domingo, 11 de maio de 2008

Para além do ermo

Dora e a amiga. A amiga e Dora. Inseparáveis. Risos colados, mãos dadas, segredos que moram nelas, jurados por dedos cruzados. A brincadeira desde sempre, as casas vizinhas, os pátios contíguos. As mães por ali envoltas nas tarefas domésticas, a correr para os mais novos, que se arrastam até ao abismo, nem que seja para tropeçar numa inocente poça de água e mergulhar em gargalhadas. Nem o cão da vizinha escapa ao remoinho das tropelias, sempre de dentes arregaçados, a acusar o cansaço da corrente grossa e pesada que o prende ali.
Dora e a amiga transpõem a cancela e atiram para trás das costas o mundo seguro. Direitas pelo carreiro, rumo à escola, sem desviar o olhar raiado de medo do desconhecido… o ermo que lhes passa debaixo dos pés em passo de corrida. A escola, ufa! Chegaram.
Dora prefere, junto com a amiga, a carteira de trás. Assunto sério. O riso fica suspenso e as duas enchem-se de cautela, sem saberem porquê. Sempre temerosas, lá aprendem a ler e a escrever por respeito à professora. O caminho de volta é sempre feito em passinhos rápidos, sem mais contemplações. A vida só recomeça quando se abre a cancela. Três ou quatro casinhas isoladas, os mesmos vizinhos, a mesma algazarra, o cão neurótico, o vizinho adolescente que as espia por detrás das cortinas amarrotadas. Casa, ufa! Estão ali.
Ao fim da tarde, Dora esquece o silêncio do ermo. A amiga também. Recuperam o tempo, danadas pela brincadeira. O mundo é enorme e explode dentro delas. Correm, saltam, escondem-se, atropelam-se e encontram-se novamente. O jantar engole-se, a banana já vai no ar, Dora nem aquece o lugar. A amiga chega e ali ficam, as duas, a inventar coisas.
Um dia, o ermo acena às meninas. O passo abranda, a timidez ganha olhos vivos.

– Ia jurar c’ aquela árvore nunca existiu…
– Árvores, queres tu dizer…
– Pois… mas nunca demos por isso!
– Não sei…devíamos ‘tar tontas ou cegas! Anda lá, senão a professora prega-nos um sermão daqueles…

Chegam à escola, o pensamento a voltear no ar, pela primeira vez. Prestes a completar a primária, o medo acanha-se, as cadeiras arrastam-se para a segunda fila das carteiras. Cresce a curiosidade, avolumam-se as perguntas, a professora responde. Riem-se menos, porém. Trilham o caminho de mulher, ainda sem o ser. O futuro não lhes larga as costas, não pára de lhes puxar os cabelos, não se coíbe de lhes sarrazinar os ouvidos: Como é? Como vai ser a vida daqui por diante? O ermo, carreiros a caminhar para o obscuro? O colinho do pátio? Não sabemos, não sabemos…, balbuciam os corpos imberbes, a meninice por acabar.
Dora avança, a despontar peitos, corpo esticado, cabeça erguida, olhos muito além do ermo.

– Eu vou…
– Vais pa’ onde?
– …vou… vou continuar a estudar…

A amiga olha-a, espantada e estremece. Uma utopia. Antes o trabalho infantil, as fábricas, o dinheiro imediato, pois sim, para ajudar a família, mas certamente a sobrar alguma coisa para ela. Não a compreende. A liberdade a assomar-lhe com evidência e ela a alongar carreiros sem fim à vista.

– Tens a certeza?
– Tenho… já tomei a decisão.
– Mhmm… e só agora é que me falas nisso… ´tá bem… não contes comigo pa’ te acompanhar… eu também já decidi, já falei com os meus pais. Eles acharam bem… sempre vou ganhar algum, percebes?
– Percebo… não temos que andar sempre pegadas uma à outra, não é?
– Bem.. ‘tá decido, ‘tá decidido… vemo-nos amanhã?
– Não sei, se calhar… tenho que ir às matrículas de manhã cedo, logo se vê…

A amiga levanta-se e corre esbaforida em direcção ao pátio. Voa pelo ermo sem se deter até casa. Sem olhar. Sem hesitar. Dora fica ali, pregada à sua decisão, a ver a menina de longe, cada vez mais longe, a diminuir a cada passo até desaparecer. Vai…

Dora levanta-se sem esforço, apesar da noite em vigília. A amiga virou-lhes as costas. Sem hesitar. Pela primeira vez, separava-se do seu outro eu. Come em silêncio e mastiga a realidade. Pela primeira vez, outra realidade. A mãe estranha a torrada quase inteira no prato, o leite entornado, o ar de fastio com a comida, se calhar com ela, mãe e com tudo o resto. Melhor será não dizer nada, isto são os nervos, a criança já não anda bem há uns dias, porque é que ela meteu aquilo na cabeça?

