As mensagens sucedem-se, umas após as outras. O telemóvel foi-lhe oferecido, um topo de gama, como qualquer presente de estimação merece ser. É ele, a dizer que a adora, sem nunca estar. Seguem-se declarações de todo o género, citações de autores, frases inventadas na hora sobre o tema. Ela suspira. É um momento de poesia que a faz saborear a ausência. Uma história inventada à volta de um personagem que criou e que, no fluir da virtualidade, cumpre os desejos do seu imaginário. Ouve-se um ruído, de repente. É o telemóvel a tocar, chamando-a à realidade. Ainda por cima, é ele, de viva voz. Ela apressa-se a mostrar uma disponibilidade irreal, cerrando fileiras a todos os minutos que ainda se escondem do resto do dia. Ele surpreende-se, como sempre; hesita entre a súbita vontade de a ver e a vontade de a ver ao longe, de a preservar dentro do mini ecrã do telemóvel, emoldurada com aquelas frases bonitas, que têm trocado. Uma história inventada por ele, também, à medida dos seus desejos. Quando se encontram, sobra uma estranheza no ser e no estar. Desaparecem as frases românticas, para dar lugar a uma série de mal-entendidos, que ficam sempre por explicar. Ela abate-se, nesta curta vivência. Não compreende porque é que as peças do puzzle não encaixam. Só pode ser por sua culpa. O único conforto é a chegada a casa, refugiando-se na esperada chuva de mensagens. Hoje, o telemóvel não apita, à hora do costume. Ela olha para o relógio, inquieta. Agarra no telemóvel e sacode-o, com força, tentando que este despeje as mensagens que lhe deve. De repente, o telemóvel toca, em vez de apitar. É a voz dele, que desabafa: “ Quero dizer-te que a minha história contigo já terminou. Acabou de vez a inspiração”.terça-feira, 27 de maio de 2008
Histórias inventadas
As mensagens sucedem-se, umas após as outras. O telemóvel foi-lhe oferecido, um topo de gama, como qualquer presente de estimação merece ser. É ele, a dizer que a adora, sem nunca estar. Seguem-se declarações de todo o género, citações de autores, frases inventadas na hora sobre o tema. Ela suspira. É um momento de poesia que a faz saborear a ausência. Uma história inventada à volta de um personagem que criou e que, no fluir da virtualidade, cumpre os desejos do seu imaginário. Ouve-se um ruído, de repente. É o telemóvel a tocar, chamando-a à realidade. Ainda por cima, é ele, de viva voz. Ela apressa-se a mostrar uma disponibilidade irreal, cerrando fileiras a todos os minutos que ainda se escondem do resto do dia. Ele surpreende-se, como sempre; hesita entre a súbita vontade de a ver e a vontade de a ver ao longe, de a preservar dentro do mini ecrã do telemóvel, emoldurada com aquelas frases bonitas, que têm trocado. Uma história inventada por ele, também, à medida dos seus desejos. Quando se encontram, sobra uma estranheza no ser e no estar. Desaparecem as frases românticas, para dar lugar a uma série de mal-entendidos, que ficam sempre por explicar. Ela abate-se, nesta curta vivência. Não compreende porque é que as peças do puzzle não encaixam. Só pode ser por sua culpa. O único conforto é a chegada a casa, refugiando-se na esperada chuva de mensagens. Hoje, o telemóvel não apita, à hora do costume. Ela olha para o relógio, inquieta. Agarra no telemóvel e sacode-o, com força, tentando que este despeje as mensagens que lhe deve. De repente, o telemóvel toca, em vez de apitar. É a voz dele, que desabafa: “ Quero dizer-te que a minha história contigo já terminou. Acabou de vez a inspiração”.terça-feira, 20 de maio de 2008
A horta da cidade
Duas vizinhas conversam sobre a vizinha da cave. Ninguém se apercebeu, parece que houve um telefonema, o neto estava de passagem, atendeu, chamou-a vezes sem conta e nada. Pois, no Domingo passado. Uma vizinha queixou-se toda a vida do desassossego causado por esta, a morte não lhe foi indiferente, mas também não a transtornou. Sobra um minúsculo vazio, sob a forma de silêncio. De facto, de infernos já não se pode falar. E por falar na defunta vizinha, é espantoso como debaixo de uma base que agarrava o pó de arroz se escondiam as rugas de alguém que estava a desafiar os 90 anos. Cabelo pintado, sem deixar escapar um branco, costas direitas, andar desempenado, ar enérgico, voz esganiçada, todos os dias refilou sobre tudo e sobre nada, moendo os cinco andares de vizinhas que a comprimiam e que a observavam, do alto das suas janelas. De resto, pouco se sabe, a não ser da horta cultivada em plena cidade, dos taipais construídos aos poucos, a roubar mais um centímetro de terra, que se livra de ser passeio. Pelo meio, o estendal de roupa a desfilar, pendurado num jogo de paus, que parece definir os limites do território.A vizinha aprende a estreitar o olhar entre a janela da cave e a horta, fazendo orelhas moucas aos comentários e atacando antes de ser atacada; saboreia a vingança de forma ritmada, batucando a vassoura no tecto contra um ressonar mais ruidoso, ou correndo a tocar as campainhas das vizinhas, escondendo-se nas esquinas, de riso amordaçado ao ouvir o “quem é? quem é?” Grosseira no tom e nos modos, confina-se à horta, colhendo couves e alfaces, cuidando do estendal e da roupa, voltada de costas para o prédio.
