sexta-feira, 18 de abril de 2008

O segredo



Há um dentista novo, que acabou de se instalar no bairro. O consultório também cheira a novo, apesar de se ouvir o barulho das brocas e de se sentir o cheiro das anestesias, continua a ser novo, talvez por o espaço ser diferente. Uma assistente mais simpática que o habitual, que também faz as vezes de recepcionista. Uma sala de espera cheia de luz, animada por quadros, cadeiras de cor e música ambiente. Um doutor sempre bem disposto, que atende a horas. Os pacientes a saírem, acompanhados pelo doutor e pela recepcionista, ainda com a boca inchada da anestesia, a comentarem: “afinal não doeu nada, o medo é um fantasma que já não existe, marcamos já a próxima consulta.” A fama a espalhar-se nas redondezas. O doutor e a assistente sem mãos a medir; os pacientes já fazem fila de espera, apesar de os preços terem subido. As pessoas lamentam-se à assistente; as consultas já não são a horas, é uma pena, mas pelo doutor, esperamos o que for preciso. A assistente começa a responder com maus modos; talvez por excesso de trabalho, pensam alguns e o doutor até muda de cara, reparam outros. Não passam de meras impressões. Mesmo fora de horas e com menos disposição, o doutor e a assistente cumprem o seu trabalho, com êxito. Um dia, alguém descobre que o famoso doutor não é médico, mas sim um habilidoso competente, trabalhando ao lado da companheira. A notícia espalha-se entre os pacientes que esperam na fila. Comentários em surdina, olhares que se escapam e espiam os movimentos dos dois impostores. O próximo paciente entra e o silêncio espreita toda a gente. Por fim, todos os pacientes tratam os dentes, apesar do burburinho instalado. Todos, já conhecendo o segredo dos dois.

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