segunda-feira, 31 de março de 2008

Arranha os céus

Cresci dissimulado, entre quatro paredes de bom cimento, num minúsculo apartamento, entre muitos, comprimidos numa torre – no meio de muitas – cujos últimos andares já entravam na estratosfera, onde o ar parecia rarear.
A comprida torre cedo se dividiu em duas partes: os moradores que apunhalavam magicamente as nuvens, tocando o céu várias vezes ao dia e os acanhados cá em baixo, que assomavam às janelas espreitando, desmoralizados, a tonalidade eternamente ‘cinzento-pálida’ do ar completo, mas poluído.
Contudo, ambos saíam à rua. Os superiores, de cabeça levantada e olhos postos nas alturas, respiravam com prazer o ar viciado cá de baixo. Faziam invariavelmente o mesmo percurso, todas as manhãs, com a visão empinada, sem nunca tropeçarem em alguém. Não viam os vizinhos de baixo, nem tão pouco os cumprimentavam.
Os residentes dos pisos inferiores saíam à rua, também. Com os olhos postos no chão, envergonhados com a sua posição, saturados da cor das ruas e da atmosfera carregada, que atrofiava pensamentos e apertava sensações. Não viam os outros, apesar de se cruzarem todos os dias, à mesma hora.
Crescia escondido dos meus, a esbarrar neles no quarto, na sala, em cada minúsculo canto. Ouvia-os a repetirem as mesmas palavras em iguais circunstâncias, sem nunca se olharem. Ouvia-os a repetirem-me as mesmas recomendações, os mesmos reparos, sem tão pouco ouvirem a minha voz.
Olhei para eles. Estavam cegos e surdos. Furavam apenas o ar viciado, vencendo dia após dia, fundindo-se com os vizinhos desconhecidos.
Continuei a crescer sozinho, à desgarrada, tão à solta quanto preso estava. A crescer, sem coragem para o fazer.
Agarrei-me às paredes que conhecia e depois aproximei-me da janela. Abri-a, sem me importar com tudo o que era cinzento. A minha janela tinha vista para as traseiras, comuns à de outro arranha-céus, que se erguia a poucos metros de distância.

Em frente, vivia outra família. Os pais e uma menina. Comecei a observá-los, sempre que encontrava uma pausa na minha vida diária, que tal como os outros, compreendia um encadeamento de tarefas inesgotável, cuja ordem era inalterável. Pausas raras, que fui alargando, combatendo a escassez do tempo.
No arranha-céus onde morava e naqueles que nos rodeavam, ninguém reparava em ninguém. Não era suposto. Por isso, quando me escondia e resolvia expor-me apenas para as traseiras, sentia-me seguro. Tinha a certeza que não me iriam ver, muito menos observar.
Olhei para a Diana – foi este o nome que lhe pus, pois nunca chegámos de facto a falar – e iniciei o diálogo dos surdos-mudos, que nos protegia dos perigos da proximidade e da amizade.
Acenei-lhe com vivacidade, sorri com os olhos e meti conversa – a fazer mil trejeitos com os lábios – sem me importar com o que ela poderia pensar. Como seria de prever, reagiu assustada, fechando a janela e as persianas com estrondo.
No dia seguinte insisti e emoldurei-me na janela, horas a fio, na esperança de que Diana fosse surpreendida pela curiosidade. Ao fim da tarde, lá se abriram, amedrontadas, as persianas, um fio de cabelo liso a espreitar, esvoaçante da corrente de ar e um olho claro, temeroso da vista de estranhos, à procura do cúmplice proibido.
Esperei que olhasse o céu, distante para ela e o arranhasse, exprimindo vontades longínquas, por caminhos a que o sonho não punha limites. Desceu à terra, os olhos passaram pelo chão, como era costume nos moradores dos pisos baixos e estabilizou de forma surpreendente nos meus, fixos e corajosos, abertos ao desafio.
Os arranha-céus desapareceram, as traseiras desprezadas também e de repente vi-me numa clareira cheia de luz, num meio de um bosque. Diana permanecia do outro lado, misteriosa, continuando a fixar-me o olhar. Estendi um braço, devagarinho e como a luz me encadeasse, comecei a caminhar na direcção dela. Não vi nada, a certa altura. Quanto mais andava, mais a luz me cegava. Quando cheguei ao outro lado a luz tinha desaparecido e com ela, Diana. Esfreguei os olhos e voltei às traseiras. As persianas estavam novamente fechadas.
Recolhi-me, desiludido. Porque teria reagido daquela forma?

