terça-feira, 29 de abril de 2008

O pedinte



Todos os dias o Zé entra no bairro, dentro do prédio rosa, do cinzento, do creme desbotado. Todos os dias à mesma hora, a campainha ouve-se e a porta abre-se, deixando-o subir por ali cima, andrajoso, vagabundo, imundo, de físico decrépito a anunciar os maus tratos auto-infligidos de quem não se gosta, talvez por desgosto. De passado suspeito, mas a quem ninguém ousa perguntar, o Zé impõe-se pelo seu ar, assumido com naturalidade e sem nada exigir. Pede qualquer coisinha. Qualquer coisa que seja. Sai do bairro carregado de pão, leite, fruta, arroz, farinha e até de roupa que já não serve aos vizinhos. De dia para dia o Zé vai perdendo o corpo, até que mal pode andar, das dores que o invadem e das tremuras que o assaltam. Mesmo assim, não deixa de visitar o bairro. As pessoas, de consciência tranquila, perguntam-lhe: “... O que é que se passa Zé? Isso não anda bem... devias ir ao médico...”. Passados uns meses o Zé desaparece, sem deixar rasto, deixando as campainhas silenciosas àquela hora. Todos estranham a ausência e questionam-se sobre o que terá acontecido. Tempos depois, talvez por alguém ouvir falar do generoso bairro, aparece um novo pedinte, de ar robusto e saudável, a cumprir o mesmo horário.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

A brincadeira

O quarto tem a porta entreaberta. Os brinquedos, espalhados por todo o lado, rolam até cá fora, entupindo a passagem, a quem queira entrar. Num mundo diferente, onde não se pára de correr, de brincar, de rir, de cair e chorar, está ela, travessa, endiabrada, a saltar de brinquedo em brinquedo, a aborrecer-se, a procurar nova fonte de diversão, a cansar-se outra vez, e, novamente, a explorar, sem desistir, outros jogos. Imagina que o quarto está numa selva; paredes derrubadas, limites fora de vista, árvores gigantes, vegetação cerrada e o perigo, sempre iminente, pregado a qualquer som, a qualquer movimento.


Os bonecos são a sério; animais selvagens que se animam, e os brinquedos, armas de defesa, lianas que tecem uma rede, de árvore em árvore, barcos improvisados, que atravessam rios infestados de crocodilos. Do outro lado do mundo, a mãe chega, desbravando a vegetação. Tropeçando por mais que uma vez, chama-a, irritada. Os trabalhos da escola por fazer, uma jarra de estimação partida, a bulha com as irmãs, os ouvidos moucos, que nunca dão sinal de si. A mãe dá-lhe um safanão e puxa-lhe as orelhas; desta vez, tem que a ouvir. Há um castigo a cumprir. O mundo interrompido, a visita àquelas terras distantes, os brinquedos escondidos.


Ela sai do quarto, por instantes. A mãe está na cozinha, atarefada. Ela dirige-lhe a palavra, docemente, falando-lhe duma mala que viu, linda, na montra de uma loja. “Compras-me?” Do outro mundo, já não há sombra. A mãe mal acredita. “Não te lembras? Estás de castigo!”. Ela acena negativamente com a cabeça. Os brinquedos estão proibidos, mas nada a impede de inventar uma nova história.

O segredo



Há um dentista novo, que acabou de se instalar no bairro. O consultório também cheira a novo, apesar de se ouvir o barulho das brocas e de se sentir o cheiro das anestesias, continua a ser novo, talvez por o espaço ser diferente. Uma assistente mais simpática que o habitual, que também faz as vezes de recepcionista. Uma sala de espera cheia de luz, animada por quadros, cadeiras de cor e música ambiente. Um doutor sempre bem disposto, que atende a horas. Os pacientes a saírem, acompanhados pelo doutor e pela recepcionista, ainda com a boca inchada da anestesia, a comentarem: “afinal não doeu nada, o medo é um fantasma que já não existe, marcamos já a próxima consulta.” A fama a espalhar-se nas redondezas. O doutor e a assistente sem mãos a medir; os pacientes já fazem fila de espera, apesar de os preços terem subido. As pessoas lamentam-se à assistente; as consultas já não são a horas, é uma pena, mas pelo doutor, esperamos o que for preciso. A assistente começa a responder com maus modos; talvez por excesso de trabalho, pensam alguns e o doutor até muda de cara, reparam outros. Não passam de meras impressões. Mesmo fora de horas e com menos disposição, o doutor e a assistente cumprem o seu trabalho, com êxito. Um dia, alguém descobre que o famoso doutor não é médico, mas sim um habilidoso competente, trabalhando ao lado da companheira. A notícia espalha-se entre os pacientes que esperam na fila. Comentários em surdina, olhares que se escapam e espiam os movimentos dos dois impostores. O próximo paciente entra e o silêncio espreita toda a gente. Por fim, todos os pacientes tratam os dentes, apesar do burburinho instalado. Todos, já conhecendo o segredo dos dois.

