quarta-feira, 5 de março de 2008

Os sonhos

“Não escolhemos os sonhos”, diz o menino à mãe. “Nem conseguimos controlar a forma como eles se misturam... São tal e qual uma manta de retalhos. Bocados do dia, sem relação uns com os outros, a participarem numa história, às vezes sem princípio e sem fim, mas uma história na mesma. Estranho... e sabes? Às vezes surgem personagens desconhecidos, bonecos animados na escola, na carteira ao lado da minha. Dizem e fazem coisas que eu já vi, ouvi e se calhar li, não sei muito bem aonde. Coisas mais antigas. Pessoas que já não existem. A avó, por exemplo. No outro dia, levou-me ao parque, com a idade que tenho agora. Pegou-me na mão como se tivesse dois anos. Esse sonho fechou-se, antes de eu sair do parque. E nunca mais a vi. Ontem, misturei-me com os meus amigos e outros meninos que conheço de vista. Brincámos todos com os meus heróis que vivem nos jogos. A música não foi excepção. Visitou-me também, quando estava na sala de aula. Multiplica quatro colcheias por três fusas. A professora cantou, quando me pôs o problema. Absurdo, não é?” A mãe sorri, abanando a cabeça afirmativamente. A criança continua, intrigada: “Nos meus sonhos passam-se histórias diferentes daquilo que realmente vivi. Umas agradam-me, outras não. Mas é o único lugar onde tudo é possível e confesso-te, é muito divertido. Mesmo assim, gostava de poder escolher um sonho, de vez em quando. Afinal, sempre são pequenos filmes, onde sou actor principal. Por ser surpreendido, acordo meio zonzo e saio estremunhado da cama. Levo sempre algum tempo a desfazer-me dos sonhos. Se hoje pensar todo o dia no sonho que quero ter, provavelmente o meu desejo vai realizar-se. E amanhã já não vou chegar atrasado à escola.”

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