terça-feira, 27 de maio de 2008

Histórias inventadas

As mensagens sucedem-se, umas após as outras. O telemóvel foi-lhe oferecido, um topo de gama, como qualquer presente de estimação merece ser. É ele, a dizer que a adora, sem nunca estar. Seguem-se declarações de todo o género, citações de autores, frases inventadas na hora sobre o tema. Ela suspira. É um momento de poesia que a faz saborear a ausência. Uma história inventada à volta de um personagem que criou e que, no fluir da virtualidade, cumpre os desejos do seu imaginário. Ouve-se um ruído, de repente. É o telemóvel a tocar, chamando-a à realidade. Ainda por cima, é ele, de viva voz. Ela apressa-se a mostrar uma disponibilidade irreal, cerrando fileiras a todos os minutos que ainda se escondem do resto do dia. Ele surpreende-se, como sempre; hesita entre a súbita vontade de a ver e a vontade de a ver ao longe, de a preservar dentro do mini ecrã do telemóvel, emoldurada com aquelas frases bonitas, que têm trocado. Uma história inventada por ele, também, à medida dos seus desejos. Quando se encontram, sobra uma estranheza no ser e no estar. Desaparecem as frases românticas, para dar lugar a uma série de mal-entendidos, que ficam sempre por explicar. Ela abate-se, nesta curta vivência. Não compreende porque é que as peças do puzzle não encaixam. Só pode ser por sua culpa. O único conforto é a chegada a casa, refugiando-se na esperada chuva de mensagens. Hoje, o telemóvel não apita, à hora do costume. Ela olha para o relógio, inquieta. Agarra no telemóvel e sacode-o, com força, tentando que este despeje as mensagens que lhe deve. De repente, o telemóvel toca, em vez de apitar. É a voz dele, que desabafa: “ Quero dizer-te que a minha história contigo já terminou. Acabou de vez a inspiração”.

terça-feira, 20 de maio de 2008

A horta da cidade

Duas vizinhas conversam sobre a vizinha da cave. Ninguém se apercebeu, parece que houve um telefonema, o neto estava de passagem, atendeu, chamou-a vezes sem conta e nada. Pois, no Domingo passado. Uma vizinha queixou-se toda a vida do desassossego causado por esta, a morte não lhe foi indiferente, mas também não a transtornou. Sobra um minúsculo vazio, sob a forma de silêncio. De facto, de infernos já não se pode falar. E por falar na defunta vizinha, é espantoso como debaixo de uma base que agarrava o pó de arroz se escondiam as rugas de alguém que estava a desafiar os 90 anos. Cabelo pintado, sem deixar escapar um branco, costas direitas, andar desempenado, ar enérgico, voz esganiçada, todos os dias refilou sobre tudo e sobre nada, moendo os cinco andares de vizinhas que a comprimiam e que a observavam, do alto das suas janelas. De resto, pouco se sabe, a não ser da horta cultivada em plena cidade, dos taipais construídos aos poucos, a roubar mais um centímetro de terra, que se livra de ser passeio. Pelo meio, o estendal de roupa a desfilar, pendurado num jogo de paus, que parece definir os limites do território.

A vizinha aprende a estreitar o olhar entre a janela da cave e a horta, fazendo orelhas moucas aos comentários e atacando antes de ser atacada; saboreia a vingança de forma ritmada, batucando a vassoura no tecto contra um ressonar mais ruidoso, ou correndo a tocar as campainhas das vizinhas, escondendo-se nas esquinas, de riso amordaçado ao ouvir o “quem é? quem é?” Grosseira no tom e nos modos, confina-se à horta, colhendo couves e alfaces, cuidando do estendal e da roupa, voltada de costas para o prédio.


