quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

O caminho das ervas

Caminha alto e curvado, olhos postos no chão, cabelo liso a tapar a cara, caminha entretido consigo, com aquilo que vai fazer, resvala nos outros com delicadeza, tropeça sem querer, mas sem vacilar caminha, a seguir o carreiro das ervas pisadas, das ervas que o protegem de uma vida inteira; enfiado na quinta por gosto, teme a altura do seu corpo, os olhos verdes que vêem tudo, que leram o mundo inteiro que está para trás, os antigos, os outros, os recentes e os demais. São teias que lhe são adversas, universos previsíveis para quem sabe que a história é cíclica e se repete; pinta sonhos e esculpe visões; dentro do perímetro da quinta reinventa a vida, a par dos animais abandonados que vai recolhendo e das plantas que vai mimando.

As pessoas ficam de fora, a bater-lhe à porta. Acenam-lhe e convidam-no a saltar o portão, entre truques e armadilhas, mas é inútil. Apenas ouvem o eco de uma rocha bruta que se aninha em si, bondade que se apregoa, despido de vaidades e defeitos, alvo de respeito mas também de estranheza sentida à distância; ainda bem que é dentro da quinta, apenas a casa, o pomar e o jardim à volta.

Ele caminha, agora mais curvado, por caminhos que sempre fez, longe dos outros, em terra de ninguém. Murcha sem dar conta; desprende-se da fala, o andar é mais lento, já não tropeça mas vacila, quase gentilmente, nas raras ocasiões em que passa por pessoas. Às vezes ainda o chamam, lá de longe, os outros que caminham sem parar. Que salte o portão, dizem. Que olhe em frente. Ou então, que o abra. Está apenas fechado no trinco. O dia está pintado de várias cores, de tão aberto ao sol. Vem ver.


O nariz sopra a melena grisalha sobre o olho verde, que quer correr atrás. Sem sombra de hesitação. As pernas ainda tentam o movimento, mas colam-se ao chão das ervas pisadas, sem dar mais uma passada. Pelo canto, o outro olho ainda vê o grupo de pessoas a afastar-se por ali abaixo, envolto numa nuvem de pó, levantada pela estrada de terra batida.

1 comentário:

- disse...

Adorei o seu comentário. Nesse mundo de pernas pro ar tudo é possível. Adorei os seus textos também. Tem maturidade de uma grande escritora, preocupada com a educação e suas mais diversas facetas.

Abraços