quinta-feira, 19 de junho de 2008

O encontro

São vinte cinco quilómetros até à vila, onde o grupo o espera. Amigos de longa data, interesses comuns a juntar gente diferente. Vão chegando, com o entusiasmo à frente e as palavras por arrasto; é sempre assim quando se encontram, parece que os anos se espantam e fogem muito lá para trás, já nem a memória se recorda. São vinte e cinco quilómetros para lá, vinte e cinco para cá. Cinquenta ao todo. Não tem gasolina que chegue e nem vale a pena imaginar outro meio de transporte, pois ele não existe. Situação deprimente, não se confessa ao melhor amigo. Nunca se viu assim. Dinheiro raramente é tema de conversa, na roda dos aflitos. Mesmo que não exista, convém agir como se houvesse. É de bom tom. Ele hesita. Talvez ir para o meio da estrada, apanhar boleia, mesmo sabendo que está fora de moda, que até pode ser perigoso. Sempre disfarçava o estado de penúria. Ganhava tempo, com um golpe de sorte podia inverter a situação. Subitamente, ri-se do próprio pensamento. São apenas amigos. Amigos de sempre. O resto do saldo ainda dá para fazer um telefonema. “Estou? É para dizer que não posso ir. Não tenho dinheiro. É como te digo. Ris-te? Se é partida de Carnaval? Nunca falei tão a sério. Diz-lhes.” O espanto do grupo é geral, cá deste lado. Por vinte e cinco quilómetros? Mas porque é que ele não nos disse? Não fazia a menor ideia. Sim, andava desanimado. Já pouco falava. Sempre foi introvertido. Mas por vinte e cinco quilómetros? Podia ter dito. O que é que tinhas feito? O que tu farias. Emprestar dinheiro. Se fosse contigo: Confessavas? Talvez não. Ah, voltamos então ao princípio. Não exageres. Não é o fim do mundo, faltar a um encontro de amigos. Hão-de haver mais oportunidades.


quinta-feira, 12 de junho de 2008

Um ladrão especial

Há um artista em digressão. A comitiva que o segue não é grande, mas à medida que vão chegando, com as suas carrinhas pintadas de cores vivas e carimbadas com a fotografia dele, toda a gente o reconhece. As pessoas juntam-se, numa primeira euforia, a ver quem sai das carrinhas, na esperança de ver e seguir o artista. A polícia aproxima-se, tentando pôr ordem na já razoável multidão, criando largueza para que o artista e a sua comitiva possam passar descansados. Decepcionados, os fãs dispersam, resignados ao concerto da noite. Os músicos e todas as pessoas envolvidas no espectáculo atarefam-se, nos últimos preparativos. Ninguém repara num rapaz, que ficou ao pé das carrinhas vazias. A noite chega, tarde para uns, cedo para outros e o espectáculo começa, numa explosão de luzes, alegria e som. A multidão envolve-se, pula e grita desenfreadamente. Os aplausos não acabam, pedem-se bis, bis e mais bis e o artista lá vai, todo inchado, com as canções extra preparadas, a voz já cansada, sem admitir. Por fim, público, artista e músicos encerram o espectáculo, suados, cansados, roucos e satisfeitos. O som apaga-se de repente, deixando ainda um zunido nos ouvidos. Um doce zunido das melodias tocadas. E a luz diminui, a multidão começa a dispersar e a adrenalina volta ao lugar. É noite avançada e o rapaz deixou as carrinhas vazias. No dia seguinte, a comitiva assusta-se com os berros do artista. Roubaram-lhe uma valiosa colecção de cd’s. Os seus favoritos, ainda por cima. Discos raros, encontrados aqui e acolá. Mas não roubaram tudo. Isso é que ele não consegue explicar. Apenas sobraram um montinho deles, criteriosamente arrumados numa gaveta. Os álbuns que ele gravou, como artista. Esses, o ladrão não os quis.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

A despedida

As costas arqueiam, sobre o balcão do café. As pernas, que os clientes não vêem, mal suportam o peso de um corpo disforme, alterado pela doença que os anos trouxeram. Coxeia, a adivinhar pelos movimentos trôpegos com que se balanceia, entre tirar bicas e servi-las ao balcão. O rosto é luminoso e chama a atenção: uma simpatia contagiante, o jeito natural para mimar cada cliente, com a palavra certa, o comentário que não se espera, mas que a todos faz sentir únicos, ao tomar o café da manhã. Entre o desfilar de empregadas, que vão cumprindo turnos sem vontade, aparece ela, a fingir que não traz a doença, a ludibriar os clientes, com a energia à frente e as costas dobradas a atraiçoá-la. Os dias perseguem-na, minando-lhe o ânimo e as forças. Coxeia cada vez mais, atrás do balcão e vai além dos comentários habituais; começa a partilhar histórias suas, troca experiências e de sinceridade armada, confessa, do nada, o que sempre escondeu. A pergunta e a resposta saltam, vivas, espontâneas, na cara de cada um: “Venha cá no dia trinta e um. Não sabia? Vou-me embora. Não posso mais. Viu como me mexo? É impossível, estou cada vez pior. Empregadas? É complicado. Já agora, gostava de o ver, mais uma vez. O café? Fica entregue em boas mãos, não se preocupe. O mesmo nome, o mesmo espaço, tudo como dantes”. No dia trinta e um o café enche-se de gente, que a cumprimenta com um olhar diferente. No dia seguinte, a vida recomeça, no café, com os novos donos. Os clientes entram e bebem o habitual café, estranhando o sabor, o espaço e o silêncio que paira sobre o balcão.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Histórias inventadas