– Vou à escola, mãe.
– Fazer?
– Matricular-me, não vou ficar aqui a vida toda, né?
– Eu não disse nada!! Vais com a Dina?
– Não, vou sozinha.
– Então???
– Então, nada. Ela já não vai, não quer continuar…
– Ah... então, vou eu contigo!
– Não precisas ir comigo… já sou crescidinha, ou não?


Pisca-lhe o olho, esboça um sorriso, mostra-se confiante e sai, airosamente. A cancela parece mais pesada. Alguém a empenou. Tenta mais uma vez e desta cede, abrindo de rompante. Os primeiros raios de sol iluminam o carreiro, distinguindo-o do ermo misterioso. Sente o corpo dividido, os pés pesados a empatar a marcha, a alma a fugir para o pátio. Respira fundo, lança um braço mais à frente e depois o outro, num ritmo cadenciado. Os olhos estão fixos lá para o fundo, já no final de todos os carreiros.
A aragem calma inquieta-se, subitamente. O carreiro mexe-se, os ramos sussurram ao vento, primeiro de mansinho, depois mais vigorosos, entrelaçados uns nos outros numa dança agitada. O vento uiva pelo ar e revolve as folhas à sua passagem. A natureza, agora tão barulhenta como uma multidão, espia-lhe os gestos e alonga o caminho no tempo e nas passadas.
Dora esforça-se por um sorriso, um trago de confiança que engole de embute. Alinha a passada com o ritmo do burburinho envolvente até tropeçar num ruído diferente. Estaca, põe-se à escuta e agarra uma respiração ofegante à solta no ar. A sombra envolve a sua própria e descobre o vulto grande de cheiro forte e diferente. Morde o monstro, pontapeia-o, até o ver puxar de uma navalha, com um sorriso maléfico, o olhar esbugalhado e suado, de tão transtornado. Que imaginação a dela! Dora, o receio do destino a pregar-lhe o corpo ao chão. Dora que se faz crescida, que mergulha no vento, galgando folhas e árvores e o caminho a direito pelo carreiro fora. Foge da sombra e do medo. E fica maior, bem maior que ele.

Dina ficou lá escondida. Que é feito da minha amiga? Que caminho foi o dela? Dora abraça o regresso. Move a curiosidade, percorre o caminho inverso pelo marulhar das folhas, pelos ramos altos e distintos. Não tão vigorosos nem imponentes como outrora. Tropeça outra vez. O medo bisa neste caminho de volta. Mas já não é o vulto glutão que a engole. É a ausência. É o lapso de tempo, tanto tempo. O tino recupera a passada da mulher feita. Dina descobre-se do lado de lá da cancela. Também ela mulher feita. Um confronto de meninas. As duas mulheres feitas, sem mágoa de anos, anos de histórias opostas. O medo infantil cresceu na proporção do percurso adulto, cheio de cautelas e receios antecipados. Os passos já não seguem lestos para sítio algum. Os carreiros são apalpados antes de serem caminhados. As meninas encontram-se para lá do portão, as mulheres abraçam-se, as experiências cruzam-se. Desconfiam do acaso e protegem-se mutuamente. O pátio parece-lhes agora mais pequeno.
Ainda assim, a velha cancela continua lá, cada vez mais empenada, a dificultar a passagem a quem tanto quer sair. Ufa! Estamos aqui.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

O desabafo

É quase fim de tarde quando ela entra no café. Um hábito de anos, depois de despejar compras em casa, mudar a comida ao gato, orientar o jantar, ao som da televisão que desperta o marido para outras vidas, muito para além das quatro paredes. Cabelo arranjado, corpo ainda direito, lá vai ela, ladeira acima, passada rápida, a desprezar a respiração ofegante, até à portinhola do café. Àquela hora, já desapareceram os clientes do dia, a confusão dos almoços e dos cafés, da gente apressada de dedos no ar, da comida a chegar às mesas, em espaço pequeno e patinhado. Desta vez ela faz um ar sério. A dona, que se desprendeu do balcão para limpar o chão, pergunta-lhe, enquanto o cheiro a lixívia se vai impregnando no ar: “Parece triste. O que aconteceu?” “Estou velha. São seis da tarde. O que eu já teria feito até a esta hora, há uns anos atrás. Agora faço as camas, limpo a casa, vou às compras e estou acabada. É uma vida estúpida. Arranje-me outra coisa para fazer, ou morro de vez.” “Quer trocar comigo, só para experimentar?” pergunta-lhe a dona, meio a gozar. “Está a brincar, mas eu respondo-lhe de verdade: gostava. Silêncio tenho de sobra em casa. E a canseira não me assusta. Iria rejuvenescer.” A dona encolhe os ombros, sem resposta.