O tempo teima em se arredar daquele “ghetto” e da sua dona, apesar dos comentários e protestos. A filha explode em beleza e sensualidade mal atinge a adolescência; o duche pode ser observado da janela da cave, coleccionando admiradores, mesmo em frente à horta. O estendal passa ter outras cores estendidas e outras peças de vestuário: corpetes, ligas, cuecas especiais, roupa sofisticada, veludo carmim, verde esmeralda. A seguir vem um neto, entre outros, fruto do acaso e das vidas que andarilham para lá e para cá, em que a única certeza que existe é aquele pequeno mundo feito de paus e taipais; uma mescla de asfalto e hortaliças, mais seguro que tudo lá fora. Os companheiros da vizinha também aparecem à luz do dia; contemplam os repolhos e vão-se sucedendo uns aos outros, sem grande alarido. Por fim, e ainda antes do fim, nasce a bisneta, que desconhece a mãe e pouco vê o pai, já que este fugiu com a tia.
A bisavó, entregues os maridos à Divina Providência e sempre de olho nas alfaces e couves, dedica-se a tratar da menina com a mesma garra com que criou filha e neto, cuidando da roupa pelo meio, da casa, do prédio, dos vizinhos, das batucadas com a vassoura na vizinha de cima, pregando as mesmas partidas no jogo das escondidas, não vão as pessoas pensar que o tempo se meteu com ela, furando-lhe as paredes da cave e entrando pela horta adentro, apodrecendo o precioso cultivo de uma vida.
Nisto, toca o telefone e o neto atende. É altura de ficar na preguiça e deixar-se ficar para sempre, imaginando como seria ter uma horta bem maior do que aquela, longe da estrada e do bairro.
O tempo teima em se arredar daquele “ghetto” e da sua dona, apesar dos comentários e protestos. A filha explode em beleza e sensualidade mal atinge a adolescência; o duche pode ser observado da janela da cave, coleccionando admiradores, mesmo em frente à horta. O estendal passa ter outras cores estendidas e outras peças de vestuário: corpetes, ligas, cuecas especiais, roupa sofisticada, veludo carmim, verde esmeralda. A seguir vem um neto, entre outros, fruto do acaso e das vidas que andarilham para lá e para cá, em que a única certeza que existe é aquele pequeno mundo feito de paus e taipais; uma mescla de asfalto e hortaliças, mais seguro que tudo lá fora. Os companheiros da vizinha também aparecem à luz do dia; contemplam os repolhos e vão-se sucedendo uns aos outros, sem grande alarido. Por fim, e ainda antes do fim, nasce a bisneta, que desconhece a mãe e pouco vê o pai, já que este fugiu com a tia.A bisavó, entregues os maridos à Divina Providência e sempre de olho nas alfaces e couves, dedica-se a tratar da menina com a mesma garra com que criou filha e neto, cuidando da roupa pelo meio, da casa, do prédio, dos vizinhos, das batucadas com a vassoura na vizinha de cima, pregando as mesmas partidas no jogo das escondidas, não vão as pessoas pensar que o tempo se meteu com ela, furando-lhe as paredes da cave e entrando pela horta adentro, apodrecendo o precioso cultivo de uma vida.
Nisto, toca o telefone e o neto atende. É altura de ficar na preguiça e deixar-se ficar para sempre, imaginando como seria ter uma horta bem maior do que aquela, longe da estrada e do bairro.
domingo, 18 de maio de 2008
Delito menor
Os dias atravessam-se e a chave suplente toma o lugar da original, levando o carro da sua dona para todo o sítio. Os gestos dela tornam-se maquinais; liga a ignição, desliga o motor, mete a chave dentro da mala. Por vezes, existem pequenos momentos em que a dona a espreita; sobretudo o porta-chaves, que é de plástico, ao contrário do outro, de pele e com a marca inscrita. Será que alguém apanhou a chave? Ou terá sido em casa? A dúvida persiste, com a certeza de que terá sido impossível ter-se evaporado.
O tempo volta a distanciar-se do dia em que ela descobriu que tinha perdido as chaves. Nos últimos tempos pensa inclusive fazer uma segunda cópia, não vá a suplente perder-se. Seria catastrófico. Até que entra no carro, parado há vários dias. A chuva caiu forte, o vento fustigou as árvores e as folhas soterraram o capot do carro. Os vidros estão cobertos por uma camada de pó fina, que lhe turva a visão. Liga a ignição, pondo o limpa pára brisas a funcionar, ouvindo de imediato um ruído estranho. Pára e liga. Torna a parar e a ligar, repetindo a operação várias vezes, conseguindo identificar o objecto pendurado na escova do limpa pára brisas: a chave perdida, desta vez, sem o porta-chaves de pele. Parece tratar-se de uma brincadeira, alguém que apanhou aquela chave e a colocou ali, quando há tantos carros da mesma marca. Um calafrio percorre-lhe a espinha. Se a puseram ali, foi porque experimentaram o carro.
