segunda-feira, 31 de março de 2008

Arranha os céus

Cresci dissimulado, entre quatro paredes de bom cimento, num minúsculo apartamento, entre muitos, comprimidos numa torre – no meio de muitas – cujos últimos andares já entravam na estratosfera, onde o ar parecia rarear.
A comprida torre cedo se dividiu em duas partes: os moradores que apunhalavam magicamente as nuvens, tocando o céu várias vezes ao dia e os acanhados cá em baixo, que assomavam às janelas espreitando, desmoralizados, a tonalidade eternamente ‘cinzento-pálida’ do ar completo, mas poluído.
Contudo, ambos saíam à rua. Os superiores, de cabeça levantada e olhos postos nas alturas, respiravam com prazer o ar viciado cá de baixo. Faziam invariavelmente o mesmo percurso, todas as manhãs, com a visão empinada, sem nunca tropeçarem em alguém. Não viam os vizinhos de baixo, nem tão pouco os cumprimentavam.
Os residentes dos pisos inferiores saíam à rua, também. Com os olhos postos no chão, envergonhados com a sua posição, saturados da cor das ruas e da atmosfera carregada, que atrofiava pensamentos e apertava sensações. Não viam os outros, apesar de se cruzarem todos os dias, à mesma hora.
Crescia escondido dos meus, a esbarrar neles no quarto, na sala, em cada minúsculo canto. Ouvia-os a repetirem as mesmas palavras em iguais circunstâncias, sem nunca se olharem. Ouvia-os a repetirem-me as mesmas recomendações, os mesmos reparos, sem tão pouco ouvirem a minha voz.
Olhei para eles. Estavam cegos e surdos. Furavam apenas o ar viciado, vencendo dia após dia, fundindo-se com os vizinhos desconhecidos.
Continuei a crescer sozinho, à desgarrada, tão à solta quanto preso estava. A crescer, sem coragem para o fazer.
Agarrei-me às paredes que conhecia e depois aproximei-me da janela. Abri-a, sem me importar com tudo o que era cinzento. A minha janela tinha vista para as traseiras, comuns à de outro arranha-céus, que se erguia a poucos metros de distância.

Em frente, vivia outra família. Os pais e uma menina. Comecei a observá-los, sempre que encontrava uma pausa na minha vida diária, que tal como os outros, compreendia um encadeamento de tarefas inesgotável, cuja ordem era inalterável. Pausas raras, que fui alargando, combatendo a escassez do tempo.
No arranha-céus onde morava e naqueles que nos rodeavam, ninguém reparava em ninguém. Não era suposto. Por isso, quando me escondia e resolvia expor-me apenas para as traseiras, sentia-me seguro. Tinha a certeza que não me iriam ver, muito menos observar.
Olhei para a Diana – foi este o nome que lhe pus, pois nunca chegámos de facto a falar – e iniciei o diálogo dos surdos-mudos, que nos protegia dos perigos da proximidade e da amizade.
Acenei-lhe com vivacidade, sorri com os olhos e meti conversa – a fazer mil trejeitos com os lábios – sem me importar com o que ela poderia pensar. Como seria de prever, reagiu assustada, fechando a janela e as persianas com estrondo.
No dia seguinte insisti e emoldurei-me na janela, horas a fio, na esperança de que Diana fosse surpreendida pela curiosidade. Ao fim da tarde, lá se abriram, amedrontadas, as persianas, um fio de cabelo liso a espreitar, esvoaçante da corrente de ar e um olho claro, temeroso da vista de estranhos, à procura do cúmplice proibido.
Esperei que olhasse o céu, distante para ela e o arranhasse, exprimindo vontades longínquas, por caminhos a que o sonho não punha limites. Desceu à terra, os olhos passaram pelo chão, como era costume nos moradores dos pisos baixos e estabilizou de forma surpreendente nos meus, fixos e corajosos, abertos ao desafio.
Os arranha-céus desapareceram, as traseiras desprezadas também e de repente vi-me numa clareira cheia de luz, num meio de um bosque. Diana permanecia do outro lado, misteriosa, continuando a fixar-me o olhar. Estendi um braço, devagarinho e como a luz me encadeasse, comecei a caminhar na direcção dela. Não vi nada, a certa altura. Quanto mais andava, mais a luz me cegava. Quando cheguei ao outro lado a luz tinha desaparecido e com ela, Diana. Esfreguei os olhos e voltei às traseiras. As persianas estavam novamente fechadas.
Recolhi-me, desiludido. Porque teria reagido daquela forma?

