terça-feira, 11 de março de 2008

A Lâmpada de Aladino



Ela navega toda a noite. O ecrã de 20 polegadas apoia-a, incansável, nas buscas mais incríveis que se possam imaginar. Sem dar conta, atira bocejos cá para fora, as pálpebras baixam e o olho dormita: é o corpo em dilema, a magicar: “saio daqui, não saio, é tão tarde... mas espera, isto é interessante... talvez se for por ali ainda consiga descobrir qualquer coisa. Qualquer coisa que me arranque daqui”. Os sites sucedem-se com rapidez; os dedos hábeis percorrem o teclado sem pedir licença, os olhos voam de imagem em imagem, de informação em informação. O pequeno apartamento desaparece do mapa, a cadeira onde está sentada eclipsa-se, a secretária esconde-se. É apenas ela e o computador a girar no Universo. Sonhos que saltam para dentro do ecrã, desejos fundidos, uma luz mágica a encandeá-la, uma slot machine a apitar, a apregoar prémios e de repente o embate na realidade a grande velocidade, com uma pancada seca. É ela, sem travões, aterrada em cima da cadeira que nunca largou, presa no apartamento do qual nunca saiu. “Será isto?” Um chat, um sujeito que tropeça e que se abre; interesses em comum, simpatia, empatia virtual, o chat continua nessa noite, nas outras que se seguem e a impressão mantém-se na cabeça dela: “Pode ser que se esteja a vestir de alma gémea, pode ser que não, nunca o saberei se continuarmos a navegar nas marés altas do ecrã.” Falta uma fotografia para consolidar o sonho; ela publicou uma no chat, ele esquivou-se sem razão aparente, mesmo assim ela arrisca e combina um encontro numa bomba de gasolina anónima, longe das casas de um e de outro, longe de dizerem a quem quer seja onde vão naquele dia.
Faz sol. Dia brilhante, céu destapado, a afundar-se em azul a perder de vista. Longe do breu da noite, do brilho do ecrã, dos flashes de luzes que vêm de todos os lados. Terreno firme, a bomba da gasolina, o posto de abastecimento, a normalidade a passear-se por aquelas bandas. E ela dentro do carro, motor a trabalhar, encostada à berma, de coração aos pulos, as mãos que se esfregam no volante, para cima para baixo, os músculos que tremem, a cara com manchas.
Ele chega numa carrinha e descobre-a facilmente; encosta atrás e sai, a anunciar perna curta, cara disforme num sorriso prometedor; ela observa-o pelo retrovisor; o sangue parece que se encolhe dentro do corpo, é uma palidez súbita que a invade e lhe corta a fala, vai ter que se esforçar para que ele não pense que é muda, são coisas que não se percebem nos chats, a palavra é rainha e o mistério é rei.
O sorriso aparece-lhe à frente e o corpo pequeno dissimula-se, sentado no carro. As palavras nascem, como no chat. E são iguais, tão iguais que ela fica impressionada. Conhece os temas de cor, foram noites a fio a esmiuçá-los. Hoje é igual, apenas é de dia e é cara a cara. O cenário muda, o carro avança em direcção à montanha que observa o mar. O vento ali é forte, a vegetação é rasteira, de tanto se agachar ao sopro que ruge.
O fim de tarde é magnífico, embora eles não se apercebam. Ela tem a cara tapada pelos cabelos que voam sem dar tréguas. Ele fala mais alto que o vento, sem receio de espalhar segredos. O sol desce rapidamente, alaranjado, avermelhado, até se extinguir.
Naquela tarde, as horas deixam de ter importância.
O vento despede-se e ele convida-a a ir a sua casa. Ela aceita, depois de ter viajado pela vida dele. Já noite dentro, ele quer saber dela, e pela primeira vez, ouve que tem um filho a cargo, a mãe doente, um cão e um papagaio. Ele baixa os braços, abana a cabeça e confessa-lhe: “Assim, não serves. Procuro alguém totalmente livre, que me compreenda e se me dedique. Lamento.”
Ela volta a ficar sem fala, despede-se, conseguindo ainda articular um “Obrigada”.
Meses mais tarde, recebe um e-mail dele, dizendo que finalmente tinha realizado o seu sonho; primeiro dentro do ecrã e depois à beira daquele penhasco sobre o mar: uma mulher livre, que tinha abraçado o seu corpo pequeno e beijado a cara disforme. Mesmo com os cabelos nos olhos, mesmo no meio do vento.

quinta-feira, 6 de março de 2008

O senhor X



O cliente nunca mais comprou aquela marca de telemóveis. Não é porque se tivesse aborrecido com a qualidade da assistência, ou até com a qualidade dos próprios aparelhos. Sempre teve um fraco por telemóveis; cada vez que saía um modelo novo, lá estava ele, rente aos balcões da empresa, fiel àquela marca. Nas várias lojas da marca do aparelho, o Sr. X era conhecido como “O maluquinho dos telemóveis”, com direito a tratamento preferencial. Os empregados bulhavam entre si, para o atender, na esperança de caírem nas boas graças do chefe. Encantado com tanta gente à sua roda, o Sr. X não resistia; acabava por levar o melhor telemóvel do mercado, o topo de gama, a melhor relação preço/qualidade. Um dia, o Sr. X tropeça numa revista que lhe desperta a atenção: um retrato de algumas empresas, entre elas, a dos telemóveis. E abre os olhos, chocado: as mulheres estão em maioria, entre os trabalhadores. Os contratos são precários. Engravidam, o que faz baixar os níveis de produtividade. São despedidas, depois de serem mães. Os ordenados parecem baixos. De condições pouco se fala. E de direitos, nem pensar. No entanto, a marca é cotada como uma das melhores no mercado. Pouco tempo depois, o Sr. X entra numa das lojas coloridas da empresa, com um saco de telemóveis que despeja em cima do balcão. Os empregados correm em bando, à procura de explicação: “Mas, Sr. X, são todos novos...” O Sr. X não consegue responder. Fica paralisado com a quantidade de caras que lhe sorriem ao balcão. Os clientes continuam a fazer fila para serem atendidos e os empregados dispersam, retomando as suas tarefas. O “maluquinho dos telemóveis” sai, tão silencioso quanto entrou.