É mais um desabafo, ao fim do dia. Ela regressa a casa e acaba de fazer o jantar, com o gato a ronronar, colado às suas pernas. Ao serão, sentada na poltrona ao lado do marido, dormita, sonhando com a troca. De repente, a voz da televisão confunde-se com a da dona do café, que lhe segreda ao ouvido: “ Dê-me o meu café, que eu não aguento mais. E mais, não estou velha. Felicito-a. Deve ter inventado muito, ao longo destes anos todos.”

sábado, 3 de maio de 2008

Sai da frente



O meu amigo jurou sair do apartamento até ao final da semana. Após uma acesa discussão, é claro, a revermos metodicamente – e desde o início – a podridão das nossas vidas em conjunto. Não conseguimos chegar a conclusão nenhuma, à excepção do desamor que nutrimos um pelo outro desde há muito, para não falar na quantidade de vezes que tomámos as mentiras por verdades, abafando a vontade de gritar bem alto, estou farto(a), desampara-me a loja!
Rosa ainda não sabia disto, quando na manhã seguinte entrou no nosso quarto, sempre com medo de encontrar mais vestígios que lhe comprovassem as lágrimas que iam caindo aqui e acolá, ao longo deste penoso processo.
Saímos os dois de manhã, calados e atrapalhados – imaginem a nossa noite – após a costumada rotina da manhã, que curiosamente, fluiu com naturalidade e sem atropelos de maior. Ele pedia-me licença para respirar e desculpa por se atrever a passar por mim. Decididamente, estava mais formal que nunca e eu não estava preparada para reagir a tão súbito respeito.
Despedi-me baixando a cabeça e acenando-lhe com vergonha. «Até logo…», murmurei, para que não me ouvisse, apavorada com a ideia.
Vi Rosa no nosso quarto, a abrir as persianas, deixando a luz matinal entrar através das vidraças, aclarando o ambiente, fazendo realçar a forma e a cor dos objectos ali existentes. Estremeci. Aproximava-se do nosso edredão liso, cor-de-salmão, enrolado ao fundo da cama, descobrindo o lençol de baixo, cujas rugas delineavam os contornos de dois corpos, claramente separados.
– Bem, a ver pelo sítio das almofadas, tão apartadas, vê-se que a coisa não anda bem… Valha-nos Deus, não sei como não caíram ao chão…
Fiquei embaraçada – como explicar esta maçada, depois de tantos anos? – e logo comovida, quando imediatamente tratou de desfazer as ‘impressões corporais’, puxando o edredão para cima e alisando-o dos lados. Ajeitou ainda a bata, respirou fundo e começou a apanhar a roupa suja do chão.
À saída voltou-se, olhou a cama composta e sorriu, satisfeita. Afinal, aquilo não tinha passado de uma mera ilusão de óptica.
O pesadelo do dia iniciou-se. Estava sentada à secretária de uma multinacional, com um dos directores mesmo em frente de mim, separados apenas por um vidro.
Os telefones inundavam-me os ouvidos, a papelada acumulada – discretamente empilhada, criava um pequeno reduto, onde pelo menos conseguia esconder o olhar e o gesto por escassos segundos – a que tinha que dar vazão, enlouquecia-me de vez.
Naquela manhã atrevi-me a mostrar-me, onde não existia pilha de papéis que me valesse, excomungando a filosofia ‘trabalhar, trabalhar para rentabilizar’. Gesticulei, bati com os punhos na mesa, bufei, levei as mãos à cabeça e enfrentei o olhar desconfiado que o director me lançava, de quando em quando. Como não passou do olhar esporádico – com o meu nível de responsabilidade lá dentro, só mesmo com o pescoço apertado – foquei antes a mira telescópica em Rosa e concentrei nela toda a atenção.
Pôs a roupa suja na máquina, agarrou num pano de pó e entrou no escritório. Hesitou. Onde começar? Enquanto se decidia por uma ponta ou outra, os seus olhos passaram distraidamente sobre uns papéis espalhados sobre a secretária. Daqueles amarelos, pequenos, quadrangulares, que já vêem com cola e que servem – em princípio – para apontar assuntos fundamentais.
Pousou o pano, intrigada. O Senhor Doutor tinha-os colado alinhadamente, à beira da secretária. Não anunciavam datas de julgamentos, audições, ou encontros com clientes, mais parecia uma conversa a dois, furtiva – talvez a situação em que se encontrassem não fosse favorável – e já com sabor de romance. A letra dela era gorda, redonda e grande, obviamente precisaria de vários papéis amarelos para transmitir o sentimento avassalador que a cobria todos os dias mais um bocadinho. Ele ainda tinha tentado manter o decoro no primeiro bilhete, em letra pequena, apertada, misturando a hesitação com assuntos profissionais, mas logo tinha ultrapassado essa barreira, escrevendo outros, talvez ainda mais atrevidos que os dela.
Rosa deixou cair uma lágrima, jurando a si mesma que o assunto nunca iria chegar aos meus ouvidos. Pegou nos bilhetes, arrumou-os, mantendo a ordem e guardou-os numa gaveta da secretária.