O tempo teima em se arredar daquele “ghetto” e da sua dona, apesar dos comentários e protestos. A filha explode em beleza e sensualidade mal atinge a adolescência; o duche pode ser observado da janela da cave, coleccionando admiradores, mesmo em frente à horta. O estendal passa ter outras cores estendidas e outras peças de vestuário: corpetes, ligas, cuecas especiais, roupa sofisticada, veludo carmim, verde esmeralda. A seguir vem um neto, entre outros, fruto do acaso e das vidas que andarilham para lá e para cá, em que a única certeza que existe é aquele pequeno mundo feito de paus e taipais; uma mescla de asfalto e hortaliças, mais seguro que tudo lá fora. Os companheiros da vizinha também aparecem à luz do dia; contemplam os repolhos e vão-se sucedendo uns aos outros, sem grande alarido. Por fim, e ainda antes do fim, nasce a bisneta, que desconhece a mãe e pouco vê o pai, já que este fugiu com a tia.

A bisavó, entregues os maridos à Divina Providência e sempre de olho nas alfaces e couves, dedica-se a tratar da menina com a mesma garra com que criou filha e neto, cuidando da roupa pelo meio, da casa, do prédio, dos vizinhos, das batucadas com a vassoura na vizinha de cima, pregando as mesmas partidas no jogo das escondidas, não vão as pessoas pensar que o tempo se meteu com ela, furando-lhe as paredes da cave e entrando pela horta adentro, apodrecendo o precioso cultivo de uma vida.
Nisto, toca o telefone e o neto atende. É altura de ficar na preguiça e deixar-se ficar para sempre, imaginando como seria ter uma horta bem maior do que aquela, longe da estrada e do bairro.

domingo, 18 de maio de 2008

Delito menor

Ela enfia as mãos na sacola larga, sem divisórias. As mãos apalpam no escuro os objectos que lhe são familiares. A escova, o telemóvel, a carteira, o porta-moedas, a chave de casa, o pacote de lenço. Todos, menos as chaves do carro. Aflita, vasculha melhor; os olhos enfiam-se no escuro, ao mesmo tempo que as mãos confirmam freneticamente a falta das chaves. Logo hoje, que está cheia de pressa. Terão vindo agarradas ao molho de objectos e caído sem ter dado conta? Já não era a primeira vez que pensava em tirar algo e vir o resto atrás. Era habitual e normalmente verificava se alguma coisa caía. Não se lembra de nada. Será que as tinha perdido em casa? Na rua? Ou estariam escondidas nalgum buraco invisível? Subitamente, interrompe o pensamento e agarra na chave suplente, levando a rotina por diante. Talvez se voltem a enredar naquele molho que costuma apalpar.

Os dias atravessam-se e a chave suplente toma o lugar da original, levando o carro da sua dona para todo o sítio. Os gestos dela tornam-se maquinais; liga a ignição, desliga o motor, mete a chave dentro da mala. Por vezes, existem pequenos momentos em que a dona a espreita; sobretudo o porta-chaves, que é de plástico, ao contrário do outro, de pele e com a marca inscrita. Será que alguém apanhou a chave? Ou terá sido em casa? A dúvida persiste, com a certeza de que terá sido impossível ter-se evaporado.

O tempo volta a distanciar-se do dia em que ela descobriu que tinha perdido as chaves. Nos últimos tempos pensa inclusive fazer uma segunda cópia, não vá a suplente perder-se. Seria catastrófico. Até que entra no carro, parado há vários dias. A chuva caiu forte, o vento fustigou as árvores e as folhas soterraram o capot do carro. Os vidros estão cobertos por uma camada de pó fina, que lhe turva a visão. Liga a ignição, pondo o limpa pára brisas a funcionar, ouvindo de imediato um ruído estranho. Pára e liga. Torna a parar e a ligar, repetindo a operação várias vezes, conseguindo identificar o objecto pendurado na escova do limpa pára brisas: a chave perdida, desta vez, sem o porta-chaves de pele. Parece tratar-se de uma brincadeira, alguém que apanhou aquela chave e a colocou ali, quando há tantos carros da mesma marca. Um calafrio percorre-lhe a espinha. Se a puseram ali, foi porque experimentaram o carro.