Foi preciso a noite desfilar, para que a vida recomeçasse. O dia nasceu, a tentar empurrar o sol – sem êxito – para lá das nuvens teimosas e da mancha cinzenta. Como brilharia, sobre o alto do arranha-céus?
Saí cedo, de mochila às costas. Contornei uma esquina, dei mais uns passos e entrei na grande avenida. Olhei para trás e observei por instantes o formigueiro vivo que saía do arranha-céus. Cabeças para cima, cabeças para baixo, a conhecer de cor o percurso, previsto ao minuto. Ri-me e pensei – aposto que sabem quantas pedras existem na calçada e quais hão-de pisar…
No quadro perfeito, em que as personagens, de cabeças desactivadas, desenham percursos geométricos, em passada certa, num único andamento – sem correrem o risco de chocar com o vulgar transeunte – eis que surge Diana, o cabelo loiro, rosto pálido, as roupas de tonalidades suaves, o olhar centrado em mim. Ao lado dela, os pais, as roupas escuras, a disfarçar contornos, o olhar carregado, de encontro ao passeio.
Hesito, quanto ao percurso a seguir. Olho para o relógio, depois para ela e arranco-lhe um sorriso.
Sobem a grande avenida, até ao meio e desaparecem, numa curva à direita, descendo na estação subterrânea. Diana atrasa o passo, para que não a perca de vista, apesar de os pais lhe torcerem as mãos com força, obrigando-a a apressar-se.
Sigo-os, intrigado, já indiferente às minhas horas de escola. Assumo que hoje é o dia nacional da gazeta. Tenho tanto medo de a perder, que olho continuamente, sem pestanejar.
Saem da estação e retomam as ruas da cidade, em direcção desconhecida. Viram umas vezes à direita, outras à esquerda, passando por gente alheada, de olhos postos em lado nenhum.
Sou atraído por uns arbustos, enquanto tocam à campainha de uma casa solitária, bonita, protegida por um jardim cuidado. Diana tapa a cara com os olhos e entra, contrariada. Os pais constroem sorrisos que não são seus, cumprimentam com enorme deferência quem lhes abre a porta e entram também sem vontade.
Mais uma vez quero saber dela, para além dos míseros reflexos que me chegam, através da janela da frente, escondida pelos cortinados.
Leio-lhe a aflição, estampada no rosto e logo a seguir, o pedido de salvamento, guiado pela premonição da existência de um anjo, algures à solta, guarda dos abandonados, cuja existência se presta a ser perturbada.
Os pais saem sozinhos. Parecem inverter o percurso. O ar é desolado, o passo mais lento, os olhos já nem olham obedientemente para o chão. Levantam-nos até ao céu e arranham-no com as suas preces, esperando dias melhores. Uma fábrica fechada, os dois desempregados, por tempo incerto, a renda por pagar, a menina por sustentar. Sem poderem. Tempo não há, certo ou incerto, resta a rua por palmilhar, o albergue por improvisar e um dia, recuperar o tempo perdido e a sua menina.
Volto a casa, com ideias peregrinas. Olho para os meus pais, absortos na televisão – julgo que nem deram conta de que faltei à escola – e vacilo, entre pedir para aceitarem temporariamente uma segunda filha, ou simplesmente fazer entrar Diana às escondidas e enfiá-la no meu quarto. Talvez não dessem por isso.
Vou até à janela, confirmar se ela realmente se evaporou. Tudo fechado. No dia seguinte também. Aguardo outros tantos e decido ir ao arranha-céus vizinho, saber quem lá morou.
Vejo pessoas a entrarem e a saírem. Como no meu prédio. Os olhares baços vagueiam em direcção definida pela altura do piso que ocupam. Procuro o porteiro. Não sei para onde olhará. Ah, encontrei-o. Tenho sorte, porque decide encarar-me. Pergunto-lhe pelo piso térreo, porta C, será? Descrevo a família ao pormenor, a menina com cara de anjo, seria impossível passarem despercebidos.
Responde-me – fazendo-me cair do último piso do arranha-céus – que nunca viu tal gente, o andar está ocupado sim, mas por outras pessoas, dois filhos, um cão enorme, um casal ainda jovem. Alegres da sua condição. A olharem para o chão com orgulho, assumidamente.
Fujo a correr, assustado com as suas palavras e só paro frente à minha janela. Nessa tarde, decido esperar uma eternidade.
Consigo vislumbrar o sol, para mim acinzentado, a despedir-se com os últimos raios. Estou prestes a desistir quando finalmente a janela de Diana se abre, de rompante.
Acredito que o cabelo dela vai voar, novamente, espalhando-se pelo ar, indomável, às vezes a tapar-lhe o rosto. E eu vou conseguir ver-lhe aqueles olhos, que se fixaram tantas vezes nos meus e me revelaram a história de uma vida, sem dizerem uma única palavra.
Esfrego os olhos e ao longe ouço o ladrar forte de um cão encorpado. Aparece à janela em frente, desejoso de saltar para as traseiras. Atrás dele, estão os risos de duas crianças, divertidas com os ímpetos do seu animal. Tinham chegado da escola. Rufus atira-se para cima delas, num grande alarido, convidando-as para a brincadeira. Passou o dia sozinho, apertado entre quatro paredes. Quando as vê, espera apenas que o levem a furar aquela torre, a saltar pela tão desejada janela.
A alegria que sente embriaga-o, fazendo-o crer que todas os finais de tarde os seus pequeninos donos o irão levar até ao paraíso.






sexta-feira, 28 de março de 2008

O caleidoscópio

Uma paisagem ao longe, lá dentro, duas pessoas de mãos dadas. A paisagem a mudar, as cores a misturarem-se, a transformarem-se, a rodarem, à excepção das duas pessoas, que se mantêm em pé, firmes e de mãos coladas. As testemunhas vão espreitando por este caleidoscópio; observam a vida às voltas, torta, de pernas para o ar e o casal intocável, direito que nem um fuso, no meio das reviravoltas que vão acontecendo. A certa altura, o casal já não traz novidade e faz com que se atire o caleidoscópio ao lixo. As testemunhas seguem o seu caminho, esquecendo a ponta de inveja que sentiram quando conheceram o casal pelo óculo. Tempos depois, uma testemunha mais curiosa decide recuperar o caleidoscópio. O casal traz as mãos na cabeça, parece estar em sofrimento. Alguém comenta que o marido ganhou uma doença esquisita, que os médicos não adivinham. A mulher continua a dar-lhe as mãos, como se nada fosse, mas ele deixa-as cair mais que uma vez, sem querer. As cores tornaram-se sombrias e já não se misturam, é como se o caleidoscópio se recusasse a iludir quem olha, como se proibisse a vida de causar mais atropelos. A testemunha volta a espreitar e não reconhece o caleidoscópio. O óculo não roda, nem para um lado nem para o outro, trancou-se à volta de uma imagem pouco definida. Parece ser o casal de costas voltadas, acocorado no chão, de rosto sobre os joelhos. É uma imagem sem movimento, num tempo parado. A testemunha, decepcionada, abana o objecto, tentando recuperar o sentimento de magia, da visão das cores animadas que antes existiam. O caleidoscópio apaga-se de repente, e mais uma vez, é atirado para o caixote de lixo mais próximo.















quarta-feira, 26 de março de 2008

A zaragata

O homem velho vai sentado no banco do autocarro, ao lado da mulher. O arranque, os solavancos, as curvas, as travagens e as novas paragens sucedem-se todos os dias, num trajecto que lhe é familiar. As portas abertas, os bilhetes obliterados, as vozes misturadas que entram ao mesmo tempo, empurrando-se, num barulho que cresce, que se torna ensurdecedor, captam-lhe a atenção. O autocarro apinhado, as pessoas em busca de uma nesga de espaço, a tentar sobreviver naquela hora de aperto e o homem velho incomodado, desassossegado, rodopiando a cabeça em todas as direcções, perante o ar sereno da mulher. Um rapazola fura a multidão, em busca de melhor assento, tropeça e cai em cima do homem velho, que imediatamente estica o peito e exibe os restos de um porte atlético, em atitude ameaçadora. O rapazola encolhe os ombros, balbucia uma desculpa esfarrapada e vira costas, fechando o episódio. O homem velho deixa livre o banco do autocarro e atira-se às costas do indivíduo, felino no ataque, imprevisível para os outros. As pessoas dão-se conta do burburinho e reagem, separando os dois, o rapazola indefeso e espantado, o velho descontrolado, possuído de uma força desconhecida. Palavras gritadas, gestos agressivos e a mulher do velho a perder a serenidade e a defender o marido, indignada com a multidão. As portas abrem-se, as paragens espreitam e o autocarro esvazia-se, como por magia, deixando a mulher e o homem velho a sós, desta vez, de mãos dadas e de olhares trocados.