sábado, 12 de abril de 2008

A pilha de papéis



Sentada a uma secretária, acumula papéis que vão fazendo pilha, ao longo do dia. Lê um por um, em velocidade vertiginosa, despachando os assuntos pendentes, os actuais e os que estão para vir. Vira-se apenas para cumprimentar quem passa, e mal retorna à secretária, dá de caras com a pilha, que já lhe tapa a cara. O trabalho nasce de todos cantos da sala, aproveitando-se da sua eficiência e generosa disponibilidade. Maria faz uma pausa. Enfrenta o director, o vice-director e o secretário deste, que misturam ordens em voz alta. Mesmo assim, continua a atravessar a sala, a ouvir os colegas, que lhe despejam dúvidas e a sobrecarregam com pedidos. Sempre solícita, responde a todos, de cara alegre e sorriso franco. Só pede um minuto a sós. Que a deixem ir até ao átrio de entrada, fumar um cigarrinho. Um prazer merecido. Um dia, ainda antes do sol acordar, Maria entra com um sorriso torto. O olho está negro e a cara inchada, coberta de zonas arroxeadas, mas o entusiasmo nem por isso parece ter diminuído. A pilha de papéis continua à espera dela, incólume. Os directores e os colegas aproximam-se da sua secretária e alguns deles até se atrevem a derrubar a famosa pilha, perante o seu ar atónito. As ordens e os pedidos são substituídos por perguntas, a rebentar de estranheza e curiosidade. Naquele dia, todos ouvem a Maria.



quinta-feira, 3 de abril de 2008

O preconceito

Ele chega sempre atrasado, semana após semana, encavalita actividades, umas nas outras, actividades dispersas e metidas em mundos diferentes. É jovem, fala de forma afectada, pisca os olhos e sopra o cabelo liso para trás. Sempre de risco ao lado. Parece não ter censura; diz o que lhe apetece no momento, sempre com um ar gentil e educado. É dado às pessoas, gosta dos desprotegidos, dos seres diferentes, dos seres à margem. Meio dentro, meio fora, ele próprio respira ares diferentes; dói-lhe a opção, dói-lhe a barreira, fez-se um alpinista entretanto; galga muros e paredes sem nunca cair. Contudo, há uma inquietude que invade o seu corpo, talvez os tiques dos olhos e dos cabelos o denunciem, talvez a correria de um lado para o outro adie o confronto, talvez o nunca estar de corpo inteiro o resguarde. Mas o que é certo é que as corridinhas continuam, as falas a este e àquele não acabam e os assuntos sérios ficam à porta, mortos por entrarem em casa.
Um destes dias acompanhou-me até à saída; lanchámos e devagarinho começa a contar-me uma história terrível de uma prostituta encontrada morta num contentor de lixo, uma Gisela qualquer. Abri os olhos, chocada. Contou pormenores e eu a meio do galão, do queque e tudo aquilo a parecer-me sórdido. Assumiu-se activista; pensei que pertencesse a alguma organização de solidariedade, dizendo-me que distribuía preservativos às prostitutas e travestis e que as conhecia bem demais; íntimo delas, era uma espécie de anjo salvador que aparecia a meio da noite.
Falou do nome da organização, não soava a nada parecido com beneficência. Lentamente comecei a descodificar o activismo; um grito de desespero a apelar à morte à diferença. Porque vocês, heterossexuais, porque nós homossexuais, porque a discriminação, porque a ofensa, porque o ridículo, porque o exibicionismo, porque a clandestinidade, porque os direitos... porque. E eu para ali, calada, espantada com o desabafo, sem nunca ter pensado em duas equipas tão separadas. Fiquei a cismar no preconceito, cruel e destruidor, que o deixava a tremer e a largar aquelas frases.
Subimos a calçada e vimos outras gentes. Despedimo-nos com se nada fosse, ele a distribuir falas pelos conhecidos, eu à espera de o encontrar amanhã, apertado com a falta de tempo, a cerrar portas a quem passa.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Arranha os céus