Não queiras acordar



O despertador toca, desabotoando o silêncio que se aperta no escuro. Ruidosamente, a interromper sonhos e a esfregar na cara mais uma manhã que nasce. Leva tempo a colar-se à realidade. Ignora o insistente despertador – o seu anjo de guarda – que continua a apitar de cinco em cinco minutos e refugia-se em dupla escuridão, debaixo do edredão.
Gasta o tempo, os minutos, os segundos. Até não poder mais. Umas mãos invisíveis agarram-no e colocam-no defronte ao espelho da casa de banho: pálido, olheirento, cabelo em pé, ar miserável, assim está, inexplicavelmente, todas as manhãs.

Entra no duche, para acordar, de uma vez por todas. Até o sangue retomar os seus habituais circuitos, até o cérebro começar a funcionar. Sai recomposto, disposto a arrancar aquela manhã da rotina de todas as manhãs. Vai ao quarto e abre as persianas. A luz entra, fraca e sem cor, parecendo não derrotar a escuridão.
É uma manhã chuvosa e cinzenta. Os carros deslizam cautelosamente ao som da água, e o vento empurra as pessoas, a querer apressar-lhes os destinos. Veste o impermeável e sai.

A calçada, polida do trajecto diário, recebe-o novamente, escorregadia da chuva insistente. Agarra-a com as botas de sola de borracha e inicia a caminhada, com os sentidos atentos.
A pedinte da esquina continua a estender o braço, indiferente ao bater da água. Encharcada até aos ossos, ali fica, sem procurar abrigo. Apenas de mão esticada, à espera de não receber nada. Como um vício que não se explica, mas que a manda fazer de estatueta naquele sítio.
Uns metros mais à frente, esbarra-se na fruta fresca e hortaliças viçosas do Senhor Manuel. Já nem dos preços altos se podem queixar, quem pode competir com as grandes superfícies? Resta o sorriso cansado, o bom dia a cada instante.

Continua, encolhido no impermeável. A chuva retoma o seu ritmo, desta vez enfurecida, a furar a calçada e a derreter o alcatrão com os seus fios de água aguçados. Entra no café logo à frente, esperando que a sua ira se apazigue. Fica espantado com a mudança. O Senhor Costa tinha trespassado o café e agora o espaço estava transformado; obras feitas, o pré-pagamento a recebê-lo, o balcão corrido cheio de gente e uma série de empregados pouco amáveis, mas eficientes. Bebe o café, come um queque e sai, atordoado.

Já se vê uma nesga de céu azul, embora as nuvens ainda o aprisionem. Os primeiros raios iluminam com esforço a avenida larga. Pouco depois os transeuntes voltam aos passeios e os carros retomam o seu ritmo habitual, sem se preocuparem com o piso ainda molhado.
Obedece aos semáforos e atravessa a primeira passadeira. A segunda, ainda longe, tem os sinais intermitentes. Os carros passam, ligeiros, por nunca verem o vermelho. O laranja confunde-se com o verde, avaria no sistema ou não, o peão fica entregue a si próprio, desprotegido, corpo exposto a passar rapidamente, com sorte alcança o outro lado, são e salvo, orgulhoso da habilidade do dia.

Ela está a uns metros de distância. Deixa-se guiar pela fiel bengala, que tacteia incansavelmente todo o pedaço de chão por onde passa. Os ouvidos protegem-na, avisando-a do perigo iminente. Espera pelo silêncio. Espera pelo seu verde, espera que os motores se aquietem. Não chega a confirmar essa interrupção. Ouve passos rápidos, para trás, para a frente e o barulho dos carros, de motores vigorosos, a passarem à beira dela, os cabelos no ar, as saias assopradas.
Ele percebe que ela vai arriscar.

A distância entre os dois desaparece, assim que ela ousa dar o primeiro passo em falso. O carro que se aproxima, doido de velocidade, precipita-se sobre a passadeira. Ele lança-se no ar e cai em cima dela, conseguindo arremessá-la uns metros à frente. A travagem vertiginosa, os pneus a chiarem, a pancada seca, o corpo projectado para longe. No espaço de escassos segundos. E no fim, o verdadeiro silêncio, perturbado apenas pelo fumo e o cheiro a queimado.

Acorda enrolado em tubos, numa cama branca, com lençóis brancos, no meio de gente vestida de branco. Dorido no corpo inteiro, sem perceber porquê. As cabeças inclinam-se, com curiosidade. De mais não se lembra, a memória fica suspensa no tempo, no Senhor Costa em debandada, no Senhor Manuel, o eterno resistente, a pedinte na esquina e a calçada molhada.