sexta-feira, 21 de março de 2008

A vida passada a pente fino

Ela passa, apressada, desligada dos outros, como de costume. Em sintonia com alguns, por força das circunstâncias. Controlando os outros, para se fortalecer. Amesquinhando os demais, para se esquecer de si.

Sonha com o reconhecimento da maioria. Não lhe basta existir, com o corpo que tem e com a vida que naturalmente poderia ter. Depende dos outros no alcance desta existência, para ela ideal. Força sistemas, inventa leis, quebra respeitos. Apura-se na corrida do tempo, atenta aos gostos e mudanças, com a habilidade de um cata-vento.

Ela passa, apressada, desligada dos outros. Está num momento alto da vida. Os amigos, mais que muitos, são todos importantes e garantem-lhe um lugar ao sol, por cada pedaço de terra que vai pisando. Está cada vez mais confiante e despreza com prazer os que imploram uma migalha da sua atenção. Veste roupas extravagantes, usa um chapéu alto e cumprimenta, de sorriso rasgado, as almas gémeas.

Ela vai passando e atrás dela cola-se o tempo, a pisar-lhe os calos. A harmonia sentida – colada com cuspo – desmorona-se e atira-a para o autoritarismo, coberto de gelo. É chegada a hora da cegueira, o momento em que o umbigo a engole de vez. Um tempo de magnitude.

Ela vai passando, vagarosamente. De fascinante e inatingível passa a mulher feia e insignificante, apesar de teimar em conjugar roupas extravagantes e chapéus de formato variado, que mesmo assim, deixam à vista o frágil equilíbrio.

A ambição perde-se na linha do horizonte, cansada de ser querida e nunca alcançada. É um sonho confuso que se esvai, consumido num esforço evaporado. São os caminhos da vida, transformados em sulcos e vincos sobre aquele rosto.

Hoje ela passa, sem ninguém dar conta. Agarra-se às pessoas, tentando sacudi-las da indiferença a que ela própria as votou.
Não passa de uma velha tonta, que por ali sempre passou.







O nosso jardim

Resolvo tudo através da discussão. Desde sempre. Não conheço outro sistema. E não se entenda por isto que são discussões construtivas, fórum aberto, tipo vamos lá trocar de opinião para ver se chegamos a alguma conclusão. Não. São discussões acaloradas, animosas, atingindo às vezes níveis de violência impensáveis. Sou eu contra o obstáculo, inimigo sem identidade. Descarrego energias empilhadas, alimento ódios e raivas várias. Sem razão aparente. Exponho sem pudor a frustração que não agarro, exibo o lado mau com muita lata. Encerro-me num autismo que pisa sem querer – mas até quer – o outro, transformo-o num verbo de encher. Ou apenas convencido que o semelhante não passa de um alien por apurar. Uma entidade distante que teima em chocar comigo.

Tomei-lhe o gosto em pequeno, ao assistir, quedo e mudo, às fantásticas demonstrações que os meus pais me proporcionavam de forma sistemática e a cada vez mais elaborada. É óbvio que tal escola não me deixa indiferente. Assimilei-a com naturalidade e de bom hábito, também a mim se pegou como vício e entranhou-se-me na pele como uma droga. Evito a todo o custo a ressaca.Viver torna-se então a antítese de si mesmo. O Inferno por si só. A consciência perde-se nas entranhas do ser. Desesperada, pendura-se nas amarras da sobrevivência. O instinto reage e a infelicidade pespega-se-me nas trombas.

Arrasto-me em dias, em anos e mais séculos nesta condição. No meio desta praga, acredito que vou vencer. É este pensamento que segura a minha vida presa por um fio. Queimo o tempo, precipito os acontecimentos. Até nas discussões estou mais rápido e eficiente.

No meio deste despautério, viajo a um jardim. Um qualquer e como em qualquer um, a Natureza corre os seus ciclos sem acidentes. Observo árvores e plantas. Escuto o seu doce murmurar. Pasmo com a beleza e simplicidade. Admiro-as no seu posto de vigia, bem lá no alto, quase alheias à sua vida natural. As folhas debotam, os ramos secam, caiem por terra para abraçar uma nova vida e tudo começa outra vez. É a Natureza a falar, tranquila na sua nudez, renovada sem dramas, viçosa na serenidade. Na verdade tudo o que me incomoda e o que me atrai.

Vejo o Joaquim, ainda criança, acocorado à beira do lago. Os patos e os cisnes aproximam-se e disputam as migalhas que ele vai atirando em ritmo lento. A vida corre com mais vagar naquele lugar. Ali, teria tempo para pintar um quadro com o Joaquim ao pé do lago, os animais que comem o que lhe vem das mãos, as árvores que sussurram para a terra. Shshshhshshshshsshshshs…..

Atrás está a mãe, ainda nova, distante do filho. É bonita e parece preocupada. Anda devagar e assim que agarra uma árvore esconde-se atrás dela. No fim do percurso – que repete uma, outra e mais uma vez – reaparece, de cara vermelha e olhos inchados.


Joaquim tem olhos atrás das costas. Habituou-se a fingir que não percebe. Habituou-se a ser criança sem nunca o ter chegado a ser. Compreende a mãe à distância e assim a deixa horas a fio, a ajustar-se à sua infelicidade em silêncio. O dia é longo naquele jardim, a avaliar pela posição do sol.