Cresci dissimulado, entre quatro paredes de bom cimento, num minúsculo apartamento, entre muitos, comprimidos numa torre – no meio de muitas – cujos últimos andares já entravam na estratosfera, onde o ar parecia rarear.
A comprida torre cedo se dividiu em duas partes: os moradores que apunhalavam magicamente as nuvens, tocando o céu várias vezes ao dia e os acanhados cá em baixo, que assomavam às janelas espreitando, desmoralizados, a tonalidade eternamente ‘cinzento-pálida’ do ar completo, mas poluído.
Contudo, ambos saíam à rua. Os superiores, de cabeça levantada e olhos postos nas alturas, respiravam com prazer o ar viciado cá de baixo. Faziam invariavelmente o mesmo percurso, todas as manhãs, com a visão empinada, sem nunca tropeçarem em alguém. Não viam os vizinhos de baixo, nem tão pouco os cumprimentavam.
Os residentes dos pisos inferiores saíam à rua, também. Com os olhos postos no chão, envergonhados com a sua posição, saturados da cor das ruas e da atmosfera carregada, que atrofiava pensamentos e apertava sensações. Não viam os outros, apesar de se cruzarem todos os dias, à mesma hora.
Crescia escondido dos meus, a esbarrar neles no quarto, na sala, em cada minúsculo canto. Ouvia-os a repetirem as mesmas palavras em iguais circunstâncias, sem nunca se olharem. Ouvia-os a repetirem-me as mesmas recomendações, os mesmos reparos, sem tão pouco ouvirem a minha voz.
Olhei para eles. Estavam cegos e surdos. Furavam apenas o ar viciado, vencendo dia após dia, fundindo-se com os vizinhos desconhecidos.
Continuei a crescer sozinho, à desgarrada, tão à solta quanto preso estava. A crescer, sem coragem para o fazer.
Agarrei-me às paredes que conhecia e depois aproximei-me da janela. Abri-a, sem me importar com tudo o que era cinzento. A minha janela tinha vista para as traseiras, comuns à de outro arranha-céus, que se erguia a poucos metros de distância.

Em frente, vivia outra família. Os pais e uma menina. Comecei a observá-los, sempre que encontrava uma pausa na minha vida diária, que tal como os outros, compreendia um encadeamento de tarefas inesgotável, cuja ordem era inalterável. Pausas raras, que fui alargando, combatendo a escassez do tempo.
No arranha-céus onde morava e naqueles que nos rodeavam, ninguém reparava em ninguém. Não era suposto. Por isso, quando me escondia e resolvia expor-me apenas para as traseiras, sentia-me seguro. Tinha a certeza que não me iriam ver, muito menos observar.
Olhei para a Diana – foi este o nome que lhe pus, pois nunca chegámos de facto a falar – e iniciei o diálogo dos surdos-mudos, que nos protegia dos perigos da proximidade e da amizade.
Acenei-lhe com vivacidade, sorri com os olhos e meti conversa – a fazer mil trejeitos com os lábios – sem me importar com o que ela poderia pensar. Como seria de prever, reagiu assustada, fechando a janela e as persianas com estrondo.
No dia seguinte insisti e emoldurei-me na janela, horas a fio, na esperança de que Diana fosse surpreendida pela curiosidade. Ao fim da tarde, lá se abriram, amedrontadas, as persianas, um fio de cabelo liso a espreitar, esvoaçante da corrente de ar e um olho claro, temeroso da vista de estranhos, à procura do cúmplice proibido.
Esperei que olhasse o céu, distante para ela e o arranhasse, exprimindo vontades longínquas, por caminhos a que o sonho não punha limites. Desceu à terra, os olhos passaram pelo chão, como era costume nos moradores dos pisos baixos e estabilizou de forma surpreendente nos meus, fixos e corajosos, abertos ao desafio.
Os arranha-céus desapareceram, as traseiras desprezadas também e de repente vi-me numa clareira cheia de luz, num meio de um bosque. Diana permanecia do outro lado, misteriosa, continuando a fixar-me o olhar. Estendi um braço, devagarinho e como a luz me encadeasse, comecei a caminhar na direcção dela. Não vi nada, a certa altura. Quanto mais andava, mais a luz me cegava. Quando cheguei ao outro lado a luz tinha desaparecido e com ela, Diana. Esfreguei os olhos e voltei às traseiras. As persianas estavam novamente fechadas.
Recolhi-me, desiludido. Porque teria reagido daquela forma?

