quarta-feira, 5 de março de 2008

O Autocarro

Irene anda numa lufa-lufa. O carrapito, mal preso debaixo da touca, teima em espreitar o que ela vai deixando para trás. O lixo empilhado, as cascas de ovo ainda com claras escondidas, que escorrem em fio contínuo, humedecendo as cascas grossas de legumes cortados à pressa. As espinhas do bacalhau, um peixe podre, as gorduras da carne. E os restos da comida de clientes enfartados, mal agradecidos e pouco poupados.
Enverga uma bata e um avental que se orgulha de ser imundo. São as manchas da glória. A glória de uma chefe de cozinha, vivida atrás das cortinas. Um reino discreto, escondido na penumbra.

Mas Irene não vacila. Entra, decidida, logo de manhãzinha, trazendo consigo uma energia contagiante. Trá-la do autocarro, que a traz e que a leva, diariamente. Um pequeno percurso, feito por centenas de pessoas e também por António, o segurança do restaurante. Uma simples coincidência. Os olhares são discretos. Confundem-se com indiferença. Pouco depois, brincam às escondidas. A ver quem consegue olhar sem ser observado. São apanhados. Mutuamente. Com pleno consentimento. Encaram-se, sem rodeios. Sem trocarem palavras. Em cantos opostos do autocarro.
Como dois cúmplices perfeitos.

Do Inverno rigoroso, do frio cortante, do autocarro apinhado, do mundo sonolento, vestido de roupas grossas e escuras, da luz pálida e preguiçosa; nada prevalece, a não ser o entusiasmo dos dois, que apenas se conhecem de passagem.
Descem na paragem habitual e caminham lado a lado até ao restaurante. Apenas durante uns escassos metros. Caminham, desta vez, sem se olharem.
Ele alarga a passada e chega primeiro. Abre-lhe a porta, com delicadeza. Ela agradece, desce as escadas e entra no mundo que lhe pertence.
Os fiéis súbditos esperam-na, atentos às ordens que se vão seguir, durante o longo dia que os espera.

Irene não vacila. Deita mãos ao trabalho e rapidamente transforma a cozinha num pandemónio maravilhoso. Os pedidos não cessam e o barulho, sempre mágico, ecoa através dos tachos fumegantes, das facas que se afiam, da carne que grita, colada à frigideira, das batatas que estalam violentamente, dentro de um óleo sobre aquecido. Barulho feito também de palavras fortes, que correm de boca em boca, a transmitirem ordens sobre uns e outros, atravessando nuvens de fumo e cheiros múltiplos.

Irene continua, serena, a cumprir a sua tarefa. Acumula nódoas no avental, sem parar. Cada uma é medalha à espera de recompensa, até agora, sempre adiada. Talvez seja hoje. Lá para o final do dia.

O movimento vai diminuindo e a luz, pálida de manhã, está outra vez de partida. O fumo desvanece-se, os pedidos acabam e as ordens interrompem-se. A cozinha está novamente com um ar inocente, pronta a ser, mais uma vez, devassada. É hora de partir. Primeiro sobem os empregados e depois Irene, em último lugar. Os degraus são contados devagarinho, parecendo dar tempo a que todos desapareçam. Para que não hajam testemunhas daquele simples percurso.

Cá em cima já só sobra António, que a espera para o fecho da porta. Existem barreiras invisíveis, gigantes, que nenhum deles consegue definir. Os olhos são postos no chão, as bocas, eternamente caladas. Mesmo protegidos pela noite, continuam a caminhar lado a lado, assentes numa cumplicidade estranha, mas de mundos separados. Até que chega o autocarro das multidões, que os leva para casa. De novo estão em cantos opostos e a brincar às escondidas. É um sítio mágico. O único onde arranjam coragem para se conhecerem.

