O cliente nunca mais comprou aquela marca de telemóveis. Não é porque se tivesse aborrecido com a qualidade da assistência, ou até com a qualidade dos próprios aparelhos. Sempre teve um fraco por telemóveis; cada vez que saía um modelo novo, lá estava ele, rente aos balcões da empresa, fiel àquela marca. Nas várias lojas da marca do aparelho, o Sr. X era conhecido como “O maluquinho dos telemóveis”, com direito a tratamento preferencial. Os empregados bulhavam entre si, para o atender, na esperança de caírem nas boas graças do chefe. Encantado com tanta gente à sua roda, o Sr. X não resistia; acabava por levar o melhor telemóvel do mercado, o topo de gama, a melhor relação preço/qualidade. Um dia, o Sr. X tropeça numa revista que lhe desperta a atenção: um retrato de algumas empresas, entre elas, a dos telemóveis. E abre os olhos, chocado: as mulheres estão em maioria, entre os trabalhadores. Os contratos são precários. Engravidam, o que faz baixar os níveis de produtividade. São despedidas, depois de serem mães. Os ordenados parecem baixos. De condições pouco se fala. E de direitos, nem pensar. No entanto, a marca é cotada como uma das melhores no mercado. Pouco tempo depois, o Sr. X entra numa das lojas coloridas da empresa, com um saco de telemóveis que despeja em cima do balcão. Os empregados correm em bando, à procura de explicação: “Mas, Sr. X, são todos novos...” O Sr. X não consegue responder. Fica paralisado com a quantidade de caras que lhe sorriem ao balcão. Os clientes continuam a fazer fila para serem atendidos e os empregados dispersam, retomando as suas tarefas. O “maluquinho dos telemóveis” sai, tão silencioso quanto entrou.
quinta-feira, 6 de março de 2008
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