wg72f2Imfb43g&amp;amp;autoplay=0&amp;amp;ps=blogger"&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/get_player" type="application/x-shockwave-flash"width="320" height="266" bgcolor="#FFFFFF"flashvars="flvurl=http://v24.nonxt7.googlevideo.com/videoplayback?id%3D17de4a59e1f1629c%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D47D00B4CECFC307C0874D73C58A0FB281C72FC83.76AE105E7006AB55821885CFCAC85F5764E07F02%26key%3Dck1&amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3D17de4a59e1f1629c%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DerbknIih_oXZc4wg72f2Imfb43g&amp;autoplay=0&amp;ps=blogger"allowFullScreen="true" /&gt;&lt;/object&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;    Há um dentista novo, que acabou de se instalar no bairro. O consultório também cheira a novo, apesar de se ouvir o barulho das brocas e de se sentir o cheiro das anestesias, continua a ser novo, talvez por o espaço ser diferente. Uma assistente mais simpática que o habitual, que também faz as vezes de recepcionista. Uma sala de espera cheia de luz, animada por quadros, cadeiras de cor e música ambiente. Um doutor sempre bem disposto, que atende a horas. Os pacientes a saírem, acompanhados pelo doutor e pela recepcionista, ainda com a boca inchada da anestesia, a comentarem: “afinal não doeu nada, o medo é um fantasma que já não existe, marcamos já a próxima consulta.” A fama a espalhar-se nas redondezas. O doutor e a assistente sem mãos a medir; os pacientes já fazem fila de espera, apesar de os preços terem subido. As pessoas lamentam-se à assistente; as consultas já não são a horas, é uma pena, mas pelo doutor, esperamos o que for preciso. A assistente começa a responder com maus modos; talvez por excesso de trabalho, pensam alguns e o doutor até muda de cara, reparam outros. Não passam de meras impressões. Mesmo fora de horas e com menos disposição, o doutor e a assistente cumprem o seu trabalho, com êxito. Um dia, alguém descobre que o famoso doutor não é médico, mas sim um habilidoso competente, trabalhando ao lado da companheira. A notícia espalha-se entre os pacientes que esperam na fila. Comentários em surdina, olhares que se escapam e espiam os movimentos dos dois impostores. O próximo paciente  entra e o silêncio espreita toda a gente. Por fim, todos os pacientes tratam os dentes, apesar do burburinho instalado. Todos, já conhecendo o segredo dos dois.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-6709978120217416179?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='enclosure' type='video/mp4' href='http://www.blogger.com/video-play.mp4?contentId=17de4a59e1f1629c&amp;type=video%2Fmp4' length='0'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/6709978120217416179/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=6709978120217416179' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/6709978120217416179'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/6709978120217416179'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/04/o-segredo.html' title='O segredo'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-7398307326153094626</id><published>2008-04-12T22:21:00.004+01:00</published><updated>2008-04-12T22:23:15.533+01:00</updated><title type='text'>A pilha de papéis</title><content type='html'>&lt;object type="application/x-shockwave-flash" data="http://www.tiagopapoose.com/musica/dewplayer.swf?son=http://www.emcnformacaomusical.com/Rita/Excertos%20musicais/chopinpreludiomim.mp3" height="20" width="200"&gt; &lt;param name="movie" value="http://www.tiagopapoose.com/musica/dewplayer.swf?son=http://www.emcnformacaomusical.com/Rita/Excertos%20musicais/chopinpreludiomim.mp3"&gt; &lt;/object&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sentada a uma secretária, acumula papéis que vão fazendo pilha, ao longo do dia. Lê um por um, em velocidade vertiginosa, despachando os assuntos pendentes, os actuais e os que estão para vir. Vira-se apenas para cumprimentar quem passa, e mal retorna à secretária, dá de caras com a pilha, que já lhe tapa a cara. O trabalho nasce de todos cantos da sala, aproveitando-se da sua eficiência e generosa disponibilidade. Maria faz uma pausa. Enfrenta o director, o vice-director e o secretário deste, que misturam ordens em voz alta. Mesmo assim, continua a atravessar a sala, a ouvir os  colegas, que lhe despejam dúvidas e a sobrecarregam com pedidos. Sempre solícita, responde a todos, de cara alegre e sorriso franco. Só pede um minuto a sós. Que a deixem ir até ao átrio de entrada, fumar um cigarrinho. Um prazer merecido. Um dia, ainda antes do sol acordar, Maria entra com um sorriso torto. O olho está negro e a cara inchada, coberta de zonas arroxeadas, mas o entusiasmo nem por isso parece ter diminuído. A pilha de papéis continua à espera dela, incólume. Os directores e os colegas aproximam-se da sua secretária e alguns deles até se atrevem a derrubar a famosa pilha, perante o seu ar atónito. As ordens e os pedidos são substituídos por perguntas, a rebentar de estranheza e curiosidade. Naquele dia, todos ouvem a Maria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-7398307326153094626?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/7398307326153094626/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=7398307326153094626' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/7398307326153094626'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/7398307326153094626'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/04/pilha-de-papis.html' title='A pilha de papéis'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-842740163179913219</id><published>2008-04-03T19:43:00.005+01:00</published><updated>2008-04-03T21:07:04.200+01:00</updated><title type='text'>O preconceito</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R_UlXfcasvI/AAAAAAAABus/HfO7lIurOGs/s1600-h/casamento+homossexuais.bmp"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R_UlXfcasvI/AAAAAAAABus/HfO7lIurOGs/s400/casamento+homossexuais.bmp" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5185091631494902514" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;    Ele chega sempre atrasado, semana após semana, encavalita actividades, umas nas outras, actividades dispersas e metidas em mundos diferentes. É jovem, fala de forma afectada, pisca os olhos e sopra o cabelo liso para trás. Sempre de risco ao lado. Parece não ter censura; diz o que lhe apetece no momento, sempre com um ar gentil e educado. É dado às pessoas, gosta dos desprotegidos, dos seres diferentes, dos seres à margem. Meio dentro, meio fora, ele próprio respira ares diferentes; dói-lhe a opção, dói-lhe a barreira, fez-se um alpinista entretanto; galga muros e paredes sem nunca cair. Contudo, há uma inquietude que invade o seu corpo, talvez os tiques dos olhos e dos cabelos o denunciem, talvez a correria de um lado para o outro adie o confronto, talvez o nunca estar de corpo inteiro o resguarde. Mas o que é certo é que as corridinhas continuam, as falas a este e àquele não acabam e os assuntos sérios ficam à porta, mortos por entrarem em casa.&lt;br /&gt; Um destes dias acompanhou-me até à saída; lanchámos e devagarinho começa a contar-me uma história terrível de uma prostituta encontrada morta num contentor de lixo, uma Gisela qualquer. Abri os olhos, chocada. Contou pormenores e eu a meio do galão, do queque e tudo aquilo a parecer-me sórdido. Assumiu-se activista; pensei que pertencesse a alguma organização de solidariedade, dizendo-me que distribuía preservativos às prostitutas e travestis e que as conhecia bem demais; íntimo delas, era uma espécie de anjo salvador que aparecia a meio da noite.&lt;br /&gt; Falou do nome da organização, não soava a nada parecido com beneficência. Lentamente comecei a descodificar o activismo; um grito de desespero a apelar à morte à diferença. Porque vocês, heterossexuais, porque nós homossexuais, porque a discriminação, porque a ofensa, porque o ridículo, porque o exibicionismo, porque a clandestinidade, porque os direitos... porque. E eu para ali, calada, espantada com o desabafo, sem nunca ter pensado em duas equipas tão separadas. Fiquei a cismar no preconceito, cruel e destruidor, que o deixava a tremer e a largar aquelas frases.&lt;br /&gt;Subimos a calçada e vimos outras gentes. Despedimo-nos com se nada fosse, ele a distribuir falas pelos conhecidos, eu à espera de o encontrar amanhã, apertado com a falta de tempo, a cerrar portas a quem passa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-842740163179913219?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/842740163179913219/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=842740163179913219' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/842740163179913219'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/842740163179913219'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/04/o-preconceito.html' title='O preconceito'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R_UlXfcasvI/AAAAAAAABus/HfO7lIurOGs/s72-c/casamento+homossexuais.bmp' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-3754759152460780691</id><published>2008-03-31T22:04:00.003+01:00</published><updated>2008-03-31T22:06:28.054+01:00</updated><title type='text'>Arranha os céus</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R_FR-PcasrI/AAAAAAAABuM/MXTjl_v6vgk/s1600-h/HK-towerblock-sj.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://2.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R_FR-PcasrI/AAAAAAAABuM/MXTjl_v6vgk/s320/HK-towerblock-sj.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5184014775819612850" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Cresci dissimulado, entre quatro paredes de bom cimento, num minúsculo apartamento, entre muitos, comprimidos numa torre – no meio de muitas – cujos últimos andares já entravam na estratosfera, onde o ar parecia rarear.&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;     A comprida torre cedo se dividiu em duas partes: os moradores que apunhalavam magicamente as nuvens, tocando o céu várias vezes ao dia e os acanhados cá em baixo, que assomavam às janelas espreitando, desmoralizados, a tonalidade eternamente ‘cinzento-pálida’ do ar completo, mas poluído.&lt;br /&gt;    Contudo, ambos saíam à rua. Os superiores, de cabeça levantada e olhos postos nas alturas, respiravam com prazer o ar viciado cá de baixo. Faziam invariavelmente o mesmo percurso, todas as manhãs, com a visão empinada, sem nunca tropeçarem em alguém. Não viam os vizinhos de baixo, nem tão pouco os cumprimentavam.&lt;br /&gt;    Os residentes dos pisos inferiores saíam à rua, também. Com os olhos postos no chão, envergonhados com a sua posição, saturados da cor das ruas e da atmosfera carregada, que atrofiava pensamentos e apertava sensações. Não viam os outros, apesar de se cruzarem todos os dias, à mesma hora.&lt;br /&gt;    Crescia escondido dos meus, a esbarrar neles no quarto, na sala, em cada minúsculo canto. Ouvia-os a repetirem as mesmas palavras em iguais circunstâncias, sem nunca se olharem. Ouvia-os a repetirem-me as mesmas recomendações, os mesmos reparos, sem tão pouco ouvirem a minha voz.&lt;br /&gt;    Olhei para eles. Estavam cegos e surdos. Furavam apenas o ar viciado, vencendo dia após dia, fundindo-se com os vizinhos desconhecidos.&lt;br /&gt;    Continuei a crescer sozinho, à desgarrada, tão à solta quanto preso estava. A crescer, sem coragem para o fazer.&lt;br /&gt;    Agarrei-me às paredes que conhecia e depois aproximei-me da janela. Abri-a, sem me importar com tudo o que era cinzento. A minha janela tinha vista para as traseiras, comuns à de outro arranha-céus, que se erguia a poucos metros de distância.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Em frente, vivia outra família. Os pais e uma menina. Comecei a observá-los, sempre que encontrava uma pausa na minha vida diária, que tal como os outros, compreendia um encadeamento de tarefas inesgotável, cuja ordem era inalterável. Pausas raras, que fui alargando, combatendo a escassez do tempo.&lt;br /&gt;    No arranha-céus onde morava e naqueles que nos rodeavam, ninguém reparava em ninguém. Não era suposto. Por isso, quando me escondia e resolvia expor-me apenas para as traseiras, sentia-me seguro. Tinha a certeza que não me iriam ver, muito menos observar.&lt;br /&gt;    Olhei para a Diana – foi este o nome que lhe pus, pois nunca chegámos de facto a falar – e iniciei o diálogo dos surdos-mudos, que nos protegia dos perigos da proximidade e da amizade.&lt;br /&gt;    Acenei-lhe com vivacidade, sorri com os olhos e meti conversa – a fazer mil trejeitos com os lábios – sem me importar com o que ela poderia pensar. Como seria de prever, reagiu assustada, fechando a janela e as persianas com estrondo.&lt;br /&gt;    No dia seguinte insisti e emoldurei-me na janela, horas a fio, na esperança de que Diana fosse surpreendida pela curiosidade. Ao fim da tarde, lá se abriram, amedrontadas, as persianas, um fio de cabelo liso a espreitar, esvoaçante da corrente de ar e um olho claro, temeroso da vista de estranhos, à procura do cúmplice proibido.&lt;br /&gt;    Esperei que olhasse o céu, distante para ela e o arranhasse, exprimindo vontades longínquas, por caminhos a que o sonho não punha limites. Desceu à terra, os olhos passaram pelo chão, como era costume nos moradores dos pisos baixos e estabilizou de forma surpreendente nos meus, fixos e corajosos, abertos ao desafio.&lt;br /&gt;    Os arranha-céus desapareceram, as traseiras desprezadas também e de repente vi-me numa clareira cheia de luz, num meio de um bosque. Diana permanecia do outro lado, misteriosa, continuando a fixar-me o olhar. Estendi um braço, devagarinho e como a luz me encadeasse, comecei a caminhar na direcção dela. Não vi nada, a certa altura. Quanto mais andava, mais a luz me cegava. Quando cheguei ao outro lado a luz tinha desaparecido e com ela, Diana. Esfreguei os olhos e voltei às traseiras. As persianas estavam novamente fechadas.&lt;br /&gt;    Recolhi-me, desiludido. Porque teria reagido daquela forma?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Foi preciso a noite desfilar, para que a vida recomeçasse. O dia nasceu, a tentar empurrar o sol – sem êxito – para lá das nuvens teimosas e da mancha cinzenta. Como brilharia, sobre o alto do arranha-céus?&lt;br /&gt;    Saí cedo, de mochila às costas. Contornei uma esquina, dei mais uns passos e entrei na grande avenida. Olhei para trás e observei por instantes o formigueiro vivo que saía do arranha-céus. Cabeças para cima, cabeças para baixo, a conhecer de cor o percurso, previsto ao minuto. Ri-me e pensei – aposto que sabem quantas pedras existem na calçada e quais hão-de pisar…&lt;br /&gt;    No quadro perfeito, em que as personagens, de cabeças desactivadas, desenham percursos geométricos, em passada certa, num único andamento – sem correrem o risco de chocar com o vulgar transeunte – eis que surge Diana, o cabelo loiro, rosto pálido, as roupas de tonalidades suaves, o olhar centrado em mim. Ao lado dela, os pais, as roupas escuras, a disfarçar contornos, o olhar carregado, de encontro ao passeio.&lt;br /&gt;    Hesito, quanto ao percurso a seguir. Olho para o relógio, depois para ela e arranco-lhe um sorriso.&lt;br /&gt;    Sobem a grande avenida, até ao meio e desaparecem, numa curva à direita, descendo na estação subterrânea. Diana atrasa o passo, para que não a perca de vista, apesar de os pais lhe torcerem as mãos com força, obrigando-a a apressar-se.&lt;br /&gt;    Sigo-os, intrigado, já indiferente às minhas horas de escola. Assumo que hoje é o dia nacional da gazeta. Tenho tanto medo de a perder, que olho continuamente, sem pestanejar.&lt;br /&gt;    Saem da estação e retomam as ruas da cidade, em direcção desconhecida. Viram umas vezes à direita, outras à esquerda, passando por gente alheada, de olhos postos em lado nenhum.&lt;br /&gt;    Sou atraído por uns arbustos, enquanto tocam à campainha de uma casa solitária, bonita, protegida por um jardim cuidado. Diana tapa a cara com os olhos e entra, contrariada. Os pais constroem sorrisos que não são seus, cumprimentam com enorme deferência quem lhes abre a porta e entram também sem vontade.&lt;br /&gt;    Mais uma vez quero saber dela, para além dos míseros reflexos que me chegam, através da janela da frente, escondida pelos cortinados.&lt;br /&gt;     Leio-lhe a aflição, estampada no rosto e logo a seguir, o pedido de salvamento, guiado pela premonição da existência de um anjo, algures à solta, guarda dos abandonados, cuja existência se presta a ser perturbada.&lt;br /&gt;    Os pais saem sozinhos. Parecem inverter o percurso. O ar é desolado, o passo mais lento, os olhos já nem olham obedientemente para o chão. Levantam-nos até ao céu e arranham-no com as suas preces, esperando dias melhores. Uma fábrica fechada, os dois desempregados, por tempo incerto, a renda por pagar, a menina por sustentar. Sem poderem. Tempo não há, certo ou incerto, resta a rua por palmilhar, o albergue por improvisar e um dia, recuperar o tempo perdido e a sua menina.&lt;br /&gt;    Volto a casa, com ideias peregrinas. Olho para os meus pais, absortos na televisão – julgo que nem deram conta de que faltei à escola – e vacilo, entre pedir para aceitarem temporariamente uma segunda filha, ou simplesmente fazer entrar Diana às escondidas e enfiá-la no meu quarto. Talvez não dessem por isso.&lt;br /&gt;    Vou até à janela, confirmar se ela realmente se evaporou. Tudo fechado. No dia seguinte também. Aguardo outros tantos e decido ir ao arranha-céus vizinho, saber quem lá morou.&lt;br /&gt;    Vejo pessoas a entrarem e a saírem. Como no meu prédio. Os olhares baços vagueiam em direcção definida pela altura do piso que ocupam. Procuro o porteiro. Não sei para onde olhará. Ah, encontrei-o. Tenho sorte, porque decide encarar-me. Pergunto-lhe pelo piso térreo, porta C, será? Descrevo a família ao pormenor, a menina com cara de anjo, seria impossível passarem despercebidos.&lt;br /&gt;    Responde-me – fazendo-me cair do último piso do arranha-céus – que nunca viu tal gente, o andar está ocupado sim, mas por outras pessoas, dois filhos, um cão enorme, um casal ainda jovem. Alegres da sua condição. A olharem para o chão com orgulho, assumidamente.&lt;br /&gt;    Fujo a correr, assustado com as suas palavras e só paro frente à minha janela. Nessa tarde, decido esperar uma eternidade.&lt;br /&gt;    Consigo vislumbrar o sol, para mim acinzentado, a despedir-se com os últimos raios. Estou prestes a desistir quando finalmente a janela de Diana se abre, de rompante.&lt;br /&gt;Acredito que o cabelo dela vai voar, novamente, espalhando-se pelo ar, indomável, às vezes a tapar-lhe o rosto. E eu vou conseguir ver-lhe aqueles olhos, que se fixaram tantas vezes nos meus e me revelaram a história de uma vida, sem dizerem uma única palavra.&lt;br /&gt;    Esfrego os olhos e ao longe ouço o ladrar forte de um cão encorpado. Aparece à janela em frente, desejoso de saltar para as traseiras. Atrás dele, estão os risos de duas crianças, divertidas com os ímpetos do seu animal. Tinham chegado da escola. Rufus atira-se para cima delas, num grande alarido, convidando-as para a brincadeira. Passou o dia sozinho, apertado entre quatro paredes. Quando as vê, espera apenas que o levem a furar aquela torre, a saltar pela tão desejada janela.&lt;br /&gt;     A alegria que sente embriaga-o, fazendo-o crer que todas os finais de tarde os seus pequeninos donos o irão levar até ao paraíso.&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-3754759152460780691?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/3754759152460780691/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=3754759152460780691' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/3754759152460780691'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/3754759152460780691'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/03/arranha-os-cus.html' title='Arranha os céus'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R_FR-PcasrI/AAAAAAAABuM/MXTjl_v6vgk/s72-c/HK-towerblock-sj.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-2711383381351845484</id><published>2008-03-28T23:20:00.004Z</published><updated>2008-03-28T23:22:16.060Z</updated><title type='text'>O caleidoscópio</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R-19ZvcaspI/AAAAAAAABt8/VrkiPK_wMOg/s1600-h/caleidoscopio%2Braro.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://4.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R-19ZvcaspI/AAAAAAAABt8/VrkiPK_wMOg/s320/caleidoscopio%2Braro.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5182936627359167122" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; Uma paisagem ao longe, lá dentro, duas pessoas de mãos dadas. A paisagem a mudar, as cores a misturarem-se, a transformarem-se, a rodarem, à excepção das duas pessoas, que se mantêm em pé, firmes e de mãos coladas. As testemunhas vão espreitando por este caleidoscópio; observam a vida às voltas, torta, de pernas para o ar e o casal intocável, direito que nem um fuso, no meio das reviravoltas que vão acontecendo. A certa altura, o casal já não traz novidade e faz com que se atire o caleidoscópio ao lixo. As testemunhas seguem o seu caminho, esquecendo  a ponta de inveja que sentiram quando conheceram o casal pelo óculo. Tempos depois, uma testemunha mais curiosa decide recuperar o caleidoscópio. O casal traz as mãos na cabeça, parece estar em sofrimento. Alguém comenta que o marido ganhou uma doença esquisita, que os médicos não adivinham. A mulher continua a dar-lhe as mãos, como se nada fosse, mas ele deixa-as cair mais que uma vez, sem querer. As cores tornaram-se sombrias e já não se misturam, é como se o caleidoscópio se recusasse a iludir quem olha, como se proibisse a vida de causar mais atropelos.  A testemunha volta a espreitar e não reconhece o caleidoscópio. O óculo não roda, nem para um lado nem para o outro, trancou-se à volta de uma imagem pouco definida. Parece ser o casal de costas voltadas, acocorado no chão, de rosto sobre os joelhos. É uma imagem sem movimento, num tempo parado. A testemunha, decepcionada, abana o objecto, tentando recuperar o sentimento de magia, da visão das cores animadas que antes existiam. O caleidoscópio apaga-se de repente, e mais uma vez, é atirado para o caixote de lixo mais próximo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-2711383381351845484?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/2711383381351845484/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=2711383381351845484' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/2711383381351845484'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/2711383381351845484'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/03/o-caleidoscpio.html' title='O caleidoscópio'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R-19ZvcaspI/AAAAAAAABt8/VrkiPK_wMOg/s72-c/caleidoscopio%2Braro.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-7159772159172911316</id><published>2008-03-26T21:43:00.002Z</published><updated>2008-03-26T21:45:01.138Z</updated><title type='text'>A zaragata</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R-rDwPcasnI/AAAAAAAABts/kp3vNedlYf4/s1600-h/070612_blog.uncovering.org_luta_gaston-1.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R-rDwPcasnI/AAAAAAAABts/kp3vNedlYf4/s320/070612_blog.uncovering.org_luta_gaston-1.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5182169554790036082" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;  O homem velho vai sentado no banco do autocarro, ao lado da mulher. O arranque, os solavancos, as curvas, as travagens e as novas paragens sucedem-se todos os dias, num trajecto que lhe é familiar. As portas abertas, os bilhetes obliterados, as vozes misturadas que entram ao mesmo tempo, empurrando-se, num barulho que cresce, que se torna ensurdecedor, captam-lhe a atenção. O autocarro apinhado, as pessoas em busca de uma nesga de espaço, a tentar  sobreviver naquela hora de aperto e o homem velho incomodado, desassossegado, rodopiando a cabeça em todas as direcções, perante o ar sereno da mulher. Um rapazola fura a multidão, em busca de melhor assento, tropeça e cai em cima do homem velho, que imediatamente estica o peito e exibe os restos de um porte atlético, em atitude ameaçadora. O rapazola encolhe os ombros, balbucia uma desculpa esfarrapada e vira costas, fechando o episódio. O homem velho deixa livre o banco do autocarro e atira-se às costas do indivíduo, felino no ataque, imprevisível para os outros. As pessoas dão-se conta do burburinho  e reagem, separando os dois, o rapazola indefeso e espantado, o velho descontrolado, possuído de uma força desconhecida. Palavras gritadas, gestos agressivos e a mulher do velho a perder a serenidade e a defender o marido, indignada com a multidão. As portas abrem-se, as paragens espreitam e o autocarro esvazia-se, como por magia, deixando a mulher e o homem velho a sós, desta vez, de mãos dadas e de olhares trocados.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-7159772159172911316?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/7159772159172911316/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=7159772159172911316' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/7159772159172911316'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/7159772159172911316'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/03/zaragata.html' title='A zaragata'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R-rDwPcasnI/AAAAAAAABts/kp3vNedlYf4/s72-c/070612_blog.uncovering.org_luta_gaston-1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-1821914129407387525</id><published>2008-03-21T13:03:00.004Z</published><updated>2008-03-21T13:07:14.976Z</updated><title type='text'>A vida passada a pente fino</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R-OyVvcasmI/AAAAAAAABtk/hc5wasbNPWo/s1600-h/467px-Gustav_Klimt_019.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://2.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R-OyVvcasmI/AAAAAAAABtk/hc5wasbNPWo/s320/467px-Gustav_Klimt_019.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5180180082988855906" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Ela passa, apressada, desligada dos outros, como de costume. Em sintonia com alguns, por força das circunstâncias. Controlando os outros, para se fortalecer. Amesquinhando os demais, para se esquecer de si.&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;  Sonha com o reconhecimento da maioria. Não lhe basta existir, com o corpo que tem e com a vida que naturalmente poderia ter. Depende dos outros no alcance desta existência, para ela ideal. Força sistemas, inventa leis, quebra respeitos. Apura-se na corrida do tempo, atenta aos gostos e mudanças, com a habilidade de um cata-vento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Ela passa, apressada, desligada dos outros. Está num momento alto da vida. Os amigos, mais que muitos, são todos importantes e garantem-lhe um lugar ao sol, por cada pedaço de terra que vai pisando. Está cada vez mais confiante e despreza com prazer os que imploram uma migalha da sua atenção. Veste roupas extravagantes, usa um chapéu alto e cumprimenta, de sorriso rasgado, as almas gémeas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Ela vai passando e atrás dela cola-se o tempo, a pisar-lhe os calos. A harmonia sentida – colada com cuspo – desmorona-se e atira-a para o autoritarismo, coberto de gelo. É chegada a hora da cegueira, o momento em que o umbigo a engole de vez. Um tempo de magnitude.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Ela vai passando, vagarosamente. De fascinante e inatingível passa a mulher feia e insignificante, apesar de teimar em conjugar roupas extravagantes e chapéus de formato variado, que mesmo assim, deixam à vista o frágil equilíbrio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  A ambição perde-se na linha do horizonte, cansada de ser querida e nunca alcançada. É um sonho confuso que se esvai, consumido num esforço evaporado. São os caminhos da vida, transformados em sulcos e vincos sobre aquele rosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  Hoje ela passa, sem ninguém dar conta. Agarra-se às pessoas, tentando sacudi-las da indiferença a que ela própria as votou.&lt;br /&gt;  Não passa de uma velha tonta, que por ali sempre passou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-1821914129407387525?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/1821914129407387525/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=1821914129407387525' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/1821914129407387525'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/1821914129407387525'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/03/ela-passa-apressada-desligada-dos.html' title='A vida passada a pente fino'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R-OyVvcasmI/AAAAAAAABtk/hc5wasbNPWo/s72-c/467px-Gustav_Klimt_019.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-477720686609833018</id><published>2008-03-21T12:52:00.008Z</published><updated>2008-03-21T12:59:28.589Z</updated><title type='text'>O nosso jardim</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R-Ow0_caslI/AAAAAAAABtc/EEIhDdXzQNQ/s1600-h/590px-Gustav_Klimt_018.