terça-feira, 11 de março de 2008

A Lâmpada de Aladino



Ela navega toda a noite. O ecrã de 20 polegadas apoia-a, incansável, nas buscas mais incríveis que se possam imaginar. Sem dar conta, atira bocejos cá para fora, as pálpebras baixam e o olho dormita: é o corpo em dilema, a magicar: “saio daqui, não saio, é tão tarde... mas espera, isto é interessante... talvez se for por ali ainda consiga descobrir qualquer coisa. Qualquer coisa que me arranque daqui”. Os sites sucedem-se com rapidez; os dedos hábeis percorrem o teclado sem pedir licença, os olhos voam de imagem em imagem, de informação em informação. O pequeno apartamento desaparece do mapa, a cadeira onde está sentada eclipsa-se, a secretária esconde-se. É apenas ela e o computador a girar no Universo. Sonhos que saltam para dentro do ecrã, desejos fundidos, uma luz mágica a encandeá-la, uma slot machine a apitar, a apregoar prémios e de repente o embate na realidade a grande velocidade, com uma pancada seca. É ela, sem travões, aterrada em cima da cadeira que nunca largou, presa no apartamento do qual nunca saiu. “Será isto?” Um chat, um sujeito que tropeça e que se abre; interesses em comum, simpatia, empatia virtual, o chat continua nessa noite, nas outras que se seguem e a impressão mantém-se na cabeça dela: “Pode ser que se esteja a vestir de alma gémea, pode ser que não, nunca o saberei se continuarmos a navegar nas marés altas do ecrã.” Falta uma fotografia para consolidar o sonho; ela publicou uma no chat, ele esquivou-se sem razão aparente, mesmo assim ela arrisca e combina um encontro numa bomba de gasolina anónima, longe das casas de um e de outro, longe de dizerem a quem quer seja onde vão naquele dia.
Faz sol. Dia brilhante, céu destapado, a afundar-se em azul a perder de vista. Longe do breu da noite, do brilho do ecrã, dos flashes de luzes que vêm de todos os lados. Terreno firme, a bomba da gasolina, o posto de abastecimento, a normalidade a passear-se por aquelas bandas. E ela dentro do carro, motor a trabalhar, encostada à berma, de coração aos pulos, as mãos que se esfregam no volante, para cima para baixo, os músculos que tremem, a cara com manchas.
Ele chega numa carrinha e descobre-a facilmente; encosta atrás e sai, a anunciar perna curta, cara disforme num sorriso prometedor; ela observa-o pelo retrovisor; o sangue parece que se encolhe dentro do corpo, é uma palidez súbita que a invade e lhe corta a fala, vai ter que se esforçar para que ele não pense que é muda, são coisas que não se percebem nos chats, a palavra é rainha e o mistério é rei.
O sorriso aparece-lhe à frente e o corpo pequeno dissimula-se, sentado no carro. As palavras nascem, como no chat. E são iguais, tão iguais que ela fica impressionada. Conhece os temas de cor, foram noites a fio a esmiuçá-los. Hoje é igual, apenas é de dia e é cara a cara. O cenário muda, o carro avança em direcção à montanha que observa o mar. O vento ali é forte, a vegetação é rasteira, de tanto se agachar ao sopro que ruge.
O fim de tarde é magnífico, embora eles não se apercebam. Ela tem a cara tapada pelos cabelos que voam sem dar tréguas. Ele fala mais alto que o vento, sem receio de espalhar segredos. O sol desce rapidamente, alaranjado, avermelhado, até se extinguir.
Naquela tarde, as horas deixam de ter importância.
O vento despede-se e ele convida-a a ir a sua casa. Ela aceita, depois de ter viajado pela vida dele. Já noite dentro, ele quer saber dela, e pela primeira vez, ouve que tem um filho a cargo, a mãe doente, um cão e um papagaio. Ele baixa os braços, abana a cabeça e confessa-lhe: “Assim, não serves. Procuro alguém totalmente livre, que me compreenda e se me dedique. Lamento.”
Ela volta a ficar sem fala, despede-se, conseguindo ainda articular um “Obrigada”.
Meses mais tarde, recebe um e-mail dele, dizendo que finalmente tinha realizado o seu sonho; primeiro dentro do ecrã e depois à beira daquele penhasco sobre o mar: uma mulher livre, que tinha abraçado o seu corpo pequeno e beijado a cara disforme. Mesmo com os cabelos nos olhos, mesmo no meio do vento.

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