Percorro o jardim, investigo os cantos mais secretos. Percebo que não existe mais ninguém, para além de nós os três, dos animais e das plantas. É um jardim só nosso. Um lugar especial.
Volto para baixo e confirmo a impressão de que o tempo não passou. Joaquim continua a atirar migalhas que nunca se acabam e a mãe continua a tropeçar de árvore em árvore, de cara ainda por desinchar. Mãe e filho continuam perto um do outro, sem se aproximarem.

Sinto-me fatigado de o sol teimar em não adormecer. Tenho vontade de perguntar por onde é a fuga, mas sei que não me podem ver nem ouvir. Obrigam-me a procurar: desço, subo, apresso o passo, arfo de cansaço, desconfio que tenho visões de portas sem saída. Estou fechado. Tenho pressa em sair. Não aguento mais o sol, eternamente a pico. Abrasa-me aqueles dois, juntos pela condição da Natureza e por ela separados. Ali, naquele quadro que eu poderia pintar. Não encontro a sintonia que amarra o pincel à tela. Estou cansado de procurar. Sem perceber, deixo-me cair sobre as plantas.

Estremece-me o corpo, apaga-se o sol e a lua acorda. Arrefece subitamente. Os cobertores pesam-me como quilos de mágoa. Afinal, sempre encontrei a porta de saída. A mesma de sempre. Vira o disco e toca o mesmo. O meu jardim é o pesadelo de olhos abertos.
O sol volta a nascer, manso e de tempo contado. É de manhã e chamam-me devagarinho. Acordo e finalmente não me vejo mais.




terça-feira, 11 de março de 2008

A Lâmpada de Aladino



Ela navega toda a noite. O ecrã de 20 polegadas apoia-a, incansável, nas buscas mais incríveis que se possam imaginar. Sem dar conta, atira bocejos cá para fora, as pálpebras baixam e o olho dormita: é o corpo em dilema, a magicar: “saio daqui, não saio, é tão tarde... mas espera, isto é interessante... talvez se for por ali ainda consiga descobrir qualquer coisa. Qualquer coisa que me arranque daqui”. Os sites sucedem-se com rapidez; os dedos hábeis percorrem o teclado sem pedir licença, os olhos voam de imagem em imagem, de informação em informação. O pequeno apartamento desaparece do mapa, a cadeira onde está sentada eclipsa-se, a secretária esconde-se. É apenas ela e o computador a girar no Universo. Sonhos que saltam para dentro do ecrã, desejos fundidos, uma luz mágica a encandeá-la, uma slot machine a apitar, a apregoar prémios e de repente o embate na realidade a grande velocidade, com uma pancada seca. É ela, sem travões, aterrada em cima da cadeira que nunca largou, presa no apartamento do qual nunca saiu. “Será isto?” Um chat, um sujeito que tropeça e que se abre; interesses em comum, simpatia, empatia virtual, o chat continua nessa noite, nas outras que se seguem e a impressão mantém-se na cabeça dela: “Pode ser que se esteja a vestir de alma gémea, pode ser que não, nunca o saberei se continuarmos a navegar nas marés altas do ecrã.” Falta uma fotografia para consolidar o sonho; ela publicou uma no chat, ele esquivou-se sem razão aparente, mesmo assim ela arrisca e combina um encontro numa bomba de gasolina anónima, longe das casas de um e de outro, longe de dizerem a quem quer seja onde vão naquele dia.
Faz sol. Dia brilhante, céu destapado, a afundar-se em azul a perder de vista. Longe do breu da noite, do brilho do ecrã, dos flashes de luzes que vêm de todos os lados. Terreno firme, a bomba da gasolina, o posto de abastecimento, a normalidade a passear-se por aquelas bandas. E ela dentro do carro, motor a trabalhar, encostada à berma, de coração aos pulos, as mãos que se esfregam no volante, para cima para baixo, os músculos que tremem, a cara com manchas.
Ele chega numa carrinha e descobre-a facilmente; encosta atrás e sai, a anunciar perna curta, cara disforme num sorriso prometedor; ela observa-o pelo retrovisor; o sangue parece que se encolhe dentro do corpo, é uma palidez súbita que a invade e lhe corta a fala, vai ter que se esforçar para que ele não pense que é muda, são coisas que não se percebem nos chats, a palavra é rainha e o mistério é rei.
O sorriso aparece-lhe à frente e o corpo pequeno dissimula-se, sentado no carro. As palavras nascem, como no chat. E são iguais, tão iguais que ela fica impressionada. Conhece os temas de cor, foram noites a fio a esmiuçá-los. Hoje é igual, apenas é de dia e é cara a cara. O cenário muda, o carro avança em direcção à montanha que observa o mar. O vento ali é forte, a vegetação é rasteira, de tanto se agachar ao sopro que ruge.
O fim de tarde é magnífico, embora eles não se apercebam. Ela tem a cara tapada pelos cabelos que voam sem dar tréguas. Ele fala mais alto que o vento, sem receio de espalhar segredos. O sol desce rapidamente, alaranjado, avermelhado, até se extinguir.
Naquela tarde, as horas deixam de ter importância.
O vento despede-se e ele convida-a a ir a sua casa. Ela aceita, depois de ter viajado pela vida dele. Já noite dentro, ele quer saber dela, e pela primeira vez, ouve que tem um filho a cargo, a mãe doente, um cão e um papagaio. Ele baixa os braços, abana a cabeça e confessa-lhe: “Assim, não serves. Procuro alguém totalmente livre, que me compreenda e se me dedique. Lamento.”
Ela volta a ficar sem fala, despede-se, conseguindo ainda articular um “Obrigada”.
Meses mais tarde, recebe um e-mail dele, dizendo que finalmente tinha realizado o seu sonho; primeiro dentro do ecrã e depois à beira daquele penhasco sobre o mar: uma mulher livre, que tinha abraçado o seu corpo pequeno e beijado a cara disforme. Mesmo com os cabelos nos olhos, mesmo no meio do vento.

