domingo, 11 de maio de 2008

Para além do ermo

Dora e a amiga. A amiga e Dora. Inseparáveis. Risos colados, mãos dadas, segredos que moram nelas, jurados por dedos cruzados. A brincadeira desde sempre, as casas vizinhas, os pátios contíguos. As mães por ali envoltas nas tarefas domésticas, a correr para os mais novos, que se arrastam até ao abismo, nem que seja para tropeçar numa inocente poça de água e mergulhar em gargalhadas. Nem o cão da vizinha escapa ao remoinho das tropelias, sempre de dentes arregaçados, a acusar o cansaço da corrente grossa e pesada que o prende ali.
Dora e a amiga transpõem a cancela e atiram para trás das costas o mundo seguro. Direitas pelo carreiro, rumo à escola, sem desviar o olhar raiado de medo do desconhecido… o ermo que lhes passa debaixo dos pés em passo de corrida. A escola, ufa! Chegaram.
Dora prefere, junto com a amiga, a carteira de trás. Assunto sério. O riso fica suspenso e as duas enchem-se de cautela, sem saberem porquê. Sempre temerosas, lá aprendem a ler e a escrever por respeito à professora. O caminho de volta é sempre feito em passinhos rápidos, sem mais contemplações. A vida só recomeça quando se abre a cancela. Três ou quatro casinhas isoladas, os mesmos vizinhos, a mesma algazarra, o cão neurótico, o vizinho adolescente que as espia por detrás das cortinas amarrotadas. Casa, ufa! Estão ali.
Ao fim da tarde, Dora esquece o silêncio do ermo. A amiga também. Recuperam o tempo, danadas pela brincadeira. O mundo é enorme e explode dentro delas. Correm, saltam, escondem-se, atropelam-se e encontram-se novamente. O jantar engole-se, a banana já vai no ar, Dora nem aquece o lugar. A amiga chega e ali ficam, as duas, a inventar coisas.
Um dia, o ermo acena às meninas. O passo abranda, a timidez ganha olhos vivos.

– Ia jurar c’ aquela árvore nunca existiu…
– Árvores, queres tu dizer…
– Pois… mas nunca demos por isso!
– Não sei…devíamos ‘tar tontas ou cegas! Anda lá, senão a professora prega-nos um sermão daqueles…

Chegam à escola, o pensamento a voltear no ar, pela primeira vez. Prestes a completar a primária, o medo acanha-se, as cadeiras arrastam-se para a segunda fila das carteiras. Cresce a curiosidade, avolumam-se as perguntas, a professora responde. Riem-se menos, porém. Trilham o caminho de mulher, ainda sem o ser. O futuro não lhes larga as costas, não pára de lhes puxar os cabelos, não se coíbe de lhes sarrazinar os ouvidos: Como é? Como vai ser a vida daqui por diante? O ermo, carreiros a caminhar para o obscuro? O colinho do pátio? Não sabemos, não sabemos…, balbuciam os corpos imberbes, a meninice por acabar.
Dora avança, a despontar peitos, corpo esticado, cabeça erguida, olhos muito além do ermo.

– Eu vou…
– Vais pa’ onde?
– …vou… vou continuar a estudar…

A amiga olha-a, espantada e estremece. Uma utopia. Antes o trabalho infantil, as fábricas, o dinheiro imediato, pois sim, para ajudar a família, mas certamente a sobrar alguma coisa para ela. Não a compreende. A liberdade a assomar-lhe com evidência e ela a alongar carreiros sem fim à vista.

– Tens a certeza?
– Tenho… já tomei a decisão.
– Mhmm… e só agora é que me falas nisso… ´tá bem… não contes comigo pa’ te acompanhar… eu também já decidi, já falei com os meus pais. Eles acharam bem… sempre vou ganhar algum, percebes?
– Percebo… não temos que andar sempre pegadas uma à outra, não é?
– Bem.. ‘tá decido, ‘tá decidido… vemo-nos amanhã?
– Não sei, se calhar… tenho que ir às matrículas de manhã cedo, logo se vê…

A amiga levanta-se e corre esbaforida em direcção ao pátio. Voa pelo ermo sem se deter até casa. Sem olhar. Sem hesitar. Dora fica ali, pregada à sua decisão, a ver a menina de longe, cada vez mais longe, a diminuir a cada passo até desaparecer. Vai…

Dora levanta-se sem esforço, apesar da noite em vigília. A amiga virou-lhes as costas. Sem hesitar. Pela primeira vez, separava-se do seu outro eu. Come em silêncio e mastiga a realidade. Pela primeira vez, outra realidade. A mãe estranha a torrada quase inteira no prato, o leite entornado, o ar de fastio com a comida, se calhar com ela, mãe e com tudo o resto. Melhor será não dizer nada, isto são os nervos, a criança já não anda bem há uns dias, porque é que ela meteu aquilo na cabeça?

– Vou à escola, mãe.
– Fazer?
– Matricular-me, não vou ficar aqui a vida toda, né?
– Eu não disse nada!! Vais com a Dina?
– Não, vou sozinha.
– Então???
– Então, nada. Ela já não vai, não quer continuar…
– Ah... então, vou eu contigo!
– Não precisas ir comigo… já sou crescidinha, ou não?