Ela entra sem ver nada. Coxeia discretamente, apoiada na bengala. Traz contusões ligeiras, o trauma da pancada e a família poderosa atrás, a querer saber dela e do salvador.
Ele ouve os toc-toc de quem abre caminho e vira a cabeça, contrariando o movimento dos tubos. Respira com dificuldade, partido em vários sítios, lesões profundas, a vida mais atrapalhada do que nunca. Vê-a e lembra-se da silhueta na passadeira. Cabelos lisos escuros, os óculos de sol de aros grossos, a gabardina bege, a camisola de gola alta preta e o ar impaciente, de quem não espera.
Pára à beira da cama, sorri-lhe, ignorando o estado dele. Os brancos retiram-se, recomendando à rapariga que a visita tem que ser curta.
– Vinha-lhe agradecer...
Ele fixa-a, aflito. Depois da passadeira, não tinha acontecido mais nada.
– Mas de quê?
– De me ter salvo!
– Deve estar a falar com a pessoa errada...
– Estou-lhe a dizer... você estava lá... toda a gente disse...
Volta à passadeira, lembra-se dos carros que aceleravam, ao ver o sinal intermitente. Lembra-se dela, aflita, tacteando uma pausa entre o barulho dos motores. Depois o desespero e o salto no abismo. Dela e dele. E finalmente percebeu. O barulho da pancada, agora as dores e o corpo partido.
– Ah, é a rapariga da passadeira...
– Já se lembra... se não fosse você, não estaria aqui, tranquilamente... agora descanse...

Ela sai, sem perceber que ele adormece, ao som das suas poucas palavras.
No dia seguinte e nos outros que lhe seguiram a rapariga visita-o. Traz sempre algo com ela. Uma flor, um livro, umas palavras de ânimo.

O tempo resolve passar, sem querer ajudar. Saudades da casa, do despertador, do escuro, da luz, de si, miserável todas as manhãs. Das ruas que palmilhava diariamente, da gente com que falava, dos cafés que frequentava. Do emprego invisível, a que corria atrás todas as manhãs. Das pernas que não queriam voltar a andar.
Deixa o hospital, excedendo o tempo limite de permanência. Conta paga por mãos alheias. Mãos invisíveis, que passam a tomar conta dele.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Carta a um defunto