Findo o turno da manhã, apressei-me a sair do escritório, aproveitando a pausa para me ausentar a cem por cento. Não me senti chocada – ao contrário do que Rosa pudesse pensar – nem tão pouco surpreendida. O encontro amoroso era a desejada fuga ao nosso desencontro, que em certas fases, era extremamente doloroso de se conviver. Significava apenas um esconderijo de eleição, a hipótese de se poder passar bons momentos, sem a rotina a corroer-nos o coração e a boa vontade a apanhar-nos desgrenhados, indesejáveis e de mau hálito, logo pela manhã.
Pergunto-me porque não me lembrei de semelhante ideia. Andarei demasiado work aholic, ou nem sequer chego a ter percepção de mim, das minhas vontades e desejos? Serão os tempos modernos, que na magia da tecnologia e da informação em tempo real, nos consomem? Será que os mais ínfimos pormenores perderam o encanto das pequenas e agudas vibrações?
Se é vida virtual ou desvirtuada, não o sei, o certo é que escorreguei pelo túnel da insegurança, atravessei cruzamentos inesperados e ainda por cima de luz apagada. Estrebuchei, ripostei, tentei revestir-me de fortes convicções, mas apenas obtive a imagem do escuro, que entretanto me ocultou outros caminhos.
Passei por umas montras espelhadas e utilizei-as discretamente, para me avaliar. Roupas demodé, corte de cabelo ultrapassado, objectivos fora de prazo, desejos sobre desejos, comprimidos, entretanto esquecidos. Em suma, tinha-me tornado numa ‘não-pessoa’, comandada pelo piloto automático. Só a minha indiferença – que revestia o meu pobre invólucro de alto a baixo – me tinha conseguido proteger da infelicidade prolongada.
Voltei para casa, depois de aterrar firme com os pés na terra, desejosa de encontrar Rosa. Os papéis amarelos assolavam-me a memória. Precisava da cumplicidade dela, até à máxima indiscrição, para me identificar novamente, ganhar rosto, cor e sombra. Para viver sem receio.
O Luís apareceu, convicto da sua decisão. Seria no fim-de-semana. Baixei os olhos, atravessei o hall e entrei na sala de estar, oprimida com os objectos construídos a dois, as fotografias de mais de uma década e surpreendida pelo pano de pó, que me rasou o nariz, fazendo-me espirrar mesmo em cima dela.
– O que fazes?
– Cuido da casa. Que mais poderia fazer?

Rosa sorriu, pediu desculpa por ter despoletado a súbita alergia e continuou com a sua tarefa, certa de que eu iria direita ao escritório, no encalço dos papelinhos amarelos.
As portas bateram, simultaneamente. Abri a minha, confirmando se teria sido a porta da rua, pesada, que tinha fechado, contrariada. Luís tinha saído, provavelmente atrofiado pelo ar pesado que se respirava em casa. Suspirei, incomodada com o silêncio forçado. Alheei-me e abri a gaveta, alimentando a curiosidade mórbida em conhecer o perfil do terceiro elemento.
Reconheci imediatamente o molho. Agarrei-o de repente, não fosse algum papelinho esvoaçar, e com ele, sumisse também o sentido do alucinado diálogo.
Recomecei a fazer o puzzle do Luís. Devia ser uma sucessão de mensagens muito importantes, talvez daquele tipo de declarações que muitos não se atrevem, sequer a experimentar.
Desfolhei-os. Procurava a letra redonda e gorda. Procurei novamente, desta vez com mais cuidado. Estava perturbada e a visão desfocava, à medida que a ansiedade aumentava. Como se não tivesse visto nada semelhante, comecei a colá-los por aquela ordem. Talvez nascessem entretanto, dos cantos do escritório.
A letra continuava pequena, escondida, tímida. Inclinava-se por vezes para a direita, como se quisesse apressar o destino. Era um diálogo imaginado a dois, escrito pela mesma pessoa. Luís falava comigo, tal como éramos, há quinze anos atrás, doces, apaixonados, próximos um do outro.
Quedei-me, estupefacta, com o grau da traição. Comigo mesma? Espera… com quem foste… procura-se rosto! Loira, morena, mais ruga, menos ruga, alguém que consiga protagonizar a história que se passou, alguém que esteja à altura… a partir do próximo fim-de-semana… sai da frente…
Rosa tinha acabado as limpezas. Despiu a bata, vestiu o impermeável, atou o lenço por baixo do pescoço, pontas espetadas, e deixou a patroa a braços com a vida.
Fiz as malas. Antes do fim-de-semana. Já não conseguia recuar no tempo. Não tive ânimo para ir de encontro ao Luís.
Talvez andasse a precisar de um novo rosto, colado a uma história antiga.