António sai primeiro, em paragem insuspeita. Despede-se com um sorriso nos lábios. Irene vai sempre até ao fim da linha. Mora naquela zona. Sonha um dia ouvir a sua voz, no mesmo banco do autocarro e falar-lhe das suas nódoas no avental, das suas manchas de glória, da sua gente lá em baixo, com ele ali tão perto.







terça-feira, 4 de março de 2008

Dia de chuva



Chuva miudinha. O ar humedecido. Pingos minúsculos, pingos grossos e por fim chuva, chuva torrencial. O piso molhado, os carros a abrandarem, os vidros embaciados, os chapéus virados, o jardim transformado num lago, os bancos de madeira encharcados. Dois jovens sentados. E as pessoas a atravessarem o jardim, apressadas, escondidas no impermeável. A chuva que não pára e os jovens sentados, sem se importarem. Ele está deitado, com a cabeça no colo dela. Ela afaga-lhe o cabelo, sem nada dizer. Cabelo que pinga ainda mais sobre a roupa molhada. Uma senhora passa e observa-os, intrigada. Até ela se deixa ficar, apesar da chuva. Os jovens continuam a trocar festas, alheios aos pingos e ao movimento. A senhora admira-se, do quadro insólito. “ Desculpem, está mesmo frio, vocês estão ensopados. No mínimo, apanham uma valente constipação.” A rapariga levanta a cabeça, espantada. O rapaz levanta-se, sacudindo a água, que se acumulou neles. Os dois parecem apanhados de surpresa. “Confessem... não ouviram a chuva, pois não? Nem tão pouco a sentiram, já estou a ver...” Os jovens abraçam-se, rindo-se das roupas que pingam, dos cabelos colados ao rosto. “Isso é mesmo amor?”, pergunta a senhora. “Bem vê que é!”, responde a rapariga, divertida. “Que outra coisa poderia ser?”, acrescenta o rapaz. “Desejo-vos boa sorte”, diz a senhora, novamente consciente da chuva. O seu passo abranda, ao atravessar aquele jardim. O chapéu fecha-se e o lenço cai do cabelo, sob um sopro de vento. Momentaneamente, a chuva desaparece. São tempos de rapariga que lhe vêm à cabeça. Tempos em que não se podia apanhar chuva no jardim.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Os fiéis súbditos



