Conhecem-se há muito tempo. Desde a altura em que ele brincava com o irmão dela, com os carrinhos e soldadinhos enquanto ela conversava com a irmã dele, penteando ao mesmo tempo as barbies da época. Tudo se passava em quartos separados, meninas para um lado, meninos para outro. O rapaz tocava piano no seu quarto, inundando a casa com sons mágicos. Ela ouvia-os, e mesmo a meio de uma conversa mais séria com a amiga, não resistia a interrompê-la e correr ao quarto do irmão, apanhando-o em flagrante. O rapaz corava, mas o música falava mais alto, fazendo-o voar sobre o instrumento, a criar melodias novas, a explorar harmonias diferentes, a revelar-se a si próprio. A irmã continuava no quarto, a vestir a boneca. O som que ouvia era habitual e apenas sinal da presença do irmão. Estranho seria, se ele aparecesse no quarto dela, a falar em voz alta.
O par de irmãos que estavam de visita viam-no descer do banco, sacudir os ombros e num sorriso desajeitado dizer “São umas músicas que ando a inventar. Umas maluquices. Vamos jogar?”
Os anos passam e os fins de semana atravessam tardes em casa de uns e outros, modificando-se as conversas e as brincadeiras, inclusive a do piano, que passa a ser o velho piano e que acaba por se perder no meio de um leilão qualquer. Quando se encontram, conversam à mesma no quarto de cada um, mas já não existem as bonecas os carrinhos, os jogos, os concursos inventados nem o velho piano, fala-se antes de coisas de rapazes e de raparigas, muito em segredo.
Atingindo a idade casadoira, aparecem os respectivos pares, tudo a condizer, o amor, o vestido, a rapariga, o rapaz, a boda e o promissor futuro de uma vida a dois, numa linda casinha, grande e cheia de luz, um ninho acolhedor quase finalizado; sobra a escolha de alguns móveis, cortinados e a hipótese de um piano lá caber, a casa é grande e existe um canto magnífico para tal, a esposa franze o sobrolho, já não se usa, são coisas do século passado, agora há móveis muito mais bonitos, os antiquários, os antiquários, estão cheios de relíquias. O rapaz vestido de homem assume esta nova condição, são vidas que ficam para trás, enterradas num canto sem tabuleta, sente até dificuldade em recordar os dois irmãos que lá iam a casa e os sons que atravessavam as fissuras das portas.
A menina nasce e a esposa continua em casa, à espera que ele chegue, para tratar da criança e de todos os assuntos que ficam por resolver; pergunta-se ele o que andará ela a fazer durante o dia para andar com a cara enjoada e mal disposta, como se o tédio fosse um micróbio contagioso e se tornasse, ainda por cima, doença crónica. O rapaz, de entradas no cabelo mais pronunciadas e de estômago dilatado a aparentar felicidade e bem-estar, age com delicadeza, tornando a doença crónica invisível a qualquer par de olhos, especialmente os da filha. Preocupado com a educação da menina, entra em conflito diplomático com a esposa; a filha vai aprender a tocar piano, música é importante para o desenvolvimento da criança, horror, horror, que barulheira lá em casa, já leste artigos sobre isso? É fundamental. Nunca mais vens para casa, é o espaço para o piano, é a menina a chegar tarde e eu ali à espera de vocês os dois.
Os olhos do rapaz homem encovam-se ainda mais, sob o rosto envelhecido prematuramente. Um dia, a família sai à rua e encontra por acaso a amiga de infância. Ele reconhece-a pelo ar vivo e sorridente, ela caça-lhe a altura e os olhos escuros e pequeninos. Caça-lhe ainda, à socapa, um sorriso cúmplice.
- Há quanto tempo!
- É verdade!
- Estás bem?
- Vai-se andando...
- E a menina? Está tão grande!
- E está a aprender a tocar piano...
- A sério? E tu? Ainda tocas?
O homem encolhe os ombros, a sacudir a tristeza. Salta a tabuleta sem nome sobre o canto atafulhado de pó e terra e enquanto os olhares se cruzam, a terra rebenta sob o ímpeto de um vulcão, até ali adormecido. A amiga despede-se, sentindo que tocou numa corda sensível. Ele continua a andar no mesmo passeio, de mão dada com a filha. De vez em quando, espreita a mulher. Esta conhece a história do vulcão adormecido, adivinhou-a em sonhos, em pequenos sinais que ele dava, vestígios de outra existência. Teve medo, pela primeira vez. Despiu a doença crónica e tudo o que antes considerara aberrante parecia-lhe agora magnífico. Podia, nesta perspectiva, levar uma vida de sonho, à espera deles.