terça-feira, 29 de abril de 2008

O pedinte



Todos os dias o Zé entra no bairro, dentro do prédio rosa, do cinzento, do creme desbotado. Todos os dias à mesma hora, a campainha ouve-se e a porta abre-se, deixando-o subir por ali cima, andrajoso, vagabundo, imundo, de físico decrépito a anunciar os maus tratos auto-infligidos de quem não se gosta, talvez por desgosto. De passado suspeito, mas a quem ninguém ousa perguntar, o Zé impõe-se pelo seu ar, assumido com naturalidade e sem nada exigir. Pede qualquer coisinha. Qualquer coisa que seja. Sai do bairro carregado de pão, leite, fruta, arroz, farinha e até de roupa que já não serve aos vizinhos. De dia para dia o Zé vai perdendo o corpo, até que mal pode andar, das dores que o invadem e das tremuras que o assaltam. Mesmo assim, não deixa de visitar o bairro. As pessoas, de consciência tranquila, perguntam-lhe: “... O que é que se passa Zé? Isso não anda bem... devias ir ao médico...”. Passados uns meses o Zé desaparece, sem deixar rasto, deixando as campainhas silenciosas àquela hora. Todos estranham a ausência e questionam-se sobre o que terá acontecido. Tempos depois, talvez por alguém ouvir falar do generoso bairro, aparece um novo pedinte, de ar robusto e saudável, a cumprir o mesmo horário.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

A brincadeira

O quarto tem a porta entreaberta. Os brinquedos, espalhados por todo o lado, rolam até cá fora, entupindo a passagem, a quem queira entrar. Num mundo diferente, onde não se pára de correr, de brincar, de rir, de cair e chorar, está ela, travessa, endiabrada, a saltar de brinquedo em brinquedo, a aborrecer-se, a procurar nova fonte de diversão, a cansar-se outra vez, e, novamente, a explorar, sem desistir, outros jogos. Imagina que o quarto está numa selva; paredes derrubadas, limites fora de vista, árvores gigantes, vegetação cerrada e o perigo, sempre iminente, pregado a qualquer som, a qualquer movimento.


Os bonecos são a sério; animais selvagens que se animam, e os brinquedos, armas de defesa, lianas que tecem uma rede, de árvore em árvore, barcos improvisados, que atravessam rios infestados de crocodilos. Do outro lado do mundo, a mãe chega, desbravando a vegetação. Tropeçando por mais que uma vez, chama-a, irritada. Os trabalhos da escola por fazer, uma jarra de estimação partida, a bulha com as irmãs, os ouvidos moucos, que nunca dão sinal de si. A mãe dá-lhe um safanão e puxa-lhe as orelhas; desta vez, tem que a ouvir. Há um castigo a cumprir. O mundo interrompido, a visita àquelas terras distantes, os brinquedos escondidos.


Ela sai do quarto, por instantes. A mãe está na cozinha, atarefada. Ela dirige-lhe a palavra, docemente, falando-lhe duma mala que viu, linda, na montra de uma loja. “Compras-me?” Do outro mundo, já não há sombra. A mãe mal acredita. “Não te lembras? Estás de castigo!”. Ela acena negativamente com a cabeça. Os brinquedos estão proibidos, mas nada a impede de inventar uma nova história.

O segredo



Há um dentista novo, que acabou de se instalar no bairro. O consultório também cheira a novo, apesar de se ouvir o barulho das brocas e de se sentir o cheiro das anestesias, continua a ser novo, talvez por o espaço ser diferente. Uma assistente mais simpática que o habitual, que também faz as vezes de recepcionista. Uma sala de espera cheia de luz, animada por quadros, cadeiras de cor e música ambiente. Um doutor sempre bem disposto, que atende a horas. Os pacientes a saírem, acompanhados pelo doutor e pela recepcionista, ainda com a boca inchada da anestesia, a comentarem: “afinal não doeu nada, o medo é um fantasma que já não existe, marcamos já a próxima consulta.” A fama a espalhar-se nas redondezas. O doutor e a assistente sem mãos a medir; os pacientes já fazem fila de espera, apesar de os preços terem subido. As pessoas lamentam-se à assistente; as consultas já não são a horas, é uma pena, mas pelo doutor, esperamos o que for preciso. A assistente começa a responder com maus modos; talvez por excesso de trabalho, pensam alguns e o doutor até muda de cara, reparam outros. Não passam de meras impressões. Mesmo fora de horas e com menos disposição, o doutor e a assistente cumprem o seu trabalho, com êxito. Um dia, alguém descobre que o famoso doutor não é médico, mas sim um habilidoso competente, trabalhando ao lado da companheira. A notícia espalha-se entre os pacientes que esperam na fila. Comentários em surdina, olhares que se escapam e espiam os movimentos dos dois impostores. O próximo paciente entra e o silêncio espreita toda a gente. Por fim, todos os pacientes tratam os dentes, apesar do burburinho instalado. Todos, já conhecendo o segredo dos dois.

