As cartas empilhadas, a fazerem um castelo. Nas ameias, uma vista deslumbrante, para quem a consegue ver. Cá em baixo, um esforço natural para aguentar o castelo em pé. O grupo tem um projecto, datas marcadas, compromissos a cumprir. O castelo é móvel, vai circulando, sem grandes conversas entre as cartas; as de baixo têm de olhar em frente, sob pena de a frágil estrutura se desmoronar, as do meio são estafetas preciosos, transmitem recados nas duas direcções, as de cima são cartas piloto, navegam de sobrolho franzido, mão a fazer de pala, investigam horizontes, tomam decisões. Durante um período considerável, nada parece interferir na harmonia do grupo. Até que um dos pilotos, segundo o estafeta chefe, descobre outras formas de actuação, pensa num projecto diferente e, chegando ao fim do último contrato, dispensa as cartas de baixo, sem se importar com a estabilidade do castelo. “Arranjamos um castelo mais pequeno”, responde. Chocados com o despedimento, as cartas insurgem-se, argumentando a injustiça do mesmo. O piloto-mor, com receio de não controlar esta fase de transição, alicia duas ou três cartas de baixo, que possam servir de futuros pilares de apoio. As cartas vacilam, sofrendo com a falta de lealdade para com os outros e a desunião criada. Numa das últimas digressões, o castelo lá se levanta, arrastando-se para fazer a última exibição. O espectáculo começa, com as famosas acrobacias do castelo de cartas. Trocam de posição, viram-se de costas, fazem o pino, dão cambalhotas, até que, novamente na posição inicial, abanam fortemente a estrutura, despejando os pilotos do alto da torre. Perante o olhar atónito do público, desfazem a formação e retiram-se alegremente, deixando os chefes estatelados no chão.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008
O castelo de cartas
As cartas empilhadas, a fazerem um castelo. Nas ameias, uma vista deslumbrante, para quem a consegue ver. Cá em baixo, um esforço natural para aguentar o castelo em pé. O grupo tem um projecto, datas marcadas, compromissos a cumprir. O castelo é móvel, vai circulando, sem grandes conversas entre as cartas; as de baixo têm de olhar em frente, sob pena de a frágil estrutura se desmoronar, as do meio são estafetas preciosos, transmitem recados nas duas direcções, as de cima são cartas piloto, navegam de sobrolho franzido, mão a fazer de pala, investigam horizontes, tomam decisões. Durante um período considerável, nada parece interferir na harmonia do grupo. Até que um dos pilotos, segundo o estafeta chefe, descobre outras formas de actuação, pensa num projecto diferente e, chegando ao fim do último contrato, dispensa as cartas de baixo, sem se importar com a estabilidade do castelo. “Arranjamos um castelo mais pequeno”, responde. Chocados com o despedimento, as cartas insurgem-se, argumentando a injustiça do mesmo. O piloto-mor, com receio de não controlar esta fase de transição, alicia duas ou três cartas de baixo, que possam servir de futuros pilares de apoio. As cartas vacilam, sofrendo com a falta de lealdade para com os outros e a desunião criada. Numa das últimas digressões, o castelo lá se levanta, arrastando-se para fazer a última exibição. O espectáculo começa, com as famosas acrobacias do castelo de cartas. Trocam de posição, viram-se de costas, fazem o pino, dão cambalhotas, até que, novamente na posição inicial, abanam fortemente a estrutura, despejando os pilotos do alto da torre. Perante o olhar atónito do público, desfazem a formação e retiram-se alegremente, deixando os chefes estatelados no chão.
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário