quarta-feira, 5 de março de 2008

Carta a um defunto



As praias desertas continuam nossas. Lembras-te? Escapulias-te à pressa, tu, eu, também, num chorrilho de mentiras a empurrar-nos para lá dos limites. Início da adolescência? Não quero mentir. Sentia-me já bem desperta, por sinal, crescida, porque não, tão crescida como aquelas árvores centenárias, que guardavam a nossa paisagem. Vimos os nossos corpos dentro das ondas, a quererem tocar-se, primeiro a medo, depois com naturalidade. Tu de peito liso, bigode por semear, imberbe encantador, gracejavas do meu corpo por compor, até que o foste arranjando, muito devagarinho e eu a ti e por fim nos fundimos, talvez cedo demais, não importa, para nós foi decisão acertada.
Fizemos juras, tecemos planos, vivemos em segredo. Durante anos. Sempre um do outro.
Mudámos de paisagem, mudámos de continente. Atraiçoámos as praias, o mar, a paisagem que tão bem nos conhecia. Trocámos de mundo. Aproximámo-nos dos outros. Arranjaste um emprego modesto, eu também. Apesar de tudo, continuava sempre a viver numa dimensão extraordinária. Bastava estares ao meu lado. Mesmo quando estava prestes a acinzentar-me e a perder a coragem para enfrentar uma vida sem eco, lá vinhas tu, a colorires-me com o teu sorriso, a ergueres-me do chão com graça, a enterrares-me num abraço que parecia não ter fim. Pintavas-me num quadro, com cores vivas, eu olhava-me e lá estávamos nós, nas praias desertas, tu de barba rija, corpo forte, eu de peito abundante no meio das outras formas.
Vieram as crianças. Primeiro uma, depois um e ainda outra. Continuavas a beijar o meu corpo de alto a baixo, apesar de quereres uma vida melhor, ambição a crescer, em detrimento das coisas simples.
Entretanto, eu continuava a pintar a vida. Sempre gostei de o fazer. Os meus quadros eram realmente a sério. Até fiz algumas exposições. Podia ter corrido melhor, o tempo era pouco, as crianças começaram-nos a absorver muito.
Aos poucos deixámos de falar. Evitámos, até. Julgámo-nos protegidos pelas nossas praias. Começámos a contornar os desafios, as chatices, as arrelias e por fim as tristezas, com uma perícia inigualável.
A minha lembrança dos tempos idos começou a esbater-se. Não havia fotografias da época. Apalpei a tua memória, tentando recolher provas da nossa outra existência. Respondeste-me com ar vago e distante que tinha sido maravilhoso, único, como é que eu poderia estar tão esquecida? E entre beijos fogosos e festas perturbadoras disseste-me teres sido promovido a director de uma firma importantíssima, agora até poderíamos voltar à nossa terra, àquele continente distante, recuperar o tempo e a originalidade dos nossos seres.
Fizemos a viagem os dois. As praias continuavam sozinhas, à espera de alguém. Aparecemos, irreconhecíveis. Não houve convite por parte das ondas, antes um mar calmo, apático, à mercê da nossa presença. As árvores tinham crescido ainda mais, alargando a sua sombra, mas, estranhamente, tolhiam-se à nossa passagem, deixando o sol abrasador penetrar e quase incendiar os nossos corpos, desabituados há muito, daquele clima. Permanecemos em silêncio, por instantes. A certa altura, ficaste irritado com o confronto e disseste-me, com ar impaciente:
– O que fazemos aqui?
– Não sei. Dantes gostavas muito.
– Foi há muito tempo…
– És o mesmo… cresceste aqui, comigo…
Surpreendeste-te. Afinal quem eras tu?
Regressámos, desiludidos. Eu, porque tive a certeza que não delirava ao longo dos meus dias solitários, apenas confirmava as minhas suspeitas; tu, porque percebeste que estavas perdido.
À medida que o avião se aproximava da terra de eleição, aliviaste o semblante, sorriste, passaste-me a mão pelo cabelo e continuaste devagarinho pelas costas, insinuando outros caminhos. Em pleno avião. A prometer, no mínimo, que todo o pingo de gelo se derreteria à nossa passagem, todo o gato-sapato morreria de inveja da nossa fusão.
Conversaste, animadamente. Parecias outro. Colaborei, novamente, acreditando na mudança. Talvez fosse da terra, do ar, do clima, das gentes. Porque não?
Pousamos as malas, descuidadamente. Senti o aeroporto inóspito, cheio de correntes de ar viciadas, apesar de os miúdos nos terem assaltado em grande velocidade, em pulos radiantes, com as suas mãozinhas a enlaçarem-nos, a gritarem-nos baboseiras aos ouvidos, que ecoavam para além dos intermináveis corredores. Pareciam dizer «não fujam, por favor!». Foi um sufoco maravilhoso.