A vila dorme, pacata e tranquila, de átrios vazios, coretos fantasmas, largos silenciosos, janelas fechadas, persianas corridas. A neblina matinal corre, envolvendo o lugar, policiando o ar, as vistas, espreitando a ausência de movimento. Parece um lugarejo abandonado, assim tão quieto e parado. A neblina sabe que não tarda que a vida venha aí, a disparar por todas as ruas, a invadir os cantos da terra e sobretudo, a afugentá-la dali. É domingo de manhã, manhã que se aclara, que despe o orvalho e que aquece o ar. O padre acordou há muito tempo, despachou as rotinas habituais, vestiu a camisa branca, as calças cinzentas e as velhas sandálias, a mesma roupa de todos os dias, comentam as pessoas, coitado, que mal arranjado, nem gola de padre, nem coisa alguma, lá vai ele, em passo apressado, a atravessar o habitual domingo, a adiantar-se ao relógio da igreja, a preparar a homilia e a receber de braços abertos a população que veste o melhor fato e que espera por aquele momento como dia de festa, uns de convicção sincera, outros, por tradição ou por convívio. Ou apenas por curiosidade em conhecer o padre revolucionário, novo na freguesia, novo de aparência, novo nos hábitos e costumes daquela gente. Porque o padre prega de uma forma humana e bondosa. Porque o seu discurso é profundo e desculpabilizante. Ali, os crentes sentem-se nas alturas, os que merecem e os indignos. São todos filhos de Deus, apesar de alguns cidadãos preferirem o direito à diferença e não entenderem como é que agora são confundidos com os outros. O padre mantém o tom calmo e baixo de voz e finge desconhecer estas hierarquias, dirigindo-se de forma igual a qualquer pessoa e mostrando sempre uma disponibilidade ilimitada para ouvir ou atender a problemas vários que vai tomando conhecimento no decorrer da sua pastorícia. Seja como for, o padre chega à conclusão, ao fim de algum tempo, que também ele tem que estabelecer prioridades na prática do bem, pois na terra, como em qualquer outro sítio, há miséria, pobreza, muita gente desfavorecida e desafortunada. O passo abranda durante a semana, cada vez mais as pessoas lhe pedem ajuda e conforto e o padre não tem mãos a medir, desde acudir aos velhotes que não têm meios de sobrevivência, resolvendo o que está ao seu alcance, pedindo ajuda à população, até passar tardes e tardes com pessoas sós e doentes, intervindo no meio de conflitos e guerras, fazendo a população dar as mãos, mesmo nas horas mais difíceis.
Como esta mania de espalhar e fazer o bem faz confusão a muita gente, sobretudo executada de forma tão singular e misteriosa, não reivindicando nada para si próprio nem falando de si mesmo, o padre começa a chamar a atenção de um grupo de pessoas, pelo simples acto de agir e viver de forma diferente. E eis senão quando, alguém é contratado como um espião, para fazer um relatório sobre as actividades diárias do padre. Até porque não se sabe nada da sua vida; não se abre, nem pede nada, apenas demonstra ter umas estranhas ideias.
O relatório finalmente chega, pejado de informação secreta. O padre não é nenhum criminoso, longe disso, revelam as fontes, mas tem uma mania incrível de se pendurar nas casas das pessoas e fazer-se convidado para almoçar. É aí que ele poupa, com o pretexto que é muito bonzinho, vai-se aproveitando das pessoas e sabe-se lá mais o quê... a má língua alastra, alastra e o padre começa a ser olhado de lado, por aqueles que não conhecem a sua bondade. Alguém mais acirrado resolve interpelá-lo, questionando o seu modo de vida dúbio e ofendendo-o sobre a proveniência do seu sustento. As testemunhas indignam-se com o sucedido; conhecem a actividade do padre e já provaram da sua bondade, não tarda que chamem o resto da população à praça pública em sua defesa, contra um grupo minoritário que pensa expulsá-lo dali para fora. O padre ouve o alarido e acorre à praça, percebendo estar no meio de uma guerra. Entre uns que o aclamam e outros que o vaiam, ele interpõe-se e comenta: “Sei que estais zangados por minha causa. Surpreendentemente, estou em conflito comigo mesmo e no meio dele, quando vos deveria ajudar a resolver os vossos. Agora sou eu que vos peço ajuda: se sair desta freguesia vou desagradar a maioria, se ficar vou descontentar um grupo de vocês. Longe de mim semear a discórdia.”
A população pede contas ao padre: “ Mas afinal, o que é que andas a fazer, enfiado nas casa das pessoas?” E conversam entre eles, sem estarem todos de acordo: “ Qual é o problema? O padre é muito educado, só aceitou por delicadeza. O que é que fazíamos? Almoçávamos à frente dele? Vê-se mesmo que não o conheces! Não acredito! Donde é que lhe vem o dinheiro? O que é que tens a ver com isso?”
O padre propõe-lhes uma solução: “Posso comer em minha casa. Tenho tudo para o fazer. Mas de facto, ando tão afadigado e preocupado convosco que nem penso nisso. Acontece assim, porque são gentis comigo. Mas podemos resolver este assunto de outra forma: irei almoçar a casa de toda a gente, cada dia numa casa diferente. Serei, à semelhança de Deus, omnipotente e omnipresente. O que acham?
A população fica em silêncio durante alguns minutos, até irromper numa enorme gargalhada conjunta. O grupo minoritário aproxima-se e dá uns estalos nas costas do padre, os outros sorriem de longe, acenando-lhe. Apesar de todas as diferenças, o padre despede-se, contente pelo acordo e convicto de que, no meio da barafunda, converteu outras pessoas, perdidas pelo caminho.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

