É quase fim de tarde quando ela entra no café. Um hábito de anos, depois de despejar compras em casa, mudar a comida ao gato, orientar o jantar, ao som da televisão que desperta o marido para outras vidas, muito para além das quatro paredes. Cabelo arranjado, corpo ainda direito, lá vai ela, ladeira acima, passada rápida, a desprezar a respiração ofegante, até à portinhola do café. Àquela hora, já desapareceram os clientes do dia, a confusão dos almoços e dos cafés, da gente apressada de dedos no ar, da comida a chegar às mesas, em espaço pequeno e patinhado. Desta vez ela faz um ar sério. A dona, que se desprendeu do balcão para limpar o chão, pergunta-lhe, enquanto o cheiro a lixívia se vai impregnando no ar: “Parece triste. O que aconteceu?” “Estou velha. São seis da tarde. O que eu já teria feito até a esta hora, há uns anos atrás. Agora faço as camas, limpo a casa, vou às compras e estou acabada. É uma vida estúpida. Arranje-me outra coisa para fazer, ou morro de vez.” “Quer trocar comigo, só para experimentar?” pergunta-lhe a dona, meio a gozar. “Está a brincar, mas eu respondo-lhe de verdade: gostava. Silêncio tenho de sobra em casa. E a canseira não me assusta. Iria rejuvenescer.” A dona encolhe os ombros, sem resposta.
É mais um desabafo, ao fim do dia. Ela regressa a casa e acaba de fazer o jantar, com o gato a ronronar, colado às suas pernas. Ao serão, sentada na poltrona ao lado do marido, dormita, sonhando com a troca. De repente, a voz da televisão confunde-se com a da dona do café, que lhe segreda ao ouvido: “ Dê-me o meu café, que eu não aguento mais. E mais, não estou velha. Felicito-a. Deve ter inventado muito, ao longo destes anos todos.”
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