Tu revigoravas a cada minuto, eu, ao invés, apagava-me aos poucos, acabrunhada por sensações estranhas, que me invadiam sistematicamente.
A partir daí, nunca mais te encontrei.
A vida recomeçou, num faz de conta insuspeito, mais que não fosse, para mostrarmos às crianças que o fiel da balança nunca vacilava. As oscilações não passavam de uma temática absurda, quando aplicada às nossas vidas.
Ao longo desta proximidade ‘faz-de-conta’ aprendi a identificar os novos sinais que emitias, depois de teres vestido outro fato. Confesso que tive momentos em que quase amei o ‘Senhor Enigmático’, bem vestido e perfumado, homem galanteador, de aparência perfeita, cuja vida fantástica eu desconhecia, que me enviava postais curtos e secos, de sítios encantados, inacessíveis, como ele. Essa distância transformou-me, a certa altura, num ser pequenino. Ansiava obsessivamente pelo dia em que chegasses e até lá, anestesiava o cérebro.
Deixei de pintar, deixei de pensar. Mirrei ao ponto de pensar que não existia. Não deixei entrar nada. Nem sair. Um único afecto. E as sensações, nem sei se me pertenciam, se eram dos outros.
Chegaste num curto intervalo, à beira de mim, numa excitação nova. Circulaste em frenesim, todo o serão. Porém, os teus olhos evitavam-me. Disfarçaste, como de costume. Uns beijos forçados, uns afagos esquivos, adiaram a questão. E por fim confessaste. Estavas apaixonado. Incrivelmente apaixonado. E visivelmente emocionado, continuaste, afirmando que eras um ser original, que eram dois, os objectos da tua paixão desenfreada. Eu e outra. Que fazer?
Passaram-se meses e a nossa vida mudou. Continuaste a ir jantar lá a casa; coitados dos miúdos, estranhariam, se não o fizesses.
Mantiveste a promessa de ouro, que garantia a vida dos pequenos: a prestação dos colégios, a assistência na doença, as viagens, um beijo na testa à chegada e outro à saída, o pai adora-vos, nunca se esqueçam.
Devagarinho, redescobriste novos encantos no lar. Presumi que a situação no outro lado havia esmorecido. Na realidade, continuavas a detestar estar sozinho.
Trepaste pelas minhas pernas acima e ‘ronronaste’, verdadeiramente arrependido, «mea culpa, mea culpa…» não passava de um desvio à norma e não havia nada nesta vida que não contemplasse as suas excepções.
Foi neste clima, e com o meu consentimento de última hora, que regressaste, de cabeça baixa, lábios caídos, gravata torta, cabelo desalinhado, mas de olho inquieto, desta vez, para empreendermos viagem até ao Inferno.
De início, os serões foram fielmente cumpridos lado a lado, embora estivesses provavelmente escondido atrás das grandes árvores, a ver-me banhar nas águas calmas que o calor tropical amaciava. Esperaste sempre que eu desaparecesse e deixasse que o mar te apaziguasse e provavelmente te levasse, para parte incerta.
Nunca estivemos tão longe um do outro, como naqueles serões.
A vida profissional retomou, entretanto o seu curso normal. Compromissos inadiáveis, reuniões intermináveis, viagens frequentes às terras de ninguém. E novamente, a tempestade de mentiras, que nunca acabava.
Arranjei uma concha ainda maior e deitei-me lá dentro, quietinha. Pouco depois, descobriste que padecias de um mal irreversível, confirmado por exames minuciosos.
Extinguiste-te rapidamente, sem dar tempo de nos refazermos da cruel verdade. Talvez a única verdade em ti, depois de tantos anos.
Chorei amargamente a tua perda, sem contudo ter ficado intrigada com a mulher jovem, que ao longo das exéquias, se mostrava inconsolável, lutando incansavelmente por controlar o desespero, estampado no rosto, nos olhos assustados e no corpo trémulo.
Reuni os teus objectos pessoais e olhei para o telemóvel. Esteve sempre à tua cabeceira, no hospital, na recta final. As últimas chamadas, as últimas mensagens…
Senti um calafrio. Estaria a ser injusta?
Atrevi-me a violá-lo. Violei-te, sim, já quando estavas morto. Se não fosse assim, nunca o teria sabido. Palavras de amor. Mesmo débil, parecias iluminado. A voz tremia, de emoção, as palavras eram espaçadas, mas arrancadas ao teu âmago. Nunca tinha ouvido nada assim.
Afinal, sempre tinhas voltado às praias desertas…





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