sábado, 12 de abril de 2008

A pilha de papéis



Sentada a uma secretária, acumula papéis que vão fazendo pilha, ao longo do dia. Lê um por um, em velocidade vertiginosa, despachando os assuntos pendentes, os actuais e os que estão para vir. Vira-se apenas para cumprimentar quem passa, e mal retorna à secretária, dá de caras com a pilha, que já lhe tapa a cara. O trabalho nasce de todos cantos da sala, aproveitando-se da sua eficiência e generosa disponibilidade. Maria faz uma pausa. Enfrenta o director, o vice-director e o secretário deste, que misturam ordens em voz alta. Mesmo assim, continua a atravessar a sala, a ouvir os colegas, que lhe despejam dúvidas e a sobrecarregam com pedidos. Sempre solícita, responde a todos, de cara alegre e sorriso franco. Só pede um minuto a sós. Que a deixem ir até ao átrio de entrada, fumar um cigarrinho. Um prazer merecido. Um dia, ainda antes do sol acordar, Maria entra com um sorriso torto. O olho está negro e a cara inchada, coberta de zonas arroxeadas, mas o entusiasmo nem por isso parece ter diminuído. A pilha de papéis continua à espera dela, incólume. Os directores e os colegas aproximam-se da sua secretária e alguns deles até se atrevem a derrubar a famosa pilha, perante o seu ar atónito. As ordens e os pedidos são substituídos por perguntas, a rebentar de estranheza e curiosidade. Naquele dia, todos ouvem a Maria.



quinta-feira, 3 de abril de 2008

O preconceito

Ele chega sempre atrasado, semana após semana, encavalita actividades, umas nas outras, actividades dispersas e metidas em mundos diferentes. É jovem, fala de forma afectada, pisca os olhos e sopra o cabelo liso para trás. Sempre de risco ao lado. Parece não ter censura; diz o que lhe apetece no momento, sempre com um ar gentil e educado. É dado às pessoas, gosta dos desprotegidos, dos seres diferentes, dos seres à margem. Meio dentro, meio fora, ele próprio respira ares diferentes; dói-lhe a opção, dói-lhe a barreira, fez-se um alpinista entretanto; galga muros e paredes sem nunca cair. Contudo, há uma inquietude que invade o seu corpo, talvez os tiques dos olhos e dos cabelos o denunciem, talvez a correria de um lado para o outro adie o confronto, talvez o nunca estar de corpo inteiro o resguarde. Mas o que é certo é que as corridinhas continuam, as falas a este e àquele não acabam e os assuntos sérios ficam à porta, mortos por entrarem em casa.
Um destes dias acompanhou-me até à saída; lanchámos e devagarinho começa a contar-me uma história terrível de uma prostituta encontrada morta num contentor de lixo, uma Gisela qualquer. Abri os olhos, chocada. Contou pormenores e eu a meio do galão, do queque e tudo aquilo a parecer-me sórdido. Assumiu-se activista; pensei que pertencesse a alguma organização de solidariedade, dizendo-me que distribuía preservativos às prostitutas e travestis e que as conhecia bem demais; íntimo delas, era uma espécie de anjo salvador que aparecia a meio da noite.
Falou do nome da organização, não soava a nada parecido com beneficência. Lentamente comecei a descodificar o activismo; um grito de desespero a apelar à morte à diferença. Porque vocês, heterossexuais, porque nós homossexuais, porque a discriminação, porque a ofensa, porque o ridículo, porque o exibicionismo, porque a clandestinidade, porque os direitos... porque. E eu para ali, calada, espantada com o desabafo, sem nunca ter pensado em duas equipas tão separadas. Fiquei a cismar no preconceito, cruel e destruidor, que o deixava a tremer e a largar aquelas frases.
Subimos a calçada e vimos outras gentes. Despedimo-nos com se nada fosse, ele a distribuir falas pelos conhecidos, eu à espera de o encontrar amanhã, apertado com a falta de tempo, a cerrar portas a quem passa.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Arranha os céus

Cresci dissimulado, entre quatro paredes de bom cimento, num minúsculo apartamento, entre muitos, comprimidos numa torre – no meio de muitas – cujos últimos andares já entravam na estratosfera, onde o ar parecia rarear.
A comprida torre cedo se dividiu em duas partes: os moradores que apunhalavam magicamente as nuvens, tocando o céu várias vezes ao dia e os acanhados cá em baixo, que assomavam às janelas espreitando, desmoralizados, a tonalidade eternamente ‘cinzento-pálida’ do ar completo, mas poluído.
Contudo, ambos saíam à rua. Os superiores, de cabeça levantada e olhos postos nas alturas, respiravam com prazer o ar viciado cá de baixo. Faziam invariavelmente o mesmo percurso, todas as manhãs, com a visão empinada, sem nunca tropeçarem em alguém. Não viam os vizinhos de baixo, nem tão pouco os cumprimentavam.
Os residentes dos pisos inferiores saíam à rua, também. Com os olhos postos no chão, envergonhados com a sua posição, saturados da cor das ruas e da atmosfera carregada, que atrofiava pensamentos e apertava sensações. Não viam os outros, apesar de se cruzarem todos os dias, à mesma hora.
Crescia escondido dos meus, a esbarrar neles no quarto, na sala, em cada minúsculo canto. Ouvia-os a repetirem as mesmas palavras em iguais circunstâncias, sem nunca se olharem. Ouvia-os a repetirem-me as mesmas recomendações, os mesmos reparos, sem tão pouco ouvirem a minha voz.
Olhei para eles. Estavam cegos e surdos. Furavam apenas o ar viciado, vencendo dia após dia, fundindo-se com os vizinhos desconhecidos.
Continuei a crescer sozinho, à desgarrada, tão à solta quanto preso estava. A crescer, sem coragem para o fazer.
Agarrei-me às paredes que conhecia e depois aproximei-me da janela. Abri-a, sem me importar com tudo o que era cinzento. A minha janela tinha vista para as traseiras, comuns à de outro arranha-céus, que se erguia a poucos metros de distância.