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R-Ow0_caslI/AAAAAAAABtc/EEIhDdXzQNQ/s320/590px-Gustav_Klimt_018.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5180178420836512338" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Resolvo tudo através da discussão. Desde sempre. Não conheço outro sistema. E não se entenda por isto que são discussões construtivas, fórum aberto, tipo vamos lá trocar de opinião para ver se chegamos a alguma conclusão. Não. São discussões acaloradas, animosas, atingindo às vezes níveis de violência impensáveis. Sou eu contra o obstáculo, inimigo sem identidade. Descarrego energias empilhadas, alimento ódios e raivas várias. Sem razão aparente. Exponho sem pudor a frustração que não agarro, exibo o lado mau com muita lata. Encerro-me num autismo que pisa sem querer – mas até quer – o outro, transformo-o num verbo de encher. Ou apenas convencido que o semelhante não passa de um alien por apurar. Uma entidade distante que teima em chocar comigo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Tomei-lhe o gosto em pequeno, ao assistir, quedo e mudo, às fantásticas demonstrações que os meus pais me proporcionavam de forma sistemática e a cada vez mais elaborada. É óbvio que tal escola não me deixa indiferente. Assimilei-a com naturalidade e de bom hábito, também a mim se pegou como vício e entranhou-se-me na pele como uma droga. Evito a todo o custo a ressaca.Viver  torna-se então a antítese de si mesmo. O Inferno por si só. A consciência  perde-se nas entranhas do ser. Desesperada, pendura-se nas amarras da sobrevivência. O instinto reage e a infelicidade  pespega-se-me nas trombas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arrasto-me em dias, em anos e mais séculos nesta condição. No meio desta praga, acredito que vou vencer. É este pensamento que segura a minha vida presa por um fio. Queimo o tempo, precipito os acontecimentos. Até nas discussões estou mais rápido e  eficiente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No meio deste despautério, viajo a um jardim. Um qualquer e como em qualquer um, a Natureza corre os seus ciclos sem acidentes. Observo árvores e plantas. Escuto o seu doce murmurar. Pasmo com a beleza e simplicidade. Admiro-as no seu posto de vigia, bem lá no alto, quase alheias à sua vida natural. As folhas debotam, os ramos secam, caiem por terra para abraçar uma nova vida e tudo começa outra vez. É a Natureza a falar, tranquila na sua nudez, renovada sem dramas, viçosa na serenidade. Na verdade tudo o que me incomoda e o que me atrai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R-Owe_caskI/AAAAAAAABtU/o6M8DPFIlLM/s1600-h/597px-Gustav_Klimt_066.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R-Owe_caskI/AAAAAAAABtU/o6M8DPFIlLM/s320/597px-Gustav_Klimt_066.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5180178042879390274" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Vejo o Joaquim, ainda criança, acocorado à beira do lago. Os patos e os cisnes aproximam-se e disputam as migalhas que ele vai atirando em ritmo lento. A vida corre com mais vagar naquele lugar. Ali, teria tempo para pintar um quadro com o Joaquim ao pé do lago, os animais que comem o que lhe vem das mãos, as árvores que sussurram para a terra. Shshshhshshshshsshshshs…..&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atrás está a mãe, ainda nova, distante do filho. É bonita e parece preocupada. Anda devagar e assim que agarra uma árvore esconde-se atrás dela. No fim do percurso – que repete uma, outra e mais uma vez – reaparece, de cara vermelha e olhos inchados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Joaquim tem olhos atrás das costas. Habituou-se a fingir que não percebe. Habituou-se a ser criança sem nunca o ter chegado a ser. Compreende a mãe à distância e assim a deixa horas a fio, a ajustar-se à sua infelicidade em silêncio. O dia é longo naquele jardim, a avaliar pela posição do sol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Percorro o jardim, investigo os cantos mais secretos. Percebo que não existe mais ninguém, para além de nós os três, dos animais e das plantas. É um jardim só nosso. Um lugar especial.&lt;br /&gt;Volto para baixo e confirmo a impressão de que o tempo não passou. Joaquim continua a atirar migalhas  que nunca se acabam e a mãe continua a tropeçar de árvore em árvore, de cara ainda por desinchar. Mãe e filho continuam perto um do outro, sem se aproximarem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sinto-me fatigado de o sol teimar em não adormecer. Tenho vontade de perguntar por onde é a fuga, mas sei que não me podem ver nem ouvir. Obrigam-me a procurar: desço, subo, apresso o passo, arfo de cansaço, desconfio que tenho visões de portas sem saída. Estou fechado. Tenho pressa em sair. Não aguento mais o sol, eternamente a pico. Abrasa-me aqueles dois, juntos pela condição da Natureza e por ela separados. Ali, naquele quadro que eu poderia pintar. Não encontro a sintonia que amarra o pincel à tela. Estou cansado de procurar. Sem perceber, deixo-me cair sobre as plantas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estremece-me o corpo, apaga-se o sol e a lua acorda. Arrefece subitamente. Os cobertores pesam-me como quilos de mágoa. Afinal, sempre encontrei a porta de saída. A mesma de sempre. Vira o disco e toca o mesmo. O meu jardim é o pesadelo de olhos abertos.&lt;br /&gt;O sol volta a nascer, manso e de tempo contado. É de manhã e chamam-me devagarinho.  Acordo e finalmente não me vejo mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-477720686609833018?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/477720686609833018/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=477720686609833018' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/477720686609833018'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/477720686609833018'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/03/o-nosso-jardim.html' title='O nosso jardim'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R-Ow0_caslI/AAAAAAAABtc/EEIhDdXzQNQ/s72-c/590px-Gustav_Klimt_018.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-8004630247731801412</id><published>2008-03-11T12:18:00.005Z</published><updated>2008-03-11T12:53:37.641Z</updated><title type='text'>A Lâmpada de Aladino</title><content type='html'>&lt;object width="320" height="266" class="BLOG_video_class" id="BLOG_video-91a2063438939652" classid="clsid:D27CDB6E-AE6D-11cf-96B8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/get_player"&gt;&lt;param name="bgcolor" value="#FFFFFF"&gt;&lt;param name="allowfullscreen" value="true"&gt;&lt;param name="flashvars" value="flvurl=http://v21.nonxt1.googlevideo.com/videoplayback?id%3D91a2063438939652%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D3E00FF31EBA0DBC7A2BDC93C458B547A9CCC730B.3DD0D73CE7844075A451283E2F839C2BBC4E876F%26key%3Dck1&amp;amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3D91a2063438939652%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DTDnpb_GTdhEEZK3k8hwLonjuBLc&amp;amp;autoplay=0&amp;amp;ps=blogger"&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/get_player" type="application/x-shockwave-flash"width="320" height="266" bgcolor="#FFFFFF"flashvars="flvurl=http://v21.nonxt1.googlevideo.com/videoplayback?id%3D91a2063438939652%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D3E00FF31EBA0DBC7A2BDC93C458B547A9CCC730B.3DD0D73CE7844075A451283E2F839C2BBC4E876F%26key%3Dck1&amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3D91a2063438939652%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DTDnpb_GTdhEEZK3k8hwLonjuBLc&amp;autoplay=0&amp;ps=blogger"allowFullScreen="true" /&gt;&lt;/object&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;    Ela navega toda a noite. O ecrã de 20 polegadas apoia-a, incansável, nas buscas mais incríveis que se possam imaginar. Sem dar conta, atira bocejos cá para fora, as pálpebras baixam e o olho dormita: é o corpo em dilema, a magicar: “saio daqui, não saio, é tão tarde... mas espera, isto é interessante... talvez se for por ali ainda consiga descobrir qualquer coisa. Qualquer coisa que me arranque daqui”. Os sites sucedem-se com rapidez; os dedos hábeis percorrem o teclado sem pedir licença, os olhos voam de imagem em imagem, de informação em informação. O pequeno apartamento desaparece do mapa, a cadeira onde está sentada eclipsa-se, a secretária esconde-se. É apenas ela e o computador a girar no Universo. Sonhos que saltam para dentro do ecrã, desejos fundidos, uma luz mágica a encandeá-la, uma slot machine a apitar, a apregoar prémios e de repente o embate na realidade a grande velocidade, com uma pancada seca. É ela, sem travões, aterrada em cima da cadeira que nunca largou, presa no apartamento do qual nunca saiu. “Será isto?” Um chat, um sujeito que tropeça e que se abre; interesses em comum, simpatia, empatia virtual, o chat continua nessa noite, nas outras que se seguem e a impressão mantém-se na cabeça dela: “Pode ser que se esteja a vestir de alma gémea, pode ser que não, nunca o saberei se continuarmos a navegar nas marés altas do ecrã.” Falta uma fotografia para consolidar o sonho; ela publicou uma no chat, ele esquivou-se sem razão aparente, mesmo assim ela arrisca e combina um encontro numa bomba de gasolina anónima, longe das casas de um e de outro, longe de dizerem a quem quer seja onde vão naquele dia.&lt;br /&gt;    Faz sol. Dia brilhante, céu destapado, a afundar-se em azul a perder de vista. Longe do breu da noite, do brilho do ecrã, dos flashes de luzes que vêm de todos os lados. Terreno firme, a bomba da gasolina, o posto de abastecimento, a normalidade a passear-se por aquelas bandas. E ela dentro do carro, motor a trabalhar, encostada à berma, de coração aos pulos, as mãos que se  esfregam no volante, para cima para baixo, os músculos que tremem, a cara com manchas.&lt;br /&gt;Ele chega numa carrinha e descobre-a facilmente; encosta atrás e sai, a anunciar perna curta, cara disforme num sorriso prometedor; ela observa-o pelo retrovisor; o sangue parece que se encolhe dentro do corpo, é uma palidez súbita que a invade e lhe corta a fala, vai ter que se esforçar para que ele não pense que é muda, são coisas que não se percebem nos chats, a palavra é rainha e o mistério é rei.&lt;br /&gt;    O sorriso aparece-lhe à frente e o corpo pequeno dissimula-se, sentado no carro. As palavras nascem, como no chat. E são iguais, tão iguais que ela fica impressionada. Conhece os temas de cor, foram noites a fio a esmiuçá-los. Hoje é igual, apenas é de dia e é cara a cara. O cenário muda, o carro avança em direcção à montanha que observa o mar. O vento ali é forte, a vegetação é rasteira, de tanto se agachar ao sopro que ruge.&lt;br /&gt;O fim de tarde é magnífico, embora eles não se apercebam. Ela tem a cara tapada pelos cabelos que voam sem dar tréguas. Ele fala mais alto que o vento, sem receio de espalhar segredos. O sol desce rapidamente, alaranjado, avermelhado, até se extinguir.&lt;br /&gt;    Naquela tarde, as horas deixam de ter importância.&lt;br /&gt;O vento despede-se e ele convida-a a ir a sua casa. Ela aceita, depois de ter viajado pela vida dele. Já noite dentro, ele quer saber dela, e pela primeira vez, ouve que tem um filho a cargo, a mãe doente, um cão e um papagaio. Ele baixa os braços, abana a cabeça e confessa-lhe: “Assim, não serves. Procuro alguém totalmente livre, que me compreenda e se me dedique. Lamento.”&lt;br /&gt;Ela volta a ficar sem fala, despede-se, conseguindo ainda articular um “Obrigada”.&lt;br /&gt;Meses mais tarde, recebe um e-mail dele, dizendo que finalmente tinha realizado o seu sonho; primeiro dentro do ecrã e depois à beira daquele penhasco sobre o mar: uma mulher livre, que tinha abraçado o seu corpo pequeno e beijado a cara disforme. Mesmo com os cabelos nos olhos, mesmo no meio do vento.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-8004630247731801412?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='enclosure' type='video/mp4' href='http://www.blogger.com/video-play.mp4?contentId=91a2063438939652&amp;type=video%2Fmp4' length='0'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/8004630247731801412/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=8004630247731801412' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/8004630247731801412'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/8004630247731801412'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/03/lmpada-de-aladino.html' title='A Lâmpada de Aladino'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-3311702699767889070</id><published>2008-03-06T19:45:00.003Z</published><updated>2008-03-06T19:47:31.306Z</updated><title type='text'>O senhor X</title><content type='html'>&lt;object width="320" height="266" class="BLOG_video_class" id="BLOG_video-1f5ea2757e340a18" classid="clsid:D27CDB6E-AE6D-11cf-96B8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/get_player"&gt;&lt;param name="bgcolor" value="#FFFFFF"&gt;&lt;param name="allowfullscreen" value="true"&gt;&lt;param name="flashvars" value="flvurl=http://v12.nonxt5.googlevideo.com/videoplayback?id%3D1f5ea2757e340a18%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D6455300A35204BC3B229B1D1446DEF585C2FDAAE.8576406EAB9619A434AA53F228A84FDA8420D499%26key%3Dck1&amp;amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3D1f5ea2757e340a18%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DYKGqblCDfQDZJL0jEpg6A6-fodE&amp;amp;autoplay=0&amp;amp;ps=blogger"&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/get_player" type="application/x-shockwave-flash"width="320" height="266" bgcolor="#FFFFFF"flashvars="flvurl=http://v12.nonxt5.googlevideo.com/videoplayback?id%3D1f5ea2757e340a18%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D6455300A35204BC3B229B1D1446DEF585C2FDAAE.8576406EAB9619A434AA53F228A84FDA8420D499%26key%3Dck1&amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3D1f5ea2757e340a18%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DYKGqblCDfQDZJL0jEpg6A6-fodE&amp;autoplay=0&amp;ps=blogger"allowFullScreen="true" /&gt;&lt;/object&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;    O cliente nunca mais comprou aquela marca de telemóveis. Não é porque se tivesse aborrecido com a qualidade da assistência, ou até com a qualidade dos próprios aparelhos. Sempre teve um fraco por telemóveis; cada vez que saía um modelo novo, lá estava ele, rente aos balcões da empresa, fiel àquela marca. Nas várias lojas da marca do aparelho, o Sr. X  era conhecido como “O maluquinho dos telemóveis”, com direito a tratamento preferencial. Os empregados bulhavam entre si, para o atender, na esperança de caírem nas boas graças do chefe. Encantado com tanta gente à sua roda, o Sr. X não resistia; acabava por levar o melhor telemóvel do mercado, o topo de gama, a melhor relação preço/qualidade. Um dia, o Sr. X tropeça numa revista  que lhe desperta a atenção: um retrato de algumas empresas, entre elas, a dos telemóveis. E abre os olhos, chocado: as mulheres estão em maioria, entre os trabalhadores. Os contratos são precários. Engravidam, o que faz baixar os níveis de produtividade. São despedidas, depois de serem mães. Os ordenados parecem baixos. De condições pouco se fala. E de direitos, nem pensar. No entanto, a marca é cotada como uma das melhores no mercado. Pouco tempo depois, o Sr. X entra numa das lojas coloridas da empresa, com um saco de telemóveis que despeja em cima do balcão. Os empregados correm em bando, à procura de explicação: “Mas, Sr. X, são todos novos...” O Sr. X não consegue responder. Fica paralisado com a quantidade de caras que lhe sorriem ao balcão. Os clientes continuam a fazer fila para serem atendidos e os empregados  dispersam, retomando as suas tarefas. O “maluquinho dos telemóveis” sai, tão silencioso quanto entrou.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-3311702699767889070?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='enclosure' type='video/mp4' href='http://www.blogger.com/video-play.mp4?contentId=1f5ea2757e340a18&amp;type=video%2Fmp4' length='0'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/3311702699767889070/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=3311702699767889070' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/3311702699767889070'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/3311702699767889070'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/03/o-senhor-x.html' title='O senhor X'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-7854847627560680649</id><published>2008-03-06T17:29:00.012Z</published><updated>2008-03-07T09:52:56.825Z</updated><title type='text'>Não queiras acordar</title><content type='html'>&lt;object type="application/x-shockwave-flash" data="http://www.tiagopapoose.com/musica/dewplayer.swf?son=http://www.emcnformacaomusical.com/Rita/Excertos%20musicais/Her.mp3" height="20" width="200"&gt; &lt;param name="movie" value="http://www.tiagopapoose.com/musica/dewplayer.swf?son=http://www.emcnformacaomusical.com/Rita/Excertos%20musicais/Her.mp3"&gt; &lt;/object&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;     O despertador toca, desabotoando o silêncio que se aperta no escuro. Ruidosamente, a interromper sonhos e a esfregar na cara mais uma manhã que nasce. Leva tempo a colar-se à realidade. Ignora o insistente despertador – o seu anjo de guarda – que continua a apitar de cinco em cinco minutos e refugia-se em dupla escuridão, debaixo do edredão.&lt;br /&gt;Gasta o tempo, os minutos, os segundos. Até não poder mais. Umas mãos invisíveis agarram-no e colocam-no defronte ao espelho da casa de banho: pálido, olheirento, cabelo em pé, ar miserável, assim está, inexplicavelmente, todas as manhãs.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entra no duche, para acordar, de uma vez por todas. Até o sangue retomar os seus habituais circuitos, até o cérebro começar a funcionar. Sai recomposto, disposto a arrancar aquela manhã da rotina de todas as manhãs. Vai ao quarto e abre as persianas. A luz entra, fraca e sem cor, parecendo não derrotar a escuridão.&lt;br /&gt;É uma manhã chuvosa e cinzenta. Os carros deslizam cautelosamente ao som da água, e o vento empurra as pessoas, a querer apressar-lhes os destinos. Veste o impermeável e sai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A calçada, polida do trajecto diário, recebe-o novamente, escorregadia da chuva insistente. Agarra-a com as botas de sola de borracha e inicia a caminhada, com os sentidos atentos.&lt;br /&gt;A pedinte da esquina continua a estender o braço, indiferente ao bater da água. Encharcada até aos ossos, ali fica, sem procurar abrigo. Apenas de mão esticada, à espera de não receber nada. Como um vício que não se explica, mas que a manda fazer de estatueta naquele sítio.&lt;br /&gt;Uns metros mais à frente, esbarra-se na fruta fresca e hortaliças viçosas do Senhor Manuel. Já nem dos preços altos se podem queixar, quem pode competir com as grandes superfícies? Resta o sorriso cansado, o bom dia a cada instante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Continua, encolhido no impermeável. A chuva retoma o seu ritmo, desta vez enfurecida, a furar a calçada e a derreter o alcatrão com os seus fios de água aguçados. Entra no café logo à frente, esperando que a sua ira se apazigue. Fica espantado com a mudança. O Senhor Costa tinha trespassado o café e agora o espaço estava transformado; obras feitas, o pré-pagamento a recebê-lo, o balcão corrido cheio de gente e uma série de empregados pouco amáveis, mas eficientes. Bebe o café, come um queque e sai, atordoado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já se vê uma nesga de céu azul, embora as nuvens ainda o aprisionem. Os primeiros raios iluminam com esforço a avenida larga. Pouco depois os transeuntes voltam aos passeios e os carros retomam o seu ritmo habitual, sem se preocuparem com o piso ainda molhado.&lt;br /&gt;Obedece aos semáforos e atravessa a primeira passadeira. A segunda, ainda longe, tem os sinais intermitentes. Os carros passam, ligeiros, por nunca verem o vermelho. O laranja confunde-se com o verde, avaria no sistema ou não, o peão fica entregue a si próprio, desprotegido, corpo exposto a passar rapidamente, com sorte alcança o outro lado, são e salvo, orgulhoso da habilidade do dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela está a uns metros de distância. Deixa-se guiar pela fiel bengala, que tacteia incansavelmente todo o pedaço de chão por onde passa. Os ouvidos protegem-na, avisando-a do perigo iminente. Espera pelo silêncio. Espera pelo seu verde, espera que os motores se aquietem. Não chega a confirmar essa interrupção. Ouve passos rápidos, para trás, para a frente e o barulho dos carros, de motores vigorosos, a passarem à beira dela, os cabelos no ar, as saias assopradas.&lt;br /&gt;Ele percebe que ela vai arriscar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A distância entre os dois desaparece, assim que ela ousa dar o primeiro passo em falso. O carro que se aproxima, doido de velocidade, precipita-se sobre a passadeira. Ele lança-se no ar e cai em cima dela, conseguindo arremessá-la uns metros à frente. A travagem vertiginosa, os pneus a chiarem, a pancada seca, o corpo projectado para longe. No espaço de escassos segundos. E no fim, o verdadeiro silêncio, perturbado apenas pelo fumo e o cheiro a queimado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acorda enrolado em tubos, numa cama branca, com lençóis brancos, no meio de gente vestida de branco. Dorido no corpo inteiro, sem perceber porquê. As cabeças inclinam-se, com curiosidade. De mais não se lembra, a memória  fica suspensa no tempo, no Senhor Costa em debandada, no Senhor Manuel, o eterno resistente, a pedinte na esquina e a calçada molhada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela entra sem ver nada. Coxeia discretamente, apoiada na bengala. Traz  contusões ligeiras, o trauma da pancada e a família poderosa atrás, a querer saber dela e do salvador.&lt;br /&gt;Ele ouve os toc-toc de quem abre caminho e vira a cabeça, contrariando o movimento dos tubos. Respira com dificuldade, partido em vários sítios, lesões profundas, a vida mais atrapalhada do que nunca. Vê-a e lembra-se da silhueta na passadeira. Cabelos lisos escuros, os óculos de sol de aros grossos, a gabardina bege, a camisola de gola alta preta e o ar impaciente, de quem não espera.&lt;br /&gt;Pára à beira da cama, sorri-lhe, ignorando o estado dele. Os brancos retiram-se, recomendando à rapariga que a visita tem que ser curta.&lt;br /&gt;– Vinha-lhe agradecer...&lt;br /&gt;Ele fixa-a, aflito. Depois da passadeira, não tinha acontecido mais nada.&lt;br /&gt;– Mas de quê?&lt;br /&gt;– De me ter salvo!&lt;br /&gt;– Deve estar a falar com a pessoa errada...&lt;br /&gt;– Estou-lhe a dizer... você estava lá... toda a gente disse...&lt;br /&gt;Volta à passadeira, lembra-se dos carros que aceleravam, ao ver o sinal intermitente. Lembra-se dela, aflita, tacteando uma pausa entre o barulho dos motores. Depois o desespero e o salto no abismo. Dela e dele. E finalmente percebeu. O barulho da pancada, agora as dores e o corpo partido.&lt;br /&gt;– Ah, é a rapariga da passadeira...&lt;br /&gt;– Já se lembra... se não fosse você, não estaria aqui, tranquilamente... agora descanse...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela sai, sem perceber que ele adormece, ao som das suas poucas palavras.&lt;br /&gt;No dia seguinte e nos outros que lhe seguiram a rapariga visita-o. Traz sempre algo com ela. Uma flor, um livro, umas palavras de ânimo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tempo resolve passar, sem querer ajudar. Saudades da casa, do despertador, do escuro, da luz, de si, miserável todas as manhãs. Das ruas que palmilhava diariamente, da gente com que falava, dos cafés que frequentava. Do emprego invisível, a que corria atrás todas as manhãs. Das pernas que não queriam voltar a andar.&lt;br /&gt;Deixa o hospital, excedendo o tempo limite de permanência. Conta paga por mãos alheias. Mãos invisíveis, que passam a tomar conta dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-7854847627560680649?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/7854847627560680649/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=7854847627560680649' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/7854847627560680649'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/7854847627560680649'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/03/no-queiras-acordar_4294.html' title='Não queiras acordar'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-4396759739182779991</id><published>2008-03-05T11:47:00.004Z</published><updated>2008-03-05T11:55:34.973Z</updated><title type='text'>Carta a um defunto</title><content type='html'>&lt;object type="application/x-shockwave-flash" data="http://www.tiagopapoose.com/musica/dewplayer.swf?son=http://www.emcnformacaomusical.com/Rita/Excertos%20musicais/aspraiasdesertas.mp3" height="20" width="200"&gt; &lt;param name="movie" value="http://www.tiagopapoose.com/musica/dewplayer.swf?son=http://www.emcnformacaomusical.com/Rita/Excertos%20musicais/aspraiasdesertas.mp3"&gt; &lt;/object&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;    As praias desertas continuam nossas. Lembras-te? Escapulias-te à pressa, tu, eu, também, num chorrilho de mentiras a empurrar-nos para lá dos limites. Início da adolescência? Não quero mentir. Sentia-me já bem desperta, por sinal, crescida, porque não, tão crescida como aquelas árvores centenárias, que guardavam a nossa paisagem. Vimos os nossos corpos dentro das ondas, a quererem tocar-se, primeiro a medo, depois com naturalidade. Tu de peito liso, bigode por semear, imberbe encantador, gracejavas do meu corpo por compor, até que o foste arranjando, muito devagarinho e eu a ti e por fim nos fundimos, talvez cedo demais, não importa, para nós foi decisão acertada.&lt;br /&gt; Fizemos juras, tecemos planos, vivemos em segredo. Durante anos. Sempre um do outro.&lt;br /&gt; Mudámos de paisagem, mudámos de continente. Atraiçoámos as praias, o mar, a paisagem que tão bem nos conhecia. Trocámos de mundo. Aproximámo-nos dos outros. Arranjaste um emprego modesto, eu também. Apesar de tudo, continuava sempre a viver numa dimensão extraordinária. Bastava estares ao meu lado. Mesmo quando estava prestes a acinzentar-me e a perder a coragem para enfrentar uma vida sem eco, lá vinhas tu, a colorires-me com o teu sorriso, a ergueres-me do chão com graça, a enterrares-me num abraço que parecia não ter fim. Pintavas-me num quadro, com cores vivas, eu olhava-me e lá estávamos nós, nas praias desertas, tu de barba rija, corpo forte, eu de peito abundante no meio das outras formas.&lt;br /&gt; Vieram as crianças. Primeiro uma, depois um e ainda outra. Continuavas a beijar o meu corpo de alto a baixo, apesar de quereres uma vida melhor, ambição a crescer, em detrimento das coisas simples.&lt;br /&gt; Entretanto, eu continuava a pintar a vida. Sempre gostei de o fazer. Os meus quadros eram realmente a sério. Até fiz algumas exposições. Podia ter corrido melhor, o tempo era pouco, as crianças começaram-nos a absorver muito.&lt;br /&gt; Aos poucos deixámos de falar. Evitámos, até. Julgámo-nos protegidos pelas nossas praias. Começámos a contornar os desafios, as chatices, as arrelias e por fim as tristezas, com uma perícia inigualável.&lt;br /&gt;A minha lembrança dos tempos idos começou a esbater-se. Não havia fotografias da época. Apalpei a tua memória, tentando recolher provas da nossa outra existência. Respondeste-me com ar vago e distante que tinha sido maravilhoso, único, como é que eu poderia estar tão esquecida? E entre beijos fogosos e festas perturbadoras disseste-me teres sido promovido a director de uma firma importantíssima, agora até poderíamos voltar à nossa terra, àquele continente distante, recuperar o tempo e a originalidade dos nossos seres.&lt;br /&gt;Fizemos a viagem os dois. As praias continuavam sozinhas, à espera de alguém. Aparecemos, irreconhecíveis. Não houve convite por parte das ondas, antes um mar calmo, apático, à mercê da nossa presença. As árvores tinham crescido ainda mais, alargando a sua sombra, mas, estranhamente, tolhiam-se à nossa passagem, deixando o sol abrasador penetrar e quase incendiar os nossos corpos, desabituados há muito, daquele clima. Permanecemos em silêncio, por instantes. A certa altura, ficaste irritado com o confronto e disseste-me, com ar impaciente:&lt;br /&gt;    – O que fazemos aqui?&lt;br /&gt;    – Não sei. Dantes gostavas muito.&lt;br /&gt;    – Foi há muito tempo…&lt;br /&gt;    – És o mesmo… cresceste aqui, comigo…&lt;br /&gt;  Surpreendeste-te. Afinal quem eras tu?&lt;br /&gt; Regressámos, desiludidos. Eu, porque tive a certeza que não delirava ao longo dos meus dias solitários, apenas confirmava as minhas suspeitas; tu, porque percebeste que estavas perdido.&lt;br /&gt; À medida que o avião se aproximava da terra de eleição, aliviaste o semblante, sorriste, passaste-me a mão pelo cabelo e continuaste devagarinho pelas costas, insinuando outros caminhos. Em pleno avião. A prometer, no mínimo, que todo o pingo de gelo se derreteria à nossa passagem, todo o gato-sapato morreria de inveja da nossa fusão.