As praias desertas continuam nossas. Lembras-te? Escapulias-te à pressa, tu, eu, também, num chorrilho de mentiras a empurrar-nos para lá dos limites. Início da adolescência? Não quero mentir. Sentia-me já bem desperta, por sinal, crescida, porque não, tão crescida como aquelas árvores centenárias, que guardavam a nossa paisagem. Vimos os nossos corpos dentro das ondas, a quererem tocar-se, primeiro a medo, depois com naturalidade. Tu de peito liso, bigode por semear, imberbe encantador, gracejavas do meu corpo por compor, até que o foste arranjando, muito devagarinho e eu a ti e por fim nos fundimos, talvez cedo demais, não importa, para nós foi decisão acertada.
Fizemos juras, tecemos planos, vivemos em segredo. Durante anos. Sempre um do outro.
Mudámos de paisagem, mudámos de continente. Atraiçoámos as praias, o mar, a paisagem que tão bem nos conhecia. Trocámos de mundo. Aproximámo-nos dos outros. Arranjaste um emprego modesto, eu também. Apesar de tudo, continuava sempre a viver numa dimensão extraordinária. Bastava estares ao meu lado. Mesmo quando estava prestes a acinzentar-me e a perder a coragem para enfrentar uma vida sem eco, lá vinhas tu, a colorires-me com o teu sorriso, a ergueres-me do chão com graça, a enterrares-me num abraço que parecia não ter fim. Pintavas-me num quadro, com cores vivas, eu olhava-me e lá estávamos nós, nas praias desertas, tu de barba rija, corpo forte, eu de peito abundante no meio das outras formas.
Vieram as crianças. Primeiro uma, depois um e ainda outra. Continuavas a beijar o meu corpo de alto a baixo, apesar de quereres uma vida melhor, ambição a crescer, em detrimento das coisas simples.
Entretanto, eu continuava a pintar a vida. Sempre gostei de o fazer. Os meus quadros eram realmente a sério. Até fiz algumas exposições. Podia ter corrido melhor, o tempo era pouco, as crianças começaram-nos a absorver muito.
Aos poucos deixámos de falar. Evitámos, até. Julgámo-nos protegidos pelas nossas praias. Começámos a contornar os desafios, as chatices, as arrelias e por fim as tristezas, com uma perícia inigualável.
A minha lembrança dos tempos idos começou a esbater-se. Não havia fotografias da época. Apalpei a tua memória, tentando recolher provas da nossa outra existência. Respondeste-me com ar vago e distante que tinha sido maravilhoso, único, como é que eu poderia estar tão esquecida? E entre beijos fogosos e festas perturbadoras disseste-me teres sido promovido a director de uma firma importantíssima, agora até poderíamos voltar à nossa terra, àquele continente distante, recuperar o tempo e a originalidade dos nossos seres.
Fizemos a viagem os dois. As praias continuavam sozinhas, à espera de alguém. Aparecemos, irreconhecíveis. Não houve convite por parte das ondas, antes um mar calmo, apático, à mercê da nossa presença. As árvores tinham crescido ainda mais, alargando a sua sombra, mas, estranhamente, tolhiam-se à nossa passagem, deixando o sol abrasador penetrar e quase incendiar os nossos corpos, desabituados há muito, daquele clima. Permanecemos em silêncio, por instantes. A certa altura, ficaste irritado com o confronto e disseste-me, com ar impaciente:
– O que fazemos aqui?
– Não sei. Dantes gostavas muito.
– Foi há muito tempo…
– És o mesmo… cresceste aqui, comigo…
Surpreendeste-te. Afinal quem eras tu?
Regressámos, desiludidos. Eu, porque tive a certeza que não delirava ao longo dos meus dias solitários, apenas confirmava as minhas suspeitas; tu, porque percebeste que estavas perdido.
À medida que o avião se aproximava da terra de eleição, aliviaste o semblante, sorriste, passaste-me a mão pelo cabelo e continuaste devagarinho pelas costas, insinuando outros caminhos. Em pleno avião. A prometer, no mínimo, que todo o pingo de gelo se derreteria à nossa passagem, todo o gato-sapato morreria de inveja da nossa fusão.
Conversaste, animadamente. Parecias outro. Colaborei, novamente, acreditando na mudança. Talvez fosse da terra, do ar, do clima, das gentes. Porque não?
Pousamos as malas, descuidadamente. Senti o aeroporto inóspito, cheio de correntes de ar viciadas, apesar de os miúdos nos terem assaltado em grande velocidade, em pulos radiantes, com as suas mãozinhas a enlaçarem-nos, a gritarem-nos baboseiras aos ouvidos, que ecoavam para além dos intermináveis corredores. Pareciam dizer «não fujam, por favor!». Foi um sufoco maravilhoso.
Tu revigoravas a cada minuto, eu, ao invés, apagava-me aos poucos, acabrunhada por sensações estranhas, que me invadiam sistematicamente.
A partir daí, nunca mais te encontrei.
A vida recomeçou, num faz de conta insuspeito, mais que não fosse, para mostrarmos às crianças que o fiel da balança nunca vacilava. As oscilações não passavam de uma temática absurda, quando aplicada às nossas vidas.
Ao longo desta proximidade ‘faz-de-conta’ aprendi a identificar os novos sinais que emitias, depois de teres vestido outro fato. Confesso que tive momentos em que quase amei o ‘Senhor Enigmático’, bem vestido e perfumado, homem galanteador, de aparência perfeita, cuja vida fantástica eu desconhecia, que me enviava postais curtos e secos, de sítios encantados, inacessíveis, como ele. Essa distância transformou-me, a certa altura, num ser pequenino. Ansiava obsessivamente pelo dia em que chegasses e até lá, anestesiava o cérebro.
Deixei de pintar, deixei de pensar. Mirrei ao ponto de pensar que não existia. Não deixei entrar nada. Nem sair. Um único afecto. E as sensações, nem sei se me pertenciam, se eram dos outros.
Chegaste num curto intervalo, à beira de mim, numa excitação nova. Circulaste em frenesim, todo o serão. Porém, os teus olhos evitavam-me. Disfarçaste, como de costume. Uns beijos forçados, uns afagos esquivos, adiaram a questão. E por fim confessaste. Estavas apaixonado. Incrivelmente apaixonado. E visivelmente emocionado, continuaste, afirmando que eras um ser original, que eram dois, os objectos da tua paixão desenfreada. Eu e outra. Que fazer?
Passaram-se meses e a nossa vida mudou. Continuaste a ir jantar lá a casa; coitados dos miúdos, estranhariam, se não o fizesses.
Mantiveste a promessa de ouro, que garantia a vida dos pequenos: a prestação dos colégios, a assistência na doença, as viagens, um beijo na testa à chegada e outro à saída, o pai adora-vos, nunca se esqueçam.
Devagarinho, redescobriste novos encantos no lar. Presumi que a situação no outro lado havia esmorecido. Na realidade, continuavas a detestar estar sozinho.
Trepaste pelas minhas pernas acima e ‘ronronaste’, verdadeiramente arrependido, «mea culpa, mea culpa…» não passava de um desvio à norma e não havia nada nesta vida que não contemplasse as suas excepções.
Foi neste clima, e com o meu consentimento de última hora, que regressaste, de cabeça baixa, lábios caídos, gravata torta, cabelo desalinhado, mas de olho inquieto, desta vez, para empreendermos viagem até ao Inferno.
De início, os serões foram fielmente cumpridos lado a lado, embora estivesses provavelmente escondido atrás das grandes árvores, a ver-me banhar nas águas calmas que o calor tropical amaciava. Esperaste sempre que eu desaparecesse e deixasse que o mar te apaziguasse e provavelmente te levasse, para parte incerta.
Nunca estivemos tão longe um do outro, como naqueles serões.
A vida profissional retomou, entretanto o seu curso normal. Compromissos inadiáveis, reuniões intermináveis, viagens frequentes às terras de ninguém. E novamente, a tempestade de mentiras, que nunca acabava.
Arranjei uma concha ainda maior e deitei-me lá dentro, quietinha. Pouco depois, descobriste que padecias de um mal irreversível, confirmado por exames minuciosos.
Extinguiste-te rapidamente, sem dar tempo de nos refazermos da cruel verdade. Talvez a única verdade em ti, depois de tantos anos.
Chorei amargamente a tua perda, sem contudo ter ficado intrigada com a mulher jovem, que ao longo das exéquias, se mostrava inconsolável, lutando incansavelmente por controlar o desespero, estampado no rosto, nos olhos assustados e no corpo trémulo.
Reuni os teus objectos pessoais e olhei para o telemóvel. Esteve sempre à tua cabeceira, no hospital, na recta final. As últimas chamadas, as últimas mensagens…
Senti um calafrio. Estaria a ser injusta?
Atrevi-me a violá-lo. Violei-te, sim, já quando estavas morto. Se não fosse assim, nunca o teria sabido. Palavras de amor. Mesmo débil, parecias iluminado. A voz tremia, de emoção, as palavras eram espaçadas, mas arrancadas ao teu âmago. Nunca tinha ouvido nada assim.
Afinal, sempre tinhas voltado às praias desertas…





