domingo, 17 de fevereiro de 2008

Ano mágico



Dia de aniversário. São quase todos os dias assim. Dias em pleno, repletos de movimento, um mar de prendas, um mar de gente, os pedidos atendidos, os desejos satisfeitos e um horizonte longínquo, aparentemente vazio, com uma luz por agarrar. Os deveres que se vão cumprindo, sem vontade, nem prazer. E a luz a chamar, a chamar. Os gostos que se experimentam, e que cedo aborrecem. A natação, o futebol, a esgrima, a vela, o inglês, a música, os computadores e a escola. Anos a fio, sentado à porta do horizonte longínquo, a admirar o brilho da luz mágica. Um curso por acaso e uma profissão feita à pressa, depois outra, outra e ainda mais outra. Uma casa feita por magia, um tropeço na mulher e nos filhos, a responsabilidade a apertar, o tédio a espreitar e a tentação de regressar ao dia do aniversário, ao monte de prendas recebido, à escuridão de gentes e desejos. Um fio de luz à vista e a partida à descoberta de outros gostos que não se façam desgostos. Sem parar, sem parar. Pelo caminho, os olhares, que aos poucos, largam as prendas, os desejos e as gentes. À frente dele, o horizonte gigante, de tão perto estar. A suar, a suar, a luz que se atinge e se extingue, o horizonte que se desfaz e a surpresa de não existir mais nada para além de ele próprio.

A pausa



O carro acelera, em direcção à capital. Vertiginosamente. Atafulhado em compromissos e tarefas a cumprir, às vezes sobrepostas, aparece ele, no alto das escadas, a arfar, a arfar, como se todos os dias atingisse o topo do destino. “Vamos a isto?” O ritmo cardíaco finalmente normaliza, dentro de um sorriso cristalizado, quase imperceptível. Queimam-se minutos, horas e o dia passa por ele, invisível, fantasma, como todas os outras pessoas que o rodeiam. O regresso a casa deixa-o cansado, ao volante do carro, quilómetros para cumprir, um compasso de espera perigoso, tempo livre que não se adivinha, as ideias a nascerem de todos os cantos, a misturarem-se, desordenadamente. Uma estranha sensação, com ele a desmoronar-se. Um homem feito de cacos. A velocidade aumenta, súbita e bruscamente, interrompendo o pensamento, até chegar a casa. A mesa já posta, o jantar a fumegar, os beijos rápidos, o sorriso máscara, que nada deixa ver, a família em redor e tudo a parecer-lhe muito ao longe, como um ruído de fundo; a algazarra das crianças, a mulher a falar sozinha, a casa enorme, cheia de cantos que ele mal conhece. Um outro dia a nascer, o carro a precipitar-se sobre a estrada, para lá, para cá, as horas a acelerarem dentro dele, a chegada a casa e o ruído de fundo cada vez mais forte, tão forte que se torna insuportável. O sorriso envernizado transforma-se em dor repentina e ele cai, estatelado no chão. As crianças param de brincar e a mulher dá conta do barulho. É assunto sério e ainda desconhecido. Entre hospital e casa, o desagradável episódio é controlado, mas o carro deixa de se fazer à estrada, o ruído de fundo desaparece e ele descobre a família à volta, naquele espaço que lhe parece novo.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

O namoro



Duas crianças falam sobre a vida. Sobre o que aconteceu neste dia e na semana antes. Como os adultos, vão buscar o começo da história, que pode ter sido há mais tempo do que possamos imaginar. Também como os adultos, falam às vezes, dos mesmos assuntos. Hoje falam sobre namoradas; nenhum deles as tem, mas trocam opiniões; ouvem e vêem os adultos, sabem pelos colegas; também estes comentam, a torto e direito, gabando-se de proezas, muitas vezes sem fundamento. Curiosamente, sempre há um ou outro, que, apesar da tenra idade, consegue roubar um beijo e um abraço apertado, à rapariga que passou ao lado. As meninas não são, todavia, indiferentes a esta abordagem; as mais atrevidas escolhem-nos ainda antes de eles as verem. Preparam o terreno, com risinhos e bilhetinhos, e jogam com os rapazes, às vezes, sem dar beijos e abraços. No fim, voltam a brincar com as outras raparigas, às casinhas, aos pais e às mães. “Se calhar é isso”, diz uma das crianças. “Por isso é que elas nos querem abraçar... é para fazer como os pais e as mães.” E responde o outro: “E os que as abraçam, também brincam ao mesmo... que horror, brincar com as meninas!” Ambos se olham e se largam a rir. Afinal, os colegas fanfarrões apenas imitam as brincadeiras das meninas. Vão ser excomungados do clube masculino; proibidos de jogar à bola ou fazer outras tropelias. Ainda por cima, conta uma das crianças, às vezes ficam doentes. O ano passado, o melhor amigo dele abraçou a gorda lá da escola e apanhou varicela. Tudo por causa da gorda. Sentados no sofá, as duas crianças abanam a cabeça, perplexos com os mistérios do namoro.