Foi preciso a noite desfilar, para que a vida recomeçasse. O dia nasceu, a tentar empurrar o sol – sem êxito – para lá das nuvens teimosas e da mancha cinzenta. Como brilharia, sobre o alto do arranha-céus?
Saí cedo, de mochila às costas. Contornei uma esquina, dei mais uns passos e entrei na grande avenida. Olhei para trás e observei por instantes o formigueiro vivo que saía do arranha-céus. Cabeças para cima, cabeças para baixo, a conhecer de cor o percurso, previsto ao minuto. Ri-me e pensei – aposto que sabem quantas pedras existem na calçada e quais hão-de pisar…
No quadro perfeito, em que as personagens, de cabeças desactivadas, desenham percursos geométricos, em passada certa, num único andamento – sem correrem o risco de chocar com o vulgar transeunte – eis que surge Diana, o cabelo loiro, rosto pálido, as roupas de tonalidades suaves, o olhar centrado em mim. Ao lado dela, os pais, as roupas escuras, a disfarçar contornos, o olhar carregado, de encontro ao passeio.
Hesito, quanto ao percurso a seguir. Olho para o relógio, depois para ela e arranco-lhe um sorriso.
Sobem a grande avenida, até ao meio e desaparecem, numa curva à direita, descendo na estação subterrânea. Diana atrasa o passo, para que não a perca de vista, apesar de os pais lhe torcerem as mãos com força, obrigando-a a apressar-se.
Sigo-os, intrigado, já indiferente às minhas horas de escola. Assumo que hoje é o dia nacional da gazeta. Tenho tanto medo de a perder, que olho continuamente, sem pestanejar.
Saem da estação e retomam as ruas da cidade, em direcção desconhecida. Viram umas vezes à direita, outras à esquerda, passando por gente alheada, de olhos postos em lado nenhum.
Sou atraído por uns arbustos, enquanto tocam à campainha de uma casa solitária, bonita, protegida por um jardim cuidado. Diana tapa a cara com os olhos e entra, contrariada. Os pais constroem sorrisos que não são seus, cumprimentam com enorme deferência quem lhes abre a porta e entram também sem vontade.
Mais uma vez quero saber dela, para além dos míseros reflexos que me chegam, através da janela da frente, escondida pelos cortinados.
Leio-lhe a aflição, estampada no rosto e logo a seguir, o pedido de salvamento, guiado pela premonição da existência de um anjo, algures à solta, guarda dos abandonados, cuja existência se presta a ser perturbada.
Os pais saem sozinhos. Parecem inverter o percurso. O ar é desolado, o passo mais lento, os olhos já nem olham obedientemente para o chão. Levantam-nos até ao céu e arranham-no com as suas preces, esperando dias melhores. Uma fábrica fechada, os dois desempregados, por tempo incerto, a renda por pagar, a menina por sustentar. Sem poderem. Tempo não há, certo ou incerto, resta a rua por palmilhar, o albergue por improvisar e um dia, recuperar o tempo perdido e a sua menina.
Volto a casa, com ideias peregrinas. Olho para os meus pais, absortos na televisão – julgo que nem deram conta de que faltei à escola – e vacilo, entre pedir para aceitarem temporariamente uma segunda filha, ou simplesmente fazer entrar Diana às escondidas e enfiá-la no meu quarto. Talvez não dessem por isso.
Vou até à janela, confirmar se ela realmente se evaporou. Tudo fechado. No dia seguinte também. Aguardo outros tantos e decido ir ao arranha-céus vizinho, saber quem lá morou.
Vejo pessoas a entrarem e a saírem. Como no meu prédio. Os olhares baços vagueiam em direcção definida pela altura do piso que ocupam. Procuro o porteiro. Não sei para onde olhará. Ah, encontrei-o. Tenho sorte, porque decide encarar-me. Pergunto-lhe pelo piso térreo, porta C, será? Descrevo a família ao pormenor, a menina com cara de anjo, seria impossível passarem despercebidos.
Responde-me – fazendo-me cair do último piso do arranha-céus – que nunca viu tal gente, o andar está ocupado sim, mas por outras pessoas, dois filhos, um cão enorme, um casal ainda jovem. Alegres da sua condição. A olharem para o chão com orgulho, assumidamente.
Fujo a correr, assustado com as suas palavras e só paro frente à minha janela. Nessa tarde, decido esperar uma eternidade.
Consigo vislumbrar o sol, para mim acinzentado, a despedir-se com os últimos raios. Estou prestes a desistir quando finalmente a janela de Diana se abre, de rompante.
Acredito que o cabelo dela vai voar, novamente, espalhando-se pelo ar, indomável, às vezes a tapar-lhe o rosto. E eu vou conseguir ver-lhe aqueles olhos, que se fixaram tantas vezes nos meus e me revelaram a história de uma vida, sem dizerem uma única palavra.
Esfrego os olhos e ao longe ouço o ladrar forte de um cão encorpado. Aparece à janela em frente, desejoso de saltar para as traseiras. Atrás dele, estão os risos de duas crianças, divertidas com os ímpetos do seu animal. Tinham chegado da escola. Rufus atira-se para cima delas, num grande alarido, convidando-as para a brincadeira. Passou o dia sozinho, apertado entre quatro paredes. Quando as vê, espera apenas que o levem a furar aquela torre, a saltar pela tão desejada janela.
A alegria que sente embriaga-o, fazendo-o crer que todas os finais de tarde os seus pequeninos donos o irão levar até ao paraíso.






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