O tempo volta a distanciar-se do dia em que ela descobriu que tinha perdido as chaves. Nos últimos tempos pensa inclusive fazer uma segunda cópia, não vá a suplente perder-se. Seria catastrófico. Até que entra no carro, parado há vários dias. A chuva caiu forte, o vento fustigou as árvores e as folhas soterraram o capot do carro. Os vidros estão cobertos por uma camada de pó fina, que lhe turva a visão. Liga a ignição, pondo o limpa pára brisas a funcionar, ouvindo de imediato um ruído estranho. Pára e liga. Torna a parar e a ligar, repetindo a operação várias vezes, conseguindo identificar o objecto pendurado na escova do limpa pára brisas: a chave perdida, desta vez, sem o porta-chaves de pele. Parece tratar-se de uma brincadeira, alguém que apanhou aquela chave e a colocou ali, quando há tantos carros da mesma marca. Um calafrio percorre-lhe a espinha. Se a puseram ali, foi porque experimentaram o carro.
domingo, 11 de maio de 2008
Para além do ermo
Dora e a amiga. A amiga e Dora. Inseparáveis. Risos colados, mãos dadas, segredos que moram nelas, jurados por dedos cruzados. A brincadeira desde sempre, as casas vizinhas, os pátios contíguos. As mães por ali envoltas nas tarefas domésticas, a correr para os mais novos, que se arrastam até ao abismo, nem que seja para tropeçar numa inocente poça de água e mergulhar em gargalhadas. Nem o cão da vizinha escapa ao remoinho das tropelias, sempre de dentes arregaçados, a acusar o cansaço da corrente grossa e pesada que o prende ali. Dora e a amiga transpõem a cancela e atiram para trás das costas o mundo seguro. Direitas pelo carreiro, rumo à escola, sem desviar o olhar raiado de medo do desconhecido… o ermo que lhes passa debaixo dos pés em passo de corrida. A escola, ufa! Chegaram.
Dora prefere, junto com a amiga, a carteira de trás. Assunto sério. O riso fica suspenso e as duas enchem-se de cautela, sem saberem porquê. Sempre temerosas, lá aprendem a ler e a escrever por respeito à professora. O caminho de volta é sempre feito em passinhos rápidos, sem mais contemplações. A vida só recomeça quando se abre a cancela. Três ou quatro casinhas isoladas, os mesmos vizinhos, a mesma algazarra, o cão neurótico, o vizinho adolescente que as espia por detrás das cortinas amarrotadas. Casa, ufa! Estão ali.
Ao fim da tarde, Dora esquece o silêncio do ermo. A amiga também. Recuperam o tempo, danadas pela brincadeira. O mundo é enorme e explode dentro delas. Correm, saltam, escondem-se, atropelam-se e encontram-se novamente. O jantar engole-se, a banana já vai no ar, Dora nem aquece o lugar. A amiga chega e ali ficam, as duas, a inventar coisas.
Um dia, o ermo acena às meninas. O passo abranda, a timidez ganha olhos vivos.
Dora prefere, junto com a amiga, a carteira de trás. Assunto sério. O riso fica suspenso e as duas enchem-se de cautela, sem saberem porquê. Sempre temerosas, lá aprendem a ler e a escrever por respeito à professora. O caminho de volta é sempre feito em passinhos rápidos, sem mais contemplações. A vida só recomeça quando se abre a cancela. Três ou quatro casinhas isoladas, os mesmos vizinhos, a mesma algazarra, o cão neurótico, o vizinho adolescente que as espia por detrás das cortinas amarrotadas. Casa, ufa! Estão ali.
Ao fim da tarde, Dora esquece o silêncio do ermo. A amiga também. Recuperam o tempo, danadas pela brincadeira. O mundo é enorme e explode dentro delas. Correm, saltam, escondem-se, atropelam-se e encontram-se novamente. O jantar engole-se, a banana já vai no ar, Dora nem aquece o lugar. A amiga chega e ali ficam, as duas, a inventar coisas.
Um dia, o ermo acena às meninas. O passo abranda, a timidez ganha olhos vivos.
– Ia jurar c’ aquela árvore nunca existiu…
– Árvores, queres tu dizer…
– Pois… mas nunca demos por isso!
– Não sei…devíamos ‘tar tontas ou cegas! Anda lá, senão a professora prega-nos um sermão daqueles…
Chegam à escola, o pensamento a voltear no ar, pela primeira vez. Prestes a completar a primária, o medo acanha-se, as cadeiras arrastam-se para a segunda fila das carteiras. Cresce a curiosidade, avolumam-se as perguntas, a professora responde. Riem-se menos, porém. Trilham o caminho de mulher, ainda sem o ser. O futuro não lhes larga as costas, não pára de lhes puxar os cabelos, não se coíbe de lhes sarrazinar os ouvidos: Como é? Como vai ser a vida daqui por diante? O ermo, carreiros a caminhar para o obscuro? O colinho do pátio? Não sabemos, não sabemos…, balbuciam os corpos imberbes, a meninice por acabar.