O pequeno pianista



Conhecem-se há muito tempo. Desde a altura em que ele brincava com o irmão dela, com os carrinhos e soldadinhos enquanto ela conversava com a irmã dele, penteando ao mesmo tempo as barbies da época. Tudo se passava em quartos separados, meninas para um lado, meninos para outro. O rapaz tocava piano no seu quarto, inundando a casa com sons mágicos. Ela ouvia-os, e mesmo a meio de uma conversa mais séria com a amiga, não resistia a interrompê-la e correr ao quarto do irmão, apanhando-o em flagrante. O rapaz corava, mas o música falava mais alto, fazendo-o voar sobre o instrumento, a criar melodias novas, a explorar harmonias diferentes, a revelar-se a si próprio. A irmã continuava no quarto, a vestir a boneca. O som que ouvia era habitual e apenas sinal da presença do irmão. Estranho seria, se ele aparecesse no quarto dela, a falar em voz alta.
O par de irmãos que estavam de visita viam-no descer do banco, sacudir os ombros e num sorriso desajeitado dizer “São umas músicas que ando a inventar. Umas maluquices. Vamos jogar?”
Os anos passam e os fins de semana atravessam tardes em casa de uns e outros, modificando-se as conversas e as brincadeiras, inclusive a do piano, que passa a ser o velho piano e que acaba por se perder no meio de um leilão qualquer. Quando se encontram, conversam à mesma no quarto de cada um, mas já não existem as bonecas os carrinhos, os jogos, os concursos inventados nem o velho piano, fala-se antes de coisas de rapazes e de raparigas, muito em segredo.
Atingindo a idade casadoira, aparecem os respectivos pares, tudo a condizer, o amor, o vestido, a rapariga, o rapaz, a boda e o promissor futuro de uma vida a dois, numa linda casinha, grande e cheia de luz, um ninho acolhedor quase finalizado; sobra a escolha de alguns móveis, cortinados e a hipótese de um piano lá caber, a casa é grande e existe um canto magnífico para tal, a esposa franze o sobrolho, já não se usa, são coisas do século passado, agora há móveis muito mais bonitos, os antiquários, os antiquários, estão cheios de relíquias. O rapaz vestido de homem assume esta nova condição, são vidas que ficam para trás, enterradas num canto sem tabuleta, sente até dificuldade em recordar os dois irmãos que lá iam a casa e os sons que atravessavam as fissuras das portas.
A menina nasce e a esposa continua em casa, à espera que ele chegue, para tratar da criança e de todos os assuntos que ficam por resolver; pergunta-se ele o que andará ela a fazer durante o dia para andar com a cara enjoada e mal disposta, como se o tédio fosse um micróbio contagioso e se tornasse, ainda por cima, doença crónica. O rapaz, de entradas no cabelo mais pronunciadas e de estômago dilatado a aparentar felicidade e bem-estar, age com delicadeza, tornando a doença crónica invisível a qualquer par de olhos, especialmente os da filha. Preocupado com a educação da menina, entra em conflito diplomático com a esposa; a filha vai aprender a tocar piano, música é importante para o desenvolvimento da criança, horror, horror, que barulheira lá em casa, já leste artigos sobre isso? É fundamental. Nunca mais vens para casa, é o espaço para o piano, é a menina a chegar tarde e eu ali à espera de vocês os dois.
Os olhos do rapaz homem encovam-se ainda mais, sob o rosto envelhecido prematuramente. Um dia, a família sai à rua e encontra por acaso a amiga de infância. Ele reconhece-a pelo ar vivo e sorridente, ela caça-lhe a altura e os olhos escuros e pequeninos. Caça-lhe ainda, à socapa, um sorriso cúmplice.
- Há quanto tempo!
- É verdade!
- Estás bem?
- Vai-se andando...
- E a menina? Está tão grande!
- E está a aprender a tocar piano...
- A sério? E tu? Ainda tocas?
O homem encolhe os ombros, a sacudir a tristeza. Salta a tabuleta sem nome sobre o canto atafulhado de pó e terra e enquanto os olhares se cruzam, a terra rebenta sob o ímpeto de um vulcão, até ali adormecido. A amiga despede-se, sentindo que tocou numa corda sensível. Ele continua a andar no mesmo passeio, de mão dada com a filha. De vez em quando, espreita a mulher. Esta conhece a história do vulcão adormecido, adivinhou-a em sonhos, em pequenos sinais que ele dava, vestígios de outra existência. Teve medo, pela primeira vez. Despiu a doença crónica e tudo o que antes considerara aberrante parecia-lhe agora magnífico. Podia, nesta perspectiva, levar uma vida de sonho, à espera deles.
O homem perdeu peso, a altura perdeu-se de vista, o rosto desinchou, evidenciando ainda mais as rugas da cara. A casa é diferente, pela primeira vez; um espaço único sem portas, com as janelas frequentemente abertas. Duas camas de solteiro e um piano. A filha lá de vez em quando, a mexer no piano, a descobrir sons.
Pouco mais.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

