terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

O gato preto

Dou conta de mim a abrir janelas, sem vergonha do pó, das teias de aranha, dos baús fechados, de uma casa que mora em mim, arredada de todos os quarteirões, ainda assim, dentro da cidade, dentro de portas, dentro de paredes grossas que ninguém vê. Habituei-me a fazê-lo desde aquele dia em que puseram em causa o meu futuro. O meu e o dos outros. Só acreditei realmente quando vi o tapete das mentiras; um longo tapete vermelho, retirado dos filmes e lá ao fundo, a promessa de um Óscar, se não saísse da linha. Do tapete vermelho, é claro.
De dia, habito um edifício cá fora, uma estrutura gigante, com vários andares e pessoas, que trabalham como eu. Circula-se ali como noutro sítio qualquer; temos ideia uns dos outros - no fundo o que cada um quer a dar a conhecer de si próprio– e lá nos posicionamos de forma confortável. À espera do dia seguinte, de outro e de outro, até completar um ciclo. Depois uma pausa. Breve, outra longa. Abraçando uma rotina segura, de linhas definidas.


Já me disseram o que vai acontecer; abri janelas, como já disse, vejo caras à minha frente, de ânimos sobressaltados, uns exaltados, outros apreensivos. De repente, partimos todos do zero, unidos por um problema comum. Não há obstáculo que seja intransponível, quando ninguém quer acatar o que vem aí. As palavras ocultam mil sentidos, inscritas num jogo. Palavras cruzadas, descubra você as diferenças; o gato atira-as para o ar subestimando o rato amedrontado, que acordou tarde, mas que mesmo assim se agarra à toca. Atrás está a esperança a puxar todos para a frente; tem mangas arregaçadas, coloca-se na linha de partida, pronta para a maratona que vem aí. Uma maratona ao lado dos gatos pretos, corredores de fundo, experientes e avisados.
Estou na plateia, com o coração aos saltos, há quem seja sensível e prefira não ver, mas eu esbugalho os olhos, tentando antecipar o que vai acontecer. Partida, largada, fugida. Os prédios estão fechados, a cidade deserta. Está tudo em praça pública, a assistir ao desfecho da corrida. Esperança ou gato preto?



Anoitece a passos largos e estou meio estonteado a ver os concorrentes às voltas no estádio; ainda ninguém desistiu, mas nem consigo perceber bem; os gatos pretos confundem-se com a noite, podem até abalroar a esperança e deixá-la para trás. Ninguém vai ver.
Olho à volta e o estádio começa a ficar deserto. Ao longe, a cidade volta a ganhar vida; as luzes acendem-se, os carros partem, as pessoas cansam-se do espectáculo a que prometeram assistir. Sobretudo as da equipa da esperança. Quando alguém lhes pergunta sobre o evento, confessam-se entediadas com tanta volta. Que não participaram, porque não havia nada para participar, não bateram palmas, nem gritaram pela equipa.
Está escuro naquele estádio, longe de tudo. A esperança está sozinha, sentada a um canto, esbaforida com a longa prova. Quando lhe tento tocar, para a confortar, some-se-me entre os dedos, sem um único gemido.




Chego a casa já tarde, ainda esta de janelas abertas, em corrente de ar, tal como a tinha deixado de manhã. Passo a arejar a casa durante todo o dia; quando o tempo está bom, durmo assim, em contacto directo com o ar. Amanhã não sei o que vai acontecer, mas com tanta janela aberta, não me importa; mais espirro, menos espirro, tudo acaba por passar.

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