quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Os óculos

Ela ajusta os óculos, querendo ver melhor. Os olhos pestanejam mil vezes por minuto. Entre este desajuste de óculos a descaírem e olhos que franzem sem querer, nasce um gesto brusco, que tira os óculos da cara e esfrega os olhos por muito tempo. Abre-os novamente. Não está, de facto, a sonhar.


A mãe saiu por alguns dias; deixou-a ali, em casa de pessoas simpáticas, que ela mal conhece. O pai fugiu a sério, desta vez, sem avisar ninguém. A mãe usa óculos a três dimensões; protege-se destes e de outros males descobrindo novas perspectivas. Sem nunca pestanejar, segue em frente, mesmo por estrada má. Como filha, não há muito a fazer; é seguir atrás da mãe, evitando os buracos da estrada, tentando não a perder de vista. Os óculos mágicos da mãe vêem a vida a cores, sem ela nunca ter percebido como. Já os experimentou, sem sucesso. A realidade é a mesma, e por ser míope, ainda a vê mais desfocada. Desde que mudou de terra, de escola, de amigos, de morada, nunca mais parou de franzir os olhos, nem de os pestanejar. A mãe regressa, agradecendo a hospitalidade aos amigos. A filha é educada; não fala, mas é uma companhia agradável, contam estes. É estranho, andar sempre com dois bonecos de peluche dentro do blusão, é quase uma mulher, acrescentam ainda. Uma fase delicada, responde a mãe, a sorrir. Ela é fantástica, vai adaptar-se à nova escola em três tempos. E amigos, existem por toda a parte.


Mãe e filha despedem-se, seguindo viagem até ao futuro mais próximo, num carro atulhado de bagagem. Ainda longe do destino, ela deixa de pestanejar e de franzir os olhos. Os óculos, agora bem colocados, fixam a realidade, de cores vivas.

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