Sentada a uma secretária, acumula papéis que vão fazendo pilha, ao longo do dia. Lê um por um, em velocidade vertiginosa, despachando os assuntos pendentes, os actuais e os que estão para vir. Vira-se apenas para cumprimentar quem passa, e mal retorna à secretária, dá de caras com a pilha, que já lhe tapa a cara. O trabalho nasce de todos cantos da sala, aproveitando-se da sua eficiência e generosa disponibilidade. Maria faz uma pausa. Enfrenta o director, o vice-director e o secretário deste, que misturam ordens em voz alta. Mesmo assim, continua a atravessar a sala, a ouvir os colegas, que lhe despejam dúvidas e a sobrecarregam com pedidos. Sempre solícita, responde a todos, de cara alegre e sorriso franco. Só pede um minuto a sós. Que a deixem ir até ao átrio de entrada, fumar um cigarrinho. Um prazer merecido. Um dia, ainda antes do sol acordar, Maria entra com um sorriso torto. O olho está negro e a cara inchada, coberta de zonas arroxeadas, mas o entusiasmo nem por isso parece ter diminuído. A pilha de papéis continua à espera dela, incólume. Os directores e os colegas aproximam-se da sua secretária e alguns deles até se atrevem a derrubar a famosa pilha, perante o seu ar atónito. As ordens e os pedidos são substituídos por perguntas, a rebentar de estranheza e curiosidade. Naquele dia, todos ouvem a Maria.
sábado, 12 de abril de 2008
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