O despertador toca, desabotoando o silêncio que se aperta no escuro. Ruidosamente, a interromper sonhos e a esfregar na cara mais uma manhã que nasce. Leva tempo a colar-se à realidade. Ignora o insistente despertador – o seu anjo de guarda – que continua a apitar de cinco em cinco minutos e refugia-se em dupla escuridão, debaixo do edredão.
Gasta o tempo, os minutos, os segundos. Até não poder mais. Umas mãos invisíveis agarram-no e colocam-no defronte ao espelho da casa de banho: pálido, olheirento, cabelo em pé, ar miserável, assim está, inexplicavelmente, todas as manhãs.
Entra no duche, para acordar, de uma vez por todas. Até o sangue retomar os seus habituais circuitos, até o cérebro começar a funcionar. Sai recomposto, disposto a arrancar aquela manhã da rotina de todas as manhãs. Vai ao quarto e abre as persianas. A luz entra, fraca e sem cor, parecendo não derrotar a escuridão.
É uma manhã chuvosa e cinzenta. Os carros deslizam cautelosamente ao som da água, e o vento empurra as pessoas, a querer apressar-lhes os destinos. Veste o impermeável e sai.
A calçada, polida do trajecto diário, recebe-o novamente, escorregadia da chuva insistente. Agarra-a com as botas de sola de borracha e inicia a caminhada, com os sentidos atentos.
A pedinte da esquina continua a estender o braço, indiferente ao bater da água. Encharcada até aos ossos, ali fica, sem procurar abrigo. Apenas de mão esticada, à espera de não receber nada. Como um vício que não se explica, mas que a manda fazer de estatueta naquele sítio.
Uns metros mais à frente, esbarra-se na fruta fresca e hortaliças viçosas do Senhor Manuel. Já nem dos preços altos se podem queixar, quem pode competir com as grandes superfícies? Resta o sorriso cansado, o bom dia a cada instante.
Continua, encolhido no impermeável. A chuva retoma o seu ritmo, desta vez enfurecida, a furar a calçada e a derreter o alcatrão com os seus fios de água aguçados. Entra no café logo à frente, esperando que a sua ira se apazigue. Fica espantado com a mudança. O Senhor Costa tinha trespassado o café e agora o espaço estava transformado; obras feitas, o pré-pagamento a recebê-lo, o balcão corrido cheio de gente e uma série de empregados pouco amáveis, mas eficientes. Bebe o café, come um queque e sai, atordoado.
Já se vê uma nesga de céu azul, embora as nuvens ainda o aprisionem. Os primeiros raios iluminam com esforço a avenida larga. Pouco depois os transeuntes voltam aos passeios e os carros retomam o seu ritmo habitual, sem se preocuparem com o piso ainda molhado.
Obedece aos semáforos e atravessa a primeira passadeira. A segunda, ainda longe, tem os sinais intermitentes. Os carros passam, ligeiros, por nunca verem o vermelho. O laranja confunde-se com o verde, avaria no sistema ou não, o peão fica entregue a si próprio, desprotegido, corpo exposto a passar rapidamente, com sorte alcança o outro lado, são e salvo, orgulhoso da habilidade do dia.
Ela está a uns metros de distância. Deixa-se guiar pela fiel bengala, que tacteia incansavelmente todo o pedaço de chão por onde passa. Os ouvidos protegem-na, avisando-a do perigo iminente. Espera pelo silêncio. Espera pelo seu verde, espera que os motores se aquietem. Não chega a confirmar essa interrupção. Ouve passos rápidos, para trás, para a frente e o barulho dos carros, de motores vigorosos, a passarem à beira dela, os cabelos no ar, as saias assopradas.
Ele percebe que ela vai arriscar.
A distância entre os dois desaparece, assim que ela ousa dar o primeiro passo em falso. O carro que se aproxima, doido de velocidade, precipita-se sobre a passadeira. Ele lança-se no ar e cai em cima dela, conseguindo arremessá-la uns metros à frente. A travagem vertiginosa, os pneus a chiarem, a pancada seca, o corpo projectado para longe. No espaço de escassos segundos. E no fim, o verdadeiro silêncio, perturbado apenas pelo fumo e o cheiro a queimado.
Acorda enrolado em tubos, numa cama branca, com lençóis brancos, no meio de gente vestida de branco. Dorido no corpo inteiro, sem perceber porquê. As cabeças inclinam-se, com curiosidade. De mais não se lembra, a memória fica suspensa no tempo, no Senhor Costa em debandada, no Senhor Manuel, o eterno resistente, a pedinte na esquina e a calçada molhada.