Em frente, vivia outra família. Os pais e uma menina. Comecei a observá-los, sempre que encontrava uma pausa na minha vida diária, que tal como os outros, compreendia um encadeamento de tarefas inesgotável, cuja ordem era inalterável. Pausas raras, que fui alargando, combatendo a escassez do tempo.
No arranha-céus onde morava e naqueles que nos rodeavam, ninguém reparava em ninguém. Não era suposto. Por isso, quando me escondia e resolvia expor-me apenas para as traseiras, sentia-me seguro. Tinha a certeza que não me iriam ver, muito menos observar.
Olhei para a Diana – foi este o nome que lhe pus, pois nunca chegámos de facto a falar – e iniciei o diálogo dos surdos-mudos, que nos protegia dos perigos da proximidade e da amizade.
Acenei-lhe com vivacidade, sorri com os olhos e meti conversa – a fazer mil trejeitos com os lábios – sem me importar com o que ela poderia pensar. Como seria de prever, reagiu assustada, fechando a janela e as persianas com estrondo.
No dia seguinte insisti e emoldurei-me na janela, horas a fio, na esperança de que Diana fosse surpreendida pela curiosidade. Ao fim da tarde, lá se abriram, amedrontadas, as persianas, um fio de cabelo liso a espreitar, esvoaçante da corrente de ar e um olho claro, temeroso da vista de estranhos, à procura do cúmplice proibido.
Esperei que olhasse o céu, distante para ela e o arranhasse, exprimindo vontades longínquas, por caminhos a que o sonho não punha limites. Desceu à terra, os olhos passaram pelo chão, como era costume nos moradores dos pisos baixos e estabilizou de forma surpreendente nos meus, fixos e corajosos, abertos ao desafio.
Os arranha-céus desapareceram, as traseiras desprezadas também e de repente vi-me numa clareira cheia de luz, num meio de um bosque. Diana permanecia do outro lado, misteriosa, continuando a fixar-me o olhar. Estendi um braço, devagarinho e como a luz me encadeasse, comecei a caminhar na direcção dela. Não vi nada, a certa altura. Quanto mais andava, mais a luz me cegava. Quando cheguei ao outro lado a luz tinha desaparecido e com ela, Diana. Esfreguei os olhos e voltei às traseiras. As persianas estavam novamente fechadas.
Recolhi-me, desiludido. Porque teria reagido daquela forma?