Os sonhos

“Não escolhemos os sonhos”, diz o menino à mãe. “Nem conseguimos controlar a forma como eles se misturam... São tal e qual uma manta de retalhos. Bocados do dia, sem relação uns com os outros, a participarem numa história, às vezes sem princípio e sem fim, mas uma história na mesma. Estranho... e sabes? Às vezes surgem personagens desconhecidos, bonecos animados na escola, na carteira ao lado da minha. Dizem e fazem coisas que eu já vi, ouvi e se calhar li, não sei muito bem aonde. Coisas mais antigas. Pessoas que já não existem. A avó, por exemplo. No outro dia, levou-me ao parque, com a idade que tenho agora. Pegou-me na mão como se tivesse dois anos. Esse sonho fechou-se, antes de eu sair do parque. E nunca mais a vi. Ontem, misturei-me com os meus amigos e outros meninos que conheço de vista. Brincámos todos com os meus heróis que vivem nos jogos. A música não foi excepção. Visitou-me também, quando estava na sala de aula. Multiplica quatro colcheias por três fusas. A professora cantou, quando me pôs o problema. Absurdo, não é?” A mãe sorri, abanando a cabeça afirmativamente. A criança continua, intrigada: “Nos meus sonhos passam-se histórias diferentes daquilo que realmente vivi. Umas agradam-me, outras não. Mas é o único lugar onde tudo é possível e confesso-te, é muito divertido. Mesmo assim, gostava de poder escolher um sonho, de vez em quando. Afinal, sempre são pequenos filmes, onde sou actor principal. Por ser surpreendido, acordo meio zonzo e saio estremunhado da cama. Levo sempre algum tempo a desfazer-me dos sonhos. Se hoje pensar todo o dia no sonho que quero ter, provavelmente o meu desejo vai realizar-se. E amanhã já não vou chegar atrasado à escola.”

O Autocarro

Irene anda numa lufa-lufa. O carrapito, mal preso debaixo da touca, teima em espreitar o que ela vai deixando para trás. O lixo empilhado, as cascas de ovo ainda com claras escondidas, que escorrem em fio contínuo, humedecendo as cascas grossas de legumes cortados à pressa. As espinhas do bacalhau, um peixe podre, as gorduras da carne. E os restos da comida de clientes enfartados, mal agradecidos e pouco poupados.
Enverga uma bata e um avental que se orgulha de ser imundo. São as manchas da glória. A glória de uma chefe de cozinha, vivida atrás das cortinas. Um reino discreto, escondido na penumbra.

Mas Irene não vacila. Entra, decidida, logo de manhãzinha, trazendo consigo uma energia contagiante. Trá-la do autocarro, que a traz e que a leva, diariamente. Um pequeno percurso, feito por centenas de pessoas e também por António, o segurança do restaurante. Uma simples coincidência. Os olhares são discretos. Confundem-se com indiferença. Pouco depois, brincam às escondidas. A ver quem consegue olhar sem ser observado. São apanhados. Mutuamente. Com pleno consentimento. Encaram-se, sem rodeios. Sem trocarem palavras. Em cantos opostos do autocarro.
Como dois cúmplices perfeitos.

Do Inverno rigoroso, do frio cortante, do autocarro apinhado, do mundo sonolento, vestido de roupas grossas e escuras, da luz pálida e preguiçosa; nada prevalece, a não ser o entusiasmo dos dois, que apenas se conhecem de passagem.
Descem na paragem habitual e caminham lado a lado até ao restaurante. Apenas durante uns escassos metros. Caminham, desta vez, sem se olharem.
Ele alarga a passada e chega primeiro. Abre-lhe a porta, com delicadeza. Ela agradece, desce as escadas e entra no mundo que lhe pertence.
Os fiéis súbditos esperam-na, atentos às ordens que se vão seguir, durante o longo dia que os espera.

Irene não vacila. Deita mãos ao trabalho e rapidamente transforma a cozinha num pandemónio maravilhoso. Os pedidos não cessam e o barulho, sempre mágico, ecoa através dos tachos fumegantes, das facas que se afiam, da carne que grita, colada à frigideira, das batatas que estalam violentamente, dentro de um óleo sobre aquecido. Barulho feito também de palavras fortes, que correm de boca em boca, a transmitirem ordens sobre uns e outros, atravessando nuvens de fumo e cheiros múltiplos.

Irene continua, serena, a cumprir a sua tarefa. Acumula nódoas no avental, sem parar. Cada uma é medalha à espera de recompensa, até agora, sempre adiada. Talvez seja hoje. Lá para o final do dia.

O movimento vai diminuindo e a luz, pálida de manhã, está outra vez de partida. O fumo desvanece-se, os pedidos acabam e as ordens interrompem-se. A cozinha está novamente com um ar inocente, pronta a ser, mais uma vez, devassada. É hora de partir. Primeiro sobem os empregados e depois Irene, em último lugar. Os degraus são contados devagarinho, parecendo dar tempo a que todos desapareçam. Para que não hajam testemunhas daquele simples percurso.

