terça-feira, 29 de abril de 2008

O pedinte



Todos os dias o Zé entra no bairro, dentro do prédio rosa, do cinzento, do creme desbotado. Todos os dias à mesma hora, a campainha ouve-se e a porta abre-se, deixando-o subir por ali cima, andrajoso, vagabundo, imundo, de físico decrépito a anunciar os maus tratos auto-infligidos de quem não se gosta, talvez por desgosto. De passado suspeito, mas a quem ninguém ousa perguntar, o Zé impõe-se pelo seu ar, assumido com naturalidade e sem nada exigir. Pede qualquer coisinha. Qualquer coisa que seja. Sai do bairro carregado de pão, leite, fruta, arroz, farinha e até de roupa que já não serve aos vizinhos. De dia para dia o Zé vai perdendo o corpo, até que mal pode andar, das dores que o invadem e das tremuras que o assaltam. Mesmo assim, não deixa de visitar o bairro. As pessoas, de consciência tranquila, perguntam-lhe: “... O que é que se passa Zé? Isso não anda bem... devias ir ao médico...”. Passados uns meses o Zé desaparece, sem deixar rasto, deixando as campainhas silenciosas àquela hora. Todos estranham a ausência e questionam-se sobre o que terá acontecido. Tempos depois, talvez por alguém ouvir falar do generoso bairro, aparece um novo pedinte, de ar robusto e saudável, a cumprir o mesmo horário.

1 comentário:

msg disse...

Rita,daqui é o Manuel,o velho amigo do teu pai.Foi o Paulo que me levou ao teu Blogue. Parabéns. Gostei do que li. Parabéns,porque pensas. E isso é importante,talvez seja essencial.É importante,para que tu sejas tu,e não a vizinha do lado. Também tenho um blogue(alguresnestevale). Estou a gostar de tê-lo. Arranjei uma forma de despejar as gavetas,que já estavam a ficar um bocado cheias. Sabes,há uma carrada de anos que deixei de andar a fazer ensaios no campo,a analisar, a escrever "papers" and so on. Assim desatei a espremer a memória. Quem apanhava com os escritos eram as gavetas,agora passa a ser a"caixinha",que é assim que eu trato esta linda menina,que é a internet. E pronto,até um dia destes. E,mais uma vez,Parabéns. Porque pensas.