Ela entra sem ver nada. Coxeia discretamente, apoiada na bengala. Traz contusões ligeiras, o trauma da pancada e a família poderosa atrás, a querer saber dela e do salvador.
Ele ouve os toc-toc de quem abre caminho e vira a cabeça, contrariando o movimento dos tubos. Respira com dificuldade, partido em vários sítios, lesões profundas, a vida mais atrapalhada do que nunca. Vê-a e lembra-se da silhueta na passadeira. Cabelos lisos escuros, os óculos de sol de aros grossos, a gabardina bege, a camisola de gola alta preta e o ar impaciente, de quem não espera.
Pára à beira da cama, sorri-lhe, ignorando o estado dele. Os brancos retiram-se, recomendando à rapariga que a visita tem que ser curta.
– Vinha-lhe agradecer...
Ele fixa-a, aflito. Depois da passadeira, não tinha acontecido mais nada.
– Mas de quê?
– De me ter salvo!
– Deve estar a falar com a pessoa errada...
– Estou-lhe a dizer... você estava lá... toda a gente disse...
Volta à passadeira, lembra-se dos carros que aceleravam, ao ver o sinal intermitente. Lembra-se dela, aflita, tacteando uma pausa entre o barulho dos motores. Depois o desespero e o salto no abismo. Dela e dele. E finalmente percebeu. O barulho da pancada, agora as dores e o corpo partido.
– Ah, é a rapariga da passadeira...
– Já se lembra... se não fosse você, não estaria aqui, tranquilamente... agora descanse...
Ela sai, sem perceber que ele adormece, ao som das suas poucas palavras.
No dia seguinte e nos outros que lhe seguiram a rapariga visita-o. Traz sempre algo com ela. Uma flor, um livro, umas palavras de ânimo.
O tempo resolve passar, sem querer ajudar. Saudades da casa, do despertador, do escuro, da luz, de si, miserável todas as manhãs. Das ruas que palmilhava diariamente, da gente com que falava, dos cafés que frequentava. Do emprego invisível, a que corria atrás todas as manhãs. Das pernas que não queriam voltar a andar.
Deixa o hospital, excedendo o tempo limite de permanência. Conta paga por mãos alheias. Mãos invisíveis, que passam a tomar conta dele.
Gasta o tempo, os minutos, os segundos. Até não poder mais. Umas mãos invisíveis agarram-no e colocam-no defronte ao espelho da casa de banho: pálido, olheirento, cabelo em pé, ar miserável, assim está, inexplicavelmente, todas as manhãs.
Entra no duche, para acordar, de uma vez por todas. Até o sangue retomar os seus habituais circuitos, até o cérebro começar a funcionar. Sai recomposto, disposto a arrancar aquela manhã da rotina de todas as manhãs. Vai ao quarto e abre as persianas. A luz entra, fraca e sem cor, parecendo não derrotar a escuridão.
É uma manhã chuvosa e cinzenta. Os carros deslizam cautelosamente ao som da água, e o vento empurra as pessoas, a querer apressar-lhes os destinos. Veste o impermeável e sai.
A calçada, polida do trajecto diário, recebe-o novamente, escorregadia da chuva insistente. Agarra-a com as botas de sola de borracha e inicia a caminhada, com os sentidos atentos.
A pedinte da esquina continua a estender o braço, indiferente ao bater da água. Encharcada até aos ossos, ali fica, sem procurar abrigo. Apenas de mão esticada, à espera de não receber nada. Como um vício que não se explica, mas que a manda fazer de estatueta naquele sítio.
Uns metros mais à frente, esbarra-se na fruta fresca e hortaliças viçosas do Senhor Manuel. Já nem dos preços altos se podem queixar, quem pode competir com as grandes superfícies? Resta o sorriso cansado, o bom dia a cada instante.
Continua, encolhido no impermeável. A chuva retoma o seu ritmo, desta vez enfurecida, a furar a calçada e a derreter o alcatrão com os seus fios de água aguçados. Entra no café logo à frente, esperando que a sua ira se apazigue. Fica espantado com a mudança. O Senhor Costa tinha trespassado o café e agora o espaço estava transformado; obras feitas, o pré-pagamento a recebê-lo, o balcão corrido cheio de gente e uma série de empregados pouco amáveis, mas eficientes. Bebe o café, come um queque e sai, atordoado.