Cá em cima já só sobra António, que a espera para o fecho da porta. Existem barreiras invisíveis, gigantes, que nenhum deles consegue definir. Os olhos são postos no chão, as bocas, eternamente caladas. Mesmo protegidos pela noite, continuam a caminhar lado a lado, assentes numa cumplicidade estranha, mas de mundos separados. Até que chega o autocarro das multidões, que os leva para casa. De novo estão em cantos opostos e a brincar às escondidas. É um sítio mágico. O único onde arranjam coragem para se conhecerem.

António sai primeiro, em paragem insuspeita. Despede-se com um sorriso nos lábios. Irene vai sempre até ao fim da linha. Mora naquela zona. Sonha um dia ouvir a sua voz, no mesmo banco do autocarro e falar-lhe das suas nódoas no avental, das suas manchas de glória, da sua gente lá em baixo, com ele ali tão perto.







terça-feira, 4 de março de 2008

Dia de chuva



Chuva miudinha. O ar humedecido. Pingos minúsculos, pingos grossos e por fim chuva, chuva torrencial. O piso molhado, os carros a abrandarem, os vidros embaciados, os chapéus virados, o jardim transformado num lago, os bancos de madeira encharcados. Dois jovens sentados. E as pessoas a atravessarem o jardim, apressadas, escondidas no impermeável. A chuva que não pára e os jovens sentados, sem se importarem. Ele está deitado, com a cabeça no colo dela. Ela afaga-lhe o cabelo, sem nada dizer. Cabelo que pinga ainda mais sobre a roupa molhada. Uma senhora passa e observa-os, intrigada. Até ela se deixa ficar, apesar da chuva. Os jovens continuam a trocar festas, alheios aos pingos e ao movimento. A senhora admira-se, do quadro insólito. “ Desculpem, está mesmo frio, vocês estão ensopados. No mínimo, apanham uma valente constipação.” A rapariga levanta a cabeça, espantada. O rapaz levanta-se, sacudindo a água, que se acumulou neles. Os dois parecem apanhados de surpresa. “Confessem... não ouviram a chuva, pois não? Nem tão pouco a sentiram, já estou a ver...” Os jovens abraçam-se, rindo-se das roupas que pingam, dos cabelos colados ao rosto. “Isso é mesmo amor?”, pergunta a senhora. “Bem vê que é!”, responde a rapariga, divertida. “Que outra coisa poderia ser?”, acrescenta o rapaz. “Desejo-vos boa sorte”, diz a senhora, novamente consciente da chuva. O seu passo abranda, ao atravessar aquele jardim. O chapéu fecha-se e o lenço cai do cabelo, sob um sopro de vento. Momentaneamente, a chuva desaparece. São tempos de rapariga que lhe vêm à cabeça. Tempos em que não se podia apanhar chuva no jardim.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Os fiéis súbditos



A vila dorme, pacata e tranquila, de átrios vazios, coretos fantasmas, largos silenciosos, janelas fechadas, persianas corridas. A neblina matinal corre, envolvendo o lugar, policiando o ar, as vistas, espreitando a ausência de movimento. Parece um lugarejo abandonado, assim tão quieto e parado. A neblina sabe que não tarda que a vida venha aí, a disparar por todas as ruas, a invadir os cantos da terra e sobretudo, a afugentá-la dali. É domingo de manhã, manhã que se aclara, que despe o orvalho e que aquece o ar. O padre acordou há muito tempo, despachou as rotinas habituais, vestiu a camisa branca, as calças cinzentas e as velhas sandálias, a mesma roupa de todos os dias, comentam as pessoas, coitado, que mal arranjado, nem gola de padre, nem coisa alguma, lá vai ele, em passo apressado, a atravessar o habitual domingo, a adiantar-se ao relógio da igreja, a preparar a homilia e a receber de braços abertos a população que veste o melhor fato e que espera por aquele momento como dia de festa, uns de convicção sincera, outros, por tradição ou por convívio. Ou apenas por curiosidade em conhecer o padre revolucionário, novo na freguesia, novo de aparência, novo nos hábitos e costumes daquela gente. Porque o padre prega de uma forma humana e bondosa. Porque o seu discurso é profundo e desculpabilizante. Ali, os crentes sentem-se nas alturas, os que merecem e os indignos. São todos filhos de Deus, apesar de alguns cidadãos preferirem o direito à diferença e não entenderem como é que agora são confundidos com os outros. O padre mantém o tom calmo e baixo de voz e finge desconhecer estas hierarquias, dirigindo-se de forma igual a qualquer pessoa e mostrando sempre uma disponibilidade ilimitada para ouvir ou atender a problemas vários que vai tomando conhecimento no decorrer da sua pastorícia. Seja como for, o padre chega à conclusão, ao fim de algum tempo, que também ele tem que estabelecer prioridades na prática do bem, pois na terra, como em qualquer outro sítio, há miséria, pobreza, muita gente desfavorecida e desafortunada. O passo abranda durante a semana, cada vez mais as pessoas lhe pedem ajuda e conforto e o padre não tem mãos a medir, desde acudir aos velhotes que não têm meios de sobrevivência, resolvendo o que está ao seu alcance, pedindo ajuda à população, até passar tardes e tardes com pessoas sós e doentes, intervindo no meio de conflitos e guerras, fazendo a população dar as mãos, mesmo nas horas mais difíceis.
Como esta mania de espalhar e fazer o bem faz confusão a muita gente, sobretudo executada de forma tão singular e misteriosa, não reivindicando nada para si próprio nem falando de si mesmo, o padre começa a chamar a atenção de um grupo de pessoas, pelo simples acto de agir e viver de forma diferente. E eis senão quando, alguém é contratado como um espião, para fazer um relatório sobre as actividades diárias do padre. Até porque não se sabe nada da sua vida; não se abre, nem pede nada, apenas demonstra ter umas estranhas ideias.
O relatório finalmente chega, pejado de informação secreta. O padre não é nenhum criminoso, longe disso, revelam as fontes, mas tem uma mania incrível de se pendurar nas casas das pessoas e fazer-se convidado para almoçar. É aí que ele poupa, com o pretexto que é muito bonzinho, vai-se aproveitando das pessoas e sabe-se lá mais o quê... a má língua alastra, alastra e o padre começa a ser olhado de lado, por aqueles que não conhecem a sua bondade. Alguém mais acirrado resolve interpelá-lo, questionando o seu modo de vida dúbio e ofendendo-o sobre a proveniência do seu sustento. As testemunhas indignam-se com o sucedido; conhecem a actividade do padre e já provaram da sua bondade, não tarda que chamem o resto da população à praça pública em sua defesa, contra um grupo minoritário que pensa expulsá-lo dali para fora. O padre ouve o alarido e acorre à praça, percebendo estar no meio de uma guerra. Entre uns que o aclamam e outros que o vaiam, ele interpõe-se e comenta: “Sei que estais zangados por minha causa. Surpreendentemente, estou em conflito comigo mesmo e no meio dele, quando vos deveria ajudar a resolver os vossos. Agora sou eu que vos peço ajuda: se sair desta freguesia vou desagradar a maioria, se ficar vou descontentar um grupo de vocês. Longe de mim semear a discórdia.”
A população pede contas ao padre: “ Mas afinal, o que é que andas a fazer, enfiado nas casa das pessoas?” E conversam entre eles, sem estarem todos de acordo: “ Qual é o problema? O padre é muito educado, só aceitou por delicadeza. O que é que fazíamos? Almoçávamos à frente dele? Vê-se mesmo que não o conheces! Não acredito! Donde é que lhe vem o dinheiro? O que é que tens a ver com isso?”
O padre propõe-lhes uma solução: “Posso comer em minha casa. Tenho tudo para o fazer. Mas de facto, ando tão afadigado e preocupado convosco que nem penso nisso. Acontece assim, porque são gentis comigo. Mas podemos resolver este assunto de outra forma: irei almoçar a casa de toda a gente, cada dia numa casa diferente. Serei, à semelhança de Deus, omnipotente e omnipresente. O que acham?
A população fica em silêncio durante alguns minutos, até irromper numa enorme gargalhada conjunta. O grupo minoritário aproxima-se e dá uns estalos nas costas do padre, os outros sorriem de longe, acenando-lhe. Apesar de todas as diferenças, o padre despede-se, contente pelo acordo e convicto de que, no meio da barafunda, converteu outras pessoas, perdidas pelo caminho.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