Dora avança, a despontar peitos, corpo esticado, cabeça erguida, olhos muito além do ermo.
– Eu vou…
– Vais pa’ onde?
– …vou… vou continuar a estudar…
A amiga olha-a, espantada e estremece. Uma utopia. Antes o trabalho infantil, as fábricas, o dinheiro imediato, pois sim, para ajudar a família, mas certamente a sobrar alguma coisa para ela. Não a compreende. A liberdade a assomar-lhe com evidência e ela a alongar carreiros sem fim à vista.
– Tens a certeza?
– Tenho… já tomei a decisão.
– Mhmm… e só agora é que me falas nisso… ´tá bem… não contes comigo pa’ te acompanhar… eu também já decidi, já falei com os meus pais. Eles acharam bem… sempre vou ganhar algum, percebes?
– Percebo… não temos que andar sempre pegadas uma à outra, não é?
– Bem.. ‘tá decido, ‘tá decidido… vemo-nos amanhã?
– Não sei, se calhar… tenho que ir às matrículas de manhã cedo, logo se vê…
A amiga levanta-se e corre esbaforida em direcção ao pátio. Voa pelo ermo sem se deter até casa. Sem olhar. Sem hesitar. Dora fica ali, pregada à sua decisão, a ver a menina de longe, cada vez mais longe, a diminuir a cada passo até desaparecer. Vai…
Dora levanta-se sem esforço, apesar da noite em vigília. A amiga virou-lhes as costas. Sem hesitar. Pela primeira vez, separava-se do seu outro eu. Come em silêncio e mastiga a realidade. Pela primeira vez, outra realidade. A mãe estranha a torrada quase inteira no prato, o leite entornado, o ar de fastio com a comida, se calhar com ela, mãe e com tudo o resto. Melhor será não dizer nada, isto são os nervos, a criança já não anda bem há uns dias, porque é que ela meteu aquilo na cabeça?
– Vou à escola, mãe.
– Fazer?
– Matricular-me, não vou ficar aqui a vida toda, né?
– Eu não disse nada!! Vais com a Dina?
– Não, vou sozinha.
– Então???
– Então, nada. Ela já não vai, não quer continuar…
– Ah... então, vou eu contigo!
– Não precisas ir comigo… já sou crescidinha, ou não?
Pisca-lhe o olho, esboça um sorriso, mostra-se confiante e sai, airosamente. A cancela parece mais pesada. Alguém a empenou. Tenta mais uma vez e desta cede, abrindo de rompante. Os primeiros raios de sol iluminam o carreiro, distinguindo-o do ermo misterioso. Sente o corpo dividido, os pés pesados a empatar a marcha, a alma a fugir para o pátio. Respira fundo, lança um braço mais à frente e depois o outro, num ritmo cadenciado. Os olhos estão fixos lá para o fundo, já no final de todos os carreiros.A aragem calma inquieta-se, subitamente. O carreiro mexe-se, os ramos sussurram ao vento, primeiro de mansinho, depois mais vigorosos, entrelaçados uns nos outros numa dança agitada. O vento uiva pelo ar e revolve as folhas à sua passagem. A natureza, agora tão barulhenta como uma multidão, espia-lhe os gestos e alonga o caminho no tempo e nas passadas.
Dora esforça-se por um sorriso, um trago de confiança que engole de embute. Alinha a passada com o ritmo do burburinho envolvente até tropeçar num ruído diferente. Estaca, põe-se à escuta e agarra uma respiração ofegante à solta no ar. A sombra envolve a sua própria e descobre o vulto grande de cheiro forte e diferente. Morde o monstro, pontapeia-o, até o ver puxar de uma navalha, com um sorriso maléfico, o olhar esbugalhado e suado, de tão transtornado. Que imaginação a dela! Dora, o receio do destino a pregar-lhe o corpo ao chão. Dora que se faz crescida, que mergulha no vento, galgando folhas e árvores e o caminho a direito pelo carreiro fora. Foge da sombra e do medo. E fica maior, bem maior que ele.
Dina ficou lá escondida. Que é feito da minha amiga? Que caminho foi o dela? Dora abraça o regresso. Move a curiosidade, percorre o caminho inverso pelo marulhar das folhas, pelos ramos altos e distintos. Não tão vigorosos nem imponentes como outrora. Tropeça outra vez. O medo bisa neste caminho de volta. Mas já não é o vulto glutão que a engole. É a ausência. É o lapso de tempo, tanto tempo. O tino recupera a passada da mulher feita. Dina descobre-se do lado de lá da cancela. Também ela mulher feita. Um confronto de meninas. As duas mulheres feitas, sem mágoa de anos, anos de histórias opostas. O medo infantil cresceu na proporção do percurso adulto, cheio de cautelas e receios antecipados. Os passos já não seguem lestos para sítio algum. Os carreiros são apalpados antes de serem caminhados. As meninas encontram-se para lá do portão, as mulheres abraçam-se, as experiências cruzam-se. Desconfiam do acaso e protegem-se mutuamente. O pátio parece-lhes agora mais pequeno.