As mensagens sucedem-se, umas após as outras. O telemóvel foi-lhe oferecido, um topo de gama, como qualquer presente de estimação merece ser. É ele, a dizer que a adora, sem nunca estar. Seguem-se declarações de todo o género, citações de autores, frases inventadas na hora sobre o tema. Ela suspira. É um momento de poesia que a faz saborear a ausência. Uma história inventada à volta de um personagem que criou e que, no fluir da virtualidade, cumpre os desejos do seu imaginário. Ouve-se um ruído, de repente. É o telemóvel a tocar, chamando-a à realidade. Ainda por cima, é ele, de viva voz. Ela apressa-se a mostrar uma disponibilidade irreal, cerrando fileiras a todos os minutos que ainda se escondem do resto do dia. Ele surpreende-se, como sempre; hesita entre a súbita vontade de a ver e a vontade de a ver ao longe, de a preservar dentro do mini ecrã do telemóvel, emoldurada com aquelas frases bonitas, que têm trocado. Uma história inventada por ele, também, à medida dos seus desejos. Quando se encontram, sobra uma estranheza no ser e no estar. Desaparecem as frases românticas, para dar lugar a uma série de mal-entendidos, que ficam sempre por explicar. Ela abate-se, nesta curta vivência. Não compreende porque é que as peças do puzzle não encaixam. Só pode ser por sua culpa. O único conforto é a chegada a casa, refugiando-se na esperada chuva de mensagens. Hoje, o telemóvel não apita, à hora do costume. Ela olha para o relógio, inquieta. Agarra no telemóvel e sacode-o, com força, tentando que este despeje as mensagens que lhe deve. De repente, o telemóvel toca, em vez de apitar. É a voz dele, que desabafa: “ Quero dizer-te que a minha história contigo já terminou. Acabou de vez a inspiração”.

terça-feira, 20 de maio de 2008

A horta da cidade

Duas vizinhas conversam sobre a vizinha da cave. Ninguém se apercebeu, parece que houve um telefonema, o neto estava de passagem, atendeu, chamou-a vezes sem conta e nada. Pois, no Domingo passado. Uma vizinha queixou-se toda a vida do desassossego causado por esta, a morte não lhe foi indiferente, mas também não a transtornou. Sobra um minúsculo vazio, sob a forma de silêncio. De facto, de infernos já não se pode falar. E por falar na defunta vizinha, é espantoso como debaixo de uma base que agarrava o pó de arroz se escondiam as rugas de alguém que estava a desafiar os 90 anos. Cabelo pintado, sem deixar escapar um branco, costas direitas, andar desempenado, ar enérgico, voz esganiçada, todos os dias refilou sobre tudo e sobre nada, moendo os cinco andares de vizinhas que a comprimiam e que a observavam, do alto das suas janelas. De resto, pouco se sabe, a não ser da horta cultivada em plena cidade, dos taipais construídos aos poucos, a roubar mais um centímetro de terra, que se livra de ser passeio. Pelo meio, o estendal de roupa a desfilar, pendurado num jogo de paus, que parece definir os limites do território.

A vizinha aprende a estreitar o olhar entre a janela da cave e a horta, fazendo orelhas moucas aos comentários e atacando antes de ser atacada; saboreia a vingança de forma ritmada, batucando a vassoura no tecto contra um ressonar mais ruidoso, ou correndo a tocar as campainhas das vizinhas, escondendo-se nas esquinas, de riso amordaçado ao ouvir o “quem é? quem é?” Grosseira no tom e nos modos, confina-se à horta, colhendo couves e alfaces, cuidando do estendal e da roupa, voltada de costas para o prédio.


O tempo teima em se arredar daquele “ghetto” e da sua dona, apesar dos comentários e protestos. A filha explode em beleza e sensualidade mal atinge a adolescência; o duche pode ser observado da janela da cave, coleccionando admiradores, mesmo em frente à horta. O estendal passa ter outras cores estendidas e outras peças de vestuário: corpetes, ligas, cuecas especiais, roupa sofisticada, veludo carmim, verde esmeralda. A seguir vem um neto, entre outros, fruto do acaso e das vidas que andarilham para lá e para cá, em que a única certeza que existe é aquele pequeno mundo feito de paus e taipais; uma mescla de asfalto e hortaliças, mais seguro que tudo lá fora. Os companheiros da vizinha também aparecem à luz do dia; contemplam os repolhos e vão-se sucedendo uns aos outros, sem grande alarido. Por fim, e ainda antes do fim, nasce a bisneta, que desconhece a mãe e pouco vê o pai, já que este fugiu com a tia.