quinta-feira, 6 de março de 2008

O senhor X



O cliente nunca mais comprou aquela marca de telemóveis. Não é porque se tivesse aborrecido com a qualidade da assistência, ou até com a qualidade dos próprios aparelhos. Sempre teve um fraco por telemóveis; cada vez que saía um modelo novo, lá estava ele, rente aos balcões da empresa, fiel àquela marca. Nas várias lojas da marca do aparelho, o Sr. X era conhecido como “O maluquinho dos telemóveis”, com direito a tratamento preferencial. Os empregados bulhavam entre si, para o atender, na esperança de caírem nas boas graças do chefe. Encantado com tanta gente à sua roda, o Sr. X não resistia; acabava por levar o melhor telemóvel do mercado, o topo de gama, a melhor relação preço/qualidade. Um dia, o Sr. X tropeça numa revista que lhe desperta a atenção: um retrato de algumas empresas, entre elas, a dos telemóveis. E abre os olhos, chocado: as mulheres estão em maioria, entre os trabalhadores. Os contratos são precários. Engravidam, o que faz baixar os níveis de produtividade. São despedidas, depois de serem mães. Os ordenados parecem baixos. De condições pouco se fala. E de direitos, nem pensar. No entanto, a marca é cotada como uma das melhores no mercado. Pouco tempo depois, o Sr. X entra numa das lojas coloridas da empresa, com um saco de telemóveis que despeja em cima do balcão. Os empregados correm em bando, à procura de explicação: “Mas, Sr. X, são todos novos...” O Sr. X não consegue responder. Fica paralisado com a quantidade de caras que lhe sorriem ao balcão. Os clientes continuam a fazer fila para serem atendidos e os empregados dispersam, retomando as suas tarefas. O “maluquinho dos telemóveis” sai, tão silencioso quanto entrou.

Não queiras acordar



O despertador toca, desabotoando o silêncio que se aperta no escuro. Ruidosamente, a interromper sonhos e a esfregar na cara mais uma manhã que nasce. Leva tempo a colar-se à realidade. Ignora o insistente despertador – o seu anjo de guarda – que continua a apitar de cinco em cinco minutos e refugia-se em dupla escuridão, debaixo do edredão.
Gasta o tempo, os minutos, os segundos. Até não poder mais. Umas mãos invisíveis agarram-no e colocam-no defronte ao espelho da casa de banho: pálido, olheirento, cabelo em pé, ar miserável, assim está, inexplicavelmente, todas as manhãs.

Entra no duche, para acordar, de uma vez por todas. Até o sangue retomar os seus habituais circuitos, até o cérebro começar a funcionar. Sai recomposto, disposto a arrancar aquela manhã da rotina de todas as manhãs. Vai ao quarto e abre as persianas. A luz entra, fraca e sem cor, parecendo não derrotar a escuridão.
É uma manhã chuvosa e cinzenta. Os carros deslizam cautelosamente ao som da água, e o vento empurra as pessoas, a querer apressar-lhes os destinos. Veste o impermeável e sai.

A calçada, polida do trajecto diário, recebe-o novamente, escorregadia da chuva insistente. Agarra-a com as botas de sola de borracha e inicia a caminhada, com os sentidos atentos.
A pedinte da esquina continua a estender o braço, indiferente ao bater da água. Encharcada até aos ossos, ali fica, sem procurar abrigo. Apenas de mão esticada, à espera de não receber nada. Como um vício que não se explica, mas que a manda fazer de estatueta naquele sítio.
Uns metros mais à frente, esbarra-se na fruta fresca e hortaliças viçosas do Senhor Manuel. Já nem dos preços altos se podem queixar, quem pode competir com as grandes superfícies? Resta o sorriso cansado, o bom dia a cada instante.

Continua, encolhido no impermeável. A chuva retoma o seu ritmo, desta vez enfurecida, a furar a calçada e a derreter o alcatrão com os seus fios de água aguçados. Entra no café logo à frente, esperando que a sua ira se apazigue. Fica espantado com a mudança. O Senhor Costa tinha trespassado o café e agora o espaço estava transformado; obras feitas, o pré-pagamento a recebê-lo, o balcão corrido cheio de gente e uma série de empregados pouco amáveis, mas eficientes. Bebe o café, come um queque e sai, atordoado.

Já se vê uma nesga de céu azul, embora as nuvens ainda o aprisionem. Os primeiros raios iluminam com esforço a avenida larga. Pouco depois os transeuntes voltam aos passeios e os carros retomam o seu ritmo habitual, sem se preocuparem com o piso ainda molhado.
Obedece aos semáforos e atravessa a primeira passadeira. A segunda, ainda longe, tem os sinais intermitentes. Os carros passam, ligeiros, por nunca verem o vermelho. O laranja confunde-se com o verde, avaria no sistema ou não, o peão fica entregue a si próprio, desprotegido, corpo exposto a passar rapidamente, com sorte alcança o outro lado, são e salvo, orgulhoso da habilidade do dia.

Ela está a uns metros de distância. Deixa-se guiar pela fiel bengala, que tacteia incansavelmente todo o pedaço de chão por onde passa. Os ouvidos protegem-na, avisando-a do perigo iminente. Espera pelo silêncio. Espera pelo seu verde, espera que os motores se aquietem. Não chega a confirmar essa interrupção. Ouve passos rápidos, para trás, para a frente e o barulho dos carros, de motores vigorosos, a passarem à beira dela, os cabelos no ar, as saias assopradas.
Ele percebe que ela vai arriscar.

A distância entre os dois desaparece, assim que ela ousa dar o primeiro passo em falso. O carro que se aproxima, doido de velocidade, precipita-se sobre a passadeira. Ele lança-se no ar e cai em cima dela, conseguindo arremessá-la uns metros à frente. A travagem vertiginosa, os pneus a chiarem, a pancada seca, o corpo projectado para longe. No espaço de escassos segundos. E no fim, o verdadeiro silêncio, perturbado apenas pelo fumo e o cheiro a queimado.

Acorda enrolado em tubos, numa cama branca, com lençóis brancos, no meio de gente vestida de branco. Dorido no corpo inteiro, sem perceber porquê. As cabeças inclinam-se, com curiosidade. De mais não se lembra, a memória fica suspensa no tempo, no Senhor Costa em debandada, no Senhor Manuel, o eterno resistente, a pedinte na esquina e a calçada molhada.