Ainda assim, a velha cancela continua lá, cada vez mais empenada, a dificultar a passagem a quem tanto quer sair. Ufa! Estamos aqui.
quinta-feira, 8 de maio de 2008
O desabafo
É quase fim de tarde quando ela entra no café. Um hábito de anos, depois de despejar compras em casa, mudar a comida ao gato, orientar o jantar, ao som da televisão que desperta o marido para outras vidas, muito para além das quatro paredes. Cabelo arranjado, corpo ainda direito, lá vai ela, ladeira acima, passada rápida, a desprezar a respiração ofegante, até à portinhola do café. Àquela hora, já desapareceram os clientes do dia, a confusão dos almoços e dos cafés, da gente apressada de dedos no ar, da comida a chegar às mesas, em espaço pequeno e patinhado. Desta vez ela faz um ar sério. A dona, que se desprendeu do balcão para limpar o chão, pergunta-lhe, enquanto o cheiro a lixívia se vai impregnando no ar: “Parece triste. O que aconteceu?” “Estou velha. São seis da tarde. O que eu já teria feito até a esta hora, há uns anos atrás. Agora faço as camas, limpo a casa, vou às compras e estou acabada. É uma vida estúpida. Arranje-me outra coisa para fazer, ou morro de vez.” “Quer trocar comigo, só para experimentar?” pergunta-lhe a dona, meio a gozar. “Está a brincar, mas eu respondo-lhe de verdade: gostava. Silêncio tenho de sobra em casa. E a canseira não me assusta. Iria rejuvenescer.” A dona encolhe os ombros, sem resposta.
É mais um desabafo, ao fim do dia. Ela regressa a casa e acaba de fazer o jantar, com o gato a ronronar, colado às suas pernas. Ao serão, sentada na poltrona ao lado do marido, dormita, sonhando com a troca. De repente, a voz da televisão confunde-se com a da dona do café, que lhe segreda ao ouvido: “ Dê-me o meu café, que eu não aguento mais. E mais, não estou velha. Felicito-a. Deve ter inventado muito, ao longo destes anos todos.”
sábado, 3 de maio de 2008
Sai da frente
O meu amigo jurou sair do apartamento até ao final da semana. Após uma acesa discussão, é claro, a revermos metodicamente – e desde o início – a podridão das nossas vidas em conjunto. Não conseguimos chegar a conclusão nenhuma, à excepção do desamor que nutrimos um pelo outro desde há muito, para não falar na quantidade de vezes que tomámos as mentiras por verdades, abafando a vontade de gritar bem alto, estou farto(a), desampara-me a loja!
Rosa ainda não sabia disto, quando na manhã seguinte entrou no nosso quarto, sempre com medo de encontrar mais vestígios que lhe comprovassem as lágrimas que iam caindo aqui e acolá, ao longo deste penoso processo.
Saímos os dois de manhã, calados e atrapalhados – imaginem a nossa noite – após a costumada rotina da manhã, que curiosamente, fluiu com naturalidade e sem atropelos de maior. Ele pedia-me licença para respirar e desculpa por se atrever a passar por mim. Decididamente, estava mais formal que nunca e eu não estava preparada para reagir a tão súbito respeito.
Despedi-me baixando a cabeça e acenando-lhe com vergonha. «Até logo…», murmurei, para que não me ouvisse, apavorada com a ideia.
Vi Rosa no nosso quarto, a abrir as persianas, deixando a luz matinal entrar através das vidraças, aclarando o ambiente, fazendo realçar a forma e a cor dos objectos ali existentes. Estremeci. Aproximava-se do nosso edredão liso, cor-de-salmão, enrolado ao fundo da cama, descobrindo o lençol de baixo, cujas rugas delineavam os contornos de dois corpos, claramente separados.
– Bem, a ver pelo sítio das almofadas, tão apartadas, vê-se que a coisa não anda bem… Valha-nos Deus, não sei como não caíram ao chão…
Fiquei embaraçada – como explicar esta maçada, depois de tantos anos? – e logo comovida, quando imediatamente tratou de desfazer as ‘impressões corporais’, puxando o edredão para cima e alisando-o dos lados. Ajeitou ainda a bata, respirou fundo e começou a apanhar a roupa suja do chão.
À saída voltou-se, olhou a cama composta e sorriu, satisfeita. Afinal, aquilo não tinha passado de uma mera ilusão de óptica.
O pesadelo do dia iniciou-se. Estava sentada à secretária de uma multinacional, com um dos directores mesmo em frente de mim, separados apenas por um vidro.
Os telefones inundavam-me os ouvidos, a papelada acumulada – discretamente empilhada, criava um pequeno reduto, onde pelo menos conseguia esconder o olhar e o gesto por escassos segundos – a que tinha que dar vazão, enlouquecia-me de vez.