O final do Verão


É quase fim de tarde, quase fim de Verão e as crianças brincam no parque, vigiadas pelos adultos, que aproveitam para fazer uma pausa. Duas mulheres encontram-se, no meio dos risos, dos pulos, da gritaria, das tropelias que correm por ali, no meio dos raios de sol que iluminam, agora já ténues, o amplo cenário. Trocam beijos rápidos sem ousarem tirar os óculos escuros, ambas conhecem de cor as silhuetas, à distância já se tinham reconhecido, uma de cabelo liso preto e franja, sentada no banco do jardim a ajeitar o penteado da filha, o outro filho a subir e descer escorregas, e ela sentada, a observar a segunda mulher que se aproxima, cabelo preto aos caracóis, redonda e baixa, passos curtos e rápidos, a esconder o desagrado atrás dos óculos, um sorriso mudo que lhe estica os lábios até se notar. Um encontro acidental, minutos depois forçado, apenas à espera que as crianças se cansem dos baloiços e das casinhas e que o jardim seja abandonado de vez pela luz do dia.












- Estás boa?
- Vai-se andando...
A mulher dos caracóis fecha-se em resposta monossilábicas e finge contemplar o horizonte, apesar de a outra nunca se calar.
- Então, puseste os miúdos noutra piscina? Fizeste mal, esta é muito melhor. Os meus estão a nadar muito bem. São muito competitivos. Os teus, também são assim? Desististe? Que pena. A tua filha tinha jeitinho. Lá estão os nossos miúdos com a mesma professora não é? É um bocadinho mole demais, o meu filho goza com ela e com a matéria, é tudo tão fácil, penso que a professora nem chega a perceber. Estou aflita com os horários, vais ver quando lá chegares, as tuas ainda são novas. Depois vais sentir na pele, é um para cada lado, as actividades extra-curriculares, as actividades ao Sábado... o meu marido quer desistir, imagina, vai sempre pela solução mais fácil... mas até se faz bem.... é preciso vontade... toma-se o pequeno almoço, lê-se o jornal, espera-se por um e vai-se buscar o outro de seguida. O Rudolfo? Aquele colega dos nossos? Inteligente? Achas? Nunca reparei... bem o meu é fantástico, já te disse, devia estar dois anos à frente... se calhar são este currículos, não estão bem feitos... mas a mãe dele é aflitiva, sempre com medo que lhe aconteça alguma desgraça... os meus são muito mais independentes... enfim... fiz agora uma ecografia de rotina... tanto tempo à espera... não percebem que tenho de dizer no emprego que vou fazer um exame, tento ser discreta e depois espero duas horas para o fazer... de bexiga cheia, é indecente... se está tudo bem? Não sei, parece que sou capaz de ter um problemazito, nada de grave, realmente estou é desorientada com este início de ano lectivo...
A mulher dos caracóis pretos abafa a irritação e aconselha-a a ter calma, que tente resolver um assunto de cada vez e que acima de tudo, vigie a sua saúde. Aliviada por ver a escuridão, despede-se da mulher do cabelo liso e das crianças que fingem não a conhecer.
O ano lectivo decorre, sem grandes atropelos. O Verão chega e ainda antes das férias, os pais inscrevem os filhos em actividades para os tempos livres, ganhando tempo para finalmente se juntarem em família e gozarem juntos o merecido descanso.
A mulher do cabelo liso deixou de aparecer, como antes, a consultar as notas dos filhos dela e dos outros, a tecer comentários indevidos à frente de toda a gente e a construir intrigas a propósito do mais ínfimo pormenor.



O Verão ainda dura, quando as férias acabam e as crianças voltam àquele jardim, gozando os últimos cartuchos ainda antes da escola começar. Os adultos estão sentados nos bancos a ler, a conversar, em pé, a observar, a circular, mas a mulher dos caracóis não encontra a mulher dos cabelos lisos. Lembrou-se dela, porque nunca mais a viu ou ouviu aquele monólogo interminável e vazio. Há pouco tempo julgou vê-la, a silhueta era igual, as roupas parecidas, estava rodeada de crianças e metia conversa com as pessoas que estavam mais próximas. Tirou os óculos ao longe e franziu os olhos, sob a luz do sol. Parecia mesmo ser ela. Apressou os passitos curtos e sentiu até uma certa curiosidade. Como estaria? Ao aproximar-se percebeu que se tinha enganado. Era uma franja curta, um cabelo liso, uma cara semelhante. Reconheceu os seus filhos, que brincavam no parque. Voltou para trás sem querer ser reconhecida. O Verão chegava ao fim, de forma diferente. Respirou fundo e pensou que no final de contas, ouvir os monólogos infernais da mulher do cabelo liso não lhe tinha custado assim tanto, pior era ver o ar desalentado com que os seus filhos brincavam naquele dia.