Foi preciso a noite desfilar, para que a vida recomeçasse. O dia nasceu, a tentar empurrar o sol – sem êxito – para lá das nuvens teimosas e da mancha cinzenta. Como brilharia, sobre o alto do arranha-céus?
Saí cedo, de mochila às costas. Contornei uma esquina, dei mais uns passos e entrei na grande avenida. Olhei para trás e observei por instantes o formigueiro vivo que saía do arranha-céus. Cabeças para cima, cabeças para baixo, a conhecer de cor o percurso, previsto ao minuto. Ri-me e pensei – aposto que sabem quantas pedras existem na calçada e quais hão-de pisar…
No quadro perfeito, em que as personagens, de cabeças desactivadas, desenham percursos geométricos, em passada certa, num único andamento – sem correrem o risco de chocar com o vulgar transeunte – eis que surge Diana, o cabelo loiro, rosto pálido, as roupas de tonalidades suaves, o olhar centrado em mim. Ao lado dela, os pais, as roupas escuras, a disfarçar contornos, o olhar carregado, de encontro ao passeio.
Hesito, quanto ao percurso a seguir. Olho para o relógio, depois para ela e arranco-lhe um sorriso.
Sobem a grande avenida, até ao meio e desaparecem, numa curva à direita, descendo na estação subterrânea. Diana atrasa o passo, para que não a perca de vista, apesar de os pais lhe torcerem as mãos com força, obrigando-a a apressar-se.
Sigo-os, intrigado, já indiferente às minhas horas de escola. Assumo que hoje é o dia nacional da gazeta. Tenho tanto medo de a perder, que olho continuamente, sem pestanejar.
Saem da estação e retomam as ruas da cidade, em direcção desconhecida. Viram umas vezes à direita, outras à esquerda, passando por gente alheada, de olhos postos em lado nenhum.
Sou atraído por uns arbustos, enquanto tocam à campainha de uma casa solitária, bonita, protegida por um jardim cuidado. Diana tapa a cara com os olhos e entra, contrariada. Os pais constroem sorrisos que não são seus, cumprimentam com enorme deferência quem lhes abre a porta e entram também sem vontade.
Mais uma vez quero saber dela, para além dos míseros reflexos que me chegam, através da janela da frente, escondida pelos cortinados.
Leio-lhe a aflição, estampada no rosto e logo a seguir, o pedido de salvamento, guiado pela premonição da existência de um anjo, algures à solta, guarda dos abandonados, cuja existência se presta a ser perturbada.
Os pais saem sozinhos. Parecem inverter o percurso. O ar é desolado, o passo mais lento, os olhos já nem olham obedientemente para o chão. Levantam-nos até ao céu e arranham-no com as suas preces, esperando dias melhores. Uma fábrica fechada, os dois desempregados, por tempo incerto, a renda por pagar, a menina por sustentar. Sem poderem. Tempo não há, certo ou incerto, resta a rua por palmilhar, o albergue por improvisar e um dia, recuperar o tempo perdido e a sua menina.
Volto a casa, com ideias peregrinas. Olho para os meus pais, absortos na televisão – julgo que nem deram conta de que faltei à escola – e vacilo, entre pedir para aceitarem temporariamente uma segunda filha, ou simplesmente fazer entrar Diana às escondidas e enfiá-la no meu quarto. Talvez não dessem por isso.
Vou até à janela, confirmar se ela realmente se evaporou. Tudo fechado. No dia seguinte também. Aguardo outros tantos e decido ir ao arranha-céus vizinho, saber quem lá morou.
Vejo pessoas a entrarem e a saírem. Como no meu prédio. Os olhares baços vagueiam em direcção definida pela altura do piso que ocupam. Procuro o porteiro. Não sei para onde olhará. Ah, encontrei-o. Tenho sorte, porque decide encarar-me. Pergunto-lhe pelo piso térreo, porta C, será? Descrevo a família ao pormenor, a menina com cara de anjo, seria impossível passarem despercebidos.
Responde-me – fazendo-me cair do último piso do arranha-céus – que nunca viu tal gente, o andar está ocupado sim, mas por outras pessoas, dois filhos, um cão enorme, um casal ainda jovem. Alegres da sua condição. A olharem para o chão com orgulho, assumidamente.
Fujo a correr, assustado com as suas palavras e só paro frente à minha janela. Nessa tarde, decido esperar uma eternidade.
Consigo vislumbrar o sol, para mim acinzentado, a despedir-se com os últimos raios. Estou prestes a desistir quando finalmente a janela de Diana se abre, de rompante.
Acredito que o cabelo dela vai voar, novamente, espalhando-se pelo ar, indomável, às vezes a tapar-lhe o rosto. E eu vou conseguir ver-lhe aqueles olhos, que se fixaram tantas vezes nos meus e me revelaram a história de uma vida, sem dizerem uma única palavra.
Esfrego os olhos e ao longe ouço o ladrar forte de um cão encorpado. Aparece à janela em frente, desejoso de saltar para as traseiras. Atrás dele, estão os risos de duas crianças, divertidas com os ímpetos do seu animal. Tinham chegado da escola. Rufus atira-se para cima delas, num grande alarido, convidando-as para a brincadeira. Passou o dia sozinho, apertado entre quatro paredes. Quando as vê, espera apenas que o levem a furar aquela torre, a saltar pela tão desejada janela.
A alegria que sente embriaga-o, fazendo-o crer que todas os finais de tarde os seus pequeninos donos o irão levar até ao paraíso.