Naquela manhã atrevi-me a mostrar-me, onde não existia pilha de papéis que me valesse, excomungando a filosofia ‘trabalhar, trabalhar para rentabilizar’. Gesticulei, bati com os punhos na mesa, bufei, levei as mãos à cabeça e enfrentei o olhar desconfiado que o director me lançava, de quando em quando. Como não passou do olhar esporádico – com o meu nível de responsabilidade lá dentro, só mesmo com o pescoço apertado – foquei antes a mira telescópica em Rosa e concentrei nela toda a atenção.
Pôs a roupa suja na máquina, agarrou num pano de pó e entrou no escritório. Hesitou. Onde começar? Enquanto se decidia por uma ponta ou outra, os seus olhos passaram distraidamente sobre uns papéis espalhados sobre a secretária. Daqueles amarelos, pequenos, quadrangulares, que já vêem com cola e que servem – em princípio – para apontar assuntos fundamentais.
Pousou o pano, intrigada. O Senhor Doutor tinha-os colado alinhadamente, à beira da secretária. Não anunciavam datas de julgamentos, audições, ou encontros com clientes, mais parecia uma conversa a dois, furtiva – talvez a situação em que se encontrassem não fosse favorável – e já com sabor de romance. A letra dela era gorda, redonda e grande, obviamente precisaria de vários papéis amarelos para transmitir o sentimento avassalador que a cobria todos os dias mais um bocadinho. Ele ainda tinha tentado manter o decoro no primeiro bilhete, em letra pequena, apertada, misturando a hesitação com assuntos profissionais, mas logo tinha ultrapassado essa barreira, escrevendo outros, talvez ainda mais atrevidos que os dela.
Rosa deixou cair uma lágrima, jurando a si mesma que o assunto nunca iria chegar aos meus ouvidos. Pegou nos bilhetes, arrumou-os, mantendo a ordem e guardou-os numa gaveta da secretária.
Findo o turno da manhã, apressei-me a sair do escritório, aproveitando a pausa para me ausentar a cem por cento. Não me senti chocada – ao contrário do que Rosa pudesse pensar – nem tão pouco surpreendida. O encontro amoroso era a desejada fuga ao nosso desencontro, que em certas fases, era extremamente doloroso de se conviver. Significava apenas um esconderijo de eleição, a hipótese de se poder passar bons momentos, sem a rotina a corroer-nos o coração e a boa vontade a apanhar-nos desgrenhados, indesejáveis e de mau hálito, logo pela manhã.
Pergunto-me porque não me lembrei de semelhante ideia. Andarei demasiado work aholic, ou nem sequer chego a ter percepção de mim, das minhas vontades e desejos? Serão os tempos modernos, que na magia da tecnologia e da informação em tempo real, nos consomem? Será que os mais ínfimos pormenores perderam o encanto das pequenas e agudas vibrações?
Se é vida virtual ou desvirtuada, não o sei, o certo é que escorreguei pelo túnel da insegurança, atravessei cruzamentos inesperados e ainda por cima de luz apagada. Estrebuchei, ripostei, tentei revestir-me de fortes convicções, mas apenas obtive a imagem do escuro, que entretanto me ocultou outros caminhos.
Passei por umas montras espelhadas e utilizei-as discretamente, para me avaliar. Roupas demodé, corte de cabelo ultrapassado, objectivos fora de prazo, desejos sobre desejos, comprimidos, entretanto esquecidos. Em suma, tinha-me tornado numa ‘não-pessoa’, comandada pelo piloto automático. Só a minha indiferença – que revestia o meu pobre invólucro de alto a baixo – me tinha conseguido proteger da infelicidade prolongada.
Voltei para casa, depois de aterrar firme com os pés na terra, desejosa de encontrar Rosa. Os papéis amarelos assolavam-me a memória. Precisava da cumplicidade dela, até à máxima indiscrição, para me identificar novamente, ganhar rosto, cor e sombra. Para viver sem receio.
O Luís apareceu, convicto da sua decisão. Seria no fim-de-semana. Baixei os olhos, atravessei o hall e entrei na sala de estar, oprimida com os objectos construídos a dois, as fotografias de mais de uma década e surpreendida pelo pano de pó, que me rasou o nariz, fazendo-me espirrar mesmo em cima dela.
– O que fazes?
– Cuido da casa. Que mais poderia fazer?
Rosa sorriu, pediu desculpa por ter despoletado a súbita alergia e continuou com a sua tarefa, certa de que eu iria direita ao escritório, no encalço dos papelinhos amarelos.
As portas bateram, simultaneamente. Abri a minha, confirmando se teria sido a porta da rua, pesada, que tinha fechado, contrariada. Luís tinha saído, provavelmente atrofiado pelo ar pesado que se respirava em casa. Suspirei, incomodada com o silêncio forçado. Alheei-me e abri a gaveta, alimentando a curiosidade mórbida em conhecer o perfil do terceiro elemento.
Reconheci imediatamente o molho. Agarrei-o de repente, não fosse algum papelinho esvoaçar, e com ele, sumisse também o sentido do alucinado diálogo.
Recomecei a fazer o puzzle do Luís. Devia ser uma sucessão de mensagens muito importantes, talvez daquele tipo de declarações que muitos não se atrevem, sequer a experimentar.