&lt;br /&gt; Conversaste, animadamente. Parecias outro. Colaborei, novamente, acreditando na mudança. Talvez fosse da terra, do ar, do clima, das gentes. Porque não?&lt;br /&gt; Pousamos as malas, descuidadamente. Senti o aeroporto inóspito, cheio de correntes de ar viciadas, apesar de os miúdos nos terem assaltado em grande velocidade, em pulos radiantes, com as suas mãozinhas a enlaçarem-nos, a gritarem-nos baboseiras aos ouvidos, que ecoavam para além dos intermináveis corredores. Pareciam dizer «não fujam, por favor!». Foi um sufoco maravilhoso.&lt;br /&gt; Tu revigoravas a cada minuto, eu, ao invés, apagava-me aos poucos, acabrunhada por sensações estranhas, que me invadiam sistematicamente.&lt;br /&gt; A partir daí, nunca mais te encontrei.&lt;br /&gt; A vida recomeçou, num faz de conta insuspeito, mais que não fosse, para mostrarmos às crianças que o fiel da balança nunca vacilava. As oscilações não passavam de uma temática absurda, quando aplicada às nossas vidas.&lt;br /&gt; Ao longo desta proximidade ‘faz-de-conta’ aprendi a identificar os novos sinais que emitias, depois de teres vestido outro fato. Confesso que tive momentos em que quase amei o ‘Senhor Enigmático’, bem vestido e perfumado, homem galanteador, de aparência perfeita, cuja vida fantástica eu desconhecia, que me enviava postais curtos e secos, de sítios encantados, inacessíveis, como ele. Essa distância transformou-me, a certa altura, num ser pequenino. Ansiava obsessivamente pelo dia em que chegasses e até lá, anestesiava o cérebro.&lt;br /&gt; Deixei de pintar, deixei de pensar. Mirrei ao ponto de pensar que não existia. Não deixei entrar nada. Nem sair. Um único afecto. E as sensações, nem sei se me pertenciam, se eram dos outros.&lt;br /&gt; Chegaste num curto intervalo, à beira de mim, numa excitação nova. Circulaste em frenesim, todo o serão. Porém, os teus olhos evitavam-me. Disfarçaste, como de costume. Uns beijos forçados, uns afagos esquivos, adiaram a questão. E por fim confessaste. Estavas apaixonado. Incrivelmente apaixonado. E visivelmente emocionado, continuaste, afirmando que eras um ser original, que eram dois, os objectos da tua paixão desenfreada. Eu e outra. Que fazer?&lt;br /&gt;Passaram-se meses e a nossa vida mudou. Continuaste a ir jantar lá a casa; coitados dos miúdos, estranhariam, se não o fizesses.&lt;br /&gt; Mantiveste a promessa de ouro, que garantia a vida dos pequenos: a prestação dos colégios, a assistência na doença, as viagens, um beijo na testa à chegada e outro à saída, o pai adora-vos, nunca se esqueçam.&lt;br /&gt; Devagarinho, redescobriste novos encantos no lar. Presumi que a situação no outro lado havia esmorecido. Na realidade, continuavas a detestar estar sozinho.&lt;br /&gt; Trepaste pelas minhas pernas acima e ‘ronronaste’, verdadeiramente arrependido, «mea culpa, mea culpa…» não passava de um desvio à norma e não havia nada nesta vida que não contemplasse as suas excepções.&lt;br /&gt; Foi neste clima, e com o meu consentimento de última hora, que regressaste, de cabeça baixa, lábios caídos, gravata torta, cabelo desalinhado, mas de olho inquieto, desta vez, para empreendermos viagem até ao Inferno.&lt;br /&gt; De início, os serões foram fielmente cumpridos lado a lado, embora estivesses provavelmente escondido atrás das grandes árvores, a ver-me banhar nas águas calmas que o calor tropical amaciava. Esperaste sempre que eu desaparecesse e deixasse que o mar te apaziguasse e provavelmente te levasse, para parte incerta.&lt;br /&gt; Nunca estivemos tão longe um do outro, como naqueles serões.&lt;br /&gt; A vida profissional retomou, entretanto o seu curso normal. Compromissos inadiáveis, reuniões intermináveis, viagens frequentes às terras de ninguém. E novamente, a tempestade de mentiras, que nunca acabava.&lt;br /&gt; Arranjei uma concha ainda maior e deitei-me lá dentro, quietinha. Pouco depois, descobriste que padecias de um mal irreversível, confirmado por exames minuciosos.&lt;br /&gt; Extinguiste-te rapidamente, sem dar tempo de nos refazermos da cruel verdade. Talvez a única verdade em ti, depois de tantos anos.&lt;br /&gt; Chorei amargamente a tua perda, sem contudo ter ficado intrigada com a mulher jovem, que ao longo das exéquias, se mostrava inconsolável, lutando incansavelmente por controlar o desespero, estampado no rosto, nos olhos assustados e no corpo trémulo.&lt;br /&gt;  Reuni os teus objectos pessoais e olhei para o telemóvel. Esteve sempre à tua cabeceira, no hospital, na recta final. As últimas chamadas, as últimas mensagens…&lt;br /&gt; Senti um calafrio. Estaria a ser injusta?&lt;br /&gt; Atrevi-me a violá-lo. Violei-te, sim, já quando estavas morto. Se não fosse assim, nunca o teria sabido. Palavras de amor. Mesmo débil, parecias iluminado. A voz tremia, de emoção, as palavras eram espaçadas, mas arrancadas ao teu âmago. Nunca tinha ouvido nada assim.&lt;br /&gt; Afinal, sempre tinhas voltado às praias desertas…&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-4396759739182779991?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/4396759739182779991/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=4396759739182779991' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/4396759739182779991'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/4396759739182779991'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/03/carta-um-defunto.html' title='Carta a um defunto'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-1831209816672464796</id><published>2008-03-05T11:15:00.004Z</published><updated>2008-03-05T11:17:03.342Z</updated><title type='text'>Os sonhos</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R86A4OsPktI/AAAAAAAABrM/3rfma8TPBzw/s1600-h/1619680.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://4.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R86A4OsPktI/AAAAAAAABrM/3rfma8TPBzw/s400/1619680.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5174214725399974610" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;“Não escolhemos os sonhos”, diz o menino à mãe. “Nem conseguimos controlar  a forma como eles se misturam... São tal e qual uma manta de retalhos. Bocados do dia, sem relação uns com os outros, a participarem numa história, às vezes sem princípio e sem fim, mas uma história na mesma. Estranho... e sabes? Às vezes surgem personagens desconhecidos, bonecos animados na escola, na carteira ao lado da minha. Dizem e fazem coisas que eu já vi, ouvi e se calhar li, não sei muito bem aonde. Coisas mais antigas. Pessoas que já não existem. A avó, por exemplo. No outro dia, levou-me ao parque, com a idade que tenho agora. Pegou-me na mão como se tivesse dois anos. Esse sonho fechou-se, antes de eu sair do parque. E nunca mais a vi. Ontem, misturei-me com os meus amigos e outros meninos que conheço de vista. Brincámos todos com os meus heróis que vivem nos jogos. A música não foi excepção. Visitou-me também, quando estava na sala de aula. Multiplica quatro colcheias por três fusas. A professora cantou, quando me pôs o problema. Absurdo, não é?” A mãe sorri, abanando a cabeça afirmativamente. A criança continua, intrigada: “Nos meus sonhos passam-se histórias diferentes daquilo que realmente vivi. Umas agradam-me, outras não. Mas é o único lugar onde tudo é possível e confesso-te, é muito divertido. Mesmo assim, gostava de poder escolher um sonho, de vez em quando. Afinal, sempre são pequenos filmes, onde sou actor principal. Por ser surpreendido, acordo meio zonzo e saio estremunhado da cama. Levo sempre algum tempo a desfazer-me dos sonhos. Se hoje pensar todo o dia no sonho que quero ter, provavelmente o meu desejo vai realizar-se. E amanhã já não vou chegar atrasado à escola.”&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-1831209816672464796?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/1831209816672464796/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=1831209816672464796' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/1831209816672464796'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/1831209816672464796'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/03/os-sonhos.html' title='Os sonhos'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R86A4OsPktI/AAAAAAAABrM/3rfma8TPBzw/s72-c/1619680.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-6213085969974043287</id><published>2008-03-05T11:00:00.003Z</published><updated>2008-03-05T11:03:12.385Z</updated><title type='text'>O Autocarro</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R859jesPksI/AAAAAAAABrE/_tUsK8G4sg0/s1600-h/t1051279.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R859jesPksI/AAAAAAAABrE/_tUsK8G4sg0/s400/t1051279.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5174211070382805698" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;  Irene anda numa lufa-lufa. O carrapito, mal preso debaixo da touca, teima em espreitar o que ela vai deixando para trás. O lixo empilhado, as cascas de ovo ainda com claras escondidas, que escorrem em fio contínuo, humedecendo as cascas grossas de legumes cortados à pressa. As espinhas do bacalhau, um peixe podre, as gorduras da carne. E os restos da comida de clientes enfartados, mal agradecidos e pouco poupados.&lt;br /&gt;     Enverga uma bata e um avental que se orgulha de ser imundo. São as manchas da glória. A glória de uma chefe de cozinha, vivida atrás das cortinas. Um reino discreto, escondido na penumbra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Mas Irene não vacila. Entra, decidida, logo de manhãzinha, trazendo consigo uma energia contagiante. Trá-la do autocarro, que a traz e que a leva, diariamente. Um pequeno percurso, feito por centenas de pessoas e também por António, o segurança do restaurante. Uma simples coincidência. Os olhares são discretos. Confundem-se com indiferença. Pouco depois, brincam às escondidas. A ver quem consegue olhar sem ser observado. São apanhados. Mutuamente. Com pleno consentimento. Encaram-se, sem rodeios. Sem trocarem palavras.  Em cantos opostos do autocarro.&lt;br /&gt;Como dois cúmplices perfeitos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Do Inverno rigoroso, do frio cortante, do autocarro apinhado, do mundo sonolento, vestido de roupas grossas e escuras, da luz pálida e preguiçosa; nada prevalece, a não ser o entusiasmo dos dois, que apenas se conhecem de passagem.&lt;br /&gt;     Descem na paragem habitual e caminham lado a lado até ao restaurante. Apenas durante uns escassos metros. Caminham, desta vez, sem se olharem.&lt;br /&gt;     Ele alarga a passada e chega primeiro. Abre-lhe a porta, com delicadeza. Ela agradece, desce as escadas e entra no mundo que lhe pertence.&lt;br /&gt;     Os fiéis súbditos esperam-na, atentos às ordens que se vão seguir, durante o longo dia que os espera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Irene não vacila. Deita mãos ao trabalho e rapidamente transforma a cozinha num pandemónio maravilhoso. Os pedidos não cessam e o barulho, sempre mágico, ecoa através dos tachos fumegantes, das facas que se afiam, da carne que grita, colada à frigideira, das batatas que estalam violentamente, dentro de um óleo sobre aquecido. Barulho feito também de palavras fortes, que correm de boca em boca, a transmitirem ordens sobre uns e outros, atravessando nuvens de fumo e cheiros múltiplos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Irene continua, serena, a cumprir a sua tarefa. Acumula nódoas no avental, sem parar. Cada uma é medalha à espera de recompensa, até agora, sempre adiada. Talvez seja hoje. Lá para o final do dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     O movimento vai diminuindo e a luz, pálida de manhã, está outra vez de partida. O fumo desvanece-se, os pedidos acabam e as ordens interrompem-se. A cozinha está novamente com um ar inocente, pronta a ser, mais uma vez, devassada. É hora de partir. Primeiro sobem os empregados e depois Irene, em último lugar. Os degraus são contados devagarinho, parecendo dar tempo a que todos desapareçam. Para que não hajam testemunhas daquele simples percurso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     Cá em cima já só sobra António, que a espera para o fecho da porta. Existem barreiras invisíveis, gigantes, que nenhum deles consegue definir. Os olhos são postos no chão, as bocas, eternamente caladas. Mesmo protegidos pela noite, continuam a caminhar lado a lado, assentes numa cumplicidade estranha, mas de mundos separados. Até que chega o autocarro das multidões, que os leva para casa. De novo estão em cantos opostos e a brincar às escondidas. É um sítio mágico. O único onde arranjam coragem para se conhecerem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     António sai primeiro, em paragem insuspeita. Despede-se com um sorriso nos lábios. Irene vai sempre até ao fim da linha. Mora naquela zona. Sonha um dia ouvir a sua voz, no mesmo banco do autocarro e falar-lhe das suas nódoas no avental, das suas manchas de glória, da sua gente lá em baixo, com ele ali tão perto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-6213085969974043287?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/6213085969974043287/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=6213085969974043287' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/6213085969974043287'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/6213085969974043287'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/03/o-autocarro.html' title='O Autocarro'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R859jesPksI/AAAAAAAABrE/_tUsK8G4sg0/s72-c/t1051279.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-1374796459302178055</id><published>2008-03-04T19:42:00.006Z</published><updated>2008-03-04T19:50:49.170Z</updated><title type='text'>Dia de chuva</title><content type='html'>&lt;object width="320" height="266" class="BLOG_video_class" id="BLOG_video-d78dd29a7e9f7af0" classid="clsid:D27CDB6E-AE6D-11cf-96B8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/get_player"&gt;&lt;param name="bgcolor" value="#FFFFFF"&gt;&lt;param name="allowfullscreen" value="true"&gt;&lt;param name="flashvars" value="flvurl=http://v1.nonxt5.googlevideo.com/videoplayback?id%3Dd78dd29a7e9f7af0%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D67169B9C21F11ADBBDAE342EF1581471186165AD.106D8C8B23426F14930A399616624163598F1060%26key%3Dck1&amp;amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3Dd78dd29a7e9f7af0%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DY4vHWW_7NCFYGfjDM1lZ59VCMCQ&amp;amp;autoplay=0&amp;amp;ps=blogger"&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/get_player" type="application/x-shockwave-flash"width="320" height="266" bgcolor="#FFFFFF"flashvars="flvurl=http://v1.nonxt5.googlevideo.com/videoplayback?id%3Dd78dd29a7e9f7af0%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D67169B9C21F11ADBBDAE342EF1581471186165AD.106D8C8B23426F14930A399616624163598F1060%26key%3Dck1&amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3Dd78dd29a7e9f7af0%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DY4vHWW_7NCFYGfjDM1lZ59VCMCQ&amp;autoplay=0&amp;ps=blogger"allowFullScreen="true" /&gt;&lt;/object&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;    Chuva miudinha. O ar humedecido. Pingos minúsculos, pingos grossos e por fim chuva, chuva torrencial. O piso molhado, os carros a abrandarem, os vidros embaciados, os chapéus virados, o jardim transformado num lago, os bancos de madeira encharcados. Dois jovens sentados. E as pessoas a atravessarem o jardim, apressadas, escondidas no impermeável. A chuva que não pára e os jovens sentados, sem se importarem. Ele está deitado, com a cabeça no colo dela. Ela afaga-lhe o cabelo, sem nada dizer. Cabelo que pinga ainda mais sobre a roupa molhada. Uma senhora passa e observa-os, intrigada. Até ela se deixa ficar, apesar da chuva. Os jovens continuam a trocar festas, alheios aos pingos e ao movimento. A senhora admira-se, do quadro insólito. “ Desculpem, está mesmo frio, vocês estão ensopados. No mínimo, apanham uma valente constipação.” A rapariga levanta a cabeça, espantada. O rapaz levanta-se, sacudindo a água, que se acumulou neles. Os dois parecem apanhados de surpresa. “Confessem... não ouviram a chuva, pois não? Nem tão pouco a sentiram, já estou a ver...” Os jovens abraçam-se, rindo-se das roupas que pingam, dos cabelos colados ao rosto. “Isso é mesmo amor?”, pergunta a senhora. “Bem vê que é!”, responde a rapariga, divertida. “Que outra coisa poderia ser?”, acrescenta o rapaz. “Desejo-vos boa sorte”, diz a senhora, novamente consciente da chuva. O seu passo abranda, ao atravessar aquele jardim. O chapéu fecha-se e o lenço cai do cabelo, sob um sopro de vento. Momentaneamente, a chuva desaparece. São tempos de rapariga que lhe vêm à cabeça. Tempos em que não se podia apanhar chuva no jardim.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-1374796459302178055?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='enclosure' type='video/mp4' href='http://www.blogger.com/video-play.mp4?contentId=d78dd29a7e9f7af0&amp;type=video%2Fmp4' length='0'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/1374796459302178055/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=1374796459302178055' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/1374796459302178055'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/1374796459302178055'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/03/dia-de-chuva.html' title='Dia de chuva'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-5171072897648338587</id><published>2008-02-24T11:30:00.004Z</published><updated>2008-02-24T11:34:26.636Z</updated><title type='text'>Os fiéis súbditos</title><content type='html'>&lt;object width="320" height="266" class="BLOG_video_class" id="BLOG_video-6b4d784299820f39" classid="clsid:D27CDB6E-AE6D-11cf-96B8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/get_player"&gt;&lt;param name="bgcolor" value="#FFFFFF"&gt;&lt;param name="allowfullscreen" value="true"&gt;&lt;param name="flashvars" value="flvurl=http://v1.nonxt3.googlevideo.com/videoplayback?id%3D6b4d784299820f39%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D2AC030B68CEC283515B4FE6D929071F4F55A7033.2AEED94134879AD60CF3266D32025C910B1F80AF%26key%3Dck1&amp;amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3D6b4d784299820f39%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DtVPUomD_m-9EM3lURfIwY7uWkFU&amp;amp;autoplay=0&amp;amp;ps=blogger"&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/get_player" type="application/x-shockwave-flash"width="320" height="266" bgcolor="#FFFFFF"flashvars="flvurl=http://v1.nonxt3.googlevideo.com/videoplayback?id%3D6b4d784299820f39%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D2AC030B68CEC283515B4FE6D929071F4F55A7033.2AEED94134879AD60CF3266D32025C910B1F80AF%26key%3Dck1&amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3D6b4d784299820f39%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DtVPUomD_m-9EM3lURfIwY7uWkFU&amp;autoplay=0&amp;ps=blogger"allowFullScreen="true" /&gt;&lt;/object&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A vila dorme, pacata e tranquila, de átrios vazios, coretos fantasmas, largos silenciosos, janelas fechadas, persianas corridas. A neblina matinal corre, envolvendo o lugar, policiando o ar, as vistas, espreitando a ausência de movimento. Parece um lugarejo abandonado, assim tão quieto e parado. A neblina sabe que não tarda que a vida venha aí, a disparar por todas as ruas, a invadir os cantos da terra e sobretudo, a afugentá-la dali. É domingo de manhã, manhã que se aclara, que despe o orvalho e que aquece o ar. O padre acordou há muito tempo, despachou as rotinas habituais, vestiu a camisa branca, as calças cinzentas e as velhas sandálias, a mesma roupa de todos os dias, comentam as pessoas, coitado, que mal arranjado, nem gola de padre, nem coisa alguma, lá vai ele, em passo apressado, a atravessar o habitual domingo, a adiantar-se ao relógio da igreja, a preparar a homilia e a receber de braços abertos a população que veste o melhor fato e que espera por aquele momento como dia de festa, uns de convicção sincera, outros, por tradição ou por convívio. Ou apenas por curiosidade em conhecer o padre revolucionário, novo na freguesia, novo de aparência, novo nos hábitos e costumes daquela gente. Porque o padre prega de uma forma humana e bondosa. Porque o seu discurso é profundo e desculpabilizante. Ali, os crentes  sentem-se nas alturas, os que merecem e os indignos. São todos filhos de Deus, apesar de alguns cidadãos preferirem o direito à diferença e não entenderem como é que agora são confundidos com os outros. O padre mantém o tom calmo e baixo de voz e finge desconhecer estas hierarquias, dirigindo-se de forma igual a qualquer pessoa e mostrando sempre uma disponibilidade ilimitada para ouvir ou atender a problemas vários que vai tomando conhecimento no decorrer da sua pastorícia. Seja como for, o padre chega à conclusão, ao fim de algum tempo, que também ele tem que estabelecer prioridades na prática do bem, pois na terra, como em qualquer outro sítio, há miséria, pobreza, muita gente desfavorecida e desafortunada. O passo abranda durante a semana, cada vez mais as pessoas lhe pedem ajuda e conforto e o padre não tem mãos a medir, desde acudir aos velhotes que não têm meios de sobrevivência, resolvendo o que está ao seu alcance, pedindo ajuda à população, até passar tardes e tardes com pessoas sós e doentes, intervindo no meio de conflitos e guerras, fazendo a população dar as mãos, mesmo nas horas mais difíceis.&lt;br /&gt;    Como esta mania de espalhar e fazer o bem faz confusão a muita gente, sobretudo executada de forma tão singular e misteriosa, não reivindicando nada para si próprio nem falando de si mesmo, o padre começa a chamar a atenção de um grupo de pessoas, pelo simples acto de agir e viver de forma diferente. E eis senão quando, alguém é contratado como um espião, para fazer um relatório sobre as actividades diárias do padre. Até porque não se sabe nada da sua vida; não se abre, nem pede nada, apenas demonstra ter umas estranhas ideias.&lt;br /&gt;    O relatório finalmente chega, pejado de informação secreta. O padre não é nenhum criminoso, longe disso, revelam as fontes, mas tem uma mania incrível de se pendurar nas casas das pessoas e fazer-se convidado para almoçar. É aí que ele poupa, com o pretexto que é muito bonzinho, vai-se aproveitando das pessoas e sabe-se lá mais o quê... a má língua alastra, alastra e o padre começa a ser olhado de lado, por aqueles que não conhecem a sua bondade. Alguém  mais acirrado resolve interpelá-lo, questionando o seu modo de vida dúbio e ofendendo-o sobre a proveniência do seu sustento. As testemunhas indignam-se com o sucedido; conhecem a actividade do padre e já provaram da sua bondade, não tarda que chamem o resto da população à praça pública em sua defesa, contra um grupo minoritário que pensa expulsá-lo dali para fora. O padre ouve o alarido  e acorre à praça, percebendo estar no meio de uma guerra. Entre uns que o aclamam e outros que o vaiam, ele interpõe-se e comenta: “Sei que estais zangados por minha causa. Surpreendentemente, estou em conflito comigo mesmo e no meio dele, quando vos deveria ajudar a resolver os vossos. Agora sou eu que vos peço ajuda: se sair desta freguesia vou desagradar a maioria, se ficar vou descontentar  um grupo de vocês. Longe de mim semear a discórdia.”&lt;br /&gt;    A população pede contas ao padre: “ Mas afinal, o que é que andas a fazer, enfiado nas casa das pessoas?”  E conversam entre eles, sem estarem todos de acordo: “ Qual é o problema? O padre é muito educado, só aceitou por delicadeza. O que é que fazíamos? Almoçávamos à frente dele? Vê-se mesmo que não o conheces! Não acredito! Donde é que lhe vem o dinheiro? O que é que tens a ver com isso?”&lt;br /&gt;    O padre propõe-lhes uma solução: “Posso comer em minha casa. Tenho tudo para o fazer. Mas de facto, ando tão afadigado e preocupado convosco que nem penso nisso. Acontece assim, porque são gentis comigo. Mas podemos resolver este assunto de outra forma: irei almoçar a casa de toda a gente, cada dia numa casa diferente. Serei, à semelhança de Deus, omnipotente e omnipresente. O que acham?&lt;br /&gt;    A população fica em silêncio durante alguns minutos, até irromper numa enorme gargalhada conjunta. O grupo minoritário aproxima-se e dá uns estalos nas costas do padre, os outros sorriem de longe, acenando-lhe. Apesar de todas as diferenças, o padre despede-se, contente pelo acordo e convicto de que, no meio da barafunda, converteu outras pessoas, perdidas pelo caminho.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-5171072897648338587?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='enclosure' type='video/mp4' href='http://www.blogger.com/video-play.mp4?contentId=6b4d784299820f39&amp;type=video%2Fmp4' length='0'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/5171072897648338587/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=5171072897648338587' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/5171072897648338587'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/5171072897648338587'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/02/os-fiis-sbditos.html' title='Os fiéis súbditos'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-6786865457321765014</id><published>2008-02-19T11:23:00.011Z</published><updated>2008-02-19T22:31:36.392Z</updated><title type='text'>O final do Verão</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R7q8TwQsEVI/AAAAAAAABoo/kj8XW2e-YS8/s1600-h/bonnard1_8559.JPG"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://4.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R7q8TwQsEVI/AAAAAAAABoo/kj8XW2e-YS8/s400/bonnard1_8559.JPG" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5168650569919500626" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;É quase fim de tarde, quase fim de Verão e as crianças brincam no parque, vigiadas pelos adultos, que aproveitam para fazer uma pausa. Duas mulheres encontram-se, no meio dos risos, dos pulos, da gritaria, das tropelias que correm por ali, no meio dos raios de sol que iluminam, agora já ténues, o amplo cenário. Trocam beijos rápidos sem ousarem tirar os óculos escuros, ambas conhecem de cor as silhuetas, à distância já se tinham reconhecido, uma de cabelo liso preto e franja, sentada no banco do jardim a ajeitar o penteado da filha, o outro filho a subir e descer escorregas, e ela sentada, a observar a segunda mulher que se aproxima, cabelo preto aos caracóis, redonda e baixa, passos curtos e rápidos, a esconder o desagrado atrás dos óculos, um sorriso mudo que lhe estica os lábios até se notar. Um encontro acidental, minutos depois forçado, apenas à espera que as crianças se cansem dos baloiços e das casinhas e que o jardim seja abandonado de vez pela luz do dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R7q8jwQsEWI/AAAAAAAABow/pi8COmqf3CE/s1600-h/bonnard_normandie.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://4.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R7q8jwQsEWI/AAAAAAAABow/pi8COmqf3CE/s400/bonnard_normandie.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5168650844797407586" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Estás boa?&lt;br /&gt;- Vai-se andando...&lt;br /&gt;A mulher dos caracóis fecha-se em resposta monossilábicas e finge contemplar o horizonte, apesar de a outra nunca se calar.&lt;br /&gt;- Então, puseste os miúdos noutra piscina? Fizeste mal, esta é muito melhor. Os meus estão a nadar muito bem. São muito competitivos. Os teus, também são assim? Desististe? Que pena. A tua filha tinha jeitinho. Lá estão os nossos miúdos com a mesma professora não é? É um bocadinho mole demais, o meu filho goza com ela e com a matéria, é tudo tão fácil, penso que a professora nem chega a perceber. Estou aflita com os horários, vais ver quando lá chegares, as tuas ainda são novas. Depois vais sentir na pele, é um para cada lado, as actividades extra-curriculares, as actividades ao Sábado... o meu marido quer desistir, imagina, vai sempre pela solução mais fácil... mas até se faz bem.... é preciso vontade... toma-se o pequeno almoço, lê-se o jornal, espera-se por um e vai-se buscar o outro de seguida. O Rudolfo? Aquele colega dos nossos? Inteligente? Achas? Nunca reparei... bem o meu é fantástico, já te disse, devia estar dois anos à frente... se calhar são este currículos, não estão bem feitos... mas a mãe dele é aflitiva, sempre com medo que lhe aconteça alguma desgraça... os meus são muito mais independentes... enfim... fiz agora uma ecografia de rotina... tanto tempo à espera... não percebem que tenho de dizer no emprego que vou fazer um exame, tento ser discreta e depois espero duas horas para o fazer... de bexiga cheia, é indecente... se está tudo bem? Não sei, parece que sou capaz de ter um problemazito, nada de grave, realmente estou é desorientada com este início de ano lectivo...&lt;br /&gt;A mulher dos caracóis pretos abafa a irritação e aconselha-a a ter calma, que tente resolver um assunto de cada vez e que acima de tudo, vigie a sua saúde. Aliviada por ver a escuridão, despede-se da mulher do cabelo liso e das crianças que fingem não a conhecer.