domingo, 10 de fevereiro de 2008

A assembleia



O espaço é neutro, desconhecido para ambas as partes, de utilização multifacetada, de cadeiras alinhadas, com aspecto novo, palco imaculado, as memórias apagadas, as referências misturadas, os espectáculos que aconteceram, as orquestras, os solistas, o teatro da escola, as reuniões, as conferências, a festa de final de período, de final de ano daquela e de outras escolas. Um espaço aberto ao exterior, receptáculo de vários públicos que vêm e vão, alinhados por gosto, por opção e às vezes por carácter obrigatório.
Hoje estão três cadeiras atrás de uma mesa, em cima do palco. Não é nenhuma encenação teatral, nem a imitação da Santíssima Trindade; é a configuração de uma oratória que vai tomar a tarde por inteiro, com toda a legalidade; o poder tomou forma humana e saiu à rua, a querer saber o que se diz por aí. Da falta de ar que circula nos gabinetes nasceu uma deficiência que condiciona actos e procedimentos; ver mais além, além do que a visão humana pode atingir, correr até lá primeiro que os outros, perder os ouvidos pelo caminho, correr, correr, tornar-se sobre-humano neste percurso, adiantar-se no tempo sem lhe pedir licença, tomar o lugar sem o coração se cansar. Já chegaram, o pódio espera-os; cadeiras vulgares, de pó espanado, acolhem mudas e quedas o peso dos juízes de batinas invisíveis e vozes arrogantes.
A reunião começa, com regras na mesa. Há um microfone fixo, de pé alto, em frente de todos, para quem se quer lamentar. As queixas e protestos também devem ser ordenadas, faça-se uma fila e comece-se com as exposições, de forma civilizada. Nome e profissão, a caneta aponta o nome dos sem rosto, que ganham expressão durante escassos minutos. Dúvidas, perguntas, pedidos, esclarecimentos; o supremo júri ouve com os ouvidos desligados, conta minutos perdidos, agarra-se ao mesmo tom de voz, para que ninguém se esqueça de quem é que manda; responde às avessas, jogo de gato poderoso a desprezar ratos imberbes, trolhas desnorteados.
É fim de tarde e o ar está saturado dentro do espaço. As faces da plateia estão rosadas, indignadas, as bocas protestam, mesmo com a voz calada. Alguém diz, em tom oficial, que o diálogo terminou, agradecendo a participação de todos. O desagrado, preso e amarfanhado, sai estonteado, à procura de ar novo.

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