O gato preto

Dou conta de mim a abrir janelas, sem vergonha do pó, das teias de aranha, dos baús fechados, de uma casa que mora em mim, arredada de todos os quarteirões, ainda assim, dentro da cidade, dentro de portas, dentro de paredes grossas que ninguém vê. Habituei-me a fazê-lo desde aquele dia em que puseram em causa o meu futuro. O meu e o dos outros. Só acreditei realmente quando vi o tapete das mentiras; um longo tapete vermelho, retirado dos filmes e lá ao fundo, a promessa de um Óscar, se não saísse da linha. Do tapete vermelho, é claro.
De dia, habito um edifício cá fora, uma estrutura gigante, com vários andares e pessoas, que trabalham como eu. Circula-se ali como noutro sítio qualquer; temos ideia uns dos outros - no fundo o que cada um quer a dar a conhecer de si próprio– e lá nos posicionamos de forma confortável. À espera do dia seguinte, de outro e de outro, até completar um ciclo. Depois uma pausa. Breve, outra longa. Abraçando uma rotina segura, de linhas definidas.


Já me disseram o que vai acontecer; abri janelas, como já disse, vejo caras à minha frente, de ânimos sobressaltados, uns exaltados, outros apreensivos. De repente, partimos todos do zero, unidos por um problema comum. Não há obstáculo que seja intransponível, quando ninguém quer acatar o que vem aí. As palavras ocultam mil sentidos, inscritas num jogo. Palavras cruzadas, descubra você as diferenças; o gato atira-as para o ar subestimando o rato amedrontado, que acordou tarde, mas que mesmo assim se agarra à toca. Atrás está a esperança a puxar todos para a frente; tem mangas arregaçadas, coloca-se na linha de partida, pronta para a maratona que vem aí. Uma maratona ao lado dos gatos pretos, corredores de fundo, experientes e avisados.
Estou na plateia, com o coração aos saltos, há quem seja sensível e prefira não ver, mas eu esbugalho os olhos, tentando antecipar o que vai acontecer. Partida, largada, fugida. Os prédios estão fechados, a cidade deserta. Está tudo em praça pública, a assistir ao desfecho da corrida. Esperança ou gato preto?



Anoitece a passos largos e estou meio estonteado a ver os concorrentes às voltas no estádio; ainda ninguém desistiu, mas nem consigo perceber bem; os gatos pretos confundem-se com a noite, podem até abalroar a esperança e deixá-la para trás. Ninguém vai ver.
Olho à volta e o estádio começa a ficar deserto. Ao longe, a cidade volta a ganhar vida; as luzes acendem-se, os carros partem, as pessoas cansam-se do espectáculo a que prometeram assistir. Sobretudo as da equipa da esperança. Quando alguém lhes pergunta sobre o evento, confessam-se entediadas com tanta volta. Que não participaram, porque não havia nada para participar, não bateram palmas, nem gritaram pela equipa.
Está escuro naquele estádio, longe de tudo. A esperança está sozinha, sentada a um canto, esbaforida com a longa prova. Quando lhe tento tocar, para a confortar, some-se-me entre os dedos, sem um único gemido.




Chego a casa já tarde, ainda esta de janelas abertas, em corrente de ar, tal como a tinha deixado de manhã. Passo a arejar a casa durante todo o dia; quando o tempo está bom, durmo assim, em contacto directo com o ar. Amanhã não sei o que vai acontecer, mas com tanta janela aberta, não me importa; mais espirro, menos espirro, tudo acaba por passar.