Já se vê uma nesga de céu azul, embora as nuvens ainda o aprisionem. Os primeiros raios iluminam com esforço a avenida larga. Pouco depois os transeuntes voltam aos passeios e os carros retomam o seu ritmo habitual, sem se preocuparem com o piso ainda molhado.
Obedece aos semáforos e atravessa a primeira passadeira. A segunda, ainda longe, tem os sinais intermitentes. Os carros passam, ligeiros, por nunca verem o vermelho. O laranja confunde-se com o verde, avaria no sistema ou não, o peão fica entregue a si próprio, desprotegido, corpo exposto a passar rapidamente, com sorte alcança o outro lado, são e salvo, orgulhoso da habilidade do dia.
Ela está a uns metros de distância. Deixa-se guiar pela fiel bengala, que tacteia incansavelmente todo o pedaço de chão por onde passa. Os ouvidos protegem-na, avisando-a do perigo iminente. Espera pelo silêncio. Espera pelo seu verde, espera que os motores se aquietem. Não chega a confirmar essa interrupção. Ouve passos rápidos, para trás, para a frente e o barulho dos carros, de motores vigorosos, a passarem à beira dela, os cabelos no ar, as saias assopradas.
Ele percebe que ela vai arriscar.
A distância entre os dois desaparece, assim que ela ousa dar o primeiro passo em falso. O carro que se aproxima, doido de velocidade, precipita-se sobre a passadeira. Ele lança-se no ar e cai em cima dela, conseguindo arremessá-la uns metros à frente. A travagem vertiginosa, os pneus a chiarem, a pancada seca, o corpo projectado para longe. No espaço de escassos segundos. E no fim, o verdadeiro silêncio, perturbado apenas pelo fumo e o cheiro a queimado.
Acorda enrolado em tubos, numa cama branca, com lençóis brancos, no meio de gente vestida de branco. Dorido no corpo inteiro, sem perceber porquê. As cabeças inclinam-se, com curiosidade. De mais não se lembra, a memória fica suspensa no tempo, no Senhor Costa em debandada, no Senhor Manuel, o eterno resistente, a pedinte na esquina e a calçada molhada.
Ela entra sem ver nada. Coxeia discretamente, apoiada na bengala. Traz contusões ligeiras, o trauma da pancada e a família poderosa atrás, a querer saber dela e do salvador.
Ele ouve os toc-toc de quem abre caminho e vira a cabeça, contrariando o movimento dos tubos. Respira com dificuldade, partido em vários sítios, lesões profundas, a vida mais atrapalhada do que nunca. Vê-a e lembra-se da silhueta na passadeira. Cabelos lisos escuros, os óculos de sol de aros grossos, a gabardina bege, a camisola de gola alta preta e o ar impaciente, de quem não espera.
Pára à beira da cama, sorri-lhe, ignorando o estado dele. Os brancos retiram-se, recomendando à rapariga que a visita tem que ser curta.
– Vinha-lhe agradecer...
Ele fixa-a, aflito. Depois da passadeira, não tinha acontecido mais nada.
– Mas de quê?
– De me ter salvo!
– Deve estar a falar com a pessoa errada...
– Estou-lhe a dizer... você estava lá... toda a gente disse...
Volta à passadeira, lembra-se dos carros que aceleravam, ao ver o sinal intermitente. Lembra-se dela, aflita, tacteando uma pausa entre o barulho dos motores. Depois o desespero e o salto no abismo. Dela e dele. E finalmente percebeu. O barulho da pancada, agora as dores e o corpo partido.
– Ah, é a rapariga da passadeira...
– Já se lembra... se não fosse você, não estaria aqui, tranquilamente... agora descanse...
Ela sai, sem perceber que ele adormece, ao som das suas poucas palavras.
No dia seguinte e nos outros que lhe seguiram a rapariga visita-o. Traz sempre algo com ela. Uma flor, um livro, umas palavras de ânimo.
O tempo resolve passar, sem querer ajudar. Saudades da casa, do despertador, do escuro, da luz, de si, miserável todas as manhãs. Das ruas que palmilhava diariamente, da gente com que falava, dos cafés que frequentava. Do emprego invisível, a que corria atrás todas as manhãs. Das pernas que não queriam voltar a andar.
Deixa o hospital, excedendo o tempo limite de permanência. Conta paga por mãos alheias. Mãos invisíveis, que passam a tomar conta dele.
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