Ela entra sem ver nada. Coxeia discretamente, apoiada na bengala. Traz contusões ligeiras, o trauma da pancada e a família poderosa atrás, a querer saber dela e do salvador.
Ele ouve os toc-toc de quem abre caminho e vira a cabeça, contrariando o movimento dos tubos. Respira com dificuldade, partido em vários sítios, lesões profundas, a vida mais atrapalhada do que nunca. Vê-a e lembra-se da silhueta na passadeira. Cabelos lisos escuros, os óculos de sol de aros grossos, a gabardina bege, a camisola de gola alta preta e o ar impaciente, de quem não espera.
Pára à beira da cama, sorri-lhe, ignorando o estado dele. Os brancos retiram-se, recomendando à rapariga que a visita tem que ser curta.
– Vinha-lhe agradecer...
Ele fixa-a, aflito. Depois da passadeira, não tinha acontecido mais nada.
– Mas de quê?
– De me ter salvo!
– Deve estar a falar com a pessoa errada...
– Estou-lhe a dizer... você estava lá... toda a gente disse...
Volta à passadeira, lembra-se dos carros que aceleravam, ao ver o sinal intermitente. Lembra-se dela, aflita, tacteando uma pausa entre o barulho dos motores. Depois o desespero e o salto no abismo. Dela e dele. E finalmente percebeu. O barulho da pancada, agora as dores e o corpo partido.
– Ah, é a rapariga da passadeira...
– Já se lembra... se não fosse você, não estaria aqui, tranquilamente... agora descanse...

Ela sai, sem perceber que ele adormece, ao som das suas poucas palavras.
No dia seguinte e nos outros que lhe seguiram a rapariga visita-o. Traz sempre algo com ela. Uma flor, um livro, umas palavras de ânimo.

O tempo resolve passar, sem querer ajudar. Saudades da casa, do despertador, do escuro, da luz, de si, miserável todas as manhãs. Das ruas que palmilhava diariamente, da gente com que falava, dos cafés que frequentava. Do emprego invisível, a que corria atrás todas as manhãs. Das pernas que não queriam voltar a andar.
Deixa o hospital, excedendo o tempo limite de permanência. Conta paga por mãos alheias. Mãos invisíveis, que passam a tomar conta dele.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Carta a um defunto