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Ano mágico



Dia de aniversário. São quase todos os dias assim. Dias em pleno, repletos de movimento, um mar de prendas, um mar de gente, os pedidos atendidos, os desejos satisfeitos e um horizonte longínquo, aparentemente vazio, com uma luz por agarrar. Os deveres que se vão cumprindo, sem vontade, nem prazer. E a luz a chamar, a chamar. Os gostos que se experimentam, e que cedo aborrecem. A natação, o futebol, a esgrima, a vela, o inglês, a música, os computadores e a escola. Anos a fio, sentado à porta do horizonte longínquo, a admirar o brilho da luz mágica. Um curso por acaso e uma profissão feita à pressa, depois outra, outra e ainda mais outra. Uma casa feita por magia, um tropeço na mulher e nos filhos, a responsabilidade a apertar, o tédio a espreitar e a tentação de regressar ao dia do aniversário, ao monte de prendas recebido, à escuridão de gentes e desejos. Um fio de luz à vista e a partida à descoberta de outros gostos que não se façam desgostos. Sem parar, sem parar. Pelo caminho, os olhares, que aos poucos, largam as prendas, os desejos e as gentes. À frente dele, o horizonte gigante, de tão perto estar. A suar, a suar, a luz que se atinge e se extingue, o horizonte que se desfaz e a surpresa de não existir mais nada para além de ele próprio.

A pausa



O carro acelera, em direcção à capital. Vertiginosamente. Atafulhado em compromissos e tarefas a cumprir, às vezes sobrepostas, aparece ele, no alto das escadas, a arfar, a arfar, como se todos os dias atingisse o topo do destino. “Vamos a isto?” O ritmo cardíaco finalmente normaliza, dentro de um sorriso cristalizado, quase imperceptível. Queimam-se minutos, horas e o dia passa por ele, invisível, fantasma, como todas os outras pessoas que o rodeiam. O regresso a casa deixa-o cansado, ao volante do carro, quilómetros para cumprir, um compasso de espera perigoso, tempo livre que não se adivinha, as ideias a nascerem de todos os cantos, a misturarem-se, desordenadamente. Uma estranha sensação, com ele a desmoronar-se. Um homem feito de cacos. A velocidade aumenta, súbita e bruscamente, interrompendo o pensamento, até chegar a casa. A mesa já posta, o jantar a fumegar, os beijos rápidos, o sorriso máscara, que nada deixa ver, a família em redor e tudo a parecer-lhe muito ao longe, como um ruído de fundo; a algazarra das crianças, a mulher a falar sozinha, a casa enorme, cheia de cantos que ele mal conhece. Um outro dia a nascer, o carro a precipitar-se sobre a estrada, para lá, para cá, as horas a acelerarem dentro dele, a chegada a casa e o ruído de fundo cada vez mais forte, tão forte que se torna insuportável. O sorriso envernizado transforma-se em dor repentina e ele cai, estatelado no chão. As crianças param de brincar e a mulher dá conta do barulho. É assunto sério e ainda desconhecido. Entre hospital e casa, o desagradável episódio é controlado, mas o carro deixa de se fazer à estrada, o ruído de fundo desaparece e ele descobre a família à volta, naquele espaço que lhe parece novo.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

O namoro



Duas crianças falam sobre a vida. Sobre o que aconteceu neste dia e na semana antes. Como os adultos, vão buscar o começo da história, que pode ter sido há mais tempo do que possamos imaginar. Também como os adultos, falam às vezes, dos mesmos assuntos. Hoje falam sobre namoradas; nenhum deles as tem, mas trocam opiniões; ouvem e vêem os adultos, sabem pelos colegas; também estes comentam, a torto e direito, gabando-se de proezas, muitas vezes sem fundamento. Curiosamente, sempre há um ou outro, que, apesar da tenra idade, consegue roubar um beijo e um abraço apertado, à rapariga que passou ao lado. As meninas não são, todavia, indiferentes a esta abordagem; as mais atrevidas escolhem-nos ainda antes de eles as verem. Preparam o terreno, com risinhos e bilhetinhos, e jogam com os rapazes, às vezes, sem dar beijos e abraços. No fim, voltam a brincar com as outras raparigas, às casinhas, aos pais e às mães. “Se calhar é isso”, diz uma das crianças. “Por isso é que elas nos querem abraçar... é para fazer como os pais e as mães.” E responde o outro: “E os que as abraçam, também brincam ao mesmo... que horror, brincar com as meninas!” Ambos se olham e se largam a rir. Afinal, os colegas fanfarrões apenas imitam as brincadeiras das meninas. Vão ser excomungados do clube masculino; proibidos de jogar à bola ou fazer outras tropelias. Ainda por cima, conta uma das crianças, às vezes ficam doentes. O ano passado, o melhor amigo dele abraçou a gorda lá da escola e apanhou varicela. Tudo por causa da gorda. Sentados no sofá, as duas crianças abanam a cabeça, perplexos com os mistérios do namoro.

O pequeno pianista



Conhecem-se há muito tempo. Desde a altura em que ele brincava com o irmão dela, com os carrinhos e soldadinhos enquanto ela conversava com a irmã dele, penteando ao mesmo tempo as barbies da época. Tudo se passava em quartos separados, meninas para um lado, meninos para outro. O rapaz tocava piano no seu quarto, inundando a casa com sons mágicos. Ela ouvia-os, e mesmo a meio de uma conversa mais séria com a amiga, não resistia a interrompê-la e correr ao quarto do irmão, apanhando-o em flagrante. O rapaz corava, mas o música falava mais alto, fazendo-o voar sobre o instrumento, a criar melodias novas, a explorar harmonias diferentes, a revelar-se a si próprio. A irmã continuava no quarto, a vestir a boneca. O som que ouvia era habitual e apenas sinal da presença do irmão. Estranho seria, se ele aparecesse no quarto dela, a falar em voz alta.
O par de irmãos que estavam de visita viam-no descer do banco, sacudir os ombros e num sorriso desajeitado dizer “São umas músicas que ando a inventar. Umas maluquices. Vamos jogar?”
Os anos passam e os fins de semana atravessam tardes em casa de uns e outros, modificando-se as conversas e as brincadeiras, inclusive a do piano, que passa a ser o velho piano e que acaba por se perder no meio de um leilão qualquer. Quando se encontram, conversam à mesma no quarto de cada um, mas já não existem as bonecas os carrinhos, os jogos, os concursos inventados nem o velho piano, fala-se antes de coisas de rapazes e de raparigas, muito em segredo.
Atingindo a idade casadoira, aparecem os respectivos pares, tudo a condizer, o amor, o vestido, a rapariga, o rapaz, a boda e o promissor futuro de uma vida a dois, numa linda casinha, grande e cheia de luz, um ninho acolhedor quase finalizado; sobra a escolha de alguns móveis, cortinados e a hipótese de um piano lá caber, a casa é grande e existe um canto magnífico para tal, a esposa franze o sobrolho, já não se usa, são coisas do século passado, agora há móveis muito mais bonitos, os antiquários, os antiquários, estão cheios de relíquias. O rapaz vestido de homem assume esta nova condição, são vidas que ficam para trás, enterradas num canto sem tabuleta, sente até dificuldade em recordar os dois irmãos que lá iam a casa e os sons que atravessavam as fissuras das portas.
A menina nasce e a esposa continua em casa, à espera que ele chegue, para tratar da criança e de todos os assuntos que ficam por resolver; pergunta-se ele o que andará ela a fazer durante o dia para andar com a cara enjoada e mal disposta, como se o tédio fosse um micróbio contagioso e se tornasse, ainda por cima, doença crónica. O rapaz, de entradas no cabelo mais pronunciadas e de estômago dilatado a aparentar felicidade e bem-estar, age com delicadeza, tornando a doença crónica invisível a qualquer par de olhos, especialmente os da filha. Preocupado com a educação da menina, entra em conflito diplomático com a esposa; a filha vai aprender a tocar piano, música é importante para o desenvolvimento da criança, horror, horror, que barulheira lá em casa, já leste artigos sobre isso? É fundamental. Nunca mais vens para casa, é o espaço para o piano, é a menina a chegar tarde e eu ali à espera de vocês os dois.
Os olhos do rapaz homem encovam-se ainda mais, sob o rosto envelhecido prematuramente. Um dia, a família sai à rua e encontra por acaso a amiga de infância. Ele reconhece-a pelo ar vivo e sorridente, ela caça-lhe a altura e os olhos escuros e pequeninos. Caça-lhe ainda, à socapa, um sorriso cúmplice.
- Há quanto tempo!
- É verdade!
- Estás bem?
- Vai-se andando...
- E a menina? Está tão grande!
- E está a aprender a tocar piano...
- A sério? E tu? Ainda tocas?
O homem encolhe os ombros, a sacudir a tristeza. Salta a tabuleta sem nome sobre o canto atafulhado de pó e terra e enquanto os olhares se cruzam, a terra rebenta sob o ímpeto de um vulcão, até ali adormecido. A amiga despede-se, sentindo que tocou numa corda sensível. Ele continua a andar no mesmo passeio, de mão dada com a filha. De vez em quando, espreita a mulher. Esta conhece a história do vulcão adormecido, adivinhou-a em sonhos, em pequenos sinais que ele dava, vestígios de outra existência. Teve medo, pela primeira vez. Despiu a doença crónica e tudo o que antes considerara aberrante parecia-lhe agora magnífico. Podia, nesta perspectiva, levar uma vida de sonho, à espera deles.
O homem perdeu peso, a altura perdeu-se de vista, o rosto desinchou, evidenciando ainda mais as rugas da cara. A casa é diferente, pela primeira vez; um espaço único sem portas, com as janelas frequentemente abertas. Duas camas de solteiro e um piano. A filha lá de vez em quando, a mexer no piano, a descobrir sons.
Pouco mais.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