Desfolhei-os. Procurava a letra redonda e gorda. Procurei novamente, desta vez com mais cuidado. Estava perturbada e a visão desfocava, à medida que a ansiedade aumentava. Como se não tivesse visto nada semelhante, comecei a colá-los por aquela ordem. Talvez nascessem entretanto, dos cantos do escritório.
A letra continuava pequena, escondida, tímida. Inclinava-se por vezes para a direita, como se quisesse apressar o destino. Era um diálogo imaginado a dois, escrito pela mesma pessoa. Luís falava comigo, tal como éramos, há quinze anos atrás, doces, apaixonados, próximos um do outro.
Quedei-me, estupefacta, com o grau da traição. Comigo mesma? Espera… com quem foste… procura-se rosto! Loira, morena, mais ruga, menos ruga, alguém que consiga protagonizar a história que se passou, alguém que esteja à altura… a partir do próximo fim-de-semana… sai da frente…
Rosa tinha acabado as limpezas. Despiu a bata, vestiu o impermeável, atou o lenço por baixo do pescoço, pontas espetadas, e deixou a patroa a braços com a vida.
Fiz as malas. Antes do fim-de-semana. Já não conseguia recuar no tempo. Não tive ânimo para ir de encontro ao Luís.
Talvez andasse a precisar de um novo rosto, colado a uma história antiga.
Rosa ainda não sabia disto, quando na manhã seguinte entrou no nosso quarto, sempre com medo de encontrar mais vestígios que lhe comprovassem as lágrimas que iam caindo aqui e acolá, ao longo deste penoso processo.
Saímos os dois de manhã, calados e atrapalhados – imaginem a nossa noite – após a costumada rotina da manhã, que curiosamente, fluiu com naturalidade e sem atropelos de maior. Ele pedia-me licença para respirar e desculpa por se atrever a passar por mim. Decididamente, estava mais formal que nunca e eu não estava preparada para reagir a tão súbito respeito.
Despedi-me baixando a cabeça e acenando-lhe com vergonha. «Até logo…», murmurei, para que não me ouvisse, apavorada com a ideia.
Vi Rosa no nosso quarto, a abrir as persianas, deixando a luz matinal entrar através das vidraças, aclarando o ambiente, fazendo realçar a forma e a cor dos objectos ali existentes. Estremeci. Aproximava-se do nosso edredão liso, cor-de-salmão, enrolado ao fundo da cama, descobrindo o lençol de baixo, cujas rugas delineavam os contornos de dois corpos, claramente separados.
– Bem, a ver pelo sítio das almofadas, tão apartadas, vê-se que a coisa não anda bem… Valha-nos Deus, não sei como não caíram ao chão…
Fiquei embaraçada – como explicar esta maçada, depois de tantos anos? – e logo comovida, quando imediatamente tratou de desfazer as ‘impressões corporais’, puxando o edredão para cima e alisando-o dos lados. Ajeitou ainda a bata, respirou fundo e começou a apanhar a roupa suja do chão.
À saída voltou-se, olhou a cama composta e sorriu, satisfeita. Afinal, aquilo não tinha passado de uma mera ilusão de óptica.
O pesadelo do dia iniciou-se. Estava sentada à secretária de uma multinacional, com um dos directores mesmo em frente de mim, separados apenas por um vidro.
Os telefones inundavam-me os ouvidos, a papelada acumulada – discretamente empilhada, criava um pequeno reduto, onde pelo menos conseguia esconder o olhar e o gesto por escassos segundos – a que tinha que dar vazão, enlouquecia-me de vez.
Naquela manhã atrevi-me a mostrar-me, onde não existia pilha de papéis que me valesse, excomungando a filosofia ‘trabalhar, trabalhar para rentabilizar’. Gesticulei, bati com os punhos na mesa, bufei, levei as mãos à cabeça e enfrentei o olhar desconfiado que o director me lançava, de quando em quando. Como não passou do olhar esporádico – com o meu nível de responsabilidade lá dentro, só mesmo com o pescoço apertado – foquei antes a mira telescópica em Rosa e concentrei nela toda a atenção.
Pôs a roupa suja na máquina, agarrou num pano de pó e entrou no escritório. Hesitou. Onde começar? Enquanto se decidia por uma ponta ou outra, os seus olhos passaram distraidamente sobre uns papéis espalhados sobre a secretária. Daqueles amarelos, pequenos, quadrangulares, que já vêem com cola e que servem – em princípio – para apontar assuntos fundamentais.
Pousou o pano, intrigada. O Senhor Doutor tinha-os colado alinhadamente, à beira da secretária. Não anunciavam datas de julgamentos, audições, ou encontros com clientes, mais parecia uma conversa a dois, furtiva – talvez a situação em que se encontrassem não fosse favorável – e já com sabor de romance. A letra dela era gorda, redonda e grande, obviamente precisaria de vários papéis amarelos para transmitir o sentimento avassalador que a cobria todos os dias mais um bocadinho. Ele ainda tinha tentado manter o decoro no primeiro bilhete, em letra pequena, apertada, misturando a hesitação com assuntos profissionais, mas logo tinha ultrapassado essa barreira, escrevendo outros, talvez ainda mais atrevidos que os dela.