As praias desertas continuam nossas. Lembras-te? Escapulias-te à pressa, tu, eu, também, num chorrilho de mentiras a empurrar-nos para lá dos limites. Início da adolescência? Não quero mentir. Sentia-me já bem desperta, por sinal, crescida, porque não, tão crescida como aquelas árvores centenárias, que guardavam a nossa paisagem. Vimos os nossos corpos dentro das ondas, a quererem tocar-se, primeiro a medo, depois com naturalidade. Tu de peito liso, bigode por semear, imberbe encantador, gracejavas do meu corpo por compor, até que o foste arranjando, muito devagarinho e eu a ti e por fim nos fundimos, talvez cedo demais, não importa, para nós foi decisão acertada.
Fizemos juras, tecemos planos, vivemos em segredo. Durante anos. Sempre um do outro.
Mudámos de paisagem, mudámos de continente. Atraiçoámos as praias, o mar, a paisagem que tão bem nos conhecia. Trocámos de mundo. Aproximámo-nos dos outros. Arranjaste um emprego modesto, eu também. Apesar de tudo, continuava sempre a viver numa dimensão extraordinária. Bastava estares ao meu lado. Mesmo quando estava prestes a acinzentar-me e a perder a coragem para enfrentar uma vida sem eco, lá vinhas tu, a colorires-me com o teu sorriso, a ergueres-me do chão com graça, a enterrares-me num abraço que parecia não ter fim. Pintavas-me num quadro, com cores vivas, eu olhava-me e lá estávamos nós, nas praias desertas, tu de barba rija, corpo forte, eu de peito abundante no meio das outras formas.
Vieram as crianças. Primeiro uma, depois um e ainda outra. Continuavas a beijar o meu corpo de alto a baixo, apesar de quereres uma vida melhor, ambição a crescer, em detrimento das coisas simples.
Entretanto, eu continuava a pintar a vida. Sempre gostei de o fazer. Os meus quadros eram realmente a sério. Até fiz algumas exposições. Podia ter corrido melhor, o tempo era pouco, as crianças começaram-nos a absorver muito.
Aos poucos deixámos de falar. Evitámos, até. Julgámo-nos protegidos pelas nossas praias. Começámos a contornar os desafios, as chatices, as arrelias e por fim as tristezas, com uma perícia inigualável.
A minha lembrança dos tempos idos começou a esbater-se. Não havia fotografias da época. Apalpei a tua memória, tentando recolher provas da nossa outra existência. Respondeste-me com ar vago e distante que tinha sido maravilhoso, único, como é que eu poderia estar tão esquecida? E entre beijos fogosos e festas perturbadoras disseste-me teres sido promovido a director de uma firma importantíssima, agora até poderíamos voltar à nossa terra, àquele continente distante, recuperar o tempo e a originalidade dos nossos seres.
Fizemos a viagem os dois. As praias continuavam sozinhas, à espera de alguém. Aparecemos, irreconhecíveis. Não houve convite por parte das ondas, antes um mar calmo, apático, à mercê da nossa presença. As árvores tinham crescido ainda mais, alargando a sua sombra, mas, estranhamente, tolhiam-se à nossa passagem, deixando o sol abrasador penetrar e quase incendiar os nossos corpos, desabituados há muito, daquele clima. Permanecemos em silêncio, por instantes. A certa altura, ficaste irritado com o confronto e disseste-me, com ar impaciente:
– O que fazemos aqui?
– Não sei. Dantes gostavas muito.
– Foi há muito tempo…
– És o mesmo… cresceste aqui, comigo…
Surpreendeste-te. Afinal quem eras tu?
Regressámos, desiludidos. Eu, porque tive a certeza que não delirava ao longo dos meus dias solitários, apenas confirmava as minhas suspeitas; tu, porque percebeste que estavas perdido.
À medida que o avião se aproximava da terra de eleição, aliviaste o semblante, sorriste, passaste-me a mão pelo cabelo e continuaste devagarinho pelas costas, insinuando outros caminhos. Em pleno avião. A prometer, no mínimo, que todo o pingo de gelo se derreteria à nossa passagem, todo o gato-sapato morreria de inveja da nossa fusão.
Conversaste, animadamente. Parecias outro. Colaborei, novamente, acreditando na mudança. Talvez fosse da terra, do ar, do clima, das gentes. Porque não?
Pousamos as malas, descuidadamente. Senti o aeroporto inóspito, cheio de correntes de ar viciadas, apesar de os miúdos nos terem assaltado em grande velocidade, em pulos radiantes, com as suas mãozinhas a enlaçarem-nos, a gritarem-nos baboseiras aos ouvidos, que ecoavam para além dos intermináveis corredores. Pareciam dizer «não fujam, por favor!». Foi um sufoco maravilhoso.
Tu revigoravas a cada minuto, eu, ao invés, apagava-me aos poucos, acabrunhada por sensações estranhas, que me invadiam sistematicamente.
A partir daí, nunca mais te encontrei.
A vida recomeçou, num faz de conta insuspeito, mais que não fosse, para mostrarmos às crianças que o fiel da balança nunca vacilava. As oscilações não passavam de uma temática absurda, quando aplicada às nossas vidas.
Ao longo desta proximidade ‘faz-de-conta’ aprendi a identificar os novos sinais que emitias, depois de teres vestido outro fato. Confesso que tive momentos em que quase amei o ‘Senhor Enigmático’, bem vestido e perfumado, homem galanteador, de aparência perfeita, cuja vida fantástica eu desconhecia, que me enviava postais curtos e secos, de sítios encantados, inacessíveis, como ele. Essa distância transformou-me, a certa altura, num ser pequenino. Ansiava obsessivamente pelo dia em que chegasses e até lá, anestesiava o cérebro.
Deixei de pintar, deixei de pensar. Mirrei ao ponto de pensar que não existia. Não deixei entrar nada. Nem sair. Um único afecto. E as sensações, nem sei se me pertenciam, se eram dos outros.
Chegaste num curto intervalo, à beira de mim, numa excitação nova. Circulaste em frenesim, todo o serão. Porém, os teus olhos evitavam-me. Disfarçaste, como de costume. Uns beijos forçados, uns afagos esquivos, adiaram a questão. E por fim confessaste. Estavas apaixonado. Incrivelmente apaixonado. E visivelmente emocionado, continuaste, afirmando que eras um ser original, que eram dois, os objectos da tua paixão desenfreada. Eu e outra. Que fazer?
Passaram-se meses e a nossa vida mudou. Continuaste a ir jantar lá a casa; coitados dos miúdos, estranhariam, se não o fizesses.
Mantiveste a promessa de ouro, que garantia a vida dos pequenos: a prestação dos colégios, a assistência na doença, as viagens, um beijo na testa à chegada e outro à saída, o pai adora-vos, nunca se esqueçam.
Devagarinho, redescobriste novos encantos no lar. Presumi que a situação no outro lado havia esmorecido. Na realidade, continuavas a detestar estar sozinho.
Trepaste pelas minhas pernas acima e ‘ronronaste’, verdadeiramente arrependido, «mea culpa, mea culpa…» não passava de um desvio à norma e não havia nada nesta vida que não contemplasse as suas excepções.
Foi neste clima, e com o meu consentimento de última hora, que regressaste, de cabeça baixa, lábios caídos, gravata torta, cabelo desalinhado, mas de olho inquieto, desta vez, para empreendermos viagem até ao Inferno.
De início, os serões foram fielmente cumpridos lado a lado, embora estivesses provavelmente escondido atrás das grandes árvores, a ver-me banhar nas águas calmas que o calor tropical amaciava. Esperaste sempre que eu desaparecesse e deixasse que o mar te apaziguasse e provavelmente te levasse, para parte incerta.
Nunca estivemos tão longe um do outro, como naqueles serões.
A vida profissional retomou, entretanto o seu curso normal. Compromissos inadiáveis, reuniões intermináveis, viagens frequentes às terras de ninguém. E novamente, a tempestade de mentiras, que nunca acabava.
Arranjei uma concha ainda maior e deitei-me lá dentro, quietinha. Pouco depois, descobriste que padecias de um mal irreversível, confirmado por exames minuciosos.
Extinguiste-te rapidamente, sem dar tempo de nos refazermos da cruel verdade. Talvez a única verdade em ti, depois de tantos anos.
Chorei amargamente a tua perda, sem contudo ter ficado intrigada com a mulher jovem, que ao longo das exéquias, se mostrava inconsolável, lutando incansavelmente por controlar o desespero, estampado no rosto, nos olhos assustados e no corpo trémulo.
Reuni os teus objectos pessoais e olhei para o telemóvel. Esteve sempre à tua cabeceira, no hospital, na recta final. As últimas chamadas, as últimas mensagens…
Senti um calafrio. Estaria a ser injusta?
Atrevi-me a violá-lo. Violei-te, sim, já quando estavas morto. Se não fosse assim, nunca o teria sabido. Palavras de amor. Mesmo débil, parecias iluminado. A voz tremia, de emoção, as palavras eram espaçadas, mas arrancadas ao teu âmago. Nunca tinha ouvido nada assim.
Afinal, sempre tinhas voltado às praias desertas…





Os sonhos

“Não escolhemos os sonhos”, diz o menino à mãe. “Nem conseguimos controlar a forma como eles se misturam... São tal e qual uma manta de retalhos. Bocados do dia, sem relação uns com os outros, a participarem numa história, às vezes sem princípio e sem fim, mas uma história na mesma. Estranho... e sabes? Às vezes surgem personagens desconhecidos, bonecos animados na escola, na carteira ao lado da minha. Dizem e fazem coisas que eu já vi, ouvi e se calhar li, não sei muito bem aonde. Coisas mais antigas. Pessoas que já não existem. A avó, por exemplo. No outro dia, levou-me ao parque, com a idade que tenho agora. Pegou-me na mão como se tivesse dois anos. Esse sonho fechou-se, antes de eu sair do parque. E nunca mais a vi. Ontem, misturei-me com os meus amigos e outros meninos que conheço de vista. Brincámos todos com os meus heróis que vivem nos jogos. A música não foi excepção. Visitou-me também, quando estava na sala de aula. Multiplica quatro colcheias por três fusas. A professora cantou, quando me pôs o problema. Absurdo, não é?” A mãe sorri, abanando a cabeça afirmativamente. A criança continua, intrigada: “Nos meus sonhos passam-se histórias diferentes daquilo que realmente vivi. Umas agradam-me, outras não. Mas é o único lugar onde tudo é possível e confesso-te, é muito divertido. Mesmo assim, gostava de poder escolher um sonho, de vez em quando. Afinal, sempre são pequenos filmes, onde sou actor principal. Por ser surpreendido, acordo meio zonzo e saio estremunhado da cama. Levo sempre algum tempo a desfazer-me dos sonhos. Se hoje pensar todo o dia no sonho que quero ter, provavelmente o meu desejo vai realizar-se. E amanhã já não vou chegar atrasado à escola.”