sexta-feira, 28 de março de 2008

O caleidoscópio

Uma paisagem ao longe, lá dentro, duas pessoas de mãos dadas. A paisagem a mudar, as cores a misturarem-se, a transformarem-se, a rodarem, à excepção das duas pessoas, que se mantêm em pé, firmes e de mãos coladas. As testemunhas vão espreitando por este caleidoscópio; observam a vida às voltas, torta, de pernas para o ar e o casal intocável, direito que nem um fuso, no meio das reviravoltas que vão acontecendo. A certa altura, o casal já não traz novidade e faz com que se atire o caleidoscópio ao lixo. As testemunhas seguem o seu caminho, esquecendo a ponta de inveja que sentiram quando conheceram o casal pelo óculo. Tempos depois, uma testemunha mais curiosa decide recuperar o caleidoscópio. O casal traz as mãos na cabeça, parece estar em sofrimento. Alguém comenta que o marido ganhou uma doença esquisita, que os médicos não adivinham. A mulher continua a dar-lhe as mãos, como se nada fosse, mas ele deixa-as cair mais que uma vez, sem querer. As cores tornaram-se sombrias e já não se misturam, é como se o caleidoscópio se recusasse a iludir quem olha, como se proibisse a vida de causar mais atropelos. A testemunha volta a espreitar e não reconhece o caleidoscópio. O óculo não roda, nem para um lado nem para o outro, trancou-se à volta de uma imagem pouco definida. Parece ser o casal de costas voltadas, acocorado no chão, de rosto sobre os joelhos. É uma imagem sem movimento, num tempo parado. A testemunha, decepcionada, abana o objecto, tentando recuperar o sentimento de magia, da visão das cores animadas que antes existiam. O caleidoscópio apaga-se de repente, e mais uma vez, é atirado para o caixote de lixo mais próximo.















quarta-feira, 26 de março de 2008

A zaragata

O homem velho vai sentado no banco do autocarro, ao lado da mulher. O arranque, os solavancos, as curvas, as travagens e as novas paragens sucedem-se todos os dias, num trajecto que lhe é familiar. As portas abertas, os bilhetes obliterados, as vozes misturadas que entram ao mesmo tempo, empurrando-se, num barulho que cresce, que se torna ensurdecedor, captam-lhe a atenção. O autocarro apinhado, as pessoas em busca de uma nesga de espaço, a tentar sobreviver naquela hora de aperto e o homem velho incomodado, desassossegado, rodopiando a cabeça em todas as direcções, perante o ar sereno da mulher. Um rapazola fura a multidão, em busca de melhor assento, tropeça e cai em cima do homem velho, que imediatamente estica o peito e exibe os restos de um porte atlético, em atitude ameaçadora. O rapazola encolhe os ombros, balbucia uma desculpa esfarrapada e vira costas, fechando o episódio. O homem velho deixa livre o banco do autocarro e atira-se às costas do indivíduo, felino no ataque, imprevisível para os outros. As pessoas dão-se conta do burburinho e reagem, separando os dois, o rapazola indefeso e espantado, o velho descontrolado, possuído de uma força desconhecida. Palavras gritadas, gestos agressivos e a mulher do velho a perder a serenidade e a defender o marido, indignada com a multidão. As portas abrem-se, as paragens espreitam e o autocarro esvazia-se, como por magia, deixando a mulher e o homem velho a sós, desta vez, de mãos dadas e de olhares trocados.

sexta-feira, 21 de março de 2008

A vida passada a pente fino

Ela passa, apressada, desligada dos outros, como de costume. Em sintonia com alguns, por força das circunstâncias. Controlando os outros, para se fortalecer. Amesquinhando os demais, para se esquecer de si.

Sonha com o reconhecimento da maioria. Não lhe basta existir, com o corpo que tem e com a vida que naturalmente poderia ter. Depende dos outros no alcance desta existência, para ela ideal. Força sistemas, inventa leis, quebra respeitos. Apura-se na corrida do tempo, atenta aos gostos e mudanças, com a habilidade de um cata-vento.

Ela passa, apressada, desligada dos outros. Está num momento alto da vida. Os amigos, mais que muitos, são todos importantes e garantem-lhe um lugar ao sol, por cada pedaço de terra que vai pisando. Está cada vez mais confiante e despreza com prazer os que imploram uma migalha da sua atenção. Veste roupas extravagantes, usa um chapéu alto e cumprimenta, de sorriso rasgado, as almas gémeas.

Ela vai passando e atrás dela cola-se o tempo, a pisar-lhe os calos. A harmonia sentida – colada com cuspo – desmorona-se e atira-a para o autoritarismo, coberto de gelo. É chegada a hora da cegueira, o momento em que o umbigo a engole de vez. Um tempo de magnitude.

Ela vai passando, vagarosamente. De fascinante e inatingível passa a mulher feia e insignificante, apesar de teimar em conjugar roupas extravagantes e chapéus de formato variado, que mesmo assim, deixam à vista o frágil equilíbrio.

A ambição perde-se na linha do horizonte, cansada de ser querida e nunca alcançada. É um sonho confuso que se esvai, consumido num esforço evaporado. São os caminhos da vida, transformados em sulcos e vincos sobre aquele rosto.

Hoje ela passa, sem ninguém dar conta. Agarra-se às pessoas, tentando sacudi-las da indiferença a que ela própria as votou.
Não passa de uma velha tonta, que por ali sempre passou.







O nosso jardim

Resolvo tudo através da discussão. Desde sempre. Não conheço outro sistema. E não se entenda por isto que são discussões construtivas, fórum aberto, tipo vamos lá trocar de opinião para ver se chegamos a alguma conclusão. Não. São discussões acaloradas, animosas, atingindo às vezes níveis de violência impensáveis. Sou eu contra o obstáculo, inimigo sem identidade. Descarrego energias empilhadas, alimento ódios e raivas várias. Sem razão aparente. Exponho sem pudor a frustração que não agarro, exibo o lado mau com muita lata. Encerro-me num autismo que pisa sem querer – mas até quer – o outro, transformo-o num verbo de encher. Ou apenas convencido que o semelhante não passa de um alien por apurar. Uma entidade distante que teima em chocar comigo.