O final do Verão


É quase fim de tarde, quase fim de Verão e as crianças brincam no parque, vigiadas pelos adultos, que aproveitam para fazer uma pausa. Duas mulheres encontram-se, no meio dos risos, dos pulos, da gritaria, das tropelias que correm por ali, no meio dos raios de sol que iluminam, agora já ténues, o amplo cenário. Trocam beijos rápidos sem ousarem tirar os óculos escuros, ambas conhecem de cor as silhuetas, à distância já se tinham reconhecido, uma de cabelo liso preto e franja, sentada no banco do jardim a ajeitar o penteado da filha, o outro filho a subir e descer escorregas, e ela sentada, a observar a segunda mulher que se aproxima, cabelo preto aos caracóis, redonda e baixa, passos curtos e rápidos, a esconder o desagrado atrás dos óculos, um sorriso mudo que lhe estica os lábios até se notar. Um encontro acidental, minutos depois forçado, apenas à espera que as crianças se cansem dos baloiços e das casinhas e que o jardim seja abandonado de vez pela luz do dia.












- Estás boa?
- Vai-se andando...
A mulher dos caracóis fecha-se em resposta monossilábicas e finge contemplar o horizonte, apesar de a outra nunca se calar.
- Então, puseste os miúdos noutra piscina? Fizeste mal, esta é muito melhor. Os meus estão a nadar muito bem. São muito competitivos. Os teus, também são assim? Desististe? Que pena. A tua filha tinha jeitinho. Lá estão os nossos miúdos com a mesma professora não é? É um bocadinho mole demais, o meu filho goza com ela e com a matéria, é tudo tão fácil, penso que a professora nem chega a perceber. Estou aflita com os horários, vais ver quando lá chegares, as tuas ainda são novas. Depois vais sentir na pele, é um para cada lado, as actividades extra-curriculares, as actividades ao Sábado... o meu marido quer desistir, imagina, vai sempre pela solução mais fácil... mas até se faz bem.... é preciso vontade... toma-se o pequeno almoço, lê-se o jornal, espera-se por um e vai-se buscar o outro de seguida. O Rudolfo? Aquele colega dos nossos? Inteligente? Achas? Nunca reparei... bem o meu é fantástico, já te disse, devia estar dois anos à frente... se calhar são este currículos, não estão bem feitos... mas a mãe dele é aflitiva, sempre com medo que lhe aconteça alguma desgraça... os meus são muito mais independentes... enfim... fiz agora uma ecografia de rotina... tanto tempo à espera... não percebem que tenho de dizer no emprego que vou fazer um exame, tento ser discreta e depois espero duas horas para o fazer... de bexiga cheia, é indecente... se está tudo bem? Não sei, parece que sou capaz de ter um problemazito, nada de grave, realmente estou é desorientada com este início de ano lectivo...
A mulher dos caracóis pretos abafa a irritação e aconselha-a a ter calma, que tente resolver um assunto de cada vez e que acima de tudo, vigie a sua saúde. Aliviada por ver a escuridão, despede-se da mulher do cabelo liso e das crianças que fingem não a conhecer.
O ano lectivo decorre, sem grandes atropelos. O Verão chega e ainda antes das férias, os pais inscrevem os filhos em actividades para os tempos livres, ganhando tempo para finalmente se juntarem em família e gozarem juntos o merecido descanso.
A mulher do cabelo liso deixou de aparecer, como antes, a consultar as notas dos filhos dela e dos outros, a tecer comentários indevidos à frente de toda a gente e a construir intrigas a propósito do mais ínfimo pormenor.



