Ele chega sempre atrasado, semana após semana, encavalita actividades, umas nas outras, actividades dispersas e metidas em mundos diferentes. É jovem, fala de forma afectada, pisca os olhos e sopra o cabelo liso para trás. Sempre de risco ao lado. Parece não ter censura; diz o que lhe apetece no momento, sempre com um ar gentil e educado. É dado às pessoas, gosta dos desprotegidos, dos seres diferentes, dos seres à margem. Meio dentro, meio fora, ele próprio respira ares diferentes; dói-lhe a opção, dói-lhe a barreira, fez-se um alpinista entretanto; galga muros e paredes sem nunca cair. Contudo, há uma inquietude que invade o seu corpo, talvez os tiques dos olhos e dos cabelos o denunciem, talvez a correria de um lado para o outro adie o confronto, talvez o nunca estar de corpo inteiro o resguarde. Mas o que é certo é que as corridinhas continuam, as falas a este e àquele não acabam e os assuntos sérios ficam à porta, mortos por entrarem em casa.Um destes dias acompanhou-me até à saída; lanchámos e devagarinho começa a contar-me uma história terrível de uma prostituta encontrada morta num contentor de lixo, uma Gisela qualquer. Abri os olhos, chocada. Contou pormenores e eu a meio do galão, do queque e tudo aquilo a parecer-me sórdido. Assumiu-se activista; pensei que pertencesse a alguma organização de solidariedade, dizendo-me que distribuía preservativos às prostitutas e travestis e que as conhecia bem demais; íntimo delas, era uma espécie de anjo salvador que aparecia a meio da noite.
Falou do nome da organização, não soava a nada parecido com beneficência. Lentamente comecei a descodificar o activismo; um grito de desespero a apelar à morte à diferença. Porque vocês, heterossexuais, porque nós homossexuais, porque a discriminação, porque a ofensa, porque o ridículo, porque o exibicionismo, porque a clandestinidade, porque os direitos... porque. E eu para ali, calada, espantada com o desabafo, sem nunca ter pensado em duas equipas tão separadas. Fiquei a cismar no preconceito, cruel e destruidor, que o deixava a tremer e a largar aquelas frases.
Subimos a calçada e vimos outras gentes. Despedimo-nos com se nada fosse, ele a distribuir falas pelos conhecidos, eu à espera de o encontrar amanhã, apertado com a falta de tempo, a cerrar portas a quem passa.
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