quarta-feira, 4 de junho de 2008

A despedida

As costas arqueiam, sobre o balcão do café. As pernas, que os clientes não vêem, mal suportam o peso de um corpo disforme, alterado pela doença que os anos trouxeram. Coxeia, a adivinhar pelos movimentos trôpegos com que se balanceia, entre tirar bicas e servi-las ao balcão. O rosto é luminoso e chama a atenção: uma simpatia contagiante, o jeito natural para mimar cada cliente, com a palavra certa, o comentário que não se espera, mas que a todos faz sentir únicos, ao tomar o café da manhã. Entre o desfilar de empregadas, que vão cumprindo turnos sem vontade, aparece ela, a fingir que não traz a doença, a ludibriar os clientes, com a energia à frente e as costas dobradas a atraiçoá-la. Os dias perseguem-na, minando-lhe o ânimo e as forças. Coxeia cada vez mais, atrás do balcão e vai além dos comentários habituais; começa a partilhar histórias suas, troca experiências e de sinceridade armada, confessa, do nada, o que sempre escondeu. A pergunta e a resposta saltam, vivas, espontâneas, na cara de cada um: “Venha cá no dia trinta e um. Não sabia? Vou-me embora. Não posso mais. Viu como me mexo? É impossível, estou cada vez pior. Empregadas? É complicado. Já agora, gostava de o ver, mais uma vez. O café? Fica entregue em boas mãos, não se preocupe. O mesmo nome, o mesmo espaço, tudo como dantes”. No dia trinta e um o café enche-se de gente, que a cumprimenta com um olhar diferente. No dia seguinte, a vida recomeça, no café, com os novos donos. Os clientes entram e bebem o habitual café, estranhando o sabor, o espaço e o silêncio que paira sobre o balcão.

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