terça-feira, 20 de maio de 2008

A horta da cidade

Duas vizinhas conversam sobre a vizinha da cave. Ninguém se apercebeu, parece que houve um telefonema, o neto estava de passagem, atendeu, chamou-a vezes sem conta e nada. Pois, no Domingo passado. Uma vizinha queixou-se toda a vida do desassossego causado por esta, a morte não lhe foi indiferente, mas também não a transtornou. Sobra um minúsculo vazio, sob a forma de silêncio. De facto, de infernos já não se pode falar. E por falar na defunta vizinha, é espantoso como debaixo de uma base que agarrava o pó de arroz se escondiam as rugas de alguém que estava a desafiar os 90 anos. Cabelo pintado, sem deixar escapar um branco, costas direitas, andar desempenado, ar enérgico, voz esganiçada, todos os dias refilou sobre tudo e sobre nada, moendo os cinco andares de vizinhas que a comprimiam e que a observavam, do alto das suas janelas. De resto, pouco se sabe, a não ser da horta cultivada em plena cidade, dos taipais construídos aos poucos, a roubar mais um centímetro de terra, que se livra de ser passeio. Pelo meio, o estendal de roupa a desfilar, pendurado num jogo de paus, que parece definir os limites do território.

A vizinha aprende a estreitar o olhar entre a janela da cave e a horta, fazendo orelhas moucas aos comentários e atacando antes de ser atacada; saboreia a vingança de forma ritmada, batucando a vassoura no tecto contra um ressonar mais ruidoso, ou correndo a tocar as campainhas das vizinhas, escondendo-se nas esquinas, de riso amordaçado ao ouvir o “quem é? quem é?” Grosseira no tom e nos modos, confina-se à horta, colhendo couves e alfaces, cuidando do estendal e da roupa, voltada de costas para o prédio.


O tempo teima em se arredar daquele “ghetto” e da sua dona, apesar dos comentários e protestos. A filha explode em beleza e sensualidade mal atinge a adolescência; o duche pode ser observado da janela da cave, coleccionando admiradores, mesmo em frente à horta. O estendal passa ter outras cores estendidas e outras peças de vestuário: corpetes, ligas, cuecas especiais, roupa sofisticada, veludo carmim, verde esmeralda. A seguir vem um neto, entre outros, fruto do acaso e das vidas que andarilham para lá e para cá, em que a única certeza que existe é aquele pequeno mundo feito de paus e taipais; uma mescla de asfalto e hortaliças, mais seguro que tudo lá fora. Os companheiros da vizinha também aparecem à luz do dia; contemplam os repolhos e vão-se sucedendo uns aos outros, sem grande alarido. Por fim, e ainda antes do fim, nasce a bisneta, que desconhece a mãe e pouco vê o pai, já que este fugiu com a tia.

A bisavó, entregues os maridos à Divina Providência e sempre de olho nas alfaces e couves, dedica-se a tratar da menina com a mesma garra com que criou filha e neto, cuidando da roupa pelo meio, da casa, do prédio, dos vizinhos, das batucadas com a vassoura na vizinha de cima, pregando as mesmas partidas no jogo das escondidas, não vão as pessoas pensar que o tempo se meteu com ela, furando-lhe as paredes da cave e entrando pela horta adentro, apodrecendo o precioso cultivo de uma vida.
Nisto, toca o telefone e o neto atende. É altura de ficar na preguiça e deixar-se ficar para sempre, imaginando como seria ter uma horta bem maior do que aquela, longe da estrada e do bairro.

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