&lt;br /&gt;O ano lectivo decorre, sem grandes atropelos. O Verão chega e ainda antes das férias, os pais inscrevem os filhos em actividades para os tempos livres, ganhando tempo para finalmente se juntarem em família e gozarem juntos o merecido descanso.&lt;br /&gt;A mulher do cabelo liso deixou de aparecer, como antes, a consultar as notas dos filhos dela e dos outros, a tecer comentários indevidos à frente de toda a gente e a construir intrigas a propósito do mais ínfimo pormenor.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R7q8wQQsEXI/AAAAAAAABo4/z_Sad4rX7VQ/s1600-h/bonnard__triptych_hermitage.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://2.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R7q8wQQsEXI/AAAAAAAABo4/z_Sad4rX7VQ/s400/bonnard__triptych_hermitage.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5168651059545772402" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O Verão ainda dura, quando as férias acabam e as crianças voltam àquele jardim, gozando os últimos cartuchos ainda antes da escola começar. Os adultos estão sentados nos bancos a ler, a conversar,  em pé, a observar, a circular, mas a mulher dos caracóis não encontra a mulher dos cabelos lisos. Lembrou-se dela, porque nunca mais a viu ou ouviu aquele monólogo interminável e vazio. Há pouco tempo julgou vê-la, a silhueta era igual, as roupas parecidas, estava rodeada de crianças e metia conversa com as pessoas que estavam mais próximas. Tirou os óculos ao longe e franziu os olhos, sob a luz do sol. Parecia mesmo ser ela. Apressou os passitos curtos e sentiu até uma certa curiosidade. Como estaria? Ao aproximar-se percebeu que se tinha enganado. Era uma franja curta, um cabelo liso, uma cara semelhante. Reconheceu os seus filhos, que brincavam no parque. Voltou para trás sem querer ser reconhecida. O Verão chegava ao fim, de forma diferente. Respirou fundo e pensou que no final de contas, ouvir os monólogos infernais da mulher do cabelo liso não lhe tinha custado assim tanto, pior era ver o ar desalentado com que os seus filhos brincavam naquele dia.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-6786865457321765014?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/6786865457321765014/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=6786865457321765014' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/6786865457321765014'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/6786865457321765014'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/02/quase-fim-de-tarde-quase-fim-de-vero-e.html' title='O final do Verão'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R7q8TwQsEVI/AAAAAAAABoo/kj8XW2e-YS8/s72-c/bonnard1_8559.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-7259852948846781430</id><published>2008-02-19T11:11:00.010Z</published><updated>2008-02-19T11:21:23.384Z</updated><title type='text'>O gato preto</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R7q5bAQsEOI/AAAAAAAABnw/D65tLf8d35k/s1600-h/images-2.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R7q5bAQsEOI/AAAAAAAABnw/D65tLf8d35k/s400/images-2.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5168647395938668770" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Dou conta de mim a abrir janelas, sem vergonha do pó, das teias de aranha, dos baús fechados, de uma casa que mora em mim, arredada de todos os quarteirões, ainda assim, dentro da cidade, dentro de portas, dentro de paredes grossas que ninguém vê. Habituei-me a fazê-lo desde aquele dia em que puseram em causa o meu futuro. O meu e o dos outros. Só acreditei realmente quando vi o tapete das mentiras; um longo tapete vermelho, retirado dos filmes e lá ao fundo, a promessa de um Óscar, se não saísse da linha. Do tapete vermelho, é claro.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;De dia, habito um edifício cá fora, uma estrutura gigante, com vários andares e pessoas, que trabalham como eu. Circula-se ali como noutro sítio qualquer; temos ideia uns dos outros - no fundo o que cada um quer a dar a conhecer de si próprio– e lá nos posicionamos de forma confortável. À espera do dia seguinte, de outro e de outro, até completar um ciclo. Depois uma pausa. Breve, outra longa. Abraçando uma rotina segura, de linhas definidas.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R7q7GAQsEUI/AAAAAAAABog/VtTbSnso6GU/s1600-h/images.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R7q7GAQsEUI/AAAAAAAABog/VtTbSnso6GU/s400/images.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5168649234184671554" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Já me disseram o que vai acontecer; abri janelas, como já disse, vejo caras à minha frente, de ânimos sobressaltados, uns exaltados, outros apreensivos. De repente, partimos todos do zero, unidos por um problema comum. Não há obstáculo que seja intransponível, quando ninguém quer acatar o que vem aí. As palavras ocultam mil sentidos, inscritas num jogo. Palavras cruzadas, descubra você as diferenças; o gato atira-as para o ar subestimando o rato amedrontado, que acordou tarde, mas que mesmo assim se agarra à toca. Atrás está a esperança a puxar todos para a frente; tem mangas arregaçadas, coloca-se na linha de partida, pronta para a maratona que vem aí. Uma maratona ao lado dos gatos pretos, corredores de fundo, experientes e avisados.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Estou na plateia, com o coração aos saltos, há quem seja sensível e prefira não ver, mas eu esbugalho os olhos, tentando antecipar o que vai acontecer. Partida, largada, fugida. Os prédios estão fechados, a cidade deserta. Está tudo em praça pública, a assistir ao desfecho da corrida. Esperança ou gato preto?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R7q6OAQsESI/AAAAAAAABoQ/q_3rWnzF_Ps/s1600-h/images-4.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R7q6OAQsESI/AAAAAAAABoQ/q_3rWnzF_Ps/s400/images-4.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5168648272111997218" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Anoitece a passos largos e estou meio estonteado a ver os concorrentes às voltas no estádio; ainda ninguém desistiu, mas nem consigo perceber bem; os gatos pretos confundem-se com a noite, podem até abalroar a esperança e deixá-la para trás. Ninguém vai ver.&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Olho à volta e o estádio começa a ficar deserto. Ao longe, a cidade volta a ganhar vida; as luzes acendem-se, os carros partem, as pessoas cansam-se do espectáculo a que prometeram assistir. Sobretudo as da equipa da esperança. Quando alguém lhes pergunta sobre o evento, confessam-se entediadas com tanta volta. Que não participaram, porque não havia nada para participar, não bateram palmas, nem gritaram pela equipa.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Está escuro naquele estádio, longe de tudo. A esperança está sozinha, sentada a um canto, esbaforida com a longa prova. Quando lhe tento tocar, para a confortar, some-se-me entre os dedos, sem um único gemido.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R7q6VgQsETI/AAAAAAAABoY/n8hpNaBx9fc/s1600-h/images-3.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R7q6VgQsETI/AAAAAAAABoY/n8hpNaBx9fc/s400/images-3.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5168648400961016114" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Chego a casa já tarde, ainda esta de janelas abertas, em corrente de ar, tal como a tinha deixado de manhã. Passo a arejar a casa durante todo o dia; quando o tempo está bom, durmo assim, em contacto directo com o ar. Amanhã não sei o que vai acontecer, mas com tanta janela aberta, não me importa; mais espirro, menos espirro, tudo acaba por passar.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-7259852948846781430?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/7259852948846781430/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=7259852948846781430' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/7259852948846781430'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/7259852948846781430'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/02/o-gato-preto.html' title='O gato preto'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R7q5bAQsEOI/AAAAAAAABnw/D65tLf8d35k/s72-c/images-2.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-6722260760964048375</id><published>2008-02-17T18:35:00.003Z</published><updated>2008-02-17T18:42:15.640Z</updated><title type='text'>Ano mágico</title><content type='html'>&lt;object width="320" height="266" class="BLOG_video_class" id="BLOG_video-dc3c2dd5e2c099da" classid="clsid:D27CDB6E-AE6D-11cf-96B8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/get_player"&gt;&lt;param name="bgcolor" value="#FFFFFF"&gt;&lt;param name="allowfullscreen" value="true"&gt;&lt;param name="flashvars" value="flvurl=http://v16.nonxt1.googlevideo.com/videoplayback?id%3Ddc3c2dd5e2c099da%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D35B474D22F3D3EF4005A69BCE6A7D18C0067D5BB.386853B8F6ABA03CC8DE778134A5C3B4C0106E5D%26key%3Dck1&amp;amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3Ddc3c2dd5e2c099da%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DmMwleb0-UsmvMjMxEepEBCGa4SA&amp;amp;autoplay=0&amp;amp;ps=blogger"&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/get_player" type="application/x-shockwave-flash"width="320" height="266" bgcolor="#FFFFFF"flashvars="flvurl=http://v16.nonxt1.googlevideo.com/videoplayback?id%3Ddc3c2dd5e2c099da%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D35B474D22F3D3EF4005A69BCE6A7D18C0067D5BB.386853B8F6ABA03CC8DE778134A5C3B4C0106E5D%26key%3Dck1&amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3Ddc3c2dd5e2c099da%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DmMwleb0-UsmvMjMxEepEBCGa4SA&amp;autoplay=0&amp;ps=blogger"allowFullScreen="true" /&gt;&lt;/object&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;    Dia de aniversário. São quase todos os dias assim. Dias em pleno, repletos de movimento, um mar de prendas, um mar de gente, os pedidos atendidos, os desejos satisfeitos e um horizonte longínquo, aparentemente vazio, com uma luz por agarrar. Os deveres que se vão cumprindo, sem vontade, nem prazer. E a luz a chamar, a chamar. Os gostos que se experimentam, e que cedo aborrecem. A natação, o futebol, a esgrima, a vela, o inglês, a música, os computadores e a escola. Anos a fio, sentado à porta do horizonte longínquo, a admirar o brilho da luz mágica. Um curso por acaso e uma profissão feita à pressa, depois outra, outra e ainda mais outra. Uma casa feita por magia, um tropeço na mulher e nos filhos, a responsabilidade a apertar, o tédio a espreitar e a tentação de regressar ao dia do aniversário, ao monte de prendas recebido, à escuridão de gentes e desejos. Um fio de luz à vista e a partida à descoberta de outros gostos que não se façam desgostos. Sem parar, sem parar. Pelo caminho, os olhares, que aos poucos, largam as prendas, os desejos e as gentes. À frente dele, o horizonte gigante, de tão perto estar. A suar, a suar, a luz que se  atinge e se extingue, o horizonte que se desfaz e a surpresa de não existir mais nada para além de ele próprio.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-6722260760964048375?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='enclosure' type='video/mp4' href='http://www.blogger.com/video-play.mp4?contentId=dc3c2dd5e2c099da&amp;type=video%2Fmp4' length='0'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/6722260760964048375/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=6722260760964048375' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/6722260760964048375'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/6722260760964048375'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/02/ano-mgico.html' title='Ano mágico'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-1431119601286204487</id><published>2008-02-17T18:19:00.002Z</published><updated>2008-02-17T18:35:45.028Z</updated><title type='text'>A pausa</title><content type='html'>&lt;object width="320" height="266" class="BLOG_video_class" id="BLOG_video-24f70de8782c7065" classid="clsid:D27CDB6E-AE6D-11cf-96B8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/get_player"&gt;&lt;param name="bgcolor" value="#FFFFFF"&gt;&lt;param name="allowfullscreen" value="true"&gt;&lt;param name="flashvars" value="flvurl=http://v21.nonxt5.googlevideo.com/videoplayback?id%3D24f70de8782c7065%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D2F73269DF714DF23E721DC5036C512BF50118153.5DA89B79718D027AE261B170804BDFC7151051D5%26key%3Dck1&amp;amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3D24f70de8782c7065%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DMPcet2jKNf4Yl6QOkAJDCFnEI44&amp;amp;autoplay=0&amp;amp;ps=blogger"&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/get_player" type="application/x-shockwave-flash"width="320" height="266" bgcolor="#FFFFFF"flashvars="flvurl=http://v21.nonxt5.googlevideo.com/videoplayback?id%3D24f70de8782c7065%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D2F73269DF714DF23E721DC5036C512BF50118153.5DA89B79718D027AE261B170804BDFC7151051D5%26key%3Dck1&amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3D24f70de8782c7065%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DMPcet2jKNf4Yl6QOkAJDCFnEI44&amp;autoplay=0&amp;ps=blogger"allowFullScreen="true" /&gt;&lt;/object&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;    O carro acelera, em direcção à capital. Vertiginosamente. Atafulhado em compromissos e tarefas a cumprir, às vezes sobrepostas, aparece ele, no alto das escadas, a arfar, a arfar, como se todos os dias atingisse o topo do destino. “Vamos a isto?” O ritmo cardíaco finalmente normaliza, dentro de um sorriso cristalizado, quase imperceptível. Queimam-se minutos, horas e o dia passa por ele, invisível, fantasma, como todas os outras pessoas que o rodeiam. O regresso a casa deixa-o cansado, ao volante do carro, quilómetros para cumprir, um compasso de espera perigoso, tempo livre que não se adivinha, as ideias a nascerem de todos os cantos, a misturarem-se, desordenadamente. Uma estranha sensação, com ele a desmoronar-se. Um homem feito de cacos. A velocidade aumenta, súbita e bruscamente, interrompendo o pensamento, até chegar a casa. A mesa já posta, o jantar a fumegar, os beijos rápidos, o sorriso máscara, que nada deixa ver, a família em redor e tudo a parecer-lhe muito ao longe, como um ruído de fundo; a algazarra das crianças, a mulher a falar sozinha, a casa enorme, cheia de cantos que ele mal conhece. Um outro dia a nascer, o carro a precipitar-se sobre a estrada, para lá, para cá, as horas a acelerarem dentro dele, a chegada a casa e o ruído de fundo cada vez mais forte, tão forte que se torna insuportável. O sorriso envernizado transforma-se em dor repentina e ele cai, estatelado no chão. As crianças param de brincar e a mulher dá conta do barulho. É assunto sério e ainda desconhecido. Entre hospital e casa, o desagradável episódio é controlado, mas o carro deixa de se fazer à estrada, o ruído de fundo desaparece e ele descobre a família à volta, naquele espaço que lhe parece novo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-1431119601286204487?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='enclosure' type='video/mp4' href='http://www.blogger.com/video-play.mp4?contentId=24f70de8782c7065&amp;type=video%2Fmp4' length='0'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/1431119601286204487/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=1431119601286204487' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/1431119601286204487'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/1431119601286204487'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/02/pausa.html' title='A pausa'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-7411273582543899783</id><published>2008-02-13T10:58:00.004Z</published><updated>2008-02-13T11:07:01.550Z</updated><title type='text'>O namoro</title><content type='html'>&lt;object width="320" height="266" class="BLOG_video_class" id="BLOG_video-c5ef8f70aa49d643" classid="clsid:D27CDB6E-AE6D-11cf-96B8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/get_player"&gt;&lt;param name="bgcolor" value="#FFFFFF"&gt;&lt;param name="allowfullscreen" value="true"&gt;&lt;param name="flashvars" value="flvurl=http://v21.nonxt7.googlevideo.com/videoplayback?id%3Dc5ef8f70aa49d643%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D36A11C7610CFFE762AC3F52AB888F8E76A7D0A25.2C00EAC2C491B6AE61A0695C2D98CC7C16245633%26key%3Dck1&amp;amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3Dc5ef8f70aa49d643%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DthqCtmQSwK9pJrcGnXiSwqSsnak&amp;amp;autoplay=0&amp;amp;ps=blogger"&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/get_player" type="application/x-shockwave-flash"width="320" height="266" bgcolor="#FFFFFF"flashvars="flvurl=http://v21.nonxt7.googlevideo.com/videoplayback?id%3Dc5ef8f70aa49d643%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D36A11C7610CFFE762AC3F52AB888F8E76A7D0A25.2C00EAC2C491B6AE61A0695C2D98CC7C16245633%26key%3Dck1&amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3Dc5ef8f70aa49d643%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DthqCtmQSwK9pJrcGnXiSwqSsnak&amp;autoplay=0&amp;ps=blogger"allowFullScreen="true" /&gt;&lt;/object&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;    Duas crianças falam sobre a vida. Sobre o que aconteceu neste dia e na semana antes. Como os adultos, vão buscar o começo da história, que pode ter sido há mais tempo do que possamos imaginar. Também como os adultos, falam às vezes, dos mesmos assuntos. Hoje falam sobre namoradas; nenhum deles as tem, mas trocam opiniões; ouvem e vêem os adultos, sabem pelos colegas; também estes comentam, a torto e direito, gabando-se de proezas, muitas vezes sem fundamento. Curiosamente, sempre há um ou outro, que, apesar da tenra idade, consegue roubar um beijo e um abraço apertado, à rapariga que passou ao lado. As meninas não são, todavia, indiferentes a esta abordagem; as mais atrevidas escolhem-nos ainda antes de eles as verem. Preparam o terreno, com risinhos e bilhetinhos, e jogam com os rapazes, às vezes, sem dar beijos e abraços. No fim, voltam a brincar com as outras raparigas, às casinhas, aos pais e às mães. “Se calhar é isso”, diz uma das crianças. “Por isso é que elas nos querem abraçar... é para fazer como os pais e as mães.”  E responde o outro: “E os que as abraçam, também brincam ao mesmo... que horror, brincar com as meninas!” Ambos se olham e se largam a rir. Afinal, os colegas fanfarrões apenas imitam as brincadeiras das meninas. Vão ser excomungados do clube masculino; proibidos de jogar à bola ou fazer outras tropelias. Ainda por cima, conta uma das crianças, às vezes ficam doentes. O ano passado, o melhor amigo dele abraçou a gorda lá da escola e apanhou varicela. Tudo por causa da gorda. Sentados no sofá, as duas crianças abanam a cabeça, perplexos com os mistérios do namoro.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-7411273582543899783?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/7411273582543899783/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=7411273582543899783' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/7411273582543899783'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/7411273582543899783'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/02/o-namoro.html' title='O namoro'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-8203183355231894220</id><published>2008-02-13T09:23:00.005Z</published><updated>2008-02-13T09:35:35.845Z</updated><title type='text'>O pequeno pianista</title><content type='html'>&lt;object width="320" height="266" class="BLOG_video_class" id="BLOG_video-87ffb7eafc06861" classid="clsid:D27CDB6E-AE6D-11cf-96B8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/get_player"&gt;&lt;param name="bgcolor" value="#FFFFFF"&gt;&lt;param name="allowfullscreen" value="true"&gt;&lt;param name="flashvars" value="flvurl=http://v4.nonxt7.googlevideo.com/videoplayback?id%3D087ffb7eafc06861%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D5850225DDAAE47EC5379EAD950355235EC8AA08E.3BD3E4FAC7771A3ED5D0D4167D470E6A9FE8A241%26key%3Dck1&amp;amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3D87ffb7eafc06861%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DQQ8xrEiF2w-Oa8YcgY9N0M26ElU&amp;amp;autoplay=0&amp;amp;ps=blogger"&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/get_player" type="application/x-shockwave-flash"width="320" height="266" bgcolor="#FFFFFF"flashvars="flvurl=http://v4.nonxt7.googlevideo.com/videoplayback?id%3D087ffb7eafc06861%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D5850225DDAAE47EC5379EAD950355235EC8AA08E.3BD3E4FAC7771A3ED5D0D4167D470E6A9FE8A241%26key%3Dck1&amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3D87ffb7eafc06861%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DQQ8xrEiF2w-Oa8YcgY9N0M26ElU&amp;autoplay=0&amp;ps=blogger"allowFullScreen="true" /&gt;&lt;/object&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; Conhecem-se há muito tempo. Desde a altura em que ele brincava com o irmão dela, com os carrinhos e soldadinhos enquanto ela conversava com a irmã dele, penteando ao mesmo tempo as barbies da época. Tudo se passava em quartos separados, meninas para um lado, meninos para outro. O rapaz tocava piano no seu quarto, inundando a casa com sons mágicos. Ela ouvia-os, e mesmo a meio de uma conversa mais séria com a amiga, não resistia a interrompê-la e correr ao quarto do irmão, apanhando-o em flagrante. O rapaz corava, mas o música falava mais alto, fazendo-o voar sobre o instrumento, a criar melodias novas, a explorar harmonias diferentes, a revelar-se a si próprio. A irmã continuava no quarto, a vestir a boneca. O som que ouvia era habitual e apenas sinal da presença do irmão. Estranho seria, se ele aparecesse  no quarto dela, a falar em voz alta.&lt;br /&gt;O par de irmãos que estavam de visita viam-no descer do banco, sacudir os ombros e num sorriso desajeitado dizer “São umas músicas que ando a inventar. Umas maluquices. Vamos jogar?”&lt;br /&gt;   Os anos passam e os fins de semana atravessam tardes em casa de uns e outros, modificando-se as conversas e as brincadeiras, inclusive a do piano, que passa a ser o velho piano e que acaba por se perder no meio de um leilão qualquer. Quando se encontram, conversam à mesma no quarto de cada um, mas já não existem as bonecas os carrinhos, os jogos, os concursos inventados nem o velho piano, fala-se antes de coisas de rapazes e de raparigas, muito em segredo.&lt;br /&gt;   Atingindo a idade casadoira, aparecem os respectivos pares, tudo a condizer, o amor, o vestido, a rapariga, o rapaz, a boda e o promissor futuro de uma vida a dois, numa linda casinha, grande e cheia de luz, um ninho acolhedor quase finalizado; sobra a escolha de alguns móveis, cortinados e a hipótese de um piano lá caber, a casa é grande e existe um canto magnífico para tal, a esposa franze o sobrolho, já não se usa, são coisas do século passado, agora há móveis muito mais bonitos, os antiquários, os antiquários, estão cheios de relíquias. O rapaz vestido de homem assume esta nova condição, são vidas que ficam para trás, enterradas num canto sem tabuleta, sente até dificuldade em recordar os dois irmãos que lá iam a casa e os sons que atravessavam as fissuras das portas.&lt;br /&gt;   A menina nasce e a esposa continua em casa, à espera que ele chegue, para tratar da criança e de todos os assuntos que ficam por resolver; pergunta-se ele o que andará ela a fazer durante o dia para andar com a cara enjoada e mal disposta, como se o tédio fosse um micróbio contagioso e se tornasse, ainda por cima, doença crónica. O rapaz, de entradas no cabelo mais pronunciadas e de estômago dilatado a aparentar felicidade e bem-estar, age com delicadeza, tornando a doença crónica invisível a qualquer par de olhos, especialmente os da filha. Preocupado com a educação da menina, entra em conflito diplomático com a esposa; a filha vai aprender a tocar piano, música é importante para o desenvolvimento da criança, horror, horror, que barulheira lá em casa, já leste artigos sobre isso? É fundamental. Nunca mais vens para casa, é o espaço para o piano, é a menina a chegar tarde e eu ali à espera de vocês os dois.&lt;br /&gt;   Os olhos do rapaz homem encovam-se ainda mais, sob o rosto envelhecido prematuramente. Um dia, a família sai à rua e encontra por acaso a amiga de infância. Ele reconhece-a pelo ar vivo e sorridente, ela caça-lhe a altura e os olhos escuros e pequeninos. Caça-lhe ainda, à socapa, um sorriso cúmplice.&lt;br /&gt;-    Há quanto tempo!&lt;br /&gt;-    É verdade!&lt;br /&gt;-    Estás bem?&lt;br /&gt;-    Vai-se andando...&lt;br /&gt;-    E a menina? Está tão grande!&lt;br /&gt;-    E está a aprender a tocar piano...&lt;br /&gt;-    A sério? E tu? Ainda tocas?&lt;br /&gt;O homem encolhe os ombros, a sacudir a tristeza. Salta a tabuleta sem nome sobre o canto atafulhado de pó e terra e enquanto os olhares se cruzam, a terra rebenta sob o ímpeto de um vulcão, até ali adormecido. A amiga despede-se, sentindo que tocou numa corda sensível. Ele continua a andar no mesmo passeio, de mão dada com a filha. De vez em quando, espreita a mulher. Esta conhece a história do vulcão adormecido, adivinhou-a em sonhos, em pequenos sinais que ele dava, vestígios de outra existência. Teve medo, pela primeira vez. Despiu a doença crónica e tudo o que antes considerara aberrante parecia-lhe agora magnífico. Podia, nesta perspectiva, levar uma vida de sonho, à espera deles.&lt;br /&gt;O homem perdeu peso, a altura perdeu-se de vista, o rosto desinchou, evidenciando ainda mais as rugas da cara. A casa é diferente, pela primeira vez; um espaço único sem portas, com as janelas frequentemente abertas. Duas camas de solteiro e um piano. A filha lá de vez em quando, a mexer no piano, a descobrir sons.&lt;br /&gt;Pouco mais.&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-8203183355231894220?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='enclosure' type='video/mp4' href='http://www.blogger.com/video-play.mp4?contentId=87ffb7eafc06861&amp;type=video%2Fmp4' length='0'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/8203183355231894220/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=8203183355231894220' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/8203183355231894220'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/8203183355231894220'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/02/o-pequeno-pianista.html' title='O pequeno pianista'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-4974974108588299522</id><published>2008-02-10T12:28:00.000Z</published><updated>2008-02-10T12:32:53.714Z</updated><title type='text'>A assembleia</title><content type='html'>&lt;object width="320" height="266" class="BLOG_video_class" id="BLOG_video-1c6bb2725b503c5f" classid="clsid:D27CDB6E-AE6D-11cf-96B8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/get_player"&gt;&lt;param name="bgcolor" value="#FFFFFF"&gt;&lt;param name="allowfullscreen" value="true"&gt;&lt;param name="flashvars" value="flvurl=http://v13.nonxt5.googlevideo.com/videoplayback?id%3D1c6bb2725b503c5f%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D467E0E5E59A207576D0D5BDD1FA17FE87A95D794.5AB4B5972FBC79DB3331BB741A1711717C9CB21A%26key%3Dck1&amp;amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3D1c6bb2725b503c5f%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DHJDBdpRV9YKACEzsYk7I1vJ_2y8&amp;amp;autoplay=0&amp;amp;ps=blogger"&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/get_player" type="application/x-shockwave-flash"width="320" height="266" bgcolor="#FFFFFF"flashvars="flvurl=http://v13.nonxt5.googlevideo.com/videoplayback?id%3D1c6bb2725b503c5f%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D467E0E5E59A207576D0D5BDD1FA17FE87A95D794.5AB4B5972FBC79DB3331BB741A1711717C9CB21A%26key%3Dck1&amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3D1c6bb2725b503c5f%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DHJDBdpRV9YKACEzsYk7I1vJ_2y8&amp;autoplay=0&amp;ps=blogger"allowFullScreen="true" /&gt;&lt;/object&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O espaço é neutro, desconhecido para ambas as partes, de utilização multifacetada, de cadeiras alinhadas, com aspecto novo, palco imaculado, as memórias apagadas, as referências misturadas, os espectáculos que aconteceram, as orquestras, os solistas, o teatro da escola, as reuniões, as conferências, a festa de final de período, de final de ano daquela e de outras escolas. Um espaço aberto ao exterior, receptáculo de vários públicos que vêm e vão, alinhados por gosto, por opção e às vezes por carácter obrigatório.&lt;br /&gt;Hoje estão três cadeiras atrás de uma mesa, em cima do palco. Não é nenhuma encenação teatral, nem a imitação da Santíssima Trindade; é a configuração de uma oratória que vai tomar a tarde por inteiro, com toda a legalidade; o poder tomou forma humana e saiu à rua, a querer saber o que se diz por aí. Da falta de ar que circula nos gabinetes nasceu uma deficiência que condiciona actos e procedimentos; ver mais além, além do que a visão humana pode atingir, correr até lá primeiro que os outros, perder os ouvidos pelo caminho, correr, correr, tornar-se sobre-humano neste percurso, adiantar-se no tempo sem lhe pedir licença, tomar o lugar sem o coração se cansar. Já chegaram, o pódio espera-os; cadeiras vulgares, de pó espanado, acolhem mudas e quedas o peso dos juízes de batinas invisíveis e vozes arrogantes.