A assembleia



O espaço é neutro, desconhecido para ambas as partes, de utilização multifacetada, de cadeiras alinhadas, com aspecto novo, palco imaculado, as memórias apagadas, as referências misturadas, os espectáculos que aconteceram, as orquestras, os solistas, o teatro da escola, as reuniões, as conferências, a festa de final de período, de final de ano daquela e de outras escolas. Um espaço aberto ao exterior, receptáculo de vários públicos que vêm e vão, alinhados por gosto, por opção e às vezes por carácter obrigatório.
Hoje estão três cadeiras atrás de uma mesa, em cima do palco. Não é nenhuma encenação teatral, nem a imitação da Santíssima Trindade; é a configuração de uma oratória que vai tomar a tarde por inteiro, com toda a legalidade; o poder tomou forma humana e saiu à rua, a querer saber o que se diz por aí. Da falta de ar que circula nos gabinetes nasceu uma deficiência que condiciona actos e procedimentos; ver mais além, além do que a visão humana pode atingir, correr até lá primeiro que os outros, perder os ouvidos pelo caminho, correr, correr, tornar-se sobre-humano neste percurso, adiantar-se no tempo sem lhe pedir licença, tomar o lugar sem o coração se cansar. Já chegaram, o pódio espera-os; cadeiras vulgares, de pó espanado, acolhem mudas e quedas o peso dos juízes de batinas invisíveis e vozes arrogantes.
A reunião começa, com regras na mesa. Há um microfone fixo, de pé alto, em frente de todos, para quem se quer lamentar. As queixas e protestos também devem ser ordenadas, faça-se uma fila e comece-se com as exposições, de forma civilizada. Nome e profissão, a caneta aponta o nome dos sem rosto, que ganham expressão durante escassos minutos. Dúvidas, perguntas, pedidos, esclarecimentos; o supremo júri ouve com os ouvidos desligados, conta minutos perdidos, agarra-se ao mesmo tom de voz, para que ninguém se esqueça de quem é que manda; responde às avessas, jogo de gato poderoso a desprezar ratos imberbes, trolhas desnorteados.
É fim de tarde e o ar está saturado dentro do espaço. As faces da plateia estão rosadas, indignadas, as bocas protestam, mesmo com a voz calada. Alguém diz, em tom oficial, que o diálogo terminou, agradecendo a participação de todos. O desagrado, preso e amarfanhado, sai estonteado, à procura de ar novo.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

O caminho das ervas

Caminha alto e curvado, olhos postos no chão, cabelo liso a tapar a cara, caminha entretido consigo, com aquilo que vai fazer, resvala nos outros com delicadeza, tropeça sem querer, mas sem vacilar caminha, a seguir o carreiro das ervas pisadas, das ervas que o protegem de uma vida inteira; enfiado na quinta por gosto, teme a altura do seu corpo, os olhos verdes que vêem tudo, que leram o mundo inteiro que está para trás, os antigos, os outros, os recentes e os demais. São teias que lhe são adversas, universos previsíveis para quem sabe que a história é cíclica e se repete; pinta sonhos e esculpe visões; dentro do perímetro da quinta reinventa a vida, a par dos animais abandonados que vai recolhendo e das plantas que vai mimando.

As pessoas ficam de fora, a bater-lhe à porta. Acenam-lhe e convidam-no a saltar o portão, entre truques e armadilhas, mas é inútil. Apenas ouvem o eco de uma rocha bruta que se aninha em si, bondade que se apregoa, despido de vaidades e defeitos, alvo de respeito mas também de estranheza sentida à distância; ainda bem que é dentro da quinta, apenas a casa, o pomar e o jardim à volta.

