domingo, 18 de maio de 2008

Delito menor

Ela enfia as mãos na sacola larga, sem divisórias. As mãos apalpam no escuro os objectos que lhe são familiares. A escova, o telemóvel, a carteira, o porta-moedas, a chave de casa, o pacote de lenço. Todos, menos as chaves do carro. Aflita, vasculha melhor; os olhos enfiam-se no escuro, ao mesmo tempo que as mãos confirmam freneticamente a falta das chaves. Logo hoje, que está cheia de pressa. Terão vindo agarradas ao molho de objectos e caído sem ter dado conta? Já não era a primeira vez que pensava em tirar algo e vir o resto atrás. Era habitual e normalmente verificava se alguma coisa caía. Não se lembra de nada. Será que as tinha perdido em casa? Na rua? Ou estariam escondidas nalgum buraco invisível? Subitamente, interrompe o pensamento e agarra na chave suplente, levando a rotina por diante. Talvez se voltem a enredar naquele molho que costuma apalpar.

Os dias atravessam-se e a chave suplente toma o lugar da original, levando o carro da sua dona para todo o sítio. Os gestos dela tornam-se maquinais; liga a ignição, desliga o motor, mete a chave dentro da mala. Por vezes, existem pequenos momentos em que a dona a espreita; sobretudo o porta-chaves, que é de plástico, ao contrário do outro, de pele e com a marca inscrita. Será que alguém apanhou a chave? Ou terá sido em casa? A dúvida persiste, com a certeza de que terá sido impossível ter-se evaporado.

O tempo volta a distanciar-se do dia em que ela descobriu que tinha perdido as chaves. Nos últimos tempos pensa inclusive fazer uma segunda cópia, não vá a suplente perder-se. Seria catastrófico. Até que entra no carro, parado há vários dias. A chuva caiu forte, o vento fustigou as árvores e as folhas soterraram o capot do carro. Os vidros estão cobertos por uma camada de pó fina, que lhe turva a visão. Liga a ignição, pondo o limpa pára brisas a funcionar, ouvindo de imediato um ruído estranho. Pára e liga. Torna a parar e a ligar, repetindo a operação várias vezes, conseguindo identificar o objecto pendurado na escova do limpa pára brisas: a chave perdida, desta vez, sem o porta-chaves de pele. Parece tratar-se de uma brincadeira, alguém que apanhou aquela chave e a colocou ali, quando há tantos carros da mesma marca. Um calafrio percorre-lhe a espinha. Se a puseram ali, foi porque experimentaram o carro.

Ela observa a chave, limpando o pó e a lama e raspando a ferrugem que se instalou. Experimenta-a, confirmando a ideia do ladrão. É mesmo aquela. Abre a mala com divisórias e guarda-a num compartimento. Não deve ser difícil arranjar um porta-chaves como aquele que lhe levaram.

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