&lt;br /&gt;A reunião começa, com regras na mesa. Há um microfone fixo, de pé alto, em frente de todos, para quem se quer lamentar. As queixas e protestos também devem ser ordenadas, faça-se uma fila e comece-se com as exposições, de forma civilizada. Nome e profissão, a caneta aponta o nome dos sem rosto, que ganham expressão durante escassos minutos. Dúvidas, perguntas, pedidos, esclarecimentos; o supremo júri ouve com os ouvidos desligados, conta minutos perdidos, agarra-se ao mesmo tom de voz, para que ninguém se esqueça de quem é que manda; responde às avessas, jogo de gato poderoso a desprezar ratos imberbes, trolhas desnorteados.&lt;br /&gt;É fim de tarde e o ar está saturado dentro do espaço. As faces da plateia estão rosadas, indignadas, as bocas protestam, mesmo com a voz calada. Alguém diz, em tom oficial, que o diálogo terminou, agradecendo a participação de todos. O desagrado, preso e amarfanhado, sai estonteado, à procura de ar novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-4974974108588299522?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='enclosure' type='video/mp4' href='http://www.blogger.com/video-play.mp4?contentId=1c6bb2725b503c5f&amp;type=video%2Fmp4' length='0'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/4974974108588299522/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=4974974108588299522' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/4974974108588299522'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/4974974108588299522'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/02/o-espao-neutro-desconhecido-para-ambas.html' title='A assembleia'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-2907019265491038415</id><published>2008-02-06T10:43:00.001Z</published><updated>2008-03-06T18:12:12.921Z</updated><title type='text'>O caminho das ervas</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R9Az6esPkuI/AAAAAAAABrs/FyHyQbLG8v8/s1600-h/22.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R9Az6esPkuI/AAAAAAAABrs/FyHyQbLG8v8/s400/22.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5174693051612762850" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Caminha alto e curvado, olhos postos no chão, cabelo liso a tapar a cara, caminha entretido consigo, com aquilo que vai fazer, resvala nos outros com delicadeza, tropeça sem querer, mas sem vacilar caminha, a seguir o carreiro das ervas pisadas, das ervas que o protegem de uma vida inteira; enfiado na quinta por gosto, teme a altura do seu corpo, os olhos verdes que vêem tudo, que leram o mundo inteiro que está para trás, os antigos, os outros, os recentes e os demais. São teias que lhe são adversas, universos previsíveis para quem sabe que a história é cíclica e se repete; pinta sonhos e esculpe visões; dentro do perímetro da quinta reinventa a vida, a par dos animais abandonados que vai recolhendo e das plantas que vai mimando.&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;As pessoas ficam de fora, a bater-lhe à porta. Acenam-lhe e convidam-no a saltar o portão, entre truques e armadilhas, mas é inútil. Apenas ouvem o eco de uma rocha bruta que se aninha em si, bondade que se apregoa, despido de vaidades e defeitos, alvo de respeito mas também de estranheza sentida à distância; ainda bem que é dentro da quinta, apenas a casa, o pomar e o jardim à volta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R6mQV3bimZI/AAAAAAAAAic/OzRfnbLH1mY/s1600-h/sc00167e6701.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R6mQV3bimZI/AAAAAAAAAic/OzRfnbLH1mY/s400/sc00167e6701.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5163817153088100754" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Ele caminha, agora mais curvado, por caminhos que sempre fez, longe dos outros, em terra de ninguém. Murcha sem dar conta; desprende-se da fala, o andar é mais lento, já não tropeça mas vacila, quase gentilmente, nas raras ocasiões em que passa por pessoas. Às vezes ainda o chamam, lá de longe, os outros que caminham sem parar. Que salte o portão, dizem. Que olhe em frente. Ou então, que o abra. Está apenas fechado no trinco. O dia está pintado de várias cores, de tão aberto ao sol. Vem ver.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O nariz sopra a melena grisalha sobre o olho verde, que quer correr atrás. Sem sombra de hesitação. As pernas ainda tentam o movimento, mas colam-se ao chão das ervas pisadas, sem dar mais uma passada. Pelo canto, o outro olho ainda vê o grupo de pessoas a afastar-se por ali abaixo, envolto numa nuvem de pó, levantada pela estrada de terra batida.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-2907019265491038415?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/2907019265491038415/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=2907019265491038415' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/2907019265491038415'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/2907019265491038415'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/02/o-caminho-das-ervas.html' title='O caminho das ervas'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R9Az6esPkuI/AAAAAAAABrs/FyHyQbLG8v8/s72-c/22.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-4065725360559615107</id><published>2008-02-06T10:35:00.000Z</published><updated>2008-02-06T10:42:50.489Z</updated><title type='text'>Os óculos</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R6mNr3bimUI/AAAAAAAAAh0/VU9NJqcJN2E/s1600-h/t1402.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R6mNr3bimUI/AAAAAAAAAh0/VU9NJqcJN2E/s400/t1402.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5163814232510339394" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Ela ajusta os óculos, querendo ver melhor. Os olhos pestanejam mil vezes por minuto. Entre este desajuste de óculos a descaírem e olhos que franzem sem querer, nasce um gesto brusco, que tira os óculos da cara e esfrega os olhos por muito tempo. Abre-os novamente. Não está, de facto, a sonhar.&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mãe saiu por alguns dias; deixou-a ali, em casa de pessoas simpáticas, que ela mal conhece. O pai fugiu a sério, desta vez, sem avisar ninguém. A mãe usa óculos a três dimensões; protege-se destes e de outros males descobrindo novas perspectivas. Sem nunca pestanejar, segue em frente, mesmo por estrada má. Como filha, não há muito a fazer; é seguir atrás da mãe, evitando os buracos da estrada, tentando não a perder de vista. Os óculos mágicos da mãe vêem a vida a cores, sem ela nunca ter percebido como. Já os experimentou, sem sucesso. A realidade é a mesma, e por ser míope, ainda a vê mais desfocada. Desde que mudou de terra, de escola, de amigos, de morada, nunca mais parou de franzir os olhos, nem de os pestanejar. A mãe regressa, agradecendo a hospitalidade aos amigos. A filha é educada; não fala, mas é uma companhia agradável, contam estes. É estranho, andar sempre com dois bonecos de peluche dentro do blusão, é quase uma mulher, acrescentam ainda. Uma fase delicada, responde a mãe, a sorrir. Ela é fantástica, vai adaptar-se à nova escola em três tempos. E amigos, existem por toda a parte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R6mOOXbimWI/AAAAAAAAAiE/vpg79kaBBEQ/s1600-h/t1662524.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R6mOOXbimWI/AAAAAAAAAiE/vpg79kaBBEQ/s400/t1662524.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5163814825215826274" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Mãe e filha despedem-se, seguindo viagem até ao futuro mais próximo, num carro atulhado de bagagem. Ainda longe do destino, ela deixa de pestanejar e de franzir os olhos. Os óculos, agora bem colocados, fixam a realidade, de cores vivas.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-4065725360559615107?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/4065725360559615107/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=4065725360559615107' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/4065725360559615107'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/4065725360559615107'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/02/os-culos.html' title='Os óculos'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R6mNr3bimUI/AAAAAAAAAh0/VU9NJqcJN2E/s72-c/t1402.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-9143683554533351413</id><published>2008-02-01T16:59:00.001Z</published><updated>2008-02-06T19:30:30.695Z</updated><title type='text'>A escuridão</title><content type='html'>&lt;object width="320" height="266" class="BLOG_video_class" id="BLOG_video-b88eb6280fee2771" classid="clsid:D27CDB6E-AE6D-11cf-96B8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/get_player"&gt;&lt;param name="bgcolor" value="#FFFFFF"&gt;&lt;param name="allowfullscreen" value="true"&gt;&lt;param name="flashvars" value="flvurl=http://v13.nonxt8.googlevideo.com/videoplayback?id%3Db88eb6280fee2771%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D66CC7E54413845431D5C8C0C3B1C8B4C1CE0F12A.687EA6FC4796ED92650517D23D6CA5E112B47C57%26key%3Dck1&amp;amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3Db88eb6280fee2771%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DJYcSI8jAgnjiSn1n87lel9HPh5c&amp;amp;autoplay=0&amp;amp;ps=blogger"&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/get_player" type="application/x-shockwave-flash"width="320" height="266" bgcolor="#FFFFFF"flashvars="flvurl=http://v13.nonxt8.googlevideo.com/videoplayback?id%3Db88eb6280fee2771%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D66CC7E54413845431D5C8C0C3B1C8B4C1CE0F12A.687EA6FC4796ED92650517D23D6CA5E112B47C57%26key%3Dck1&amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3Db88eb6280fee2771%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DJYcSI8jAgnjiSn1n87lel9HPh5c&amp;autoplay=0&amp;ps=blogger"allowFullScreen="true" /&gt;&lt;/object&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ela tropeça nele, noite após noite, como uma cega que não chega a tactear; os olhos, cativos noutras paisagens, vêem rostos de contornos indefinidos, reconhecem a cor das calças, da camisola, de raspão a forma do corpo; quando ela chega ele está sentado, quando ela vai, ele fixa-lhe os olhos e diz-lhe boa noite, pregado ainda à cadeira.&lt;br /&gt;Ela tropeça nele, noite após noite, até deixar de ver; os contornos esbatem-se, as cores, as luzes, os rostos, as formas confundem-se com o resto do ambiente; com a cor das cadeiras, das paredes, dos móveis, do ar...&lt;br /&gt;Ela tropeça na escuridão só dela e esgravata, desesperada, a abrir portinholas por onde a vida possa espreitar. De avanços e recuos, vê luzes que a encandeiam e que a fazem vacilar; são momentos em que ri e que partilha com os outros, porém, quando a maré desce, os outros desaparecem e ela volta a apagar-se, sem querer.&lt;br /&gt;Os dias que assistem a esta clausura não têm conta; resta uma pequena esperança, escondida lá bem no canto, de uma varinha mágica que a acorde e a ponha a caminho.&lt;br /&gt;A manhã entra-lhe com força pela janela, um banho de luz inusitado àquela hora, já que vive comprimida entre dois prédios frente a frente, que apenas deixam entrar nesgas de sol. A sala está de cores vivas, o sofá vermelho, as almofadas alaranjadas, as paredes de tons transparentes. Na rua, sem se aperceber, tropeça menos vezes; o andar é firme e ritmado, um vigor súbito invade-lhe o corpo, hoje é dia de passar por ele e, curiosamente, relembra a cor das calças e da camisola, não vê a hora de a luz se despachar dali para fora, para realmente testar a sua cegueira; desenha de memória o  rosto dele, nariz pequeno, olhos velados, sorriso entreaberto. Chegou o momento de tropeçar a sério neste rosto vigilante, apesar de a noite ter caído sem lua, ela convida-o gentilmente a sair dali.&lt;br /&gt;Nunca os caminhos lhe pareceram tão claros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-9143683554533351413?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='enclosure' type='video/mp4' href='http://www.blogger.com/video-play.mp4?contentId=b88eb6280fee2771&amp;type=video%2Fmp4' length='0'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/9143683554533351413/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=9143683554533351413' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/9143683554533351413'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/9143683554533351413'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/02/escurido.html' title='A escuridão'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-9044121639527912534</id><published>2008-02-01T16:40:00.001Z</published><updated>2008-02-01T16:59:33.644Z</updated><title type='text'>O castelo de cartas</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;object width="320" height="266" class="BLOG_video_class" id="BLOG_video-2c1eeb4a95a5ed8c" classid="clsid:D27CDB6E-AE6D-11cf-96B8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/get_player"&gt;&lt;param name="bgcolor" value="#FFFFFF"&gt;&lt;param name="allowfullscreen" value="true"&gt;&lt;param name="flashvars" value="flvurl=http://v21.nonxt1.googlevideo.com/videoplayback?id%3D2c1eeb4a95a5ed8c%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D570A72309559191031372476FFABFEF423E54048.24E33FFC24F6D311CAEA160511075F12BCDBA4AF%26key%3Dck1&amp;amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3D2c1eeb4a95a5ed8c%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DW5NSt_kvpMLIqaDMtiTf5662TwQ&amp;amp;autoplay=0&amp;amp;ps=blogger"&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/get_player" type="application/x-shockwave-flash"width="320" height="266" bgcolor="#FFFFFF"flashvars="flvurl=http://v21.nonxt1.googlevideo.com/videoplayback?id%3D2c1eeb4a95a5ed8c%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D570A72309559191031372476FFABFEF423E54048.24E33FFC24F6D311CAEA160511075F12BCDBA4AF%26key%3Dck1&amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3D2c1eeb4a95a5ed8c%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DW5NSt_kvpMLIqaDMtiTf5662TwQ&amp;autoplay=0&amp;ps=blogger"allowFullScreen="true" /&gt;&lt;/object&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  As cartas empilhadas, a fazerem um castelo. Nas ameias, uma vista deslumbrante, para quem a consegue ver. Cá em baixo, um esforço natural para aguentar o castelo em pé. O grupo tem um projecto, datas marcadas, compromissos a cumprir. O castelo é móvel, vai circulando, sem grandes conversas entre as cartas; as de baixo têm de olhar em frente, sob pena de a frágil estrutura se desmoronar, as do meio são estafetas preciosos, transmitem recados nas duas direcções, as de cima são cartas piloto, navegam de sobrolho franzido, mão a fazer de pala, investigam horizontes, tomam decisões. Durante um período considerável, nada parece interferir na harmonia do grupo. Até que um dos pilotos, segundo o estafeta chefe, descobre outras formas de actuação, pensa num projecto diferente e, chegando ao fim do último contrato, dispensa as cartas de baixo, sem se importar com a estabilidade do castelo. “Arranjamos um castelo mais pequeno”, responde. Chocados com o despedimento, as cartas insurgem-se, argumentando a injustiça do mesmo. O piloto-mor, com receio de não controlar esta fase de transição, alicia duas ou três cartas de baixo, que possam servir de futuros pilares de apoio. As cartas vacilam, sofrendo com a falta de lealdade para com os outros e a desunião criada. Numa das últimas digressões, o castelo lá se levanta, arrastando-se para fazer a última exibição. O espectáculo começa, com as famosas acrobacias do castelo de cartas. Trocam de posição, viram-se de costas, fazem o pino, dão cambalhotas, até que, novamente na posição inicial, abanam fortemente a estrutura, despejando os pilotos do alto da torre. Perante o olhar atónito do público, desfazem a formação e retiram-se alegremente, deixando os chefes estatelados no chão.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-9044121639527912534?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='enclosure' type='video/mp4' href='http://www.blogger.com/video-play.mp4?contentId=2c1eeb4a95a5ed8c&amp;type=video%2Fmp4' length='0'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/9044121639527912534/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=9044121639527912534' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/9044121639527912534'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/9044121639527912534'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/02/o-castelo-de-cartas.html' title='O castelo de cartas'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-5158692356644001007</id><published>2008-02-01T16:33:00.000Z</published><updated>2008-02-01T18:51:54.219Z</updated><title type='text'>Óscar e Osório</title><content type='html'>&lt;object width="320" height="266" class="BLOG_video_class" id="BLOG_video-6a7c02c18abedbb4" classid="clsid:D27CDB6E-AE6D-11cf-96B8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/get_player"&gt;&lt;param name="bgcolor" value="#FFFFFF"&gt;&lt;param name="allowfullscreen" value="true"&gt;&lt;param name="flashvars" value="flvurl=http://v1.nonxt4.googlevideo.com/videoplayback?id%3D6a7c02c18abedbb4%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D5DF8D1DF5E6B0823B70FF2F90EFECC5F95195493.AF2735C1229EF39C973C931EAACF74CB5FCDBA%26key%3Dck1&amp;amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3D6a7c02c18abedbb4%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DPb14-wR1ikP8G4Vito1KAMdBZ3M&amp;amp;autoplay=0&amp;amp;ps=blogger"&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/get_player" type="application/x-shockwave-flash"width="320" height="266" bgcolor="#FFFFFF"flashvars="flvurl=http://v1.nonxt4.googlevideo.com/videoplayback?id%3D6a7c02c18abedbb4%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D5DF8D1DF5E6B0823B70FF2F90EFECC5F95195493.AF2735C1229EF39C973C931EAACF74CB5FCDBA%26key%3Dck1&amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3D6a7c02c18abedbb4%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DPb14-wR1ikP8G4Vito1KAMdBZ3M&amp;autoplay=0&amp;ps=blogger"allowFullScreen="true" /&gt;&lt;/object&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;    Alguém disparou um tiro dentro da minha mãe. Luz verde para os espermatozóides, que aguardam, ansiosos, por este momento. Saem da sua caverna ainda o tiro se faz ouvir, atabalhoando-se na corrida, de quem raramente sai em exercício de funções. Os óvulos esperam-nos placidamente do outro lado, com ar negligée a par, desdenhando estes seres pouco capazes. Mais uma vez dispõem-se a fazer a selecção natural e tentar apurar um vencedor.&lt;br /&gt;Óscar e Osório ganham velocidade e voam através dos túneis labirínticos. Para trás ficam milhares de colegas, emaranhados uns nuns outros, lutando titanicamente para se desenredarem daquele lugar. Os treinos são escassos, sem metodologia e organização, deixando o pódio livre aos expeditos, na subida ao triunfo.&lt;br /&gt;Os dois espermatozóides batem às portas blindadas, habitualmente trancadas. A boa educação manda-os insistir, sem obter resposta. Óscar tem uma ideia. “Vamos arrombá-la”, diz para Osório. “Como, se somos tão ínfimos?”, pergunta este, atrapalhado com a situação. “ Temos a vantagem de ter um cérebro maior que o nosso corpo”, responde Óscar, convicto da sua estratégia. “Vens?” Osório abana a cabeça, abandonando o projecto “Não consigo. Tenta tu”. E antes que Óscar reaja, vira-lhe costas, indo de encontro à barafunda dos colegas, que continuam apinhados quilómetros atrás.&lt;br /&gt;Óscar sente-se atraído pelo quente do óvulo, que sai através dos seus poros. Contorna-o, apalpando as suas paredes macias e vulneráveis.&lt;br /&gt;“ Ninguém me impede de entrar pelas traseiras”, pensa. Põe-se em posição de estilete, estica-se e começa a abalroar a casa mãe, em ataques sucessivos. O tecido começa a ceder, ele enfia a cabecinha no escuro, disfarça-se de alfinete e entra lá dentro de vez.&lt;br /&gt;Começo a tremer, sentindo-me a crescer, com o Óscar a fazer parte de mim. Finalmente formo-me, após existir apenas em ideia há tanto tempo. Navego num líquido suave, vejo os meus pés, as mãos, as unhas a ganharem contornos. Ouço coisas, que estão ao longe. Por vezes conversas curtas, gritos entrecortados, fazendo perigar o barco onde me encontro. Existem alturas em que as paredes da barriga mãe se comprimem aos solavancos, durante estes ataques de fúria. O barco fica de repente muito pequenino e a água parece escoar para outros lados. Quase fico sufocada ao longo destes episódios; o que me vale é que sou feita de um Óscar, vencedor nato, que me fez de uma fibra praticamente indestrutível.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-5158692356644001007?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='enclosure' type='video/mp4' href='http://www.blogger.com/video-play.mp4?contentId=6a7c02c18abedbb4&amp;type=video%2Fmp4' length='0'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/5158692356644001007/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=5158692356644001007' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/5158692356644001007'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/5158692356644001007'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/02/scar-e-osrio.html' title='Óscar e Osório'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-4943258343194123678</id><published>2008-01-29T12:06:00.000Z</published><updated>2008-01-29T12:41:55.010Z</updated><title type='text'>O som das palavras</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;object width="320" height="266" class="BLOG_video_class" id="BLOG_video-f50a382e45f93f70" classid="clsid:D27CDB6E-AE6D-11cf-96B8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/get_player"&gt;&lt;param name="bgcolor" value="#FFFFFF"&gt;&lt;param name="allowfullscreen" value="true"&gt;&lt;param name="flashvars" value="flvurl=http://v22.nonxt4.googlevideo.com/videoplayback?id%3Df50a382e45f93f70%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D48D4AF165F700ABE011B901D85FB28B42F8D4D83.1DB66F6F0A411DFC85A0277C28FB0612F61B1A49%26key%3Dck1&amp;amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3Df50a382e45f93f70%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DmOte0fCxc_uwns2m5aBZNUVdFYU&amp;amp;autoplay=0&amp;amp;ps=blogger"&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/get_player" type="application/x-shockwave-flash"width="320" height="266" bgcolor="#FFFFFF"flashvars="flvurl=http://v22.nonxt4.googlevideo.com/videoplayback?id%3Df50a382e45f93f70%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D48D4AF165F700ABE011B901D85FB28B42F8D4D83.1DB66F6F0A411DFC85A0277C28FB0612F61B1A49%26key%3Dck1&amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3Df50a382e45f93f70%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DmOte0fCxc_uwns2m5aBZNUVdFYU&amp;autoplay=0&amp;ps=blogger"allowFullScreen="true" /&gt;&lt;/object&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É de manhã. Uma manhã enevoada, um frio que corta o ar, de vidros embaciados nas vitrinas por onde ele passa. Os dedos, escondidos sob as luvas, desenham bonecos e letras ainda mal feitas. A berma do passeio protege-o, curva sobre curva, dos carros que passam rente. O caminho ainda é longo, até à escola. Quatro vezes por dia. A ida, a vinda, e pelo meio, o almoço no restaurante dos pais. O corpo pequeno, a atravessar estradas movimentadas, sem receio. É mais um dia de escola, com letras para aprender, sons novos, num espaço que pouco conhece. Ainda está aprender a língua, que é muito diferente da sua. Os colegas acham-lhe graça; apesar de mal o entenderem, brincam com ele, como todos os meninos sabem fazer. Hoje, ele não tem vontade de brincar, apesar de continuar a rir-se para a professora, para os colegas. O corpo está mole, pede-lhe que se sente e sossegue. A professora desconfia e põe-lhe a mão na testa. O corpo arde. “Não estás bem! O que te dói?” O menino encolhe os ombros, sem responder. A professora insiste, fazendo mímica, a querer saber mais. Ele ouve os sons, vê os gestos, sem adiantar muito. A mãe não ligou aos arrepios de frio.  Provavelmente, confundiu com o frio que faz cá fora. Pobres ignorantes. A mãe é chamada à escola, sem compreender. Fala e gesticula, com ar zangado. A professora pede ajuda a outras colegas e as colegas lembram-se de chamar um aluno mais velho, que fala a mesma língua. Este, traduz, de imediato, o tom aflito da mãe: “Acabei de chegar, ninguém vai trabalhar por mim; não posso largar o restaurante... os meus clientes... porque se metem na minha vida? É meu filho, não vosso...”&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-4943258343194123678?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='enclosure' type='video/mp4' href='http://www.blogger.com/video-play.mp4?contentId=f50a382e45f93f70&amp;type=video%2Fmp4' length='0'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/4943258343194123678/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=4943258343194123678' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/4943258343194123678'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/4943258343194123678'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/01/o-som-das-palavras.html' title='O som das palavras'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-8893572974401930729</id><published>2008-01-29T11:38:00.000Z</published><updated>2008-01-29T11:42:27.207Z</updated><title type='text'>O comboio</title><content type='html'>&lt;object width="320" height="266" class="BLOG_video_class" id="BLOG_video-91557bdd1c4fc43d" classid="clsid:D27CDB6E-AE6D-11cf-96B8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/get_player"&gt;&lt;param name="bgcolor" value="#FFFFFF"&gt;&lt;param name="allowfullscreen" value="true"&gt;&lt;param name="flashvars" value="flvurl=http://v6.nonxt1.googlevideo.com/videoplayback?id%3D91557bdd1c4fc43d%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D55C845FBEAA86895FEEF2E0D0BF336FE84862547.283D6A404B93DCE2BD5C8BAFD6F7CA5DBBE3E93E%26key%3Dck1&amp;amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3D91557bdd1c4fc43d%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DwFisH02YxkfYR4RYUu5oDu74m1g&amp;amp;autoplay=0&amp;amp;ps=blogger"&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/get_player" type="application/x-shockwave-flash"width="320" height="266" bgcolor="#FFFFFF"flashvars="flvurl=http://v6.nonxt1.googlevideo.com/videoplayback?id%3D91557bdd1c4fc43d%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D55C845FBEAA86895FEEF2E0D0BF336FE84862547.283D6A404B93DCE2BD5C8BAFD6F7CA5DBBE3E93E%26key%3Dck1&amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3D91557bdd1c4fc43d%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DwFisH02YxkfYR4RYUu5oDu74m1g&amp;autoplay=0&amp;ps=blogger"allowFullScreen="true" /&gt;&lt;/object&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O comboio apita, avisando que está a chegar. A noite vai caindo, de manto cerrado. A lua adormece e a escuridão senta-se na estação, a ver quem chega. Não se vê vivalma. Dentro do comboio, espreitam-se pessoas no fim de um dia de trabalho; a cara macilenta pregada à janela, o pensamento esvaziado, o corpo quebrado e a vontade de não querer abandonar aquele torpor. O cansaço a escorregar, os olhos cavados, as bocas que bocejam e a respiração profunda de quem pede uma pausa ao tempo. Uma mulher que entrou noutra estação, pouco antes. De cor escura, fundindo-se com a noite. O lenço na cabeça, uns andrajos pelo corpo e a idade indeterminada, atrás de uns olhos vivos, escuros como ela. A boca que não se cala, que entra a derrapar em cima dos outros, a sobressaltá-los com palavras, frases sem sentido, àquela hora. As cabeças que se vão virando, de curiosidade, de indignação, de ofensa, de divertimento e o torpor a cair no chão. A mulher a fazer de profeta; a acusá-los de serem tristes, de serem perseguidos pela cobardia, pela hipocrisia. De se alimentarem mal, falando de comida mesmo, e depois do coração e da alma. Proclama a sua diferença, falando cada vez mais alto, apregoando a alma bem alimentada em cada trapo que veste. As pessoas riem-se, outras abanam a cabeça, ao mesmo tempo que o comboio trava e chega ao seu destino. Todos saltam energicamente para a saída, sem deixar de olhar para trás, a observar a mulher que faz das carruagens a sua morada.  O comboio parte, ante a estação apinhada de gente. Apesar de continuar noite cerrada, ninguém se incomoda com a escuridão, a calcorrear caminhos até casa.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-8893572974401930729?