Chuva miudinha. O ar humedecido. Pingos minúsculos, pingos grossos e por fim chuva, chuva torrencial. O piso molhado, os carros a abrandarem, os vidros embaciados, os chapéus virados, o jardim transformado num lago, os bancos de madeira encharcados. Dois jovens sentados. E as pessoas a atravessarem o jardim, apressadas, escondidas no impermeável. A chuva que não pára e os jovens sentados, sem se importarem. Ele está deitado, com a cabeça no colo dela. Ela afaga-lhe o cabelo, sem nada dizer. Cabelo que pinga ainda mais sobre a roupa molhada. Uma senhora passa e observa-os, intrigada. Até ela se deixa ficar, apesar da chuva. Os jovens continuam a trocar festas, alheios aos pingos e ao movimento. A senhora admira-se, do quadro insólito. “ Desculpem, está mesmo frio, vocês estão ensopados. No mínimo, apanham uma valente constipação.” A rapariga levanta a cabeça, espantada. O rapaz levanta-se, sacudindo a água, que se acumulou neles. Os dois parecem apanhados de surpresa. “Confessem... não ouviram a chuva, pois não? Nem tão pouco a sentiram, já estou a ver...” Os jovens abraçam-se, rindo-se das roupas que pingam, dos cabelos colados ao rosto. “Isso é mesmo amor?”, pergunta a senhora. “Bem vê que é!”, responde a rapariga, divertida. “Que outra coisa poderia ser?”, acrescenta o rapaz. “Desejo-vos boa sorte”, diz a senhora, novamente consciente da chuva. O seu passo abranda, ao atravessar aquele jardim. O chapéu fecha-se e o lenço cai do cabelo, sob um sopro de vento. Momentaneamente, a chuva desaparece. São tempos de rapariga que lhe vêm à cabeça. Tempos em que não se podia apanhar chuva no jardim.
terça-feira, 4 de março de 2008
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1 comentário:
É pena a duração da fase em que não se sente a chuva, as roupas molhadas ou as pessoas a passar, seja tão curta...
Um beijinho,
Ana
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