Rosa deixou cair uma lágrima, jurando a si mesma que o assunto nunca iria chegar aos meus ouvidos. Pegou nos bilhetes, arrumou-os, mantendo a ordem e guardou-os numa gaveta da secretária.
Findo o turno da manhã, apressei-me a sair do escritório, aproveitando a pausa para me ausentar a cem por cento. Não me senti chocada – ao contrário do que Rosa pudesse pensar – nem tão pouco surpreendida. O encontro amoroso era a desejada fuga ao nosso desencontro, que em certas fases, era extremamente doloroso de se conviver. Significava apenas um esconderijo de eleição, a hipótese de se poder passar bons momentos, sem a rotina a corroer-nos o coração e a boa vontade a apanhar-nos desgrenhados, indesejáveis e de mau hálito, logo pela manhã.
Pergunto-me porque não me lembrei de semelhante ideia. Andarei demasiado work aholic, ou nem sequer chego a ter percepção de mim, das minhas vontades e desejos? Serão os tempos modernos, que na magia da tecnologia e da informação em tempo real, nos consomem? Será que os mais ínfimos pormenores perderam o encanto das pequenas e agudas vibrações?
Se é vida virtual ou desvirtuada, não o sei, o certo é que escorreguei pelo túnel da insegurança, atravessei cruzamentos inesperados e ainda por cima de luz apagada. Estrebuchei, ripostei, tentei revestir-me de fortes convicções, mas apenas obtive a imagem do escuro, que entretanto me ocultou outros caminhos.
Passei por umas montras espelhadas e utilizei-as discretamente, para me avaliar. Roupas demodé, corte de cabelo ultrapassado, objectivos fora de prazo, desejos sobre desejos, comprimidos, entretanto esquecidos. Em suma, tinha-me tornado numa ‘não-pessoa’, comandada pelo piloto automático. Só a minha indiferença – que revestia o meu pobre invólucro de alto a baixo – me tinha conseguido proteger da infelicidade prolongada.
Voltei para casa, depois de aterrar firme com os pés na terra, desejosa de encontrar Rosa. Os papéis amarelos assolavam-me a memória. Precisava da cumplicidade dela, até à máxima indiscrição, para me identificar novamente, ganhar rosto, cor e sombra. Para viver sem receio.
O Luís apareceu, convicto da sua decisão. Seria no fim-de-semana. Baixei os olhos, atravessei o hall e entrei na sala de estar, oprimida com os objectos construídos a dois, as fotografias de mais de uma década e surpreendida pelo pano de pó, que me rasou o nariz, fazendo-me espirrar mesmo em cima dela.
– O que fazes?
– Cuido da casa. Que mais poderia fazer?
Rosa sorriu, pediu desculpa por ter despoletado a súbita alergia e continuou com a sua tarefa, certa de que eu iria direita ao escritório, no encalço dos papelinhos amarelos.
As portas bateram, simultaneamente. Abri a minha, confirmando se teria sido a porta da rua, pesada, que tinha fechado, contrariada. Luís tinha saído, provavelmente atrofiado pelo ar pesado que se respirava em casa. Suspirei, incomodada com o silêncio forçado. Alheei-me e abri a gaveta, alimentando a curiosidade mórbida em conhecer o perfil do terceiro elemento.
Reconheci imediatamente o molho. Agarrei-o de repente, não fosse algum papelinho esvoaçar, e com ele, sumisse também o sentido do alucinado diálogo.
Recomecei a fazer o puzzle do Luís. Devia ser uma sucessão de mensagens muito importantes, talvez daquele tipo de declarações que muitos não se atrevem, sequer a experimentar.
Desfolhei-os. Procurava a letra redonda e gorda. Procurei novamente, desta vez com mais cuidado. Estava perturbada e a visão desfocava, à medida que a ansiedade aumentava. Como se não tivesse visto nada semelhante, comecei a colá-los por aquela ordem. Talvez nascessem entretanto, dos cantos do escritório.
A letra continuava pequena, escondida, tímida. Inclinava-se por vezes para a direita, como se quisesse apressar o destino. Era um diálogo imaginado a dois, escrito pela mesma pessoa. Luís falava comigo, tal como éramos, há quinze anos atrás, doces, apaixonados, próximos um do outro.
Quedei-me, estupefacta, com o grau da traição. Comigo mesma? Espera… com quem foste… procura-se rosto! Loira, morena, mais ruga, menos ruga, alguém que consiga protagonizar a história que se passou, alguém que esteja à altura… a partir do próximo fim-de-semana… sai da frente…
Rosa tinha acabado as limpezas. Despiu a bata, vestiu o impermeável, atou o lenço por baixo do pescoço, pontas espetadas, e deixou a patroa a braços com a vida.
Fiz as malas. Antes do fim-de-semana. Já não conseguia recuar no tempo. Não tive ânimo para ir de encontro ao Luís.
Talvez andasse a precisar de um novo rosto, colado a uma história antiga.
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