Foi preciso a noite desfilar, para que a vida recomeçasse. O dia nasceu, a tentar empurrar o sol – sem êxito – para lá das nuvens teimosas e da mancha cinzenta. Como brilharia, sobre o alto do arranha-céus?
Saí cedo, de mochila às costas. Contornei uma esquina, dei mais uns passos e entrei na grande avenida. Olhei para trás e observei por instantes o formigueiro vivo que saía do arranha-céus. Cabeças para cima, cabeças para baixo, a conhecer de cor o percurso, previsto ao minuto. Ri-me e pensei – aposto que sabem quantas pedras existem na calçada e quais hão-de pisar…
No quadro perfeito, em que as personagens, de cabeças desactivadas, desenham percursos geométricos, em passada certa, num único andamento – sem correrem o risco de chocar com o vulgar transeunte – eis que surge Diana, o cabelo loiro, rosto pálido, as roupas de tonalidades suaves, o olhar centrado em mim. Ao lado dela, os pais, as roupas escuras, a disfarçar contornos, o olhar carregado, de encontro ao passeio.
Hesito, quanto ao percurso a seguir. Olho para o relógio, depois para ela e arranco-lhe um sorriso.
Sobem a grande avenida, até ao meio e desaparecem, numa curva à direita, descendo na estação subterrânea. Diana atrasa o passo, para que não a perca de vista, apesar de os pais lhe torcerem as mãos com força, obrigando-a a apressar-se.
Sigo-os, intrigado, já indiferente às minhas horas de escola. Assumo que hoje é o dia nacional da gazeta. Tenho tanto medo de a perder, que olho continuamente, sem pestanejar.
Saem da estação e retomam as ruas da cidade, em direcção desconhecida. Viram umas vezes à direita, outras à esquerda, passando por gente alheada, de olhos postos em lado nenhum.
Sou atraído por uns arbustos, enquanto tocam à campainha de uma casa solitária, bonita, protegida por um jardim cuidado. Diana tapa a cara com os olhos e entra, contrariada. Os pais constroem sorrisos que não são seus, cumprimentam com enorme deferência quem lhes abre a porta e entram também sem vontade.
Mais uma vez quero saber dela, para além dos míseros reflexos que me chegam, através da janela da frente, escondida pelos cortinados.
Leio-lhe a aflição, estampada no rosto e logo a seguir, o pedido de salvamento, guiado pela premonição da existência de um anjo, algures à solta, guarda dos abandonados, cuja existência se presta a ser perturbada.
Os pais saem sozinhos. Parecem inverter o percurso. O ar é desolado, o passo mais lento, os olhos já nem olham obedientemente para o chão. Levantam-nos até ao céu e arranham-no com as suas preces, esperando dias melhores. Uma fábrica fechada, os dois desempregados, por tempo incerto, a renda por pagar, a menina por sustentar. Sem poderem. Tempo não há, certo ou incerto, resta a rua por palmilhar, o albergue por improvisar e um dia, recuperar o tempo perdido e a sua menina.
Volto a casa, com ideias peregrinas. Olho para os meus pais, absortos na televisão – julgo que nem deram conta de que faltei à escola – e vacilo, entre pedir para aceitarem temporariamente uma segunda filha, ou simplesmente fazer entrar Diana às escondidas e enfiá-la no meu quarto. Talvez não dessem por isso.
Vou até à janela, confirmar se ela realmente se evaporou. Tudo fechado. No dia seguinte também. Aguardo outros tantos e decido ir ao arranha-céus vizinho, saber quem lá morou.
Vejo pessoas a entrarem e a saírem. Como no meu prédio. Os olhares baços vagueiam em direcção definida pela altura do piso que ocupam. Procuro o porteiro. Não sei para onde olhará. Ah, encontrei-o. Tenho sorte, porque decide encarar-me. Pergunto-lhe pelo piso térreo, porta C, será? Descrevo a família ao pormenor, a menina com cara de anjo, seria impossível passarem despercebidos.
Responde-me – fazendo-me cair do último piso do arranha-céus – que nunca viu tal gente, o andar está ocupado sim, mas por outras pessoas, dois filhos, um cão enorme, um casal ainda jovem. Alegres da sua condição. A olharem para o chão com orgulho, assumidamente.
Fujo a correr, assustado com as suas palavras e só paro frente à minha janela. Nessa tarde, decido esperar uma eternidade.
Consigo vislumbrar o sol, para mim acinzentado, a despedir-se com os últimos raios. Estou prestes a desistir quando finalmente a janela de Diana se abre, de rompante.
Acredito que o cabelo dela vai voar, novamente, espalhando-se pelo ar, indomável, às vezes a tapar-lhe o rosto. E eu vou conseguir ver-lhe aqueles olhos, que se fixaram tantas vezes nos meus e me revelaram a história de uma vida, sem dizerem uma única palavra.
Esfrego os olhos e ao longe ouço o ladrar forte de um cão encorpado. Aparece à janela em frente, desejoso de saltar para as traseiras. Atrás dele, estão os risos de duas crianças, divertidas com os ímpetos do seu animal. Tinham chegado da escola. Rufus atira-se para cima delas, num grande alarido, convidando-as para a brincadeira. Passou o dia sozinho, apertado entre quatro paredes. Quando as vê, espera apenas que o levem a furar aquela torre, a saltar pela tão desejada janela.
A alegria que sente embriaga-o, fazendo-o crer que todas os finais de tarde os seus pequeninos donos o irão levar até ao paraíso.






sexta-feira, 28 de março de 2008

O caleidoscópio

Uma paisagem ao longe, lá dentro, duas pessoas de mãos dadas. A paisagem a mudar, as cores a misturarem-se, a transformarem-se, a rodarem, à excepção das duas pessoas, que se mantêm em pé, firmes e de mãos coladas. As testemunhas vão espreitando por este caleidoscópio; observam a vida às voltas, torta, de pernas para o ar e o casal intocável, direito que nem um fuso, no meio das reviravoltas que vão acontecendo. A certa altura, o casal já não traz novidade e faz com que se atire o caleidoscópio ao lixo. As testemunhas seguem o seu caminho, esquecendo a ponta de inveja que sentiram quando conheceram o casal pelo óculo. Tempos depois, uma testemunha mais curiosa decide recuperar o caleidoscópio. O casal traz as mãos na cabeça, parece estar em sofrimento. Alguém comenta que o marido ganhou uma doença esquisita, que os médicos não adivinham. A mulher continua a dar-lhe as mãos, como se nada fosse, mas ele deixa-as cair mais que uma vez, sem querer. As cores tornaram-se sombrias e já não se misturam, é como se o caleidoscópio se recusasse a iludir quem olha, como se proibisse a vida de causar mais atropelos. A testemunha volta a espreitar e não reconhece o caleidoscópio. O óculo não roda, nem para um lado nem para o outro, trancou-se à volta de uma imagem pouco definida. Parece ser o casal de costas voltadas, acocorado no chão, de rosto sobre os joelhos. É uma imagem sem movimento, num tempo parado. A testemunha, decepcionada, abana o objecto, tentando recuperar o sentimento de magia, da visão das cores animadas que antes existiam. O caleidoscópio apaga-se de repente, e mais uma vez, é atirado para o caixote de lixo mais próximo.