Ela observa a chave, limpando o pó e a lama e raspando a ferrugem que se instalou. Experimenta-a, confirmando a ideia do ladrão. É mesmo aquela. Abre a mala com divisórias e guarda-a num compartimento. Não deve ser difícil arranjar um porta-chaves como aquele que lhe levaram.

domingo, 11 de maio de 2008

Para além do ermo

Dora e a amiga. A amiga e Dora. Inseparáveis. Risos colados, mãos dadas, segredos que moram nelas, jurados por dedos cruzados. A brincadeira desde sempre, as casas vizinhas, os pátios contíguos. As mães por ali envoltas nas tarefas domésticas, a correr para os mais novos, que se arrastam até ao abismo, nem que seja para tropeçar numa inocente poça de água e mergulhar em gargalhadas. Nem o cão da vizinha escapa ao remoinho das tropelias, sempre de dentes arregaçados, a acusar o cansaço da corrente grossa e pesada que o prende ali.
Dora e a amiga transpõem a cancela e atiram para trás das costas o mundo seguro. Direitas pelo carreiro, rumo à escola, sem desviar o olhar raiado de medo do desconhecido… o ermo que lhes passa debaixo dos pés em passo de corrida. A escola, ufa! Chegaram.
Dora prefere, junto com a amiga, a carteira de trás. Assunto sério. O riso fica suspenso e as duas enchem-se de cautela, sem saberem porquê. Sempre temerosas, lá aprendem a ler e a escrever por respeito à professora. O caminho de volta é sempre feito em passinhos rápidos, sem mais contemplações. A vida só recomeça quando se abre a cancela. Três ou quatro casinhas isoladas, os mesmos vizinhos, a mesma algazarra, o cão neurótico, o vizinho adolescente que as espia por detrás das cortinas amarrotadas. Casa, ufa! Estão ali.
Ao fim da tarde, Dora esquece o silêncio do ermo. A amiga também. Recuperam o tempo, danadas pela brincadeira. O mundo é enorme e explode dentro delas. Correm, saltam, escondem-se, atropelam-se e encontram-se novamente. O jantar engole-se, a banana já vai no ar, Dora nem aquece o lugar. A amiga chega e ali ficam, as duas, a inventar coisas.
Um dia, o ermo acena às meninas. O passo abranda, a timidez ganha olhos vivos.

– Ia jurar c’ aquela árvore nunca existiu…
– Árvores, queres tu dizer…
– Pois… mas nunca demos por isso!
– Não sei…devíamos ‘tar tontas ou cegas! Anda lá, senão a professora prega-nos um sermão daqueles…

Chegam à escola, o pensamento a voltear no ar, pela primeira vez. Prestes a completar a primária, o medo acanha-se, as cadeiras arrastam-se para a segunda fila das carteiras. Cresce a curiosidade, avolumam-se as perguntas, a professora responde. Riem-se menos, porém. Trilham o caminho de mulher, ainda sem o ser. O futuro não lhes larga as costas, não pára de lhes puxar os cabelos, não se coíbe de lhes sarrazinar os ouvidos: Como é? Como vai ser a vida daqui por diante? O ermo, carreiros a caminhar para o obscuro? O colinho do pátio? Não sabemos, não sabemos…, balbuciam os corpos imberbes, a meninice por acabar.
Dora avança, a despontar peitos, corpo esticado, cabeça erguida, olhos muito além do ermo.

– Eu vou…
– Vais pa’ onde?
– …vou… vou continuar a estudar…

A amiga olha-a, espantada e estremece. Uma utopia. Antes o trabalho infantil, as fábricas, o dinheiro imediato, pois sim, para ajudar a família, mas certamente a sobrar alguma coisa para ela. Não a compreende. A liberdade a assomar-lhe com evidência e ela a alongar carreiros sem fim à vista.