O Verão ainda dura, quando as férias acabam e as crianças voltam àquele jardim, gozando os últimos cartuchos ainda antes da escola começar. Os adultos estão sentados nos bancos a ler, a conversar, em pé, a observar, a circular, mas a mulher dos caracóis não encontra a mulher dos cabelos lisos. Lembrou-se dela, porque nunca mais a viu ou ouviu aquele monólogo interminável e vazio. Há pouco tempo julgou vê-la, a silhueta era igual, as roupas parecidas, estava rodeada de crianças e metia conversa com as pessoas que estavam mais próximas. Tirou os óculos ao longe e franziu os olhos, sob a luz do sol. Parecia mesmo ser ela. Apressou os passitos curtos e sentiu até uma certa curiosidade. Como estaria? Ao aproximar-se percebeu que se tinha enganado. Era uma franja curta, um cabelo liso, uma cara semelhante. Reconheceu os seus filhos, que brincavam no parque. Voltou para trás sem querer ser reconhecida. O Verão chegava ao fim, de forma diferente. Respirou fundo e pensou que no final de contas, ouvir os monólogos infernais da mulher do cabelo liso não lhe tinha custado assim tanto, pior era ver o ar desalentado com que os seus filhos brincavam naquele dia.

O gato preto

Dou conta de mim a abrir janelas, sem vergonha do pó, das teias de aranha, dos baús fechados, de uma casa que mora em mim, arredada de todos os quarteirões, ainda assim, dentro da cidade, dentro de portas, dentro de paredes grossas que ninguém vê. Habituei-me a fazê-lo desde aquele dia em que puseram em causa o meu futuro. O meu e o dos outros. Só acreditei realmente quando vi o tapete das mentiras; um longo tapete vermelho, retirado dos filmes e lá ao fundo, a promessa de um Óscar, se não saísse da linha. Do tapete vermelho, é claro.
De dia, habito um edifício cá fora, uma estrutura gigante, com vários andares e pessoas, que trabalham como eu. Circula-se ali como noutro sítio qualquer; temos ideia uns dos outros - no fundo o que cada um quer a dar a conhecer de si próprio– e lá nos posicionamos de forma confortável. À espera do dia seguinte, de outro e de outro, até completar um ciclo. Depois uma pausa. Breve, outra longa. Abraçando uma rotina segura, de linhas definidas.


Já me disseram o que vai acontecer; abri janelas, como já disse, vejo caras à minha frente, de ânimos sobressaltados, uns exaltados, outros apreensivos. De repente, partimos todos do zero, unidos por um problema comum. Não há obstáculo que seja intransponível, quando ninguém quer acatar o que vem aí. As palavras ocultam mil sentidos, inscritas num jogo. Palavras cruzadas, descubra você as diferenças; o gato atira-as para o ar subestimando o rato amedrontado, que acordou tarde, mas que mesmo assim se agarra à toca. Atrás está a esperança a puxar todos para a frente; tem mangas arregaçadas, coloca-se na linha de partida, pronta para a maratona que vem aí. Uma maratona ao lado dos gatos pretos, corredores de fundo, experientes e avisados.
Estou na plateia, com o coração aos saltos, há quem seja sensível e prefira não ver, mas eu esbugalho os olhos, tentando antecipar o que vai acontecer. Partida, largada, fugida. Os prédios estão fechados, a cidade deserta. Está tudo em praça pública, a assistir ao desfecho da corrida. Esperança ou gato preto?



Anoitece a passos largos e estou meio estonteado a ver os concorrentes às voltas no estádio; ainda ninguém desistiu, mas nem consigo perceber bem; os gatos pretos confundem-se com a noite, podem até abalroar a esperança e deixá-la para trás. Ninguém vai ver.
Olho à volta e o estádio começa a ficar deserto. Ao longe, a cidade volta a ganhar vida; as luzes acendem-se, os carros partem, as pessoas cansam-se do espectáculo a que prometeram assistir. Sobretudo as da equipa da esperança. Quando alguém lhes pergunta sobre o evento, confessam-se entediadas com tanta volta. Que não participaram, porque não havia nada para participar, não bateram palmas, nem gritaram pela equipa.
Está escuro naquele estádio, longe de tudo. A esperança está sozinha, sentada a um canto, esbaforida com a longa prova. Quando lhe tento tocar, para a confortar, some-se-me entre os dedos, sem um único gemido.




Chego a casa já tarde, ainda esta de janelas abertas, em corrente de ar, tal como a tinha deixado de manhã. Passo a arejar a casa durante todo o dia; quando o tempo está bom, durmo assim, em contacto directo com o ar. Amanhã não sei o que vai acontecer, mas com tanta janela aberta, não me importa; mais espirro, menos espirro, tudo acaba por passar.