domingo, 17 de fevereiro de 2008

A pausa



O carro acelera, em direcção à capital. Vertiginosamente. Atafulhado em compromissos e tarefas a cumprir, às vezes sobrepostas, aparece ele, no alto das escadas, a arfar, a arfar, como se todos os dias atingisse o topo do destino. “Vamos a isto?” O ritmo cardíaco finalmente normaliza, dentro de um sorriso cristalizado, quase imperceptível. Queimam-se minutos, horas e o dia passa por ele, invisível, fantasma, como todas os outras pessoas que o rodeiam. O regresso a casa deixa-o cansado, ao volante do carro, quilómetros para cumprir, um compasso de espera perigoso, tempo livre que não se adivinha, as ideias a nascerem de todos os cantos, a misturarem-se, desordenadamente. Uma estranha sensação, com ele a desmoronar-se. Um homem feito de cacos. A velocidade aumenta, súbita e bruscamente, interrompendo o pensamento, até chegar a casa. A mesa já posta, o jantar a fumegar, os beijos rápidos, o sorriso máscara, que nada deixa ver, a família em redor e tudo a parecer-lhe muito ao longe, como um ruído de fundo; a algazarra das crianças, a mulher a falar sozinha, a casa enorme, cheia de cantos que ele mal conhece. Um outro dia a nascer, o carro a precipitar-se sobre a estrada, para lá, para cá, as horas a acelerarem dentro dele, a chegada a casa e o ruído de fundo cada vez mais forte, tão forte que se torna insuportável. O sorriso envernizado transforma-se em dor repentina e ele cai, estatelado no chão. As crianças param de brincar e a mulher dá conta do barulho. É assunto sério e ainda desconhecido. Entre hospital e casa, o desagradável episódio é controlado, mas o carro deixa de se fazer à estrada, o ruído de fundo desaparece e ele descobre a família à volta, naquele espaço que lhe parece novo.

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