Tomei-lhe o gosto em pequeno, ao assistir, quedo e mudo, às fantásticas demonstrações que os meus pais me proporcionavam de forma sistemática e a cada vez mais elaborada. É óbvio que tal escola não me deixa indiferente. Assimilei-a com naturalidade e de bom hábito, também a mim se pegou como vício e entranhou-se-me na pele como uma droga. Evito a todo o custo a ressaca.Viver torna-se então a antítese de si mesmo. O Inferno por si só. A consciência perde-se nas entranhas do ser. Desesperada, pendura-se nas amarras da sobrevivência. O instinto reage e a infelicidade pespega-se-me nas trombas.

Arrasto-me em dias, em anos e mais séculos nesta condição. No meio desta praga, acredito que vou vencer. É este pensamento que segura a minha vida presa por um fio. Queimo o tempo, precipito os acontecimentos. Até nas discussões estou mais rápido e eficiente.

No meio deste despautério, viajo a um jardim. Um qualquer e como em qualquer um, a Natureza corre os seus ciclos sem acidentes. Observo árvores e plantas. Escuto o seu doce murmurar. Pasmo com a beleza e simplicidade. Admiro-as no seu posto de vigia, bem lá no alto, quase alheias à sua vida natural. As folhas debotam, os ramos secam, caiem por terra para abraçar uma nova vida e tudo começa outra vez. É a Natureza a falar, tranquila na sua nudez, renovada sem dramas, viçosa na serenidade. Na verdade tudo o que me incomoda e o que me atrai.

Vejo o Joaquim, ainda criança, acocorado à beira do lago. Os patos e os cisnes aproximam-se e disputam as migalhas que ele vai atirando em ritmo lento. A vida corre com mais vagar naquele lugar. Ali, teria tempo para pintar um quadro com o Joaquim ao pé do lago, os animais que comem o que lhe vem das mãos, as árvores que sussurram para a terra. Shshshhshshshshsshshshs…..

Atrás está a mãe, ainda nova, distante do filho. É bonita e parece preocupada. Anda devagar e assim que agarra uma árvore esconde-se atrás dela. No fim do percurso – que repete uma, outra e mais uma vez – reaparece, de cara vermelha e olhos inchados.


Joaquim tem olhos atrás das costas. Habituou-se a fingir que não percebe. Habituou-se a ser criança sem nunca o ter chegado a ser. Compreende a mãe à distância e assim a deixa horas a fio, a ajustar-se à sua infelicidade em silêncio. O dia é longo naquele jardim, a avaliar pela posição do sol.

Percorro o jardim, investigo os cantos mais secretos. Percebo que não existe mais ninguém, para além de nós os três, dos animais e das plantas. É um jardim só nosso. Um lugar especial.
Volto para baixo e confirmo a impressão de que o tempo não passou. Joaquim continua a atirar migalhas que nunca se acabam e a mãe continua a tropeçar de árvore em árvore, de cara ainda por desinchar. Mãe e filho continuam perto um do outro, sem se aproximarem.

Sinto-me fatigado de o sol teimar em não adormecer. Tenho vontade de perguntar por onde é a fuga, mas sei que não me podem ver nem ouvir. Obrigam-me a procurar: desço, subo, apresso o passo, arfo de cansaço, desconfio que tenho visões de portas sem saída. Estou fechado. Tenho pressa em sair. Não aguento mais o sol, eternamente a pico. Abrasa-me aqueles dois, juntos pela condição da Natureza e por ela separados. Ali, naquele quadro que eu poderia pintar. Não encontro a sintonia que amarra o pincel à tela. Estou cansado de procurar. Sem perceber, deixo-me cair sobre as plantas.

Estremece-me o corpo, apaga-se o sol e a lua acorda. Arrefece subitamente. Os cobertores pesam-me como quilos de mágoa. Afinal, sempre encontrei a porta de saída. A mesma de sempre. Vira o disco e toca o mesmo. O meu jardim é o pesadelo de olhos abertos.
O sol volta a nascer, manso e de tempo contado. É de manhã e chamam-me devagarinho. Acordo e finalmente não me vejo mais.