quinta-feira, 19 de junho de 2008

O encontro

São vinte cinco quilómetros até à vila, onde o grupo o espera. Amigos de longa data, interesses comuns a juntar gente diferente. Vão chegando, com o entusiasmo à frente e as palavras por arrasto; é sempre assim quando se encontram, parece que os anos se espantam e fogem muito lá para trás, já nem a memória se recorda. São vinte e cinco quilómetros para lá, vinte e cinco para cá. Cinquenta ao todo. Não tem gasolina que chegue e nem vale a pena imaginar outro meio de transporte, pois ele não existe. Situação deprimente, não se confessa ao melhor amigo. Nunca se viu assim. Dinheiro raramente é tema de conversa, na roda dos aflitos. Mesmo que não exista, convém agir como se houvesse. É de bom tom. Ele hesita. Talvez ir para o meio da estrada, apanhar boleia, mesmo sabendo que está fora de moda, que até pode ser perigoso. Sempre disfarçava o estado de penúria. Ganhava tempo, com um golpe de sorte podia inverter a situação. Subitamente, ri-se do próprio pensamento. São apenas amigos. Amigos de sempre. O resto do saldo ainda dá para fazer um telefonema. “Estou? É para dizer que não posso ir. Não tenho dinheiro. É como te digo. Ris-te? Se é partida de Carnaval? Nunca falei tão a sério. Diz-lhes.” O espanto do grupo é geral, cá deste lado. Por vinte e cinco quilómetros? Mas porque é que ele não nos disse? Não fazia a menor ideia. Sim, andava desanimado. Já pouco falava. Sempre foi introvertido. Mas por vinte e cinco quilómetros? Podia ter dito. O que é que tinhas feito? O que tu farias. Emprestar dinheiro. Se fosse contigo: Confessavas? Talvez não. Ah, voltamos então ao princípio. Não exageres. Não é o fim do mundo, faltar a um encontro de amigos. Hão-de haver mais oportunidades.


quinta-feira, 12 de junho de 2008

Um ladrão especial

Há um artista em digressão. A comitiva que o segue não é grande, mas à medida que vão chegando, com as suas carrinhas pintadas de cores vivas e carimbadas com a fotografia dele, toda a gente o reconhece. As pessoas juntam-se, numa primeira euforia, a ver quem sai das carrinhas, na esperança de ver e seguir o artista. A polícia aproxima-se, tentando pôr ordem na já razoável multidão, criando largueza para que o artista e a sua comitiva possam passar descansados. Decepcionados, os fãs dispersam, resignados ao concerto da noite. Os músicos e todas as pessoas envolvidas no espectáculo atarefam-se, nos últimos preparativos. Ninguém repara num rapaz, que ficou ao pé das carrinhas vazias. A noite chega, tarde para uns, cedo para outros e o espectáculo começa, numa explosão de luzes, alegria e som. A multidão envolve-se, pula e grita desenfreadamente. Os aplausos não acabam, pedem-se bis, bis e mais bis e o artista lá vai, todo inchado, com as canções extra preparadas, a voz já cansada, sem admitir. Por fim, público, artista e músicos encerram o espectáculo, suados, cansados, roucos e satisfeitos. O som apaga-se de repente, deixando ainda um zunido nos ouvidos. Um doce zunido das melodias tocadas. E a luz diminui, a multidão começa a dispersar e a adrenalina volta ao lugar. É noite avançada e o rapaz deixou as carrinhas vazias. No dia seguinte, a comitiva assusta-se com os berros do artista. Roubaram-lhe uma valiosa colecção de cd’s. Os seus favoritos, ainda por cima. Discos raros, encontrados aqui e acolá. Mas não roubaram tudo. Isso é que ele não consegue explicar. Apenas sobraram um montinho deles, criteriosamente arrumados numa gaveta. Os álbuns que ele gravou, como artista. Esses, o ladrão não os quis.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

A despedida

As costas arqueiam, sobre o balcão do café. As pernas, que os clientes não vêem, mal suportam o peso de um corpo disforme, alterado pela doença que os anos trouxeram. Coxeia, a adivinhar pelos movimentos trôpegos com que se balanceia, entre tirar bicas e servi-las ao balcão. O rosto é luminoso e chama a atenção: uma simpatia contagiante, o jeito natural para mimar cada cliente, com a palavra certa, o comentário que não se espera, mas que a todos faz sentir únicos, ao tomar o café da manhã. Entre o desfilar de empregadas, que vão cumprindo turnos sem vontade, aparece ela, a fingir que não traz a doença, a ludibriar os clientes, com a energia à frente e as costas dobradas a atraiçoá-la. Os dias perseguem-na, minando-lhe o ânimo e as forças. Coxeia cada vez mais, atrás do balcão e vai além dos comentários habituais; começa a partilhar histórias suas, troca experiências e de sinceridade armada, confessa, do nada, o que sempre escondeu. A pergunta e a resposta saltam, vivas, espontâneas, na cara de cada um: “Venha cá no dia trinta e um. Não sabia? Vou-me embora. Não posso mais. Viu como me mexo? É impossível, estou cada vez pior. Empregadas? É complicado. Já agora, gostava de o ver, mais uma vez. O café? Fica entregue em boas mãos, não se preocupe. O mesmo nome, o mesmo espaço, tudo como dantes”. No dia trinta e um o café enche-se de gente, que a cumprimenta com um olhar diferente. No dia seguinte, a vida recomeça, no café, com os novos donos. Os clientes entram e bebem o habitual café, estranhando o sabor, o espaço e o silêncio que paira sobre o balcão.