– Tens a certeza?
– Tenho… já tomei a decisão.
– Mhmm… e só agora é que me falas nisso… ´tá bem… não contes comigo pa’ te acompanhar… eu também já decidi, já falei com os meus pais. Eles acharam bem… sempre vou ganhar algum, percebes?
– Percebo… não temos que andar sempre pegadas uma à outra, não é?
– Bem.. ‘tá decido, ‘tá decidido… vemo-nos amanhã?
– Não sei, se calhar… tenho que ir às matrículas de manhã cedo, logo se vê…

A amiga levanta-se e corre esbaforida em direcção ao pátio. Voa pelo ermo sem se deter até casa. Sem olhar. Sem hesitar. Dora fica ali, pregada à sua decisão, a ver a menina de longe, cada vez mais longe, a diminuir a cada passo até desaparecer. Vai…

Dora levanta-se sem esforço, apesar da noite em vigília. A amiga virou-lhes as costas. Sem hesitar. Pela primeira vez, separava-se do seu outro eu. Come em silêncio e mastiga a realidade. Pela primeira vez, outra realidade. A mãe estranha a torrada quase inteira no prato, o leite entornado, o ar de fastio com a comida, se calhar com ela, mãe e com tudo o resto. Melhor será não dizer nada, isto são os nervos, a criança já não anda bem há uns dias, porque é que ela meteu aquilo na cabeça?

– Vou à escola, mãe.
– Fazer?
– Matricular-me, não vou ficar aqui a vida toda, né?
– Eu não disse nada!! Vais com a Dina?
– Não, vou sozinha.
– Então???
– Então, nada. Ela já não vai, não quer continuar…
– Ah... então, vou eu contigo!
– Não precisas ir comigo… já sou crescidinha, ou não?


Pisca-lhe o olho, esboça um sorriso, mostra-se confiante e sai, airosamente. A cancela parece mais pesada. Alguém a empenou. Tenta mais uma vez e desta cede, abrindo de rompante. Os primeiros raios de sol iluminam o carreiro, distinguindo-o do ermo misterioso. Sente o corpo dividido, os pés pesados a empatar a marcha, a alma a fugir para o pátio. Respira fundo, lança um braço mais à frente e depois o outro, num ritmo cadenciado. Os olhos estão fixos lá para o fundo, já no final de todos os carreiros.
A aragem calma inquieta-se, subitamente. O carreiro mexe-se, os ramos sussurram ao vento, primeiro de mansinho, depois mais vigorosos, entrelaçados uns nos outros numa dança agitada. O vento uiva pelo ar e revolve as folhas à sua passagem. A natureza, agora tão barulhenta como uma multidão, espia-lhe os gestos e alonga o caminho no tempo e nas passadas.
Dora esforça-se por um sorriso, um trago de confiança que engole de embute. Alinha a passada com o ritmo do burburinho envolvente até tropeçar num ruído diferente. Estaca, põe-se à escuta e agarra uma respiração ofegante à solta no ar. A sombra envolve a sua própria e descobre o vulto grande de cheiro forte e diferente. Morde o monstro, pontapeia-o, até o ver puxar de uma navalha, com um sorriso maléfico, o olhar esbugalhado e suado, de tão transtornado. Que imaginação a dela! Dora, o receio do destino a pregar-lhe o corpo ao chão. Dora que se faz crescida, que mergulha no vento, galgando folhas e árvores e o caminho a direito pelo carreiro fora. Foge da sombra e do medo. E fica maior, bem maior que ele.

