
O quarto tem a porta entreaberta. Os brinquedos, espalhados por todo o lado, rolam até cá fora, entupindo a passagem, a quem queira entrar. Num mundo diferente, onde não se pára de correr, de brincar, de rir, de cair e chorar, está ela, travessa, endiabrada, a saltar de brinquedo em brinquedo, a aborrecer-se, a procurar nova fonte de diversão, a cansar-se outra vez, e, novamente, a explorar, sem desistir, outros jogos. Imagina que o quarto está numa selva; paredes derrubadas, limites fora de vista, árvores gigantes, vegetação cerrada e o perigo, sempre iminente, pregado a qualquer som, a qualquer movimento.

Os bonecos são a sério; animais selvagens que se animam, e os brinquedos, armas de defesa, lianas que tecem uma rede, de árvore em árvore, barcos improvisados, que atravessam rios infestados de crocodilos. Do outro lado do mundo, a mãe chega, desbravando a vegetação. Tropeçando por mais que uma vez, chama-a, irritada. Os trabalhos da escola por fazer, uma jarra de estimação partida, a bulha com as irmãs, os ouvidos moucos, que nunca dão sinal de si. A mãe dá-lhe um safanão e puxa-lhe as orelhas; desta vez, tem que a ouvir. Há um castigo a cumprir. O mundo interrompido, a visita àquelas terras distantes, os brinquedos escondidos.

Ela sai do quarto, por instantes. A mãe está na cozinha, atarefada. Ela dirige-lhe a palavra, docemente, falando-lhe duma mala que viu, linda, na montra de uma loja. “Compras-me?” Do outro mundo, já não há sombra. A mãe mal acredita. “Não te lembras? Estás de castigo!”. Ela acena negativamente com a cabeça. Os brinquedos estão proibidos, mas nada a impede de inventar uma nova história.
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