O homem perdeu peso, a altura perdeu-se de vista, o rosto desinchou, evidenciando ainda mais as rugas da cara. A casa é diferente, pela primeira vez; um espaço único sem portas, com as janelas frequentemente abertas. Duas camas de solteiro e um piano. A filha lá de vez em quando, a mexer no piano, a descobrir sons.
Pouco mais.
O par de irmãos que estavam de visita viam-no descer do banco, sacudir os ombros e num sorriso desajeitado dizer “São umas músicas que ando a inventar. Umas maluquices. Vamos jogar?”
Os anos passam e os fins de semana atravessam tardes em casa de uns e outros, modificando-se as conversas e as brincadeiras, inclusive a do piano, que passa a ser o velho piano e que acaba por se perder no meio de um leilão qualquer. Quando se encontram, conversam à mesma no quarto de cada um, mas já não existem as bonecas os carrinhos, os jogos, os concursos inventados nem o velho piano, fala-se antes de coisas de rapazes e de raparigas, muito em segredo.
Atingindo a idade casadoira, aparecem os respectivos pares, tudo a condizer, o amor, o vestido, a rapariga, o rapaz, a boda e o promissor futuro de uma vida a dois, numa linda casinha, grande e cheia de luz, um ninho acolhedor quase finalizado; sobra a escolha de alguns móveis, cortinados e a hipótese de um piano lá caber, a casa é grande e existe um canto magnífico para tal, a esposa franze o sobrolho, já não se usa, são coisas do século passado, agora há móveis muito mais bonitos, os antiquários, os antiquários, estão cheios de relíquias. O rapaz vestido de homem assume esta nova condição, são vidas que ficam para trás, enterradas num canto sem tabuleta, sente até dificuldade em recordar os dois irmãos que lá iam a casa e os sons que atravessavam as fissuras das portas.
A menina nasce e a esposa continua em casa, à espera que ele chegue, para tratar da criança e de todos os assuntos que ficam por resolver; pergunta-se ele o que andará ela a fazer durante o dia para andar com a cara enjoada e mal disposta, como se o tédio fosse um micróbio contagioso e se tornasse, ainda por cima, doença crónica. O rapaz, de entradas no cabelo mais pronunciadas e de estômago dilatado a aparentar felicidade e bem-estar, age com delicadeza, tornando a doença crónica invisível a qualquer par de olhos, especialmente os da filha. Preocupado com a educação da menina, entra em conflito diplomático com a esposa; a filha vai aprender a tocar piano, música é importante para o desenvolvimento da criança, horror, horror, que barulheira lá em casa, já leste artigos sobre isso? É fundamental. Nunca mais vens para casa, é o espaço para o piano, é a menina a chegar tarde e eu ali à espera de vocês os dois.
Os olhos do rapaz homem encovam-se ainda mais, sob o rosto envelhecido prematuramente. Um dia, a família sai à rua e encontra por acaso a amiga de infância. Ele reconhece-a pelo ar vivo e sorridente, ela caça-lhe a altura e os olhos escuros e pequeninos. Caça-lhe ainda, à socapa, um sorriso cúmplice.
- Há quanto tempo!
- É verdade!
- Estás bem?
- Vai-se andando...
- E a menina? Está tão grande!
- E está a aprender a tocar piano...
- A sério? E tu? Ainda tocas?
O homem encolhe os ombros, a sacudir a tristeza. Salta a tabuleta sem nome sobre o canto atafulhado de pó e terra e enquanto os olhares se cruzam, a terra rebenta sob o ímpeto de um vulcão, até ali adormecido. A amiga despede-se, sentindo que tocou numa corda sensível. Ele continua a andar no mesmo passeio, de mão dada com a filha. De vez em quando, espreita a mulher. Esta conhece a história do vulcão adormecido, adivinhou-a em sonhos, em pequenos sinais que ele dava, vestígios de outra existência. Teve medo, pela primeira vez. Despiu a doença crónica e tudo o que antes considerara aberrante parecia-lhe agora magnífico. Podia, nesta perspectiva, levar uma vida de sonho, à espera deles.
O homem perdeu peso, a altura perdeu-se de vista, o rosto desinchou, evidenciando ainda mais as rugas da cara. A casa é diferente, pela primeira vez; um espaço único sem portas, com as janelas frequentemente abertas. Duas camas de solteiro e um piano. A filha lá de vez em quando, a mexer no piano, a descobrir sons.
Pouco mais.
Sem comentários:
Enviar um comentário