Dina ficou lá escondida. Que é feito da minha amiga? Que caminho foi o dela? Dora abraça o regresso. Move a curiosidade, percorre o caminho inverso pelo marulhar das folhas, pelos ramos altos e distintos. Não tão vigorosos nem imponentes como outrora. Tropeça outra vez. O medo bisa neste caminho de volta. Mas já não é o vulto glutão que a engole. É a ausência. É o lapso de tempo, tanto tempo. O tino recupera a passada da mulher feita. Dina descobre-se do lado de lá da cancela. Também ela mulher feita. Um confronto de meninas. As duas mulheres feitas, sem mágoa de anos, anos de histórias opostas. O medo infantil cresceu na proporção do percurso adulto, cheio de cautelas e receios antecipados. Os passos já não seguem lestos para sítio algum. Os carreiros são apalpados antes de serem caminhados. As meninas encontram-se para lá do portão, as mulheres abraçam-se, as experiências cruzam-se. Desconfiam do acaso e protegem-se mutuamente. O pátio parece-lhes agora mais pequeno.
Ainda assim, a velha cancela continua lá, cada vez mais empenada, a dificultar a passagem a quem tanto quer sair. Ufa! Estamos aqui.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

O desabafo

É quase fim de tarde quando ela entra no café. Um hábito de anos, depois de despejar compras em casa, mudar a comida ao gato, orientar o jantar, ao som da televisão que desperta o marido para outras vidas, muito para além das quatro paredes. Cabelo arranjado, corpo ainda direito, lá vai ela, ladeira acima, passada rápida, a desprezar a respiração ofegante, até à portinhola do café. Àquela hora, já desapareceram os clientes do dia, a confusão dos almoços e dos cafés, da gente apressada de dedos no ar, da comida a chegar às mesas, em espaço pequeno e patinhado. Desta vez ela faz um ar sério. A dona, que se desprendeu do balcão para limpar o chão, pergunta-lhe, enquanto o cheiro a lixívia se vai impregnando no ar: “Parece triste. O que aconteceu?” “Estou velha. São seis da tarde. O que eu já teria feito até a esta hora, há uns anos atrás. Agora faço as camas, limpo a casa, vou às compras e estou acabada. É uma vida estúpida. Arranje-me outra coisa para fazer, ou morro de vez.” “Quer trocar comigo, só para experimentar?” pergunta-lhe a dona, meio a gozar. “Está a brincar, mas eu respondo-lhe de verdade: gostava. Silêncio tenho de sobra em casa. E a canseira não me assusta. Iria rejuvenescer.” A dona encolhe os ombros, sem resposta.



É mais um desabafo, ao fim do dia. Ela regressa a casa e acaba de fazer o jantar, com o gato a ronronar, colado às suas pernas. Ao serão, sentada na poltrona ao lado do marido, dormita, sonhando com a troca. De repente, a voz da televisão confunde-se com a da dona do café, que lhe segreda ao ouvido: “ Dê-me o meu café, que eu não aguento mais. E mais, não estou velha. Felicito-a. Deve ter inventado muito, ao longo destes anos todos.”

sábado, 3 de maio de 2008

Sai da frente



O meu amigo jurou sair do apartamento até ao final da semana. Após uma acesa discussão, é claro, a revermos metodicamente – e desde o início – a podridão das nossas vidas em conjunto. Não conseguimos chegar a conclusão nenhuma, à excepção do desamor que nutrimos um pelo outro desde há muito, para não falar na quantidade de vezes que tomámos as mentiras por verdades, abafando a vontade de gritar bem alto, estou farto(a), desampara-me a loja!
Rosa ainda não sabia disto, quando na manhã seguinte entrou no nosso quarto, sempre com medo de encontrar mais vestígios que lhe comprovassem as lágrimas que iam caindo aqui e acolá, ao longo deste penoso processo.
Saímos os dois de manhã, calados e atrapalhados – imaginem a nossa noite – após a costumada rotina da manhã, que curiosamente, fluiu com naturalidade e sem atropelos de maior. Ele pedia-me licença para respirar e desculpa por se atrever a passar por mim. Decididamente, estava mais formal que nunca e eu não estava preparada para reagir a tão súbito respeito.
Despedi-me baixando a cabeça e acenando-lhe com vergonha. «Até logo…», murmurei, para que não me ouvisse, apavorada com a ideia.
Vi Rosa no nosso quarto, a abrir as persianas, deixando a luz matinal entrar através das vidraças, aclarando o ambiente, fazendo realçar a forma e a cor dos objectos ali existentes. Estremeci. Aproximava-se do nosso edredão liso, cor-de-salmão, enrolado ao fundo da cama, descobrindo o lençol de baixo, cujas rugas delineavam os contornos de dois corpos, claramente separados.
– Bem, a ver pelo sítio das almofadas, tão apartadas, vê-se que a coisa não anda bem… Valha-nos Deus, não sei como não caíram ao chão…
Fiquei embaraçada – como explicar esta maçada, depois de tantos anos? – e logo comovida, quando imediatamente tratou de desfazer as ‘impressões corporais’, puxando o edredão para cima e alisando-o dos lados. Ajeitou ainda a bata, respirou fundo e começou a apanhar a roupa suja do chão.
À saída voltou-se, olhou a cama composta e sorriu, satisfeita. Afinal, aquilo não tinha passado de uma mera ilusão de óptica.
O pesadelo do dia iniciou-se. Estava sentada à secretária de uma multinacional, com um dos directores mesmo em frente de mim, separados apenas por um vidro.
Os telefones inundavam-me os ouvidos, a papelada acumulada – discretamente empilhada, criava um pequeno reduto, onde pelo menos conseguia esconder o olhar e o gesto por escassos segundos – a que tinha que dar vazão, enlouquecia-me de vez.
Naquela manhã atrevi-me a mostrar-me, onde não existia pilha de papéis que me valesse, excomungando a filosofia ‘trabalhar, trabalhar para rentabilizar’. Gesticulei, bati com os punhos na mesa, bufei, levei as mãos à cabeça e enfrentei o olhar desconfiado que o director me lançava, de quando em quando. Como não passou do olhar esporádico – com o meu nível de responsabilidade lá dentro, só mesmo com o pescoço apertado – foquei antes a mira telescópica em Rosa e concentrei nela toda a atenção.
Pôs a roupa suja na máquina, agarrou num pano de pó e entrou no escritório. Hesitou. Onde começar? Enquanto se decidia por uma ponta ou outra, os seus olhos passaram distraidamente sobre uns papéis espalhados sobre a secretária. Daqueles amarelos, pequenos, quadrangulares, que já vêem com cola e que servem – em princípio – para apontar assuntos fundamentais.
Pousou o pano, intrigada. O Senhor Doutor tinha-os colado alinhadamente, à beira da secretária. Não anunciavam datas de julgamentos, audições, ou encontros com clientes, mais parecia uma conversa a dois, furtiva – talvez a situação em que se encontrassem não fosse favorável – e já com sabor de romance. A letra dela era gorda, redonda e grande, obviamente precisaria de vários papéis amarelos para transmitir o sentimento avassalador que a cobria todos os dias mais um bocadinho. Ele ainda tinha tentado manter o decoro no primeiro bilhete, em letra pequena, apertada, misturando a hesitação com assuntos profissionais, mas logo tinha ultrapassado essa barreira, escrevendo outros, talvez ainda mais atrevidos que os dela.
Rosa deixou cair uma lágrima, jurando a si mesma que o assunto nunca iria chegar aos meus ouvidos. Pegou nos bilhetes, arrumou-os, mantendo a ordem e guardou-os numa gaveta da secretária.