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='enclosure' type='video/mp4' href='http://www.blogger.com/video-play.mp4?contentId=91557bdd1c4fc43d&amp;type=video%2Fmp4' length='0'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/8893572974401930729/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=8893572974401930729' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/8893572974401930729'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/8893572974401930729'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/01/o-comboio.html' title='O comboio'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-3310878707959725096</id><published>2008-01-27T15:02:00.000Z</published><updated>2008-02-10T22:16:35.430Z</updated><title type='text'>A confissão</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;object width="320" height="266" class="BLOG_video_class" id="BLOG_video-97ed49b2e2f1ebc0" classid="clsid:D27CDB6E-AE6D-11cf-96B8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/get_player"&gt;&lt;param name="bgcolor" value="#FFFFFF"&gt;&lt;param name="allowfullscreen" value="true"&gt;&lt;param name="flashvars" value="flvurl=http://v23.nonxt8.googlevideo.com/videoplayback?id%3D97ed49b2e2f1ebc0%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D73550C369FC7BB328258B9EFBF68D911E448F25C.104C7A639C8B4EEC7D98FB876D50085E93C2543E%26key%3Dck1&amp;amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3D97ed49b2e2f1ebc0%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DVTIUIZMygCIuP9buNmQbL71l14E&amp;amp;autoplay=0&amp;amp;ps=blogger"&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/get_player" type="application/x-shockwave-flash"width="320" height="266" bgcolor="#FFFFFF"flashvars="flvurl=http://v23.nonxt8.googlevideo.com/videoplayback?id%3D97ed49b2e2f1ebc0%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D73550C369FC7BB328258B9EFBF68D911E448F25C.104C7A639C8B4EEC7D98FB876D50085E93C2543E%26key%3Dck1&amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3D97ed49b2e2f1ebc0%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DVTIUIZMygCIuP9buNmQbL71l14E&amp;autoplay=0&amp;ps=blogger"allowFullScreen="true" /&gt;&lt;/object&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Juro que não me sinto bem. Olho para trás e tento agarrar-me por um braço, enfio-me num túnel em busca de mim, mas não tenho hipótese, sempre que me espreito, esvoaço por ali sem eira nem beira; novamente tento prender-me, mas perco-me de vez. Julguei que fosse possível. Não existe margem de erro na linha do tempo. Nunca me apercebi da inexistência do retorno. Agora conserto bocados de mim, aqui neste refúgio que nem sequer me pertence, é casa-mãe, de uma mãe que outrora também voou, sem razão aparente. Está na massa do sangue, provavelmente, um gene especial que se transmite, que nos leva a desarvorar assim de repente, sem termos tempo de fazer malas ou de fazer despedidas. O Sérgio ficou para trás, agarrado a uma doença invisível, da qual me fui apercebendo aos poucos, que transformava a nossa vida num inferno. Estranhamente e por mais que me queixasse, confesso que havia fases em que o inferno não me desgostava. Era a única altura em que conseguíamos comunicar, os sentimentos intensificavam-se e aqueles códigos aberrantes que tínhamos construído eram a nossa plataforma de entendimento e ao mesmo tempo uma tábua de salvação. Um vício que nos agarrou silenciosamente, e na penumbra se tornou dono e senhor. Pelo meio há a Maria e a Joana, dois anjos que oscilam entre cá e lá, sou eu a pintar-me de serena e o pai a exibir loucuras; vai ser fácil ganhar a guerra no tribunal, mesmo longe das condições ideais, sou a melhor opção por falta de alternativa.&lt;br /&gt;Contemplo a paisagem a partir de um apartamento minúsculo e os horizontes apertados sufocam-me. Passaram-se meses e realmente experimentei uma vida normal; o retorno à universidade, um emprego de dia, a correria para levar e trazer as crianças da escola, a lida da casa e a promessa a mim própria que é uma fase transitória, de construção de uma vida certa e segura, uma aposta na estabilidade e serenidade, amarras que me seguram e me impedem de voar.&lt;br /&gt;Juro que não me sinto bem. Sou um pássaro ferido, invadido pela loucura. Agora sou eu, a par do Sérgio. Esta não é a minha normalidade. Minto com todos os dentes, finjo que sou dona de outra pessoa, abro sorrisos sem querer. Expludo sem motivo, mesmo quando estamos tranquilamente num parque, mesmo quando os pássaros nos roçam, assobiando para nos encantar. As minhas filhas abrem até não poder mais os lindos olhos azuis, sem compreenderem. Não lhes consigo dizer que é a minha pele a rebentar, sem eu controlar. Mesmo já fora do túnel, continuo a escapar-me por entre os dedos, a voar ainda mais longe. Perco a noção do tempo e do espaço. Mesmo sabendo que não existe retorno.&lt;br /&gt;Hoje acordei numa cama muito confortável, quentinha dentro dos lençóis, num espaço asseado, que não era o meu quarto, nem a minha casa, nem a casa da minha mãe. Da janela, vejo tudo verde, árvores, relva e uma luz clara que me faz esfregar os olhos. As minhas filhas visitam-me, de vez em quando, com os seus olhitos abertos; muitas vezes vamos até ao parque em frente à minha janela, como costumávamos fazer. O azul dos seus olhos já não brilha, nem consigo ouvir as suas risadas; talvez esteja anestesiada de forma mágica, mas de alguma forma desintoxicada.&lt;br /&gt;Deixei de correr, deixei de fugir, já não ligo à normalidade. Provavelmente, cheguei a casa.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;"Devil May Care"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No cares for me&lt;br /&gt;I'm happy as I can be&lt;br /&gt;I learn to love and to live&lt;br /&gt;Devil may care&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No cares and woes&lt;br /&gt;Whatever comes later goes&lt;br /&gt;That's how I'll take and I'll give&lt;br /&gt;Devil may care&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;When the day is through, I suffer no regrets&lt;br /&gt;I know that he who frets, loses the night&lt;br /&gt;For only a fool, thinks he can hold back the dawn&lt;br /&gt;He was wise to never tries to revise what's past and gone&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Live love today, love come tomorrow or May&lt;br /&gt;Don't even stop for a sigh, it doesn't help if you cry&lt;br /&gt;That's how I live and I'll die&lt;br /&gt;Devil may care&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-3310878707959725096?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='enclosure' type='video/mp4' href='http://www.blogger.com/video-play.mp4?contentId=97ed49b2e2f1ebc0&amp;type=video%2Fmp4' length='0'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/3310878707959725096/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=3310878707959725096' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/3310878707959725096'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/3310878707959725096'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/01/confisso.html' title='A confissão'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-2626206779769164620</id><published>2008-01-27T14:58:00.001Z</published><updated>2008-01-27T15:01:44.566Z</updated><title type='text'>O telefone</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R5ycJHbimKI/AAAAAAAAAgU/7SdmM-wgdlA/s1600-h/images-3.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R5ycJHbimKI/AAAAAAAAAgU/7SdmM-wgdlA/s400/images-3.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5160170953487063202" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Toca o telefone, à hora da refeição. O ‘ring-ring’ confunde-se com o tilintar dos talheres, em pleno movimento. Não tarda que um dos familiares ouça o inconfundível toque. “Vais lá?”, pergunta o marido à mulher. Ela atende, ainda sem ter engolido a última garfada. “Sim? Ah, és tu...diz... Ai sim? É capaz de ser interessante. o António há-de querer ir, com certeza... sim... fica já combinado. Até logo.”&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R5yccnbimLI/AAAAAAAAAgc/jXyGCjVECYI/s1600-h/images-4.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R5yccnbimLI/AAAAAAAAAgc/jXyGCjVECYI/s400/images-4.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5160171288494512306" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;     Continua o tilintar dos talheres, a sopa por acabar, as panelas por esvaziar e   pelo meio a pergunta do marido: “Quem era?” “ A tua irmã. Convida-nos para assistir a um espectáculo da filha... parece que é genial a dançar. Aceitei o convite. É hoje, ao final da tarde.” “ A tia tem a mania que é a maior. É uma chata de primeira”, resmunga o filho mais velho. “ Além disso, a Alice é grotesca a dançar. Eu já a vi”, comenta a filha do meio. “ Recuso-me a ir. São uma cambada de patetas. E nunca nos ligam. Exibicionistas”, conclui o mais novo. “Bem, eu confesso que não tenho grande paciência, mas sempre é a vossa tia”, remata a mãe. “Mas porque é que não lhe dizes isso na cara? Estão a ser muito hipócritas”, interrompe o pai, que se levanta em direcção ao telefone. “ Vou-lhe ligar a dizer que não vamos.” O auscultador, mal desligado,  levanta-se e antes que o pai marque o número, ouve-se uma voz familiar do outro lado dizendo: “ Não te preocupes António, os bilhetes já estão esgotados.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-2626206779769164620?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/2626206779769164620/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=2626206779769164620' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/2626206779769164620'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/2626206779769164620'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/01/o-telefone.html' title='O telefone'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R5ycJHbimKI/AAAAAAAAAgU/7SdmM-wgdlA/s72-c/images-3.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-7749710036395216760</id><published>2008-01-24T10:08:00.000Z</published><updated>2008-01-24T11:43:52.293Z</updated><title type='text'>A companhia</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Claro que vou contigo!&lt;br /&gt;- Mas é uma simples consulta de rotina!&lt;br /&gt;- Faço-te companhia, sempre é mais agradável, não achas?&lt;br /&gt;- És capaz de ficar à espera...&lt;br /&gt;- Dou uma volta.&lt;br /&gt;- Nesse caso, veste o casaco, o comboio está quase a passar.&lt;br /&gt;- Já estou pronto.&lt;br /&gt;- Olha, lá está ele a apitar. Incrível, vem mesmo ao minuto.&lt;br /&gt;- E deve vir cheio de gente.&lt;br /&gt;- Vamos para as últimas carruagens, temos sempre sorte.&lt;br /&gt;- Pronto, já cá estamos. Os degraus são altos, cada vez me custam mais a subir.&lt;br /&gt;- Pois, tu não notas, mas vamos ganhando idade...&lt;br /&gt;- É verdade, Maria.&lt;br /&gt;- Encolhe-te um bocadinho, é por causa dos sacos, não os quero pôr no chão.&lt;br /&gt;- Olha-me este sol, num dia de Inverno... não é normal, é que é um sol quente... e a luz está tão bonita. Gosto sempre desta viagem, sabes? Não ter que conduzir nem estacionar já é fantástico, mas este sol... anima-me.&lt;br /&gt;- Antes assim. Querias apanhar uma chuvada? Ainda chegávamos encharcados ao hospital e se calhar só adoecia depois de lá sair.&lt;br /&gt;- Isso é verdade.&lt;br /&gt;- Pois, lá se iam os exames ao ar. Estamos quase a chegar... espera, não te levantes já, isto abana muito, podes cair. Temos tempo.&lt;br /&gt;- Já se vê o hospital daqui.&lt;br /&gt;- Sim... sempre te disse que era muito mais prático vir de comboio, não apanhamos trânsito, não temos que estacionar e é muito mais rápido.&lt;br /&gt;- Pois é Maria, pois é. Que confusão está aqui. São milhares de pessoas.&lt;br /&gt;- Sabes que é sempre assim. Inscreves-te na consulta e esperas pela tua vez. A confusão é fogo de vista. CUIDAAADOOOO!!!!!!&lt;br /&gt;- Oxalá tenhas razão... ai, ai o pilarete, aiiiiii, AIIIII!!!!!!!!&lt;br /&gt;&lt;object width="320" height="266" class="BLOG_video_class" id="BLOG_video-9ad6ac23125d44a2" classid="clsid:D27CDB6E-AE6D-11cf-96B8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/get_player"&gt;&lt;param name="bgcolor" value="#FFFFFF"&gt;&lt;param name="allowfullscreen" value="true"&gt;&lt;param name="flashvars" value="flvurl=http://v7.nonxt6.googlevideo.com/videoplayback?id%3D9ad6ac23125d44a2%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D44E140E28FE23CC2EB6FDB885C48A77808D2B2B4.4209B902F666DDED8A7EAC86578108FF04E47766%26key%3Dck1&amp;amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3D9ad6ac23125d44a2%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DNVDAlPVXMRVPxNHtvhgmINmlo-s&amp;amp;autoplay=0&amp;amp;ps=blogger"&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/get_player" type="application/x-shockwave-flash"width="320" height="266" bgcolor="#FFFFFF"flashvars="flvurl=http://v7.nonxt6.googlevideo.com/videoplayback?id%3D9ad6ac23125d44a2%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D44E140E28FE23CC2EB6FDB885C48A77808D2B2B4.4209B902F666DDED8A7EAC86578108FF04E47766%26key%3Dck1&amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3D9ad6ac23125d44a2%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DNVDAlPVXMRVPxNHtvhgmINmlo-s&amp;autoplay=0&amp;ps=blogger"allowFullScreen="true" /&gt;&lt;/object&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CATRAPUM. António escarrapachado no chão, cabeça a sangrar, nariz amolgado e o resto a esperar pelo resultado das radiografias. Maria dividida entre a ambulância e o hospital; a sirene a entrar em acção, a rodopiar, a espalhar luz, as portas a fecharem-se, lá dentro o António a acenar-lhe e a entreabrir os lábios, parecendo dizer “eu já cá volto”. Maria volta ao balcão de atendimento combalida com as dores que não se vêem, mas decidida a levar a consulta avante, mais as carradas de exame marcadas com uma razoável antecedência. A perturbação é evidente para alguns olhos, mas ninguém percebe ao certo o raio que a atingiu, uma tremura constante atrás do sorriso aberto, de quem se dispõe a esperar o tempo que for preciso.&lt;br /&gt; Os telemóveis de ambos ligam-se de um lado para o outro, à socapa dos médicos e enfermeiras. Nunca coincidem, está um desligado, logo a seguir o outro o imita. As notícias tardam a chegar e Maria receia os resultados. As horas atrasam-se naquele lugar, apesar de ela se querer adiantar, a descrever círculos no átrio do hospital, a empatar-se com o telemóvel, a fingir que observa as pessoas, a tentar ler o que está escrito nos placares, a olhar para as suas radiografias sem interesse, a ler os relatórios dos médicos já de esguelha. Até que o telemóvel toca, com o António do outro lado.&lt;br /&gt;- Sou eu!&lt;br /&gt;- Estás vivo?&lt;br /&gt;- Que te parece?&lt;br /&gt;- Estás um bocadinho...&lt;br /&gt;- Daqui a pouco estou aí. Espera por mim.&lt;br /&gt;- A sério?&lt;br /&gt;- Verdade. Voltamos no nosso comboio.&lt;br /&gt;- Mas... tu estás capaz?&lt;br /&gt;- Estou quase a chegar. Até já.&lt;br /&gt;Pouco tempo depois António aparece, com o curativo feito, o diagnóstico escrito, as radiografias nas mãos. Teve sorte, dentro do azar. O comboio já vem a apitar, lá ao longe.&lt;br /&gt;- O raio deste comboio não falha um minuto! – Exclama ele.&lt;br /&gt;- Pois é! O pior é que os degraus custam cada vez mais a subir e eles não contam com isso. Arrancam sem dó nem piedade.&lt;br /&gt;- Há coisas bem piores que os degraus.&lt;br /&gt;- Bom, olha, o que é giro é que voltaste para me fazer companhia...&lt;br /&gt;- Não fui grande companhia...&lt;br /&gt;- Julgas tu... e agora estás cansado. Também não é para menos, não achas? Foi um dia bem fora do normal!&lt;br /&gt;- Já viste Maria, como o final de tarde está bonito, com aquele sol alaranjado a querer esconder-se? Podia lá agora perder este comboio!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-7749710036395216760?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='enclosure' type='video/mp4' href='http://www.blogger.com/video-play.mp4?contentId=9ad6ac23125d44a2&amp;type=video%2Fmp4' length='0'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/7749710036395216760/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=7749710036395216760' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/7749710036395216760'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/7749710036395216760'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/01/companhia.html' title='A companhia'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-9160771348125441678</id><published>2008-01-22T19:43:00.001Z</published><updated>2008-01-22T19:47:57.478Z</updated><title type='text'>A psiquiatra</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R5ZHsOLGA-I/AAAAAAAAAfQ/TcBT4GmQMss/s1600-h/sc00f4ac9e02.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R5ZHsOLGA-I/AAAAAAAAAfQ/TcBT4GmQMss/s400/sc00f4ac9e02.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5158389248243925986" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Há sempre um episódio para contar”, pensa ela, antes de entrar para a consulta. “ Esta semana não aconteceu nada de especial, mas talvez não seja importante, o que interessa é analisar o que já se passou, sobre outras perspectivas. Lança-se uma frase ao acaso e nasce assunto que preenche pelo menos três sessões.” A porta abre-se, o paciente anterior sai e ela entra, já com a frase preparada. A doutora está em frente, sentada, de pernas cruzadas, a caneta e o bloco em cima do colo, um sorriso reservado e a voz calma. “Então? Como é que correu a semana?” ”Não estive com ele este fim de semana, doutora. Ainda lhe telefonei, mas estava muito ocupado.” A doutora levanta os olhos e o tom de voz, perguntando: “Como se sente?” Ela ri-se, confessando que desta vez, é-lhe indiferente. A doutora  deixa escapar a surpresa, muda de posição, põe o bloco e a caneta de parte e comenta, intrigada: “Bom, bom, explique-me como é que conseguiu dar a volta à questão. No último dia estava perdida, chorava baba e ranho... em pequenina... os seus pais? Bloqueavam, de um instante para o outro?” A doutora tenta descobrir razões plausíveis para tal mudança. Até que passa, sem nada o fazer prever, para a sua própria história. Um caso triste, paixão sombria, mal correspondida, um período negro, do qual ainda não vê cor. A voz sai trémula e a respiração torna-se pesada. Parece envelhecer um par de anos, naquele instante. No fim, olha para o relógio e espanta-se, com o adiantado da hora. De regresso à voz branda e ao bloco de notas, termina a sessão, dizendo: “Temos que ficar por aqui. Até para a semana, à mesma hora.”&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-9160771348125441678?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/9160771348125441678/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=9160771348125441678' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/9160771348125441678'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/9160771348125441678'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/01/psiquiatra.html' title='A psiquiatra'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R5ZHsOLGA-I/AAAAAAAAAfQ/TcBT4GmQMss/s72-c/sc00f4ac9e02.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-8826328194226074520</id><published>2008-01-22T18:31:00.001Z</published><updated>2008-01-22T18:37:04.459Z</updated><title type='text'>A queda do pano</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R5Y2xeLGA7I/AAAAAAAAAeo/hKjebpSW2Ss/s1600-h/dupon.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://4.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R5Y2xeLGA7I/AAAAAAAAAeo/hKjebpSW2Ss/s400/dupon.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5158370646740566962" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; A média luz impede-a de confirmar aquela impressão. Uma sensação de “déjà vu” recente, ou talvez vivida ao longo de um período de vida. Contudo, a comida deliciosa, apresentada de forma requintada, o bom vinho e a conversa dos anfitriões entretêm-na, confundindo-lhe as sensações. Talvez já tenha bebido demais. Talvez o cansaço a esteja a atormentar. Talvez a atmosfera a esteja a embebedar. Talvez, talvez. Os olhos piscam, tentando desembaciar as lentes. Talvez esteja a ver a realidade deturpada. Mas mesmo na terra dos “talvez”, prevalece a dúvida teimosa. Aquele homem é a cópia de alguém que conheceu a vida inteira. Um verdadeiro clone. Quer dizer, descontando o exagero, o riso, os olhos, o nariz, a voz, as opiniões, a curta história de vida que ouve naqueles escassos minutos, a certeza surge-lhe agora, iluminada em ambiente escuro. Recua duas décadas e lembra-se do amigo igual. Recua ainda mais e lembra-se das histórias que ouviu de um rapazinho único, feliz no seu bote, a traçar rumos no mar e na areia, que aos olhos dos outros possuía o mundo, ou pelo menos assim parecia. Intrigada, regressa à luz velada, observando-o. O amigo é filho único. Os pais existem. Chegou a ir a casa dele, várias vezes. Cresceram juntos, lá na praia. Às vezes há coisas estranhas. É assim que se arranjam os duplos, embora não passe de conversa de filmes. Os pensamentos são cortados pela gargalhada contagiante, que ela bem conhece. Pela simpatia e o à vontade que a fazem sentir como se o conhecesse de uma vida inteira. Aparentemente escondida na sua timidez, surpreende os amigos, soltando a pergunta surgida do nada: “Tens irmãos?” O desconhecido reage em cena de filme: cospe o vinho, apaga uma das velas sem querer, e no meio dos sopros pesados parece balbuciar, não, sim, não, sim. Por lapsos de segundo a voz some-se e o rubor enche-lhe as faces, esquecendo-se das falas e do resto da encenação. Deixando cair a máscara. Aprisionado entre dois muros, sem espaço para pular. Até que decide, naquele curto momento, ser ele próprio:&lt;br /&gt;- Claro que tenho!&lt;br /&gt;- Alfredo?&lt;br /&gt;- Como adivinhaste?&lt;br /&gt;- És igualzinho! Não sabia que ele tinha um irmão. Desculpa.&lt;br /&gt;- Não tens que pedir desculpa. Dou-me muito bem com ele.&lt;br /&gt;- Nunca te vi, ao longo destes anos todos.&lt;br /&gt;- É normal. Não fomos criados juntos. Mas eu conheço a vida dele.&lt;br /&gt;- Ah...&lt;br /&gt;A luz das velas apaga-se, sem ninguém soprar. Os amigos, atrapalhados, acendem as luzes. A magia dos sabores exóticos dilui-se, junto com o vinho. Os pratos desmancham-se e da apresentação requintada, apenas sobram restos de comida. A mesa tem agora um aspecto vulgar e insignificante, ao pé das emoções transtornadas pela confirmação de um mistério. É uma noite abruptamente cortada, pelo desconforto causado, que ninguém poderia prever. Os amigos saem, em elevadores separados. Mais tarde, ela conta-lhes que teve um sonho sobre o seu amigo. Eram dois irmãos que viviam na mesma rua, em dois apartamentos diferentes, um com pai e mãe, outro só com mãe. O irmão enjeitado pulava, estrebuchava, soltando-se da mão da sua mãe sempre que via passar o irmão com os pais. Temia o pai, que tanto o tomava por estranho nessas alturas como o enchia de mimos e presentes, quando se escapava até à sua casa. Com o tempo, a vontade de ter um pai esmoreceu; resignado, mantinha a sua mão dada com a da mãe, observando o resto da família ao longe. De tanto se cruzar com o irmão apanhou-lhe o sorriso, o gesto e a forma de falar. O resto, contava-lhe o pai. Assim que tomou conta da sua vida, nunca mais deixou cair o pano. Até encontrar a tal amiga.&lt;br /&gt;Os amigos sorriram, desejando nunca ter conhecido aquela história. Continuaram a dar jantares à luz das velas e a mimar o paladar dos seus amigos, apesar de nunca mais terem convidado os dois amigos desconhecidos.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-8826328194226074520?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/8826328194226074520/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=8826328194226074520' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/8826328194226074520'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/8826328194226074520'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/01/queda-do-pano.html' title='A queda do pano'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R5Y2xeLGA7I/AAAAAAAAAeo/hKjebpSW2Ss/s72-c/dupon.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-2946278134603407440</id><published>2008-01-17T20:39:00.001Z</published><updated>2008-01-20T07:56:37.993Z</updated><title type='text'>O espectador</title><content type='html'>&lt;object type="application/x-shockwave-flash" data="http://www.tiagopapoose.com/musica/dewplayer.swf?son=http://www.emcnformacaomusical.com/Rita/Excertos%20musicais/bidintime.mp3" height="20" width="200"&gt; &lt;param name="movie" value="http://www.tiagopapoose.com/musica/dewplayer.swf?son="&gt; &lt;/object&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;É raro vê-lo fora de um espectáculo. Tão raro, que quando acontece, parece que acabou de passar o seu sósia. Claro que assiste também a espectáculos ao ar livre, mas a verdade é que é diferente cá fora. O tom da pele, a barba por fazer, os cabelos desalinhados, os braços sem poiso, as pernas sem destino, enfim, todo ele caminha desconjuntado à luz do dia, na berma do passeio, a atravessar uma passadeira, a passear-se à beira do rio, a fingir-se um vulgar transeunte, na ausência de um espectáculo. Como se mais nada à sua volta tivesse expressão; as crianças que pulam no parque e que correm desenfreadamente atrás do cão e da bola, os velhos que caminham de mão dada, sobrando as mãos que se vão apoiando na bengala, os jovens enamorados que proliferam como cogumelos nos bancos do jardim, a luz do rio que se mete pelos olhos adentro, os barcos à vela que vão desfilando no estuário, o comboio que passa de vez em quando a estropiar a paisagem e os minutos que correm, invisíveis, cheios de coisas por dentro e por fora e ele ali, fora da sua pele. Um crítico de arte, das artes todas e de todas as formas de expressão. Religião professada diariamente, na cuidadosa consulta da agenda e na escolha criteriosa dos eventos. De tanto assistir, muda-se para dentro da sala de espectáculo. Conhece as cadeiras de cor, plateias, balcões, funcionários e artistas, as várias sessões, os horários de sábado e domingo. A rotina dos espectáculos, da arte e de tudo o mais, hipnotiza-o, congela-o, transformando-o num boneco de cera, reformado da luz cá fora, das pessoas, do rio e da brisa que teima em lhe assobiar. É só o palco que o motiva, o ecrã animado, as pessoas disfarçadas de outros personagens, a acenarem e a perguntarem “Voltas amanhã?”&lt;br /&gt;Nesse dia raro ele aparece, a passear-se à beira do rio, esgotado de tanto espectáculo, roto nas vestes, cego com a luz, sem dar conta do vento e das pessoas que lentamente fazem uma clareira à roda dele. Um pouco atrás, está uma carrinha com uma equipa de filmagem e um guião que tem como personagem central um vagabundo que andarilha pelas ruas da cidade. A história é verdadeira e filmada em situação real. Alguém disse que passava por ali a pessoa ideal e de facto a equipa não perde tempo; acorre ao local e inicia as filmagens, perante uma enorme assistência.&lt;br /&gt;Ele sente a multidão e junta-se a ela, na expectativa de assistir a mais um espectáculo. Toda a gente aponta o dedo na sua direcção e até o realizador lhe faz um gesto, tentando que ele se aproxime. Demora algum tempo até que se aperceba que é a personagem principal. Em pânico, foge por um buraco aberto na clareira humana, sentindo pela primeira vez o asfalto debaixo dos pés, apercebendo-se dos limites da beira do rio, do parque, cujo verde se perde de vista, das pessoas estupefactas, do ar atrás dele e de todas as cores à volta.&lt;br /&gt;É já noite quando regressa a casa. Para ele, parece que passaram anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;object width="320" height="266" class="BLOG_video_class" id="BLOG_video-d2a02b5ff1695884" classid="clsid:D27CDB6E-AE6D-11cf-96B8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/get_player"&gt;&lt;param name="bgcolor" value="#FFFFFF"&gt;&lt;param name="allowfullscreen" value="true"&gt;&lt;param name="flashvars" value="flvurl=http://v10.nonxt7.googlevideo.com/videoplayback?id%3Dd2a02b5ff1695884%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D1531AB42609522A0619205DEFE710A4F958BC4AC.580596EA65A0281D4FCAC49EF027EFC6F25EE644%26key%3Dck1&amp;amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3Dd2a02b5ff1695884%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DhzKkomKjzlU-Dgnng6tAofUKb5Y&amp;amp;autoplay=0&amp;amp;ps=blogger"&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/get_player" type="application/x-shockwave-flash"width="320" height="266" bgcolor="#FFFFFF"flashvars="flvurl=http://v10.nonxt7.googlevideo.com/videoplayback?id%3Dd2a02b5ff1695884%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D1531AB42609522A0619205DEFE710A4F958BC4AC.580596EA65A0281D4FCAC49EF027EFC6F25EE644%26key%3Dck1&amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3Dd2a02b5ff1695884%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DhzKkomKjzlU-Dgnng6tAofUKb5Y&amp;autoplay=0&amp;ps=blogger"allowFullScreen="true" /&gt;&lt;/object&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-2946278134603407440?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='enclosure' type='video/mp4' href='http://www.blogger.com/video-play.mp4?contentId=d2a02b5ff1695884&amp;type=video%2Fmp4' length='0'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/2946278134603407440/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=2946278134603407440' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/2946278134603407440'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/2946278134603407440'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/01/o-espectador.html' title='O espectador'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-2559771722093276388</id><published>2008-01-17T14:14:00.000Z</published><updated>2008-01-17T14:20:06.783Z</updated><title type='text'>Conversas cruzadas</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R49i_uLGAwI/AAAAAAAAAdQ/nXSaGfHCu2U/s1600-h/t516799.