quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

O namoro



Duas crianças falam sobre a vida. Sobre o que aconteceu neste dia e na semana antes. Como os adultos, vão buscar o começo da história, que pode ter sido há mais tempo do que possamos imaginar. Também como os adultos, falam às vezes, dos mesmos assuntos. Hoje falam sobre namoradas; nenhum deles as tem, mas trocam opiniões; ouvem e vêem os adultos, sabem pelos colegas; também estes comentam, a torto e direito, gabando-se de proezas, muitas vezes sem fundamento. Curiosamente, sempre há um ou outro, que, apesar da tenra idade, consegue roubar um beijo e um abraço apertado, à rapariga que passou ao lado. As meninas não são, todavia, indiferentes a esta abordagem; as mais atrevidas escolhem-nos ainda antes de eles as verem. Preparam o terreno, com risinhos e bilhetinhos, e jogam com os rapazes, às vezes, sem dar beijos e abraços. No fim, voltam a brincar com as outras raparigas, às casinhas, aos pais e às mães. “Se calhar é isso”, diz uma das crianças. “Por isso é que elas nos querem abraçar... é para fazer como os pais e as mães.” E responde o outro: “E os que as abraçam, também brincam ao mesmo... que horror, brincar com as meninas!” Ambos se olham e se largam a rir. Afinal, os colegas fanfarrões apenas imitam as brincadeiras das meninas. Vão ser excomungados do clube masculino; proibidos de jogar à bola ou fazer outras tropelias. Ainda por cima, conta uma das crianças, às vezes ficam doentes. O ano passado, o melhor amigo dele abraçou a gorda lá da escola e apanhou varicela. Tudo por causa da gorda. Sentados no sofá, as duas crianças abanam a cabeça, perplexos com os mistérios do namoro.

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