Ele caminha, agora mais curvado, por caminhos que sempre fez, longe dos outros, em terra de ninguém. Murcha sem dar conta; desprende-se da fala, o andar é mais lento, já não tropeça mas vacila, quase gentilmente, nas raras ocasiões em que passa por pessoas. Às vezes ainda o chamam, lá de longe, os outros que caminham sem parar. Que salte o portão, dizem. Que olhe em frente. Ou então, que o abra. Está apenas fechado no trinco. O dia está pintado de várias cores, de tão aberto ao sol. Vem ver.


O nariz sopra a melena grisalha sobre o olho verde, que quer correr atrás. Sem sombra de hesitação. As pernas ainda tentam o movimento, mas colam-se ao chão das ervas pisadas, sem dar mais uma passada. Pelo canto, o outro olho ainda vê o grupo de pessoas a afastar-se por ali abaixo, envolto numa nuvem de pó, levantada pela estrada de terra batida.

Os óculos

Ela ajusta os óculos, querendo ver melhor. Os olhos pestanejam mil vezes por minuto. Entre este desajuste de óculos a descaírem e olhos que franzem sem querer, nasce um gesto brusco, que tira os óculos da cara e esfrega os olhos por muito tempo. Abre-os novamente. Não está, de facto, a sonhar.


A mãe saiu por alguns dias; deixou-a ali, em casa de pessoas simpáticas, que ela mal conhece. O pai fugiu a sério, desta vez, sem avisar ninguém. A mãe usa óculos a três dimensões; protege-se destes e de outros males descobrindo novas perspectivas. Sem nunca pestanejar, segue em frente, mesmo por estrada má. Como filha, não há muito a fazer; é seguir atrás da mãe, evitando os buracos da estrada, tentando não a perder de vista. Os óculos mágicos da mãe vêem a vida a cores, sem ela nunca ter percebido como. Já os experimentou, sem sucesso. A realidade é a mesma, e por ser míope, ainda a vê mais desfocada. Desde que mudou de terra, de escola, de amigos, de morada, nunca mais parou de franzir os olhos, nem de os pestanejar. A mãe regressa, agradecendo a hospitalidade aos amigos. A filha é educada; não fala, mas é uma companhia agradável, contam estes. É estranho, andar sempre com dois bonecos de peluche dentro do blusão, é quase uma mulher, acrescentam ainda. Uma fase delicada, responde a mãe, a sorrir. Ela é fantástica, vai adaptar-se à nova escola em três tempos. E amigos, existem por toda a parte.


Mãe e filha despedem-se, seguindo viagem até ao futuro mais próximo, num carro atulhado de bagagem. Ainda longe do destino, ela deixa de pestanejar e de franzir os olhos. Os óculos, agora bem colocados, fixam a realidade, de cores vivas.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

A escuridão



Ela tropeça nele, noite após noite, como uma cega que não chega a tactear; os olhos, cativos noutras paisagens, vêem rostos de contornos indefinidos, reconhecem a cor das calças, da camisola, de raspão a forma do corpo; quando ela chega ele está sentado, quando ela vai, ele fixa-lhe os olhos e diz-lhe boa noite, pregado ainda à cadeira.
Ela tropeça nele, noite após noite, até deixar de ver; os contornos esbatem-se, as cores, as luzes, os rostos, as formas confundem-se com o resto do ambiente; com a cor das cadeiras, das paredes, dos móveis, do ar...
Ela tropeça na escuridão só dela e esgravata, desesperada, a abrir portinholas por onde a vida possa espreitar. De avanços e recuos, vê luzes que a encandeiam e que a fazem vacilar; são momentos em que ri e que partilha com os outros, porém, quando a maré desce, os outros desaparecem e ela volta a apagar-se, sem querer.
Os dias que assistem a esta clausura não têm conta; resta uma pequena esperança, escondida lá bem no canto, de uma varinha mágica que a acorde e a ponha a caminho.
A manhã entra-lhe com força pela janela, um banho de luz inusitado àquela hora, já que vive comprimida entre dois prédios frente a frente, que apenas deixam entrar nesgas de sol. A sala está de cores vivas, o sofá vermelho, as almofadas alaranjadas, as paredes de tons transparentes. Na rua, sem se aperceber, tropeça menos vezes; o andar é firme e ritmado, um vigor súbito invade-lhe o corpo, hoje é dia de passar por ele e, curiosamente, relembra a cor das calças e da camisola, não vê a hora de a luz se despachar dali para fora, para realmente testar a sua cegueira; desenha de memória o rosto dele, nariz pequeno, olhos velados, sorriso entreaberto. Chegou o momento de tropeçar a sério neste rosto vigilante, apesar de a noite ter caído sem lua, ela convida-o gentilmente a sair dali.
Nunca os caminhos lhe pareceram tão claros.

O castelo de cartas



As cartas empilhadas, a fazerem um castelo. Nas ameias, uma vista deslumbrante, para quem a consegue ver. Cá em baixo, um esforço natural para aguentar o castelo em pé. O grupo tem um projecto, datas marcadas, compromissos a cumprir. O castelo é móvel, vai circulando, sem grandes conversas entre as cartas; as de baixo têm de olhar em frente, sob pena de a frágil estrutura se desmoronar, as do meio são estafetas preciosos, transmitem recados nas duas direcções, as de cima são cartas piloto, navegam de sobrolho franzido, mão a fazer de pala, investigam horizontes, tomam decisões. Durante um período considerável, nada parece interferir na harmonia do grupo. Até que um dos pilotos, segundo o estafeta chefe, descobre outras formas de actuação, pensa num projecto diferente e, chegando ao fim do último contrato, dispensa as cartas de baixo, sem se importar com a estabilidade do castelo. “Arranjamos um castelo mais pequeno”, responde. Chocados com o despedimento, as cartas insurgem-se, argumentando a injustiça do mesmo. O piloto-mor, com receio de não controlar esta fase de transição, alicia duas ou três cartas de baixo, que possam servir de futuros pilares de apoio. As cartas vacilam, sofrendo com a falta de lealdade para com os outros e a desunião criada. Numa das últimas digressões, o castelo lá se levanta, arrastando-se para fazer a última exibição. O espectáculo começa, com as famosas acrobacias do castelo de cartas. Trocam de posição, viram-se de costas, fazem o pino, dão cambalhotas, até que, novamente na posição inicial, abanam fortemente a estrutura, despejando os pilotos do alto da torre. Perante o olhar atónito do público, desfazem a formação e retiram-se alegremente, deixando os chefes estatelados no chão.

Óscar e Osório



Alguém disparou um tiro dentro da minha mãe. Luz verde para os espermatozóides, que aguardam, ansiosos, por este momento. Saem da sua caverna ainda o tiro se faz ouvir, atabalhoando-se na corrida, de quem raramente sai em exercício de funções. Os óvulos esperam-nos placidamente do outro lado, com ar negligée a par, desdenhando estes seres pouco capazes. Mais uma vez dispõem-se a fazer a selecção natural e tentar apurar um vencedor.
Óscar e Osório ganham velocidade e voam através dos túneis labirínticos. Para trás ficam milhares de colegas, emaranhados uns nuns outros, lutando titanicamente para se desenredarem daquele lugar. Os treinos são escassos, sem metodologia e organização, deixando o pódio livre aos expeditos, na subida ao triunfo.
Os dois espermatozóides batem às portas blindadas, habitualmente trancadas. A boa educação manda-os insistir, sem obter resposta. Óscar tem uma ideia. “Vamos arrombá-la”, diz para Osório. “Como, se somos tão ínfimos?”, pergunta este, atrapalhado com a situação. “ Temos a vantagem de ter um cérebro maior que o nosso corpo”, responde Óscar, convicto da sua estratégia. “Vens?” Osório abana a cabeça, abandonando o projecto “Não consigo. Tenta tu”. E antes que Óscar reaja, vira-lhe costas, indo de encontro à barafunda dos colegas, que continuam apinhados quilómetros atrás.
Óscar sente-se atraído pelo quente do óvulo, que sai através dos seus poros. Contorna-o, apalpando as suas paredes macias e vulneráveis.
“ Ninguém me impede de entrar pelas traseiras”, pensa. Põe-se em posição de estilete, estica-se e começa a abalroar a casa mãe, em ataques sucessivos. O tecido começa a ceder, ele enfia a cabecinha no escuro, disfarça-se de alfinete e entra lá dentro de vez.
Começo a tremer, sentindo-me a crescer, com o Óscar a fazer parte de mim. Finalmente formo-me, após existir apenas em ideia há tanto tempo. Navego num líquido suave, vejo os meus pés, as mãos, as unhas a ganharem contornos. Ouço coisas, que estão ao longe. Por vezes conversas curtas, gritos entrecortados, fazendo perigar o barco onde me encontro. Existem alturas em que as paredes da barriga mãe se comprimem aos solavancos, durante estes ataques de fúria. O barco fica de repente muito pequenino e a água parece escoar para outros lados. Quase fico sufocada ao longo destes episódios; o que me vale é que sou feita de um Óscar, vencedor nato, que me fez de uma fibra praticamente indestrutível.