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://2.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R49i_uLGAwI/AAAAAAAAAdQ/nXSaGfHCu2U/s400/t516799.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5156448945228350210" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Uma família à mesa, os sogros de um lado, o filho e a nora, ao lado dos netos. O fim de semana a começar e a conversa a desfiar-se, mesmo ali, por cima do assado da sogra. Dias em falta, de novidades para contar; são semanas que trazem anos atrás, que de repente espalham memórias em cima da mesa. A mesa redonda, armada com talheres, a fazê-los sentar e falar, sôfregos, ao mesmo tempo. O sogro comenta, de boca meio cheia, o assado da mulher; que bem que sabe, a mãe dela ainda o fazia melhor; os outros concordam, a nora puxa os galões dos dotes culinários da sua família e os netos rematam o desafio, concluindo que a comida ali em casa sabe toda ao mesmo; é simplesmente deliciosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R49ja-LGAyI/AAAAAAAAAdg/GrAPTA1i4Y8/s1600-h/t1415747.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R49ja-LGAyI/AAAAAAAAAdg/GrAPTA1i4Y8/s400/t1415747.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5156449413379785506" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Deste tema sobra uma frase que é entendida pela sogra de outra maneira; o sogro apanha-lhe ainda outro sentido e desenvolve-o, a gracejar com o filho. A nora intervém, sobre a última palavra que ouve dos dois, voando para um assunto diferente. Os netos participam, também, gritando palavras soltas sobre a escola e os amigos, com o prato ainda cheio, já frio e esquecido. O sogro e o filho misturam frases e comida; quem acaba com o vinho, quem se lembra daquele fulano, que andava por aquele jardim, a pedir esmola sem precisar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R49jmOLGAzI/AAAAAAAAAdo/z7p5eyeiLHQ/s1600-h/t1385593.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://4.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R49jmOLGAzI/AAAAAAAAAdo/z7p5eyeiLHQ/s400/t1385593.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5156449606653313842" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A nora serve o café, depois da mesa levantada, pousando as chávenas sobre nódoas de vinho e manchas de comida. Há uns segundos de pausa e a sogra, intrigada, volta atrás, à primeira frase: “Agora é que percebi o que querias dizer há bocado... julgava que estavas a falar de outra coisa...” o sogro ri-se, respondendo: “E eu também!” Continua a sogra: “Falas do quê?” Retorna ele: ”Olha, não sei! De tudo o que se disse hoje!”&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-2559771722093276388?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/2559771722093276388/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=2559771722093276388' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/2559771722093276388'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/2559771722093276388'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/01/conversas-cruzadas.html' title='Conversas cruzadas'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R49i_uLGAwI/AAAAAAAAAdQ/nXSaGfHCu2U/s72-c/t516799.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-8961857359909699529</id><published>2008-01-15T16:15:00.000Z</published><updated>2008-02-11T22:43:47.460Z</updated><title type='text'>A avenida do vento</title><content type='html'>&lt;object type="application/x-shockwave-flash" data="http://www.tiagopapoose.com/musica/dewplayer.swf?son=http://www.emcnformacaomusical.com/Rita/Excertos%20musicais/thewind.mp3" height="20" width="200"&gt; &lt;param name="movie" value="http://www.tiagopapoose.com/musica/dewplayer.swf?son=http://www.emcnformacaomusical.com/Rita/Excertos%20musicais/thewind.mp3"&gt; &lt;/object&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R4zckeLGAnI/AAAAAAAAAcU/p4ctttDq9Nw/s1600-h/kandinsky1.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://2.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R4zckeLGAnI/AAAAAAAAAcU/p4ctttDq9Nw/s400/kandinsky1.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5155738192565371506" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O vento sopra furiosamente, ao longo das árvores que enfeitam a avenida até ao fim. Embaraça-lhe o cabelo, bate-lhe na cara, levanta-lhe as saias. É quase sempre assim, naquela zona. Faça Verão ou Inverno, lá está o vento a assobiar, a meter-se com as pessoas. Ela encolhe os ombros, sem se importar. É um percurso de quase todos os dias, já não sente o vento, nem olha para o número da porta, sabe que é o prédio amarelo mais antigo, com a porta verde de ferro, com aquela maçaneta enorme. É um segundo andar sem elevador, com a campainha avariada. Galga a escada, três em três degraus, fazendo um barulho característico, que a amiga já conhece. Cumprimentam-se como se não tivessem estado juntas há muito tempo, têm sempre segredos para contar e passam, sem esforço, a tarde inteira a conversar. Tornou-se complicado viver sem este confessionário diário; parece que fica um vazio incómodo por preencher, algo que ela não compreende nem identifica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A casa da amiga não é grande e por sua vez divide-se em pequenos mundos. O irmão fecha-se no quarto, a mãe na biblioteca, a irmã no seu canto e o pai está ausente, apesar de em espírito se materializar dentro daquele espaço. À hora do lanche ouve-se a mãe a pôr a mesa na cozinha, enchendo-a de croissants, manteiga, compotas, bolos. De olhos sorridentes, a amiga pisca-lhe o olho e corre para a cozinha, ainda a tempo de apanhá-la e fazer-lhe um cerco; uma voz de criança em corpo de mulher, a suplicar meiguices.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="text-decoration: underline;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O vento amaina e a luz esmorece devagarinho, sem ambas darem conta. Os bancos da cozinha tornaram-se duros para quem está sentado há tantas horas. A amiga é uma excelente ouvinte e parece ter uma paciência infinita para as suas queixas. As paixonetas, os dilemas, os estudos, a descrição pormenorizada dos dias, em que a cada minuto, acontece sempre algo novo. É uma sorte ter alguém disponível para partilhar os caminhos que se vão descobrindo aqui e acolá. A amiga convida-a para jantar, sem querer interromper o seu desabafo. Ela sabe que o seu pai nunca vem, nem avisa. É uma vida misteriosa, passada ao longe daquela avenida, muito para lá do vento, que refila ali todos os dias. O único segredo que não partilha com a amiga. A televisão continua avariada, a lâmpada do candeeiro da sala está fundida, a pintura estala nos rodapés e amarelece nas paredes. O tempo parece estar aprisionado naquela sala. Ao jantar, a mãe e os filhos falam normalmente, como se as portas dos quartos tivessem estado sempre abertas. Os assuntos são banais e revelam tanto como uma conversa entre estranhos. Enquanto os talheres tilintam e as bocas devoram a comida, ela perscruta-lhes o olhar. A roupa do pai está a monte, em cima do sofá, sem nunca abandonar o poiso. Um sinal feroz da sua presença.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R4zg9eLGAtI/AAAAAAAAAc4/WyBt7gNdQ3U/s1600-h/kandinsky6.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://2.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R4zg9eLGAtI/AAAAAAAAAc4/WyBt7gNdQ3U/s400/kandinsky6.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5155743020108612306" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Os anos passam, na avenida ventosa do prédio amarelo antigo, no apartamento dos quatro quartos fechados, ao contrário do que se desejaria. Ela já não sente a necessidade do confessionário tão amiúde quanto antes; também se cansou da amiga ouvinte e da amarga sensação de nunca a ter realmente conhecido. Separam-se mundos cá fora e cada uma parte à descoberta. O afastamento é natural e indolor; é uma imagem que se vai esbatendo no tempo, os quartos fechados, a mãe de sorriso esfíngico, a irmã excêntrica, o irmão que fazia elevações na ombreira da porta, o pai que nunca chegou para jantar. De vez em quando, ainda relembra a curiosidade acerca do interior daqueles quartos.&lt;br /&gt;Recentemente, as amigas encontraram-se, por acaso. Escolheram a mesma profissão e coincidem no local de trabalho, fingindo a amiga nunca ter conhecido a intimidade partilhada entre as duas. Como se uma borracha gigante tivesse apagado o que ficou para trás. Ela é apenas um rosto novo que circula por ali, como o resto dos colegas. A amiga tem pressa, desvia-se a todo o custo quando a vê ao longe, atira-lhe um sorriso rasgado, proibindo-a de se aproximar. Será que o vento ainda ruge, naquela avenida?&lt;br /&gt;Ela sobe as escadas, absorta em pensamentos. Sem nada fazer prever, tropeça na amiga e percebe que a borracha não chegou a apagar tudo. A necessidade de falar é evidente; a respiração agitada, um leve rubor nas faces, as palavras praticamente inteligíveis. Finalmente conta o acidente do pai; uma perna partida, umas costelas em mau estado, o internamento no hospital e a cena das visitas. Ela, a mãe e um dia, a outra. Ela e a outra, à beira da cama do pai. “Já sabias?”, pergunta, antevendo a resposta. Ela acena afirmativamente com a cabeça. “Porque não me disseste?” A outra comenta: “Iria adiantar?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R4zhqeLGAuI/AAAAAAAAAdA/OHZyI9U1SJw/s1600-h/kandinsky11.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://2.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R4zhqeLGAuI/AAAAAAAAAdA/OHZyI9U1SJw/s400/kandinsky11.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5155743793202725602" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;O tempo voltou a passar e as duas amigas nunca mais se viram. A velha borracha acabou por apagar o mesmo emprego. No outro dia, ela passou por acaso pela avenida larga e parou em frente ao que julgava ser o prédio amarelo antigo. Um novo prédio tinha nascido, no lugar daquele; a porta verde já não batia e a campainha tinha deixado de estar avariada. Os apartamentos eram novos e espaçosos. As árvores ainda balançavam, parecendo-a reconhecer. Os cabelos voaram e os olhos cerraram-se. O vento ainda continuava a soprar da mesma maneira.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-8961857359909699529?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/8961857359909699529/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=8961857359909699529' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/8961857359909699529'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/8961857359909699529'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/01/avenida-do-vento.html' title='A avenida do vento'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R4zckeLGAnI/AAAAAAAAAcU/p4ctttDq9Nw/s72-c/kandinsky1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-3781455472427088420</id><published>2008-01-13T16:53:00.000Z</published><updated>2008-01-14T20:00:12.208Z</updated><title type='text'>O desconcerto</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R4pC7-LGAbI/AAAAAAAAAa0/tAYFct7zYyo/s1600-h/t1455192.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer; width: 120px; height: 107px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R4pC7-LGAbI/AAAAAAAAAa0/tAYFct7zYyo/s400/t1455192.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5155006321548198322" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;O homem passa pelos corredores da sala de concerto, coxeando de uma perna. A língua prende-se a dizer “Boa noite” e as palavras seguintes são balbuciadas com dificuldade, em articulação deficiente, tornando incompreensível o seu sentido. Quem passa, já não olha nem vê, habituado à presença diária, à rotina das pequenas frases sem nexo. Transforma-se num personagem invisível, apesar de não desistir de abordar as pessoas, espalhando palavras estranhas sobre o sonho de tocar naquela sala.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;                      &lt;br /&gt;Muitos fingem não&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R4pDMOLGAcI/AAAAAAAAAa8/msrSCrzzf1M/s1600-h/images.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer; width: 91px; height: 127px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R4pDMOLGAcI/AAAAAAAAAa8/msrSCrzzf1M/s400/images.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5155006600721072578" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; ouvir, armados de indiferença, outros sentem-se constrangidos com a situação; são raros os que perdem um minuto a responder-lhe. O homem coxo tocou toda a vida, e acredita que também ele tem direito a tocar naquele espaço, perante aquela plateia. Um dia, surge a notícia nos placards. Quem o conhece, mal acredita, mas quem lê o nome, não suspeita o esforço que é subir torto e manco até ao palco, enfrentando uma sala cheia de gente. Uma sala de olhos postos nele. De ar digno, mas desconjuntado, abeira-se do piano de cauda, fazendo uma vénia ao público, que, meio desconcertado, responde com umas fracas palmas, em sinal de agradecimento.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R4pEouLGAfI/AAAAAAAAAbU/6e3z_hEcKsY/s1600-h/t1509886.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R4pEouLGAfI/AAAAAAAAAbU/6e3z_hEcKsY/s400/t1509886.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5155008189858972146" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Os primeiros acordes fazem-se ouvir, espalhando-se o som pela sala, forte e vigoroso. Quem conhece o reportório, admira-se de tal coragem. Existem momentos coxos na música. Existem alturas em que a música é inventada, desfigurada, estropiada. Por instantes, igual a si própria. Mas percorre aquele salão sem parar. Do princípio ao fim, até arrancar algo mais que umas fracas palmas, não interessa a razão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R4pE8OLGAgI/AAAAAAAAAbc/dKCdFZfyJsM/s1600-h/images-1.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R4pE8OLGAgI/AAAAAAAAAbc/dKCdFZfyJsM/s400/images-1.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5155008524866421250" border="0" /&gt;&lt;/a&gt; A seguir ao concerto, o homem continua a cumprimentar as pessoas, recebendo eco. De repente, o “Boa noite” é dito de uma vez. E o resto das palavras fazem-se ouvir. Devagarinho, as frases começam a fazer sentido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R4pDxeLGAdI/AAAAAAAAAbE/k0O1uY2dsxM/s1600-h/images-1.jpg"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-3781455472427088420?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/3781455472427088420/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=3781455472427088420' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/3781455472427088420'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/3781455472427088420'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/01/o-desconcerto.html' title='O desconcerto'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R4pC7-LGAbI/AAAAAAAAAa0/tAYFct7zYyo/s72-c/t1455192.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-528628749131460034</id><published>2008-01-10T21:48:00.000Z</published><updated>2008-01-24T11:49:06.254Z</updated><title type='text'>O casamento</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 153, 0);"&gt;Casamento à vista, tumulto em redor, turbilhão que corre, lá fora e cá dentro. Olhos que nos seguram pelo canto, mal disfarçados de intenções, que nos despem em praça central, em julgamento popular, pelas aparências furtivas, que nem sequer se chegam a desenhar, de tanta irregularidade acontecida, de tanta estranheza dentro da vida.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;object width="326" height="270" class="BLOG_video_class" id="BLOG_video-63492c2aef66899b" classid="clsid:D27CDB6E-AE6D-11cf-96B8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/get_player"&gt;&lt;param name="bgcolor" value="#FFFFFF"&gt;&lt;param name="allowfullscreen" value="true"&gt;&lt;param name="flashvars" value="flvurl=http://v13.nonxt2.googlevideo.com/videoplayback?id%3D63492c2aef66899b%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D3A9729554D8D600378593CEFEAE452F09B499127.10C391E02A2E8DA42101964945A079D593266F97%26key%3Dck1&amp;amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3D63492c2aef66899b%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3D02tnz80e1KuUCKcyxDmmg0s5dc8&amp;amp;autoplay=0&amp;amp;ps=blogger"&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/get_player" type="application/x-shockwave-flash"width="326" height="270" bgcolor="#FFFFFF"flashvars="flvurl=http://v13.nonxt2.googlevideo.com/videoplayback?id%3D63492c2aef66899b%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D3A9729554D8D600378593CEFEAE452F09B499127.10C391E02A2E8DA42101964945A079D593266F97%26key%3Dck1&amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3D63492c2aef66899b%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3D02tnz80e1KuUCKcyxDmmg0s5dc8&amp;autoplay=0&amp;ps=blogger"allowFullScreen="true" /&gt;&lt;/object&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Estou em casa do António, sem imaginar que me irá pertencer. Os móveis espiam-me, aquele louceiro da sala, sempre atento, incomoda-me. São presenças supérfluas, às quais nunca me adaptarei. Já lho disse, respondeu-me que era uma questão de hábito, não sei bem o que fazer, dormimos ontem, hoje, vamos dormir amanhã e depois; o consentimento dos pais, da aldeia inteira foi mudo e recatado, por falta de alternativa. Mesmo assim, carrego um céu pesado, de nuvens negras, inchadas de pecado. António diz-me que é essa sensação que entope a minha adaptação àquele espaço, a ele e à nossa vida. O casamento tem que ser feito, quanto antes. Apressamos a data, apressamos os abraços, condensamos o afecto. Continuo a estranhar a cama, o quarto com a janela pequena, as nesgas de sol, a cal a esboroar-se das paredes, o cheiro a mofo, a casa a gritar por vida e eu sem conseguir amar aquelas paredes, aquele soalho enegrecido, aquele fresco ali preso, mesmo sob o pino do calor. António adivinha-me e em duas palavras decide “Vendemos, não há problema nenhum, mas casamos na data marcada”. O esconderijo deixa de ser esconderijo e deixa de ser futuro, também. Relaxo e enrolo-me no seu corpo, à frente dos móveis velhos, que se despedem, acenando-me com as suas loiças.&lt;br /&gt;Dia do casamento. Um vestido branco sujo, curto, sem cauda. Feito por mim, com a ajuda da minha mãe. As tias, os tios, os primos e as primas, enfeitados para o dia de festa, de apetites aguçados para o melhor que venha. O resto da aldeia, apinhado na praça central, espalhado pelas ruas, pelas janelas que oferecem vistas. A igreja e um padre, logo ali. O meu desfile, pela mão do meu pai, longo caminho até à igreja, perto demais para ir de limusina, sacrifício oferecido à população sobre os meus pés, população sequiosa de pormenores, de espreitadelas, de fracos nunca vistos, população que se esquece de si, quando vai para a praça pública. Caminho lentamente para não desmanchar o meu sorriso, o meu penteado, afinado com uma grinalda cheia de flores verdadeiras, caminho de pernas à vista e de sapatos de salto alto, sem cauda para carregar. Os oohs de espanto ouvem-se debaixo da surdina, preocupando o meu pai, que apressa o passo, precipitando o ritual, fazendo gala em empurrar a filha para o altar e entregar a responsabilidade a outro.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 153, 0);"&gt;Casamento à vista, tumulto em redor, turbilhão que corre, lá fora e cá dentro. Olhos que nos seguram pelo canto, mal disfarçados de intenções, que nos despem em praça central, em julgamento popular, pelas aparências furtivas, que nem sequer se chegam a desenhar, de tanta irregularidade acontecida, de tanta estranheza dentro da vida.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;António surge lá do outro lado, descido do seu pequeno monte, da casinha das janelas pequenas, mundo pequeno e distante; surge em passo corrido, bonito de se ver no fato de cerimónia, tez bronzeada da guerra e do pó, homem esculpido a preceito pela natureza, sorriso aberto para mim, sorriso feliz e descarado, sorriso que a multidão não viu, caminho dos dois, sem ninguém à vista, felicidade invisível aos olhos dos curiosos. Chocamos os dois à porta da igreja, chocamos num longo abraço, o meu pai embaraçado com os procedimentos, as pessoas a empurrarem-nos para dentro da igreja; somos cuspidos para dentro, o meu pai fica para trás e de repente estamos perante o padre, com todos lá atrás, vestidos de silêncio, a sussurrar comentários surdos, à espera que a voz do mensageiro de Deus finalmente se levante. E o mensageiro levanta-se, contra vontade de muitos, dando início ao ritual. Nas últimas filas dos bancos corridos, chega apenas um eco difuso dos movimentos labiais do padre. Já toda a gente conhece a ladainha, apenas se observam uns aos outros; os nossos gestos, as nossas expressões ante a iminência de uma nova condição, os fatos dos outros, quem marcou presença, quem cochicha de graça e quem comenta com graça a procissão que se forma, quando viramos costas ao padre e entramos no mundo, no dia de hoje, perante o sol nu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 153, 0);"&gt;Casamento à vista, tumulto em redor, turbilhão que corre, lá fora e cá dentro. Olhos que nos seguram pelo canto, mal disfarçados de intenções, que nos despem em praça central, em julgamento popular, pelas aparências furtivas, que nem sequer se chegam a desenhar, de tanta irregularidade acontecida, de tanta estranheza dentro da vida.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Banquete rico, rica gente, rica terra. Os garfos tilintam, tilintam, exigindo o beijo tradicional. Beijamo-nos, por dentro só nós, num mundo colorido, de formas ausentes, onde rodopiamos, enlouquecidos com o brilho que se acende, com a plenitude que nos invade. Cá fora desenha-se um beijo vigiado, discreto aos olhares, contido demais, dando início ao repasto prometido. A gula absorve as atenções; devagarinho, cada um se lembra de si, investindo na comida que vem aí, largando as más línguas, as invejas do nada, os ciúmes de nós. António está longe de repente. Come com a vista para a frente, na confusão dos convidados. Agarro-lhe a mão, debaixo da mesa, para que não fuja, sem me levar também.&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R4aUc-LGAaI/AAAAAAAAAas/8VOPu1Tdn7U/s1600-h/images.jpeg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5153970049018888610" style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R4aUc-LGAaI/AAAAAAAAAas/8VOPu1Tdn7U/s400/images.jpeg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 153, 0);"&gt;Casamento à vista, tumulto em redor, turbilhão que corre, lá fora e cá dentro. Olhos que nos seguram pelo canto, mal disfarçados de intenções, que nos despem em praça central, em julgamento popular, pelas aparências furtivas, que nem sequer se chegam a desenhar, de tanta irregularidade acontecida, de tanta estranheza dentro da vida.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-528628749131460034?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='enclosure' type='video/mp4' href='http://www.blogger.com/video-play.mp4?contentId=63492c2aef66899b&amp;type=video%2Fmp4' length='0'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/528628749131460034/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=528628749131460034' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/528628749131460034'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/528628749131460034'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/01/o-casamento.html' title='O casamento'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R4aUc-LGAaI/AAAAAAAAAas/8VOPu1Tdn7U/s72-c/images.jpeg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-2434559310951939962</id><published>2008-01-08T19:06:00.001Z</published><updated>2008-02-27T10:11:23.666Z</updated><title type='text'>O silêncio</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R4PKIuLGAWI/AAAAAAAAAaM/N2-8Yr-2bzo/s1600-h/images.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer; width: 127px; height: 92px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R4PKIuLGAWI/AAAAAAAAAaM/N2-8Yr-2bzo/s400/images.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5153184649824305506" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;“ Detesto festas de família... não suporto aquelas reuniões obrigatórias, com toda a gente a falar em voz alta... que barulho insuportável”, desabafa ele, perante ela. “O empertigado do teu irmão e a vaidosa da mulher... as criancinhas, meu Deus, tão malcriadas... não aguento... e o teu pai, sempre a vangloriar-se... parece que não vales nada... só mesmo a tua mãe... essa pelo menos, não chateia...”, queixa-se ele, debaixo das baforadas de fumo do  cigarro dela.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R4PKhOLGAXI/AAAAAAAAAaU/5j0Rtu3Hzdo/s1600-h/t1581408.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://4.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R4PKhOLGAXI/AAAAAAAAAaU/5j0Rtu3Hzdo/s400/t1581408.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5153185070731100530" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;“Há pessoas que sabem apreciar o silêncio. A tua mãe é uma delas. Vou, por respeito a ela. Mas não abuses. E reza para que me contenha, o disparate às vezes é tanto, que um santo não aguentaria”, continua ele,  ao mesmo tempo que ela apaga a beata. “Desculpa, mas não estou habituado. Quer dizer, a tanta gente. Na minha família... somos só nós. Ninguém fala assim. Tão alto, pelo menos... existe harmonia e consegue-se ouvir o silêncio”, remata ele, enquanto se dirigem os dois para o carro. “Está na hora. Vamos. Guias tu? Temos tempo. Ah, estamos a chegar. Estaciona aí. Está óptimo. O que aconteceu? Não sais?”, pergunta ele, pela primeira vez, caído em si.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R4PLveLGAZI/AAAAAAAAAak/NCONv5QGNJE/s1600-h/t586967.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R4PLveLGAZI/AAAAAAAAAak/NCONv5QGNJE/s400/t586967.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5153186415055864210" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Ela confessa que não está bem disposta; pede-lhe que entre sozinho, que invente uma desculpa. Lamenta o sucedido, mas tem a certeza que ele compreenderá. Neste momento, ela precisa de voltar a abraçar o silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-2434559310951939962?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/2434559310951939962/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=2434559310951939962' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/2434559310951939962'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/2434559310951939962'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/01/o-silncio.html' title='O silêncio'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R4PKIuLGAWI/AAAAAAAAAaM/N2-8Yr-2bzo/s72-c/images.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-6864355667232963641</id><published>2008-01-07T21:41:00.000Z</published><updated>2008-01-13T12:00:36.720Z</updated><title type='text'>A luz da manhã</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;    Sonhou ontem com outra vida, que nem sequer chegou a viver. A sua cara era a de hoje, as outras eram rostos que conheceu e não chegaram a envelhecer.&lt;br /&gt;Tinha chegado à idade da razão, talvez tarde demais, mas mesmo assim, merecedora dos prémios falhados e revisora dos insucessos marcados lá no canto da alma.&lt;br /&gt;A vida amaciou-se, fundiu cores e envolveu-a numa tonalidade azul pálida, estreitando os corredores do tempo. As caras do passado deram as mãos e iniciaram o caminho curto até à luz azul. Vinham ter com ela, de sorriso misterioso. Pessoas que não via há anos. Suspendeu aquela imagem por momentos e meteu-os na terra, a contracenarem uns com os outros. Soltava gargalhadas, à medida que os ia apanhando desconcertados, a olharem-se perplexos, a conhecerem-se, percebendo que pertenciam a histórias diferentes.&lt;br /&gt;Abriu os olhos e viu-os a aproximarem-se. A luz continuava azul e estendia-se até ao último deles. Modelou-os ao seu gosto, eliminou o que lhe desagradava, valendo-se do facto de ser o único elo de ligação. Desenterrou desejos e viveu em silêncio momentos que se viravam do avesso em relação ao que realmente tinha acontecido.