Ela tropeça nele, noite após noite, como uma cega que não chega a tactear; os olhos, cativos noutras paisagens, vêem rostos de contornos indefinidos, reconhecem a cor das calças, da camisola, de raspão a forma do corpo; quando ela chega ele está sentado, quando ela vai, ele fixa-lhe os olhos e diz-lhe boa noite, pregado ainda à cadeira.
Ela tropeça nele, noite após noite, até deixar de ver; os contornos esbatem-se, as cores, as luzes, os rostos, as formas confundem-se com o resto do ambiente; com a cor das cadeiras, das paredes, dos móveis, do ar...
Ela tropeça na escuridão só dela e esgravata, desesperada, a abrir portinholas por onde a vida possa espreitar. De avanços e recuos, vê luzes que a encandeiam e que a fazem vacilar; são momentos em que ri e que partilha com os outros, porém, quando a maré desce, os outros desaparecem e ela volta a apagar-se, sem querer.
Os dias que assistem a esta clausura não têm conta; resta uma pequena esperança, escondida lá bem no canto, de uma varinha mágica que a acorde e a ponha a caminho.
A manhã entra-lhe com força pela janela, um banho de luz inusitado àquela hora, já que vive comprimida entre dois prédios frente a frente, que apenas deixam entrar nesgas de sol. A sala está de cores vivas, o sofá vermelho, as almofadas alaranjadas, as paredes de tons transparentes. Na rua, sem se aperceber, tropeça menos vezes; o andar é firme e ritmado, um vigor súbito invade-lhe o corpo, hoje é dia de passar por ele e, curiosamente, relembra a cor das calças e da camisola, não vê a hora de a luz se despachar dali para fora, para realmente testar a sua cegueira; desenha de memória o rosto dele, nariz pequeno, olhos velados, sorriso entreaberto. Chegou o momento de tropeçar a sério neste rosto vigilante, apesar de a noite ter caído sem lua, ela convida-o gentilmente a sair dali.
Nunca os caminhos lhe pareceram tão claros.
Ela tropeça nele, noite após noite, até deixar de ver; os contornos esbatem-se, as cores, as luzes, os rostos, as formas confundem-se com o resto do ambiente; com a cor das cadeiras, das paredes, dos móveis, do ar...
Ela tropeça na escuridão só dela e esgravata, desesperada, a abrir portinholas por onde a vida possa espreitar. De avanços e recuos, vê luzes que a encandeiam e que a fazem vacilar; são momentos em que ri e que partilha com os outros, porém, quando a maré desce, os outros desaparecem e ela volta a apagar-se, sem querer.
Os dias que assistem a esta clausura não têm conta; resta uma pequena esperança, escondida lá bem no canto, de uma varinha mágica que a acorde e a ponha a caminho.
A manhã entra-lhe com força pela janela, um banho de luz inusitado àquela hora, já que vive comprimida entre dois prédios frente a frente, que apenas deixam entrar nesgas de sol. A sala está de cores vivas, o sofá vermelho, as almofadas alaranjadas, as paredes de tons transparentes. Na rua, sem se aperceber, tropeça menos vezes; o andar é firme e ritmado, um vigor súbito invade-lhe o corpo, hoje é dia de passar por ele e, curiosamente, relembra a cor das calças e da camisola, não vê a hora de a luz se despachar dali para fora, para realmente testar a sua cegueira; desenha de memória o rosto dele, nariz pequeno, olhos velados, sorriso entreaberto. Chegou o momento de tropeçar a sério neste rosto vigilante, apesar de a noite ter caído sem lua, ela convida-o gentilmente a sair dali.
Nunca os caminhos lhe pareceram tão claros.
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