Irene anda numa lufa-lufa. O carrapito, mal preso debaixo da touca, teima em espreitar o que ela vai deixando para trás. O lixo empilhado, as cascas de ovo ainda com claras escondidas, que escorrem em fio contínuo, humedecendo as cascas grossas de legumes cortados à pressa. As espinhas do bacalhau, um peixe podre, as gorduras da carne. E os restos da comida de clientes enfartados, mal agradecidos e pouco poupados.Enverga uma bata e um avental que se orgulha de ser imundo. São as manchas da glória. A glória de uma chefe de cozinha, vivida atrás das cortinas. Um reino discreto, escondido na penumbra.
Mas Irene não vacila. Entra, decidida, logo de manhãzinha, trazendo consigo uma energia contagiante. Trá-la do autocarro, que a traz e que a leva, diariamente. Um pequeno percurso, feito por centenas de pessoas e também por António, o segurança do restaurante. Uma simples coincidência. Os olhares são discretos. Confundem-se com indiferença. Pouco depois, brincam às escondidas. A ver quem consegue olhar sem ser observado. São apanhados. Mutuamente. Com pleno consentimento. Encaram-se, sem rodeios. Sem trocarem palavras. Em cantos opostos do autocarro.
Como dois cúmplices perfeitos.
Do Inverno rigoroso, do frio cortante, do autocarro apinhado, do mundo sonolento, vestido de roupas grossas e escuras, da luz pálida e preguiçosa; nada prevalece, a não ser o entusiasmo dos dois, que apenas se conhecem de passagem.
Descem na paragem habitual e caminham lado a lado até ao restaurante. Apenas durante uns escassos metros. Caminham, desta vez, sem se olharem.
Ele alarga a passada e chega primeiro. Abre-lhe a porta, com delicadeza. Ela agradece, desce as escadas e entra no mundo que lhe pertence.
Os fiéis súbditos esperam-na, atentos às ordens que se vão seguir, durante o longo dia que os espera.
Irene não vacila. Deita mãos ao trabalho e rapidamente transforma a cozinha num pandemónio maravilhoso. Os pedidos não cessam e o barulho, sempre mágico, ecoa através dos tachos fumegantes, das facas que se afiam, da carne que grita, colada à frigideira, das batatas que estalam violentamente, dentro de um óleo sobre aquecido. Barulho feito também de palavras fortes, que correm de boca em boca, a transmitirem ordens sobre uns e outros, atravessando nuvens de fumo e cheiros múltiplos.
Irene continua, serena, a cumprir a sua tarefa. Acumula nódoas no avental, sem parar. Cada uma é medalha à espera de recompensa, até agora, sempre adiada. Talvez seja hoje. Lá para o final do dia.
O movimento vai diminuindo e a luz, pálida de manhã, está outra vez de partida. O fumo desvanece-se, os pedidos acabam e as ordens interrompem-se. A cozinha está novamente com um ar inocente, pronta a ser, mais uma vez, devassada. É hora de partir. Primeiro sobem os empregados e depois Irene, em último lugar. Os degraus são contados devagarinho, parecendo dar tempo a que todos desapareçam. Para que não hajam testemunhas daquele simples percurso.
Cá em cima já só sobra António, que a espera para o fecho da porta. Existem barreiras invisíveis, gigantes, que nenhum deles consegue definir. Os olhos são postos no chão, as bocas, eternamente caladas. Mesmo protegidos pela noite, continuam a caminhar lado a lado, assentes numa cumplicidade estranha, mas de mundos separados. Até que chega o autocarro das multidões, que os leva para casa. De novo estão em cantos opostos e a brincar às escondidas. É um sítio mágico. O único onde arranjam coragem para se conhecerem.
António sai primeiro, em paragem insuspeita. Despede-se com um sorriso nos lábios. Irene vai sempre até ao fim da linha. Mora naquela zona. Sonha um dia ouvir a sua voz, no mesmo banco do autocarro e falar-lhe das suas nódoas no avental, das suas manchas de glória, da sua gente lá em baixo, com ele ali tão perto.
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