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;object width="320" height="266" class="BLOG_video_class" id="BLOG_video-c7484b7176fb5d9b" classid="clsid:D27CDB6E-AE6D-11cf-96B8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/get_player"&gt;&lt;param name="bgcolor" value="#FFFFFF"&gt;&lt;param name="allowfullscreen" value="true"&gt;&lt;param name="flashvars" value="flvurl=http://v14.nonxt1.googlevideo.com/videoplayback?id%3Dc7484b7176fb5d9b%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D76B96778646A9C0E2DDAF75742BF2E2E559C5450.4F21B21E7C953D6B954C0A4003FC0FE2CC0AE5B%26key%3Dck1&amp;amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3Dc7484b7176fb5d9b%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DQQwRld8xbhc4KWhZE06eyAZ6wUE&amp;amp;autoplay=0&amp;amp;ps=blogger"&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/get_player" type="application/x-shockwave-flash"width="320" height="266" bgcolor="#FFFFFF"flashvars="flvurl=http://v14.nonxt1.googlevideo.com/videoplayback?id%3Dc7484b7176fb5d9b%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D76B96778646A9C0E2DDAF75742BF2E2E559C5450.4F21B21E7C953D6B954C0A4003FC0FE2CC0AE5B%26key%3Dck1&amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3Dc7484b7176fb5d9b%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DQQwRld8xbhc4KWhZE06eyAZ6wUE&amp;autoplay=0&amp;ps=blogger"allowFullScreen="true" /&gt;&lt;/object&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não deve ter passado de um segundo com cada pessoa e um segundo que apenas faz de conta. Os olhares derreteram icebergs e o toque das mãos curaram feridas, invisíveis à vista desarmada. A gentileza das pessoas provocou-lhe uma sensação de plenitude, talvez por ser alvo de tanta atenção.&lt;br /&gt;Durante o uso dos segundos repara num homem que vem na fila. Ao longe parece maior que os outros, destacando-se a cabeça e ainda parte dos ombros. Abandona a fila sem aviso, vindo ao encontro dela. É novo e bem parecido. É alguém que lhe proporcionou uma experiência desagradável ao tornar-se seu companheiro. A personificação do inatingível, deixando-lhe os lábios mordidos de frustração. A escurecer o horizonte, pontapeando a vida.&lt;br /&gt;Está à sua frente, espantado com a cor da luz. Olha-a como se ela fosse uma miragem. Os segundos que não existem alargam-se, criando um vácuo no tempo. Os dois estão recortados no espaço e visíveis de qualquer ponto do Universo. Tocam-se e trocam corpos sem se fundirem. Rodopiam, unem as mãos e repetem a habilidade. O bailado prolonga-se até se aperceberem que a fila desistiu de esperar e desapareceu, deixando-os a sós mais a luz, que rapidamente se extingue, apagando as  suas silhuetas.&lt;br /&gt;Ela acorda de manhã, à procura da luz azul. Ele entra em surdina no quarto. Esqueceu-se do perfume e começa a esgravatar nas gavetas. Os lenços saltam, mais as cuecas e as bugigangas de uma vida. A respiração dela denuncia-a. Ele volta-se, surpreendido. “Ah, és tu, já acordada… desculpa, não queria incomodar. Hoje venho tarde. Já me esquecia... era para te dizer... este fim de semana tenho um congresso. Depois falamos. Até logo, querida”.&lt;br /&gt;É o homem dos seus sonhos. Apenas mais engelhado.&lt;br /&gt;Ela olha em redor, ainda ensonada. É apenas mais uma manhã, igual a tantas outras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-6864355667232963641?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='enclosure' type='video/mp4' href='http://www.blogger.com/video-play.mp4?contentId=c7484b7176fb5d9b&amp;type=video%2Fmp4' length='0'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/6864355667232963641/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=6864355667232963641' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/6864355667232963641'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/6864355667232963641'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/01/luz-da-manh.html' title='A luz da manhã'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-8197462111380250868</id><published>2008-01-05T12:38:00.000Z</published><updated>2008-01-13T12:05:15.174Z</updated><title type='text'>O labirinto</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Passa por dias negros, sem se aperceber. Faça sol ou chuva, tanto faz, é um labirinto onde ela se enreda, onde se perde, onde ganha o hábito de viver todos os dias. Há caminhos que parecem atalhos, prometem uma saída airosa até à estrada principal, mas depressa desembocam em becos sem saída, muros altos de tijolos grossos, sem uma janela, sem um buraco por onde espreitar. A nossa amiga vive em céu destapado, presa fácil para quem espreita de fora. No meio desta aflição há um amigo que promete destruir a sensação de labirinto, de escuridão invisível, do desespero que lhe enche a alma. O começo de uma nova vida, de uma vida que, afinal está sempre a começar. O entusiasmo nasce da nova proposta; um negócio fácil, em terreno desconhecido, com pormenores desconhecidos, contrato à frente, com cara de tábua de salvação. As dívidas, a má sorte, os anseios, os sonhos. Tudo. Despem-se as paredes do labirinto, desaparecem os caminhos difíceis, nascem saídas. E deitam-se mãos ao trabalho, com uma energia contagiante. Desfolham-se dias, em que tudo parece correr bem.&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;object width="320" height="266" class="BLOG_video_class" id="BLOG_video-645eae530d5692b2" classid="clsid:D27CDB6E-AE6D-11cf-96B8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/get_player"&gt;&lt;param name="bgcolor" value="#FFFFFF"&gt;&lt;param name="allowfullscreen" value="true"&gt;&lt;param name="flashvars" value="flvurl=http://v22.nonxt7.googlevideo.com/videoplayback?id%3D645eae530d5692b2%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D4ECA3168B31247606705395C11D3EF53E017A623.7B534A483BA4A3D4643966045D641806340405D3%26key%3Dck1&amp;amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3D645eae530d5692b2%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3D6tASR8jmyM2MURCCbD8lJVhDWzw&amp;amp;autoplay=0&amp;amp;ps=blogger"&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/get_player" type="application/x-shockwave-flash"width="320" height="266" bgcolor="#FFFFFF"flashvars="flvurl=http://v22.nonxt7.googlevideo.com/videoplayback?id%3D645eae530d5692b2%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D4ECA3168B31247606705395C11D3EF53E017A623.7B534A483BA4A3D4643966045D641806340405D3%26key%3Dck1&amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3D645eae530d5692b2%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3D6tASR8jmyM2MURCCbD8lJVhDWzw&amp;autoplay=0&amp;ps=blogger"allowFullScreen="true" /&gt;&lt;/object&gt;&lt;br /&gt; Em cada um, há sempre um pormenor que não consta do contrato, tão pequeno, que só uma lupa consegue detectar. As decepções são curtas, apesar de se irem avolumando, causando uma estranheza que lhe desperta sentimentos contraditórios. Quando a imagem se aclara, ela vê com nitidez o que a escuridão escondeu antes. Uma trapaça simples, armada por um agiota sem classe. Revoltada, luta sob fúria, tentando repôr a verdade. Compreende que a estrada está deserta, e continua, até se perder de vista. Inesperadamente, o labirinto reaparece, envolvendo-a. Uma luz diferente penetra, derrotando a escuridão. São caminhos novos, a repensar.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-8197462111380250868?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='enclosure' type='video/mp4' href='http://www.blogger.com/video-play.mp4?contentId=645eae530d5692b2&amp;type=video%2Fmp4' length='0'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/8197462111380250868/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=8197462111380250868' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/8197462111380250868'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/8197462111380250868'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/01/o-labirinto.html' title='O labirinto'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-2806423176297821373</id><published>2008-01-03T19:35:00.000Z</published><updated>2008-01-03T19:53:26.634Z</updated><title type='text'>O chapéu e o laço</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt; A voz dele domina o ar, por onde quer que passe. Sem levantar o tom. Apropria-se do espaço, das pessoas, levitando acima das multidões. Ecoa antes que alguém fale, transforma-se em ordem, antes que alguém pense. Com uma delicadeza perfeita, envolvida em gestos atenciosos, modos gentis, galanteios inesperados. Traz um chapéu na cabeça, um laço ajustado ao pescoço e as gargalhadas confiantes, de quem vê por cima dos outros. Um dia, uma criança, espantada com tal energia, interrompe-lhe a gargalhada: “Nunca te sentes triste?” O sorriso paralisa e as gargalhadas emudecem. O rosto perde a cor e os gestos enfraquecem. As palavras largam o brilho e balbuciam em segredo: “às vezes...” E a criança insiste: “O que fazes, quando estás assim?” “Rio-me”, responde ele. Surpreendido com a conversa, atreve-se a pensar. Muda de paisagem e enfrenta um céu aberto, intenso, que lhe ilumina o rosto. Segue por uma estrada solitária e contempla a imensidão dos campos calados. Assusta-se com o silêncio, num dia sem vento. Mesmo assim, ganha coragem e decide projectar a voz no espaço, para ter a certeza de si. O eco devolve-lhe a imagem, petrificando-o. Nunca se tinha ouvido. Lentamente, tira o chapéu e desaperta o laço, deixando-os ali, à mercê do acaso.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;object width="320" height="266" class="BLOG_video_class" id="BLOG_video-141f455aea1b0e8c" classid="clsid:D27CDB6E-AE6D-11cf-96B8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/get_player"&gt;&lt;param name="bgcolor" value="#FFFFFF"&gt;&lt;param name="allowfullscreen" value="true"&gt;&lt;param name="flashvars" value="flvurl=http://v22.nonxt1.googlevideo.com/videoplayback?id%3D141f455aea1b0e8c%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D48A90E654F514272A454B53CF260F47B1ED35DC3.4106A9E978C6E3FE5FC815A1E36BBBB316E87DB4%26key%3Dck1&amp;amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3D141f455aea1b0e8c%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DtknyzSjYzogaq1SWgxrL8pmTdVI&amp;amp;autoplay=0&amp;amp;ps=blogger"&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/get_player" type="application/x-shockwave-flash"width="320" height="266" bgcolor="#FFFFFF"flashvars="flvurl=http://v22.nonxt1.googlevideo.com/videoplayback?id%3D141f455aea1b0e8c%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D48A90E654F514272A454B53CF260F47B1ED35DC3.4106A9E978C6E3FE5FC815A1E36BBBB316E87DB4%26key%3Dck1&amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3D141f455aea1b0e8c%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3DtknyzSjYzogaq1SWgxrL8pmTdVI&amp;autoplay=0&amp;ps=blogger"allowFullScreen="true" /&gt;&lt;/object&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-2806423176297821373?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='enclosure' type='video/mp4' href='http://www.blogger.com/video-play.mp4?contentId=141f455aea1b0e8c&amp;type=video%2Fmp4' length='0'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/2806423176297821373/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=2806423176297821373' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/2806423176297821373'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/2806423176297821373'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/01/o-chapu-e-o-lao_03.html' title='O chapéu e o laço'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-1543602747604759517</id><published>2008-01-02T19:12:00.000Z</published><updated>2008-01-13T12:01:52.310Z</updated><title type='text'>O jardim</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt; Um jardim desenha-se, atrás da casa. A relva aparada, as árvores arranjadas, os ramos cortados a ondular, mostrando o caminho ao vento. As crianças em movimento, espalhadas pela relva, correndo até às sebes altas, que guardam o jardim. Uma mesa repleta de iguarias. Uma outra, mais distante. As pessoas à volta, pratos na mão, um copo que se pede, mil conversas que se cruzam. Uma festa de vida. A filha e o noivo, as testemunhas presentes, a prova viva de que ele ainda existe e que afinal, continua a lutar. Contra todos os prognósticos. Chega a pensar ser feito de um material diferente. Invencível. A filha despede-se do jardim e tempos depois, dá-lhe uma neta, igual a ela, igual a ele. Como se fossem dois espelhos dele, de reflexo luminoso. O tempo corre, sem ninguém pensar nele. Só ele pergunta que horas são, que dia é hoje, quantas semanas faltam, quanto tempo já passou. Boas e más notícias vão-se intercalando, confundindo-o. Até que um dia, uma dor lancinante o atinge. Levanta-se da cadeira, e antes que alguém descubra o segredo, corre a chamar a família. Naquele dia, almoçam no jardim e o vento volta a soprar, como se a vida fosse continuar. A neta ri-se, puxa-lhe a mão e pede que brinque com ela, a filha encara-o nos olhos, comentando a sua boa disposição. O genro dá-lhe uma palmada nas costas e serve-lhe uma bebida. A mulher comenta o dia lindo e vira costas, sem poder mais. Um último sorriso assoma-lhe, a querer despedir-se do vento e daquele jardim.&lt;br /&gt;&lt;object width="320" height="266" class="BLOG_video_class" id="BLOG_video-467a6b9cf1f4e05e" classid="clsid:D27CDB6E-AE6D-11cf-96B8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/get_player"&gt;&lt;param name="bgcolor" value="#FFFFFF"&gt;&lt;param name="allowfullscreen" value="true"&gt;&lt;param name="flashvars" value="flvurl=http://v9.nonxt6.googlevideo.com/videoplayback?id%3D467a6b9cf1f4e05e%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D8AB7DD9CB904FC60694704F5D5064D10525B0C1.4430858F3FF532999E9D34F6D468F3DC3D57E6F%26key%3Dck1&amp;amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3D467a6b9cf1f4e05e%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3D6LgngP2KU-lTOxrP4ycFLjeOzKU&amp;amp;autoplay=0&amp;amp;ps=blogger"&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/get_player" type="application/x-shockwave-flash"width="320" height="266" bgcolor="#FFFFFF"flashvars="flvurl=http://v9.nonxt6.googlevideo.com/videoplayback?id%3D467a6b9cf1f4e05e%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331101685%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D8AB7DD9CB904FC60694704F5D5064D10525B0C1.4430858F3FF532999E9D34F6D468F3DC3D57E6F%26key%3Dck1&amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3D467a6b9cf1f4e05e%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3D6LgngP2KU-lTOxrP4ycFLjeOzKU&amp;autoplay=0&amp;ps=blogger"allowFullScreen="true" /&gt;&lt;/object&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Fragile&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;If blood will flow when fresh and steel are one&lt;br /&gt;Drying in the colour of the evening sun&lt;br /&gt;Tomorrow's rain will wash the stains away&lt;br /&gt;But something in our minds will always stay&lt;br /&gt;Perhaps this final act was meant&lt;br /&gt;To clinch a lifetime's argument&lt;br /&gt;That nothing comes from violence and nothing ever could&lt;br /&gt;For all those born beneath an angry star&lt;br /&gt;Lest we forget how fragile we are&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;On and on the rain will fall&lt;br /&gt;Like tears from a star like tears from a star&lt;br /&gt;On and on the rain will say&lt;br /&gt;How fragile we are how fragile we are&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;On and on the rain will fall&lt;br /&gt;Like tears from a star like tears from a star&lt;br /&gt;On and on the rain will say&lt;br /&gt;How fragile we are how fragile we are&lt;br /&gt;How fragile we are how fragile we are&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-1543602747604759517?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='enclosure' type='video/mp4' href='http://www.blogger.com/video-play.mp4?contentId=467a6b9cf1f4e05e&amp;type=video%2Fmp4' length='0'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/1543602747604759517/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=1543602747604759517' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/1543602747604759517'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/1543602747604759517'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/01/o-jardim.html' title='O jardim'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-2296429285367145417</id><published>2008-01-02T12:37:00.001Z</published><updated>2008-01-06T19:57:30.413Z</updated><title type='text'>O estendal</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R3uFjuLGAPI/AAAAAAAAAZU/MPV6njRbCY0/s1600-h/t1303526.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5150857447564771570" style="FLOAT: left; MARGIN: 0pt 10px 10px 0pt; CURSOR: pointer" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R3uFjuLGAPI/AAAAAAAAAZU/MPV6njRbCY0/s400/t1303526.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;Prédios que se juntam sem querer. Vizinhos que nada têm em comum, a não ser um bom dia de fugida, muitas vezes carrancudo. Por detrás deste anonimato, os percursos de cada um, as vidas que não se conhecem e que correm ao mesmo tempo. As regras do bom senso e o velho respeito pelo próximo. Neste cenário estão dois vizinhos, um por cima do outro, a exibirem estendais para a rua principal, não que isto seja uma opção dos próprios, mas antes algo a que o prédio inteiro não pode fugir, descurando a hipótese das traseiras; ninguém sabe quem foi o responsável, o que é certo é que em dia de sol o prédio fica mais colorido e adornado com as roupas dos vizinhos viradas do avesso.&lt;br /&gt;Um dos vizinhos convida dois ou três amigos para jantar, o outro vizinho escuta pelas paredes finas do prédio e parece-lhe um desacato enorme; mudo fica pelas horas que ainda permitem a diversão, mas a atenção apura-se em seguir o rastro do vizinho social, na esperança de encontrar uma infracção à norma. Nesse serão, um gentil convidado tem a iniciativa de despejar as migalhas da toalha por cima do estendal do vizinho. Na ausência de roupa estendida. Isto, a altas horas da noite.&lt;br /&gt;Os bons dias que se seguem não são nada amigáveis. O vizinho de cima não percebe a antipatia. Esforça-se por ser gentil, sorri, estende a mão, comenta o tempo e a proximidade do fim de semana, mas apanha com portas fechadas, elevadores subidos à pressa, correrias, caras irreconhecíveis.&lt;br /&gt;O vento seca a roupa dos estendais, formando um conjunto de bandeiras agitadas e desordenadas, quando o vizinho de cima resolve fazer o mesmo e por acaso espreitar cá para baixo. Há um letreiro com letras gordas preso com molas de roupa e virado para o céu, dizendo: “ Não deitar lixo pela janela”. Faz sentido agora o vizinho virado do avesso com a roupa vestida do direito. É uma nova forma de comunicação que se inicia. Nem virtual, nem próxima; também não é impessoal. Nem sequer casual.&lt;br /&gt;Apreensivo, o vizinho de cima reflecte sobre o assunto. Apesar da grotesca situação, o vizinho de baixo tem razão. É apenas um pouco desajeitado na forma de o dizer. Como lhe agradecer?&lt;br /&gt;As roupas voltam-se a estender em dias solarengos, de maior ou menor vento, intercalados com os dias de chuva e o vizinho de cima também a estende, com o olhar pregado no andar de baixo. O aviso nunca é retirado, teimoso e receoso das fracas consciências. Mas o tempo ganha e esboroa o papel, esbate as letras e o aviso corre o risco de ser esquecido. O vizinho de cima toca à campainha do vizinho de baixo, preocupado com a situação. Este abre a porta, surpreso, mal tendo tempo para pôr a cara do avesso. O outro apenas lhe lembra o letreiro deteriorado, ouvindo ainda um obrigado.&lt;br /&gt;Quando o vizinho de cima estende a roupa já não olha para o chão. Nem sequer tem curiosidade em saber se está lá algum letreiro. Como se uma espécie de cegueira o tivesse atacado sobre estendais e vizinhos.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-2296429285367145417?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/2296429285367145417/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=2296429285367145417' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/2296429285367145417'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/2296429285367145417'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/01/o-estendal.html' title='O estendal'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R3uFjuLGAPI/AAAAAAAAAZU/MPV6njRbCY0/s72-c/t1303526.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-1789293216790090782</id><published>2008-01-01T19:38:00.000Z</published><updated>2008-01-01T19:40:23.075Z</updated><title type='text'>Os quadros</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R3qW-eLGAMI/AAAAAAAAAY8/NM3nmyk8GPQ/s1600-h/t1544966.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://4.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R3qW-eLGAMI/AAAAAAAAAY8/NM3nmyk8GPQ/s400/t1544966.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5150595123847233730" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; Um sujeito rodopia,  entre cada grupo,  entre cada quadro, entre cada copo que se bebe, entre olhares que não se conhecem, entre outros olhares, que ao contrário, são alvo de atenção. O sujeito circula, circula,  por fora,  de costas para os quadros, a espiolhar, como uma ave de rapina, o centro da galeria, o centro dos interesses, as pessoas também de costas voltadas para os quadros, cada uma a farejar o que os outros têm para dar. Qual não é o espanto do sujeito, quando repara num segundo personagem, que acabou de se esgueirar das gargalhadas estridentes, das baforadas de fumo e das conversas de circunstância e apressa o passo atrás dele, observando o olhar que absorve o grupo de pessoas, envolto em si. Atrás deste surge um terceiro, intrigado com a atitude dos dois, resolve segui-los, até perceber onde a charada o leva. E depois um quarto e um quinto... É uma roda de homens atrás de um mistério nascido ali, que circulam uns atrás dos outros, perante o ar impávido do grupo central, alheio aos quadros e aos homens. O primeiro sujeito cansa-se dos tenazes seguidores; não só trava de repente, como se vira para o segundo homem, indignado, perguntando que paródia vem a ser aquela, ele é artista, exibe quadros naquela exposição, apenas tenta conhecer alguém interessado na sua obra. “Nós também”, respondem os outros. “Ninguém nos apresentou. Nem fomos apresentados. Já agora, qual é a sua obra? E a sua?” Os dedos apontam-se em várias direcções, a vista arregala-se e os homens reiniciam a sua ronda, em passo lento e apreciador, desta vez de costas voltadas para o grupo convidado, que continua a desfrutar do agradável cocktail.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-1789293216790090782?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/1789293216790090782/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=1789293216790090782' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/1789293216790090782'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/1789293216790090782'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/01/os-quadros.html' title='Os quadros'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R3qW-eLGAMI/AAAAAAAAAY8/NM3nmyk8GPQ/s72-c/t1544966.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-5855872155594186288</id><published>2008-01-01T19:32:00.001Z</published><updated>2008-01-01T22:00:18.254Z</updated><title type='text'>A janela</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R3q37OLGAOI/AAAAAAAAAZM/kjcQ0iQqhUM/s1600-h/911116.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R3q37OLGAOI/AAAAAAAAAZM/kjcQ0iQqhUM/s400/911116.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5150631351896375522" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; É depois de virar aquela esquina. Um pouco mais à frente, há uma janela minúscula, sempre entreaberta. Umas cortinas barram o olhar aos indiscretos, esvoaçando de vez em quando pela frincha. A janela é de uma velhota que vigia a rua todos os dias, sem ninguém lhe pedir. Uma doença arrastada, o declínio próprio da idade, deixaram-na frente à janela, única abertura para espreitar a vida. Conhece  quase todos os habitantes das redondezas; os hábitos, as manias, os segredos. Conhece, inclusive, a hora a que costumam passar pela rua, a picar bilhete debaixo da sua janela. Nesta azáfama de ver quem lá vem, a velhota dá por uma cara nova, que passa encolhida. Semicerra os olhos, focando a jovem mulher. “É a filha do Horácio... mas hoje foi o funeral dele. Porque não está com a família?” De falinhas mansas, a velhota interrompe o seu passo lento: “O que aconteceu minha filha? Vens tão triste e tão alegremente vestida...” A jovem dá um pulo para trás, encara-a, e sem dizer uma palavra, continua o seu caminho, deixando a velha pendurada. Nos dias seguintes, a jovem passa pela janela da velha, cabisbaixa, mas vestida com cores alegres. Esta, intrigada, comenta: “ Ó menina, isso então é que é fazer luto? Ainda o paizinho não arrefeceu, já andas por aí toda garrida... olha que ele não merece... era um santo homem, Deus o tenha lá bem guardado.” A jovem finge não ouvir, mas as palavras cravam-se-lhe como setas. Como explicar à velha que não aguenta tal infelicidade, que se sente nua, se não se disfarçar? Passado um tempo, a jovem passa, vestida de preto. A velhota repara: “Quem não te conheça, vai pensar que és viúva antes do tempo”. A jovem sorri e responde: “ Já não preciso que reparem em mim.”&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-5855872155594186288?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/5855872155594186288/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=5855872155594186288' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/5855872155594186288'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/5855872155594186288'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/01/janela.html' title='A janela'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R3q37OLGAOI/AAAAAAAAAZM/kjcQ0iQqhUM/s72-c/911116.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4485001093648857441.post-3822380422870908814</id><published>2008-01-01T19:21:00.000Z</published><updated>2008-01-13T21:32:20.428Z</updated><title type='text'>A calçada</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R3qUDOLGAKI/AAAAAAAAAYs/gbNvACz1klM/s1600-h/t1329819.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R3qUDOLGAKI/AAAAAAAAAYs/gbNvACz1klM/s400/t1329819.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5150591906916728994" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; É hora de ponta. Ele desce a calçada, apressado, ziguezagueando por entre milhares de rostos anónimos. O dia é vivido ao dobro da velocidade. 120 segundos por minuto, 120 minutos por hora, 48 horas por dia. Oxalá pudesse viver esta proeza ao quádruplo da velocidade. Os outros ficariam ainda mais para trás. Não é que perca muito tempo com eles. Cada vez perde menos. E o tempo não se pode desperdiçar. No meio da calçada, encontra duas ou três caras conhecidas, talvez mais. Actualmente, é reconhecido debaixo de qualquer disfarce. “É o preço da fama”, pensa com orgulho. Acelera o passo no passeio concorrido, desviando-se dos conhecidos. A mão acena ao longe, a cabeça abana, dizendo que está tudo bem, o sorriso de medida certa corta o diálogo.&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R3qT9OLGAJI/AAAAAAAAAYk/IWb5BjcxOv4/s1600-h/t1345681.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R3qT9OLGAJI/AAAAAAAAAYk/IWb5BjcxOv4/s400/t1345681.jpg" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5150591803837513874" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Ainda se ouve: “Desculpe, estou cheio de pressa!” Os dias aceleram, na companhia dele. Destacado dos outros, como se de uma maratona se tratasse, continua a correr, aumentando ainda mais a distância que, por si só, se tornou inalcançável.  Um dia, de regresso à calçada, cruza-se com alguém mais famoso do que ele. Um ídolo que venera, um ícone de uma geração. A calçada despe-se de todas as pessoas que por ali passam, deixando-os a sós no cruzamento. Ele aborda a pessoa, confiante de que ambos pisam o mesmo tapete. A expressão carrancuda do famoso não ajuda, mais o guarda-costas atrás, que o repele como a um vulgar mosquito. Mais tarde, na mesma calçada, ainda meio atordoado com o episódio, ele abranda o passo, queixando-se a um ou outro conhecido que passa. Ninguém reconhece a lentidão dos gestos, o ar abatido e a voz que não se cala. Ninguém compreende porque é que o tempo deixou de existir.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R3qT9OLGAJI/AAAAAAAAAYk/IWb5BjcxOv4/s1600-h/t1345681.jpg"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4485001093648857441-3822380422870908814?l=ideiassobreletras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/feeds/3822380422870908814/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4485001093648857441&amp;postID=3822380422870908814' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/3822380422870908814'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4485001093648857441/posts/default/3822380422870908814'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://ideiassobreletras.blogspot.com/2008/01/calada.html' title='A calçada'/><author><name>Rita Maia e Silva</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08033410810029630728</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://1.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/SbxBZ6MPf0I/AAAAAAAADTQ/9Unqn3l1RDU/S220/IMG_3113.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_c2StMwh5AFc/R3qUDOLGAKI/AAAAAAAAAYs/gbNvACz1klM/s72-c/t1329819.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