Findo o turno da manhã, apressei-me a sair do escritório, aproveitando a pausa para me ausentar a cem por cento. Não me senti chocada – ao contrário do que Rosa pudesse pensar – nem tão pouco surpreendida. O encontro amoroso era a desejada fuga ao nosso desencontro, que em certas fases, era extremamente doloroso de se conviver. Significava apenas um esconderijo de eleição, a hipótese de se poder passar bons momentos, sem a rotina a corroer-nos o coração e a boa vontade a apanhar-nos desgrenhados, indesejáveis e de mau hálito, logo pela manhã.
Pergunto-me porque não me lembrei de semelhante ideia. Andarei demasiado work aholic, ou nem sequer chego a ter percepção de mim, das minhas vontades e desejos? Serão os tempos modernos, que na magia da tecnologia e da informação em tempo real, nos consomem? Será que os mais ínfimos pormenores perderam o encanto das pequenas e agudas vibrações?
Se é vida virtual ou desvirtuada, não o sei, o certo é que escorreguei pelo túnel da insegurança, atravessei cruzamentos inesperados e ainda por cima de luz apagada. Estrebuchei, ripostei, tentei revestir-me de fortes convicções, mas apenas obtive a imagem do escuro, que entretanto me ocultou outros caminhos.
Passei por umas montras espelhadas e utilizei-as discretamente, para me avaliar. Roupas demodé, corte de cabelo ultrapassado, objectivos fora de prazo, desejos sobre desejos, comprimidos, entretanto esquecidos. Em suma, tinha-me tornado numa ‘não-pessoa’, comandada pelo piloto automático. Só a minha indiferença – que revestia o meu pobre invólucro de alto a baixo – me tinha conseguido proteger da infelicidade prolongada.
Voltei para casa, depois de aterrar firme com os pés na terra, desejosa de encontrar Rosa. Os papéis amarelos assolavam-me a memória. Precisava da cumplicidade dela, até à máxima indiscrição, para me identificar novamente, ganhar rosto, cor e sombra. Para viver sem receio.
O Luís apareceu, convicto da sua decisão. Seria no fim-de-semana. Baixei os olhos, atravessei o hall e entrei na sala de estar, oprimida com os objectos construídos a dois, as fotografias de mais de uma década e surpreendida pelo pano de pó, que me rasou o nariz, fazendo-me espirrar mesmo em cima dela.
– O que fazes?
– Cuido da casa. Que mais poderia fazer?

Rosa sorriu, pediu desculpa por ter despoletado a súbita alergia e continuou com a sua tarefa, certa de que eu iria direita ao escritório, no encalço dos papelinhos amarelos.
As portas bateram, simultaneamente. Abri a minha, confirmando se teria sido a porta da rua, pesada, que tinha fechado, contrariada. Luís tinha saído, provavelmente atrofiado pelo ar pesado que se respirava em casa. Suspirei, incomodada com o silêncio forçado. Alheei-me e abri a gaveta, alimentando a curiosidade mórbida em conhecer o perfil do terceiro elemento.
Reconheci imediatamente o molho. Agarrei-o de repente, não fosse algum papelinho esvoaçar, e com ele, sumisse também o sentido do alucinado diálogo.
Recomecei a fazer o puzzle do Luís. Devia ser uma sucessão de mensagens muito importantes, talvez daquele tipo de declarações que muitos não se atrevem, sequer a experimentar.
Desfolhei-os. Procurava a letra redonda e gorda. Procurei novamente, desta vez com mais cuidado. Estava perturbada e a visão desfocava, à medida que a ansiedade aumentava. Como se não tivesse visto nada semelhante, comecei a colá-los por aquela ordem. Talvez nascessem entretanto, dos cantos do escritório.
A letra continuava pequena, escondida, tímida. Inclinava-se por vezes para a direita, como se quisesse apressar o destino. Era um diálogo imaginado a dois, escrito pela mesma pessoa. Luís falava comigo, tal como éramos, há quinze anos atrás, doces, apaixonados, próximos um do outro.
Quedei-me, estupefacta, com o grau da traição. Comigo mesma? Espera… com quem foste… procura-se rosto! Loira, morena, mais ruga, menos ruga, alguém que consiga protagonizar a história que se passou, alguém que esteja à altura… a partir do próximo fim-de-semana… sai da frente…
Rosa tinha acabado as limpezas. Despiu a bata, vestiu o impermeável, atou o lenço por baixo do pescoço, pontas espetadas, e deixou a patroa a braços com a vida.
Fiz as malas. Antes do fim-de-semana. Já não conseguia recuar no tempo. Não tive ânimo para ir de encontro ao Luís.
Talvez andasse a precisar de um novo rosto, colado a uma história antiga.