É quase fim de tarde, quase fim de Verão e as crianças brincam no parque, vigiadas pelos adultos, que aproveitam para fazer uma pausa. Duas mulheres encontram-se, no meio dos risos, dos pulos, da gritaria, das tropelias que correm por ali, no meio dos raios de sol que iluminam, agora já ténues, o amplo cenário. Trocam beijos rápidos sem ousarem tirar os óculos escuros, ambas conhecem de cor as silhuetas, à distância já se tinham reconhecido, uma de cabelo liso preto e franja, sentada no banco do jardim a ajeitar o penteado da filha, o outro filho a subir e descer escorregas, e ela sentada, a observar a segunda mulher que se aproxima, cabelo preto aos caracóis, redonda e baixa, passos curtos e rápidos, a esconder o desagrado atrás dos óculos, um sorriso mudo que lhe estica os lábios até se notar. Um encontro acidental, minutos depois forçado, apenas à espera que as crianças se cansem dos baloiços e das casinhas e que o jardim seja abandonado de vez pela luz do dia.

- Estás boa?
- Vai-se andando...
A mulher dos caracóis fecha-se em resposta monossilábicas e finge contemplar o horizonte, apesar de a outra nunca se calar.
- Então, puseste os miúdos noutra piscina? Fizeste mal, esta é muito melhor. Os meus estão a nadar muito bem. São muito competitivos. Os teus, também são assim? Desististe? Que pena. A tua filha tinha jeitinho. Lá estão os nossos miúdos com a mesma professora não é? É um bocadinho mole demais, o meu filho goza com ela e com a matéria, é tudo tão fácil, penso que a professora nem chega a perceber. Estou aflita com os horários, vais ver quando lá chegares, as tuas ainda são novas. Depois vais sentir na pele, é um para cada lado, as actividades extra-curriculares, as actividades ao Sábado... o meu marido quer desistir, imagina, vai sempre pela solução mais fácil... mas até se faz bem.... é preciso vontade... toma-se o pequeno almoço, lê-se o jornal, espera-se por um e vai-se buscar o outro de seguida. O Rudolfo? Aquele colega dos nossos? Inteligente? Achas? Nunca reparei... bem o meu é fantástico, já te disse, devia estar dois anos à frente... se calhar são este currículos, não estão bem feitos... mas a mãe dele é aflitiva, sempre com medo que lhe aconteça alguma desgraça... os meus são muito mais independentes... enfim... fiz agora uma ecografia de rotina... tanto tempo à espera... não percebem que tenho de dizer no emprego que vou fazer um exame, tento ser discreta e depois espero duas horas para o fazer... de bexiga cheia, é indecente... se está tudo bem? Não sei, parece que sou capaz de ter um problemazito, nada de grave, realmente estou é desorientada com este início de ano lectivo...
A mulher dos caracóis pretos abafa a irritação e aconselha-a a ter calma, que tente resolver um assunto de cada vez e que acima de tudo, vigie a sua saúde. Aliviada por ver a escuridão, despede-se da mulher do cabelo liso e das crianças que fingem não a conhecer.
O ano lectivo decorre, sem grandes atropelos. O Verão chega e ainda antes das férias, os pais inscrevem os filhos em actividades para os tempos livres, ganhando tempo para finalmente se juntarem em família e gozarem juntos o merecido descanso.
A mulher do cabelo liso deixou de aparecer, como antes, a consultar as notas dos filhos dela e dos outros, a tecer comentários indevidos à frente de toda a gente e a construir intrigas a propósito do mais ínfimo pormenor.
- Vai-se andando...
A mulher dos caracóis fecha-se em resposta monossilábicas e finge contemplar o horizonte, apesar de a outra nunca se calar.
- Então, puseste os miúdos noutra piscina? Fizeste mal, esta é muito melhor. Os meus estão a nadar muito bem. São muito competitivos. Os teus, também são assim? Desististe? Que pena. A tua filha tinha jeitinho. Lá estão os nossos miúdos com a mesma professora não é? É um bocadinho mole demais, o meu filho goza com ela e com a matéria, é tudo tão fácil, penso que a professora nem chega a perceber. Estou aflita com os horários, vais ver quando lá chegares, as tuas ainda são novas. Depois vais sentir na pele, é um para cada lado, as actividades extra-curriculares, as actividades ao Sábado... o meu marido quer desistir, imagina, vai sempre pela solução mais fácil... mas até se faz bem.... é preciso vontade... toma-se o pequeno almoço, lê-se o jornal, espera-se por um e vai-se buscar o outro de seguida. O Rudolfo? Aquele colega dos nossos? Inteligente? Achas? Nunca reparei... bem o meu é fantástico, já te disse, devia estar dois anos à frente... se calhar são este currículos, não estão bem feitos... mas a mãe dele é aflitiva, sempre com medo que lhe aconteça alguma desgraça... os meus são muito mais independentes... enfim... fiz agora uma ecografia de rotina... tanto tempo à espera... não percebem que tenho de dizer no emprego que vou fazer um exame, tento ser discreta e depois espero duas horas para o fazer... de bexiga cheia, é indecente... se está tudo bem? Não sei, parece que sou capaz de ter um problemazito, nada de grave, realmente estou é desorientada com este início de ano lectivo...
A mulher dos caracóis pretos abafa a irritação e aconselha-a a ter calma, que tente resolver um assunto de cada vez e que acima de tudo, vigie a sua saúde. Aliviada por ver a escuridão, despede-se da mulher do cabelo liso e das crianças que fingem não a conhecer.
O ano lectivo decorre, sem grandes atropelos. O Verão chega e ainda antes das férias, os pais inscrevem os filhos em actividades para os tempos livres, ganhando tempo para finalmente se juntarem em família e gozarem juntos o merecido descanso.
A mulher do cabelo liso deixou de aparecer, como antes, a consultar as notas dos filhos dela e dos outros, a tecer comentários indevidos à frente de toda a gente e a construir intrigas a propósito do mais ínfimo pormenor.

O Verão ainda dura, quando as férias acabam e as crianças voltam àquele jardim, gozando os últimos cartuchos ainda antes da escola começar. Os adultos estão sentados nos bancos a ler, a conversar, em pé, a observar, a circular, mas a mulher dos caracóis não encontra a mulher dos cabelos lisos. Lembrou-se dela, porque nunca mais a viu ou ouviu aquele monólogo interminável e vazio. Há pouco tempo julgou vê-la, a silhueta era igual, as roupas parecidas, estava rodeada de crianças e metia conversa com as pessoas que estavam mais próximas. Tirou os óculos ao longe e franziu os olhos, sob a luz do sol. Parecia mesmo ser ela. Apressou os passitos curtos e sentiu até uma certa curiosidade. Como estaria? Ao aproximar-se percebeu que se tinha enganado. Era uma franja curta, um cabelo liso, uma cara semelhante. Reconheceu os seus filhos, que brincavam no parque. Voltou para trás sem querer ser reconhecida. O Verão chegava ao fim, de forma diferente. Respirou fundo e pensou que no final de contas, ouvir os monólogos infernais da mulher do cabelo liso não lhe tinha custado assim tanto, pior era ver o ar desalentado com que os seus filhos brincavam naquele dia.
1 comentário:
Dei uma vista de olhos pelo blogue e li alguns textos.
Estou a escrever para te mandar aquele abraço amigo e dizer-te da minha admiração pela tua perserverança.
Face à minha incapacidade de, por vezes, ultrapassar os pequenos contratempos do dia a dia, arranjando neles justificação para a preguiça, és um exemplo bom.
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