O Autocarro

Irene anda numa lufa-lufa. O carrapito, mal preso debaixo da touca, teima em espreitar o que ela vai deixando para trás. O lixo empilhado, as cascas de ovo ainda com claras escondidas, que escorrem em fio contínuo, humedecendo as cascas grossas de legumes cortados à pressa. As espinhas do bacalhau, um peixe podre, as gorduras da carne. E os restos da comida de clientes enfartados, mal agradecidos e pouco poupados.
Enverga uma bata e um avental que se orgulha de ser imundo. São as manchas da glória. A glória de uma chefe de cozinha, vivida atrás das cortinas. Um reino discreto, escondido na penumbra.

Mas Irene não vacila. Entra, decidida, logo de manhãzinha, trazendo consigo uma energia contagiante. Trá-la do autocarro, que a traz e que a leva, diariamente. Um pequeno percurso, feito por centenas de pessoas e também por António, o segurança do restaurante. Uma simples coincidência. Os olhares são discretos. Confundem-se com indiferença. Pouco depois, brincam às escondidas. A ver quem consegue olhar sem ser observado. São apanhados. Mutuamente. Com pleno consentimento. Encaram-se, sem rodeios. Sem trocarem palavras. Em cantos opostos do autocarro.
Como dois cúmplices perfeitos.

Do Inverno rigoroso, do frio cortante, do autocarro apinhado, do mundo sonolento, vestido de roupas grossas e escuras, da luz pálida e preguiçosa; nada prevalece, a não ser o entusiasmo dos dois, que apenas se conhecem de passagem.
Descem na paragem habitual e caminham lado a lado até ao restaurante. Apenas durante uns escassos metros. Caminham, desta vez, sem se olharem.
Ele alarga a passada e chega primeiro. Abre-lhe a porta, com delicadeza. Ela agradece, desce as escadas e entra no mundo que lhe pertence.
Os fiéis súbditos esperam-na, atentos às ordens que se vão seguir, durante o longo dia que os espera.

Irene não vacila. Deita mãos ao trabalho e rapidamente transforma a cozinha num pandemónio maravilhoso. Os pedidos não cessam e o barulho, sempre mágico, ecoa através dos tachos fumegantes, das facas que se afiam, da carne que grita, colada à frigideira, das batatas que estalam violentamente, dentro de um óleo sobre aquecido. Barulho feito também de palavras fortes, que correm de boca em boca, a transmitirem ordens sobre uns e outros, atravessando nuvens de fumo e cheiros múltiplos.

Irene continua, serena, a cumprir a sua tarefa. Acumula nódoas no avental, sem parar. Cada uma é medalha à espera de recompensa, até agora, sempre adiada. Talvez seja hoje. Lá para o final do dia.

O movimento vai diminuindo e a luz, pálida de manhã, está outra vez de partida. O fumo desvanece-se, os pedidos acabam e as ordens interrompem-se. A cozinha está novamente com um ar inocente, pronta a ser, mais uma vez, devassada. É hora de partir. Primeiro sobem os empregados e depois Irene, em último lugar. Os degraus são contados devagarinho, parecendo dar tempo a que todos desapareçam. Para que não hajam testemunhas daquele simples percurso.

Cá em cima já só sobra António, que a espera para o fecho da porta. Existem barreiras invisíveis, gigantes, que nenhum deles consegue definir. Os olhos são postos no chão, as bocas, eternamente caladas. Mesmo protegidos pela noite, continuam a caminhar lado a lado, assentes numa cumplicidade estranha, mas de mundos separados. Até que chega o autocarro das multidões, que os leva para casa. De novo estão em cantos opostos e a brincar às escondidas. É um sítio mágico. O único onde arranjam coragem para se conhecerem.

António sai primeiro, em paragem insuspeita. Despede-se com um sorriso nos lábios. Irene vai sempre até ao fim da linha. Mora naquela zona. Sonha um dia ouvir a sua voz, no mesmo banco do autocarro e falar-lhe das suas nódoas no avental, das suas manchas de glória, da sua gente lá em baixo, com ele ali tão perto.







terça-feira, 4 de março de 2008

Dia de chuva



Chuva miudinha. O ar humedecido. Pingos minúsculos, pingos grossos e por fim chuva, chuva torrencial. O piso molhado, os carros a abrandarem, os vidros embaciados, os chapéus virados, o jardim transformado num lago, os bancos de madeira encharcados. Dois jovens sentados. E as pessoas a atravessarem o jardim, apressadas, escondidas no impermeável. A chuva que não pára e os jovens sentados, sem se importarem. Ele está deitado, com a cabeça no colo dela. Ela afaga-lhe o cabelo, sem nada dizer. Cabelo que pinga ainda mais sobre a roupa molhada. Uma senhora passa e observa-os, intrigada. Até ela se deixa ficar, apesar da chuva. Os jovens continuam a trocar festas, alheios aos pingos e ao movimento. A senhora admira-se, do quadro insólito. “ Desculpem, está mesmo frio, vocês estão ensopados. No mínimo, apanham uma valente constipação.” A rapariga levanta a cabeça, espantada. O rapaz levanta-se, sacudindo a água, que se acumulou neles. Os dois parecem apanhados de surpresa. “Confessem... não ouviram a chuva, pois não? Nem tão pouco a sentiram, já estou a ver...” Os jovens abraçam-se, rindo-se das roupas que pingam, dos cabelos colados ao rosto. “Isso é mesmo amor?”, pergunta a senhora. “Bem vê que é!”, responde a rapariga, divertida. “Que outra coisa poderia ser?”, acrescenta o rapaz. “Desejo-vos boa sorte”, diz a senhora, novamente consciente da chuva. O seu passo abranda, ao atravessar aquele jardim. O chapéu fecha-se e o lenço cai do cabelo, sob um sopro de vento. Momentaneamente, a chuva desaparece. São tempos de rapariga que lhe vêm à cabeça. Tempos em que não se podia apanhar chuva no jardim.