domingo, 24 de fevereiro de 2008

Os fiéis súbditos



A vila dorme, pacata e tranquila, de átrios vazios, coretos fantasmas, largos silenciosos, janelas fechadas, persianas corridas. A neblina matinal corre, envolvendo o lugar, policiando o ar, as vistas, espreitando a ausência de movimento. Parece um lugarejo abandonado, assim tão quieto e parado. A neblina sabe que não tarda que a vida venha aí, a disparar por todas as ruas, a invadir os cantos da terra e sobretudo, a afugentá-la dali. É domingo de manhã, manhã que se aclara, que despe o orvalho e que aquece o ar. O padre acordou há muito tempo, despachou as rotinas habituais, vestiu a camisa branca, as calças cinzentas e as velhas sandálias, a mesma roupa de todos os dias, comentam as pessoas, coitado, que mal arranjado, nem gola de padre, nem coisa alguma, lá vai ele, em passo apressado, a atravessar o habitual domingo, a adiantar-se ao relógio da igreja, a preparar a homilia e a receber de braços abertos a população que veste o melhor fato e que espera por aquele momento como dia de festa, uns de convicção sincera, outros, por tradição ou por convívio. Ou apenas por curiosidade em conhecer o padre revolucionário, novo na freguesia, novo de aparência, novo nos hábitos e costumes daquela gente. Porque o padre prega de uma forma humana e bondosa. Porque o seu discurso é profundo e desculpabilizante. Ali, os crentes sentem-se nas alturas, os que merecem e os indignos. São todos filhos de Deus, apesar de alguns cidadãos preferirem o direito à diferença e não entenderem como é que agora são confundidos com os outros. O padre mantém o tom calmo e baixo de voz e finge desconhecer estas hierarquias, dirigindo-se de forma igual a qualquer pessoa e mostrando sempre uma disponibilidade ilimitada para ouvir ou atender a problemas vários que vai tomando conhecimento no decorrer da sua pastorícia. Seja como for, o padre chega à conclusão, ao fim de algum tempo, que também ele tem que estabelecer prioridades na prática do bem, pois na terra, como em qualquer outro sítio, há miséria, pobreza, muita gente desfavorecida e desafortunada. O passo abranda durante a semana, cada vez mais as pessoas lhe pedem ajuda e conforto e o padre não tem mãos a medir, desde acudir aos velhotes que não têm meios de sobrevivência, resolvendo o que está ao seu alcance, pedindo ajuda à população, até passar tardes e tardes com pessoas sós e doentes, intervindo no meio de conflitos e guerras, fazendo a população dar as mãos, mesmo nas horas mais difíceis.
Como esta mania de espalhar e fazer o bem faz confusão a muita gente, sobretudo executada de forma tão singular e misteriosa, não reivindicando nada para si próprio nem falando de si mesmo, o padre começa a chamar a atenção de um grupo de pessoas, pelo simples acto de agir e viver de forma diferente. E eis senão quando, alguém é contratado como um espião, para fazer um relatório sobre as actividades diárias do padre. Até porque não se sabe nada da sua vida; não se abre, nem pede nada, apenas demonstra ter umas estranhas ideias.
O relatório finalmente chega, pejado de informação secreta. O padre não é nenhum criminoso, longe disso, revelam as fontes, mas tem uma mania incrível de se pendurar nas casas das pessoas e fazer-se convidado para almoçar. É aí que ele poupa, com o pretexto que é muito bonzinho, vai-se aproveitando das pessoas e sabe-se lá mais o quê... a má língua alastra, alastra e o padre começa a ser olhado de lado, por aqueles que não conhecem a sua bondade. Alguém mais acirrado resolve interpelá-lo, questionando o seu modo de vida dúbio e ofendendo-o sobre a proveniência do seu sustento. As testemunhas indignam-se com o sucedido; conhecem a actividade do padre e já provaram da sua bondade, não tarda que chamem o resto da população à praça pública em sua defesa, contra um grupo minoritário que pensa expulsá-lo dali para fora. O padre ouve o alarido e acorre à praça, percebendo estar no meio de uma guerra. Entre uns que o aclamam e outros que o vaiam, ele interpõe-se e comenta: “Sei que estais zangados por minha causa. Surpreendentemente, estou em conflito comigo mesmo e no meio dele, quando vos deveria ajudar a resolver os vossos. Agora sou eu que vos peço ajuda: se sair desta freguesia vou desagradar a maioria, se ficar vou descontentar um grupo de vocês. Longe de mim semear a discórdia.”
A população pede contas ao padre: “ Mas afinal, o que é que andas a fazer, enfiado nas casa das pessoas?” E conversam entre eles, sem estarem todos de acordo: “ Qual é o problema? O padre é muito educado, só aceitou por delicadeza. O que é que fazíamos? Almoçávamos à frente dele? Vê-se mesmo que não o conheces! Não acredito! Donde é que lhe vem o dinheiro? O que é que tens a ver com isso?”
O padre propõe-lhes uma solução: “Posso comer em minha casa. Tenho tudo para o fazer. Mas de facto, ando tão afadigado e preocupado convosco que nem penso nisso. Acontece assim, porque são gentis comigo. Mas podemos resolver este assunto de outra forma: irei almoçar a casa de toda a gente, cada dia numa casa diferente. Serei, à semelhança de Deus, omnipotente e omnipresente. O que acham?
A população fica em silêncio durante alguns minutos, até irromper numa enorme gargalhada conjunta. O grupo minoritário aproxima-se e dá uns estalos nas costas do padre, os outros sorriem de longe, acenando-lhe. Apesar de todas as diferenças, o padre despede-se, contente pelo acordo e convicto de que, no meio da barafunda, converteu outras pessoas, perdidas pelo caminho.

Sem comentários: