
Há um artista em digressão. A comitiva que o segue não é grande, mas à medida que vão chegando, com as suas carrinhas pintadas de cores vivas e carimbadas com a fotografia dele, toda a gente o reconhece. As pessoas juntam-se, numa primeira euforia, a ver quem sai das carrinhas, na esperança de ver e seguir o artista. A polícia aproxima-se, tentando pôr ordem na já razoável multidão, criando largueza para que o artista e a sua comitiva possam passar descansados. Decepcionados, os fãs dispersam, resignados ao concerto da noite. Os músicos e todas as pessoas envolvidas no espectáculo atarefam-se, nos últimos preparativos. Ninguém repara num rapaz, que ficou ao pé das carrinhas vazias. A noite chega, tarde para uns, cedo para outros e o espectáculo começa, numa explosão de luzes, alegria e som. A multidão envolve-se, pula e grita desenfreadamente. Os aplausos não acabam, pedem-se bis, bis e mais bis e o artista lá vai, todo inchado, com as canções extra preparadas, a voz já cansada, sem admitir. Por fim, público, artista e músicos encerram o espectáculo, suados, cansados, roucos e satisfeitos. O som apaga-se de repente, deixando ainda um zunido nos ouvidos. Um doce zunido das melodias tocadas. E a luz diminui, a multidão começa a dispersar e a adrenalina volta ao lugar. É noite avançada e o rapaz deixou as carrinhas vazias. No dia seguinte, a comitiva assusta-se com os berros do artista. Roubaram-lhe uma valiosa colecção de cd’s. Os seus favoritos, ainda por cima. Discos raros, encontrados aqui e acolá. Mas não roubaram tudo. Isso é que ele não consegue explicar. Apenas sobraram um montinho deles, criteriosamente arrumados numa gaveta. Os álbuns que ele gravou, como artista. Esses, o ladrão não os quis.
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