Pisca-lhe o olho, esboça um sorriso, mostra-se confiante e sai, airosamente. A cancela parece mais pesada. Alguém a empenou. Tenta mais uma vez e desta cede, abrindo de rompante. Os primeiros raios de sol iluminam o carreiro, distinguindo-o do ermo misterioso. Sente o corpo dividido, os pés pesados a empatar a marcha, a alma a fugir para o pátio. Respira fundo, lança um braço mais à frente e depois o outro, num ritmo cadenciado. Os olhos estão fixos lá para o fundo, já no final de todos os carreiros.
A aragem calma inquieta-se, subitamente. O carreiro mexe-se, os ramos sussurram ao vento, primeiro de mansinho, depois mais vigorosos, entrelaçados uns nos outros numa dança agitada. O vento uiva pelo ar e revolve as folhas à sua passagem. A natureza, agora tão barulhenta como uma multidão, espia-lhe os gestos e alonga o caminho no tempo e nas passadas.
Dora esforça-se por um sorriso, um trago de confiança que engole de embute. Alinha a passada com o ritmo do burburinho envolvente até tropeçar num ruído diferente. Estaca, põe-se à escuta e agarra uma respiração ofegante à solta no ar. A sombra envolve a sua própria e descobre o vulto grande de cheiro forte e diferente. Morde o monstro, pontapeia-o, até o ver puxar de uma navalha, com um sorriso maléfico, o olhar esbugalhado e suado, de tão transtornado. Que imaginação a dela! Dora, o receio do destino a pregar-lhe o corpo ao chão. Dora que se faz crescida, que mergulha no vento, galgando folhas e árvores e o caminho a direito pelo carreiro fora. Foge da sombra e do medo. E fica maior, bem maior que ele.

Dina ficou lá escondida. Que é feito da minha amiga? Que caminho foi o dela? Dora abraça o regresso. Move a curiosidade, percorre o caminho inverso pelo marulhar das folhas, pelos ramos altos e distintos. Não tão vigorosos nem imponentes como outrora. Tropeça outra vez. O medo bisa neste caminho de volta. Mas já não é o vulto glutão que a engole. É a ausência. É o lapso de tempo, tanto tempo. O tino recupera a passada da mulher feita. Dina descobre-se do lado de lá da cancela. Também ela mulher feita. Um confronto de meninas. As duas mulheres feitas, sem mágoa de anos, anos de histórias opostas. O medo infantil cresceu na proporção do percurso adulto, cheio de cautelas e receios antecipados. Os passos já não seguem lestos para sítio algum. Os carreiros são apalpados antes de serem caminhados. As meninas encontram-se para lá do portão, as mulheres abraçam-se, as experiências cruzam-se. Desconfiam do acaso e protegem-se mutuamente. O pátio parece-lhes agora mais pequeno.
Ainda assim, a velha cancela continua lá, cada vez mais empenada, a dificultar a passagem a quem tanto quer sair. Ufa! Estamos aqui.

1 comentário:

msg disse...

Desculpa,Rita,servir-me desta porta,era a que estava mais à mão. Estive para não bater,pois os velhos já não são deste actual mundo. Mas o diabo do blogue algures...pôs o velho nervoso. E ele só sossega,quando rabisca umas coisinhas. São assim os velhos,não têm culpa de serem nervosos.
Mas trata-se de dizer umas palavrinhas sobre o teu livro. Palavrinhas que vão ser ditadas pelo sentimento,porque o velho,cada vez mais relho,deixou quase de pensar,para só quase sentir.
Portanto,é o sentimento que se está debruçando sobre o teu livro,mais propriamente,sobre a linguagem dele.
É uma linguagem cheia de notas musicais,parafraseando,de um modo pobre,a historiadora,autora do lindo prefácio.
É uma linguagem bonita,sonora,cheia de cambiantes, ,de tonalidades(são assim as palavras da tua ciência?).
É uma linguagem agradável de seguir.
Mas também uma linguagem de Zés e de Marias,condenados a não se entenderem,neste tempo de "liberdade plena".
Condenados, é o termo exacto.Não são ele e ela dois seres distintos,independentes? Ai a poética alma gémea da era romântica,dos versos à lua. Em cada um ,fervilham fantasias,limites,aspirações,sonhos, lá muito deles. Não há volta a dar-lhe. E quando há entendimento,digamos,pleno,há que desconfiar. Devem estar a precisar de médico,e com urgência.
É uma linguagem poética,a cheirar a campo,talvez o de Árgea. É,em suma,a linguagem de um(a)poeta. Não há nada mal nisto,antes muito pelo contrátio. Seria este mundo,antigo ou actual, ainda mais triste,se o(a)s poetas não andassem por aí.
É uma linguagem nostálgica,de um outro mundo. Qual? Talvez consultando a bruxa da esquina,ali no segundo andar,direito ou esquerdo,tanto faz,viesse a resposta.
É a linguagem de uma equação,que não há meio de se resolver.`
É a linguagem de Rita.
E pronto,Rita. Muito obrigado por ter estado presente e que venham mais.