quarta-feira, 26 de março de 2008

A zaragata

O homem velho vai sentado no banco do autocarro, ao lado da mulher. O arranque, os solavancos, as curvas, as travagens e as novas paragens sucedem-se todos os dias, num trajecto que lhe é familiar. As portas abertas, os bilhetes obliterados, as vozes misturadas que entram ao mesmo tempo, empurrando-se, num barulho que cresce, que se torna ensurdecedor, captam-lhe a atenção. O autocarro apinhado, as pessoas em busca de uma nesga de espaço, a tentar sobreviver naquela hora de aperto e o homem velho incomodado, desassossegado, rodopiando a cabeça em todas as direcções, perante o ar sereno da mulher. Um rapazola fura a multidão, em busca de melhor assento, tropeça e cai em cima do homem velho, que imediatamente estica o peito e exibe os restos de um porte atlético, em atitude ameaçadora. O rapazola encolhe os ombros, balbucia uma desculpa esfarrapada e vira costas, fechando o episódio. O homem velho deixa livre o banco do autocarro e atira-se às costas do indivíduo, felino no ataque, imprevisível para os outros. As pessoas dão-se conta do burburinho e reagem, separando os dois, o rapazola indefeso e espantado, o velho descontrolado, possuído de uma força desconhecida. Palavras gritadas, gestos agressivos e a mulher do velho a perder a serenidade e a defender o marido, indignada com a multidão. As portas abrem-se, as paragens espreitam e o autocarro esvazia-se, como por magia, deixando a mulher e o homem velho a sós, desta vez, de mãos dadas e de olhares trocados.

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