A assembleia



O espaço é neutro, desconhecido para ambas as partes, de utilização multifacetada, de cadeiras alinhadas, com aspecto novo, palco imaculado, as memórias apagadas, as referências misturadas, os espectáculos que aconteceram, as orquestras, os solistas, o teatro da escola, as reuniões, as conferências, a festa de final de período, de final de ano daquela e de outras escolas. Um espaço aberto ao exterior, receptáculo de vários públicos que vêm e vão, alinhados por gosto, por opção e às vezes por carácter obrigatório.
Hoje estão três cadeiras atrás de uma mesa, em cima do palco. Não é nenhuma encenação teatral, nem a imitação da Santíssima Trindade; é a configuração de uma oratória que vai tomar a tarde por inteiro, com toda a legalidade; o poder tomou forma humana e saiu à rua, a querer saber o que se diz por aí. Da falta de ar que circula nos gabinetes nasceu uma deficiência que condiciona actos e procedimentos; ver mais além, além do que a visão humana pode atingir, correr até lá primeiro que os outros, perder os ouvidos pelo caminho, correr, correr, tornar-se sobre-humano neste percurso, adiantar-se no tempo sem lhe pedir licença, tomar o lugar sem o coração se cansar. Já chegaram, o pódio espera-os; cadeiras vulgares, de pó espanado, acolhem mudas e quedas o peso dos juízes de batinas invisíveis e vozes arrogantes.
A reunião começa, com regras na mesa. Há um microfone fixo, de pé alto, em frente de todos, para quem se quer lamentar. As queixas e protestos também devem ser ordenadas, faça-se uma fila e comece-se com as exposições, de forma civilizada. Nome e profissão, a caneta aponta o nome dos sem rosto, que ganham expressão durante escassos minutos. Dúvidas, perguntas, pedidos, esclarecimentos; o supremo júri ouve com os ouvidos desligados, conta minutos perdidos, agarra-se ao mesmo tom de voz, para que ninguém se esqueça de quem é que manda; responde às avessas, jogo de gato poderoso a desprezar ratos imberbes, trolhas desnorteados.
É fim de tarde e o ar está saturado dentro do espaço. As faces da plateia estão rosadas, indignadas, as bocas protestam, mesmo com a voz calada. Alguém diz, em tom oficial, que o diálogo terminou, agradecendo a participação de todos. O desagrado, preso e amarfanhado, sai estonteado, à procura de ar novo.