A bisavó, entregues os maridos à Divina Providência e sempre de olho nas alfaces e couves, dedica-se a tratar da menina com a mesma garra com que criou filha e neto, cuidando da roupa pelo meio, da casa, do prédio, dos vizinhos, das batucadas com a vassoura na vizinha de cima, pregando as mesmas partidas no jogo das escondidas, não vão as pessoas pensar que o tempo se meteu com ela, furando-lhe as paredes da cave e entrando pela horta adentro, apodrecendo o precioso cultivo de uma vida.
Nisto, toca o telefone e o neto atende. É altura de ficar na preguiça e deixar-se ficar para sempre, imaginando como seria ter uma horta bem maior do que aquela, longe da estrada e do bairro.

domingo, 18 de maio de 2008

Delito menor

Ela enfia as mãos na sacola larga, sem divisórias. As mãos apalpam no escuro os objectos que lhe são familiares. A escova, o telemóvel, a carteira, o porta-moedas, a chave de casa, o pacote de lenço. Todos, menos as chaves do carro. Aflita, vasculha melhor; os olhos enfiam-se no escuro, ao mesmo tempo que as mãos confirmam freneticamente a falta das chaves. Logo hoje, que está cheia de pressa. Terão vindo agarradas ao molho de objectos e caído sem ter dado conta? Já não era a primeira vez que pensava em tirar algo e vir o resto atrás. Era habitual e normalmente verificava se alguma coisa caía. Não se lembra de nada. Será que as tinha perdido em casa? Na rua? Ou estariam escondidas nalgum buraco invisível? Subitamente, interrompe o pensamento e agarra na chave suplente, levando a rotina por diante. Talvez se voltem a enredar naquele molho que costuma apalpar.

Os dias atravessam-se e a chave suplente toma o lugar da original, levando o carro da sua dona para todo o sítio. Os gestos dela tornam-se maquinais; liga a ignição, desliga o motor, mete a chave dentro da mala. Por vezes, existem pequenos momentos em que a dona a espreita; sobretudo o porta-chaves, que é de plástico, ao contrário do outro, de pele e com a marca inscrita. Será que alguém apanhou a chave? Ou terá sido em casa? A dúvida persiste, com a certeza de que terá sido impossível ter-se evaporado.

O tempo volta a distanciar-se do dia em que ela descobriu que tinha perdido as chaves. Nos últimos tempos pensa inclusive fazer uma segunda cópia, não vá a suplente perder-se. Seria catastrófico. Até que entra no carro, parado há vários dias. A chuva caiu forte, o vento fustigou as árvores e as folhas soterraram o capot do carro. Os vidros estão cobertos por uma camada de pó fina, que lhe turva a visão. Liga a ignição, pondo o limpa pára brisas a funcionar, ouvindo de imediato um ruído estranho. Pára e liga. Torna a parar e a ligar, repetindo a operação várias vezes, conseguindo identificar o objecto pendurado na escova do limpa pára brisas: a chave perdida, desta vez, sem o porta-chaves de pele. Parece tratar-se de uma brincadeira, alguém que apanhou aquela chave e a colocou ali, quando há tantos carros da mesma marca. Um calafrio percorre-lhe a espinha. Se a puseram ali, foi porque experimentaram o carro.

Ela observa a chave, limpando o pó e a lama e raspando a ferrugem que se instalou. Experimenta-a, confirmando a ideia do ladrão. É mesmo aquela. Abre a mala com divisórias e guarda-a num compartimento. Não deve ser difícil arranjar um porta-chaves como aquele que lhe levaram.

domingo, 11 de maio de 2008

Para além do ermo

Dora e a amiga. A amiga e Dora. Inseparáveis. Risos colados, mãos dadas, segredos que moram nelas, jurados por dedos cruzados. A brincadeira desde sempre, as casas vizinhas, os pátios contíguos. As mães por ali envoltas nas tarefas domésticas, a correr para os mais novos, que se arrastam até ao abismo, nem que seja para tropeçar numa inocente poça de água e mergulhar em gargalhadas. Nem o cão da vizinha escapa ao remoinho das tropelias, sempre de dentes arregaçados, a acusar o cansaço da corrente grossa e pesada que o prende ali.
Dora e a amiga transpõem a cancela e atiram para trás das costas o mundo seguro. Direitas pelo carreiro, rumo à escola, sem desviar o olhar raiado de medo do desconhecido… o ermo que lhes passa debaixo dos pés em passo de corrida. A escola, ufa! Chegaram.
Dora prefere, junto com a amiga, a carteira de trás. Assunto sério. O riso fica suspenso e as duas enchem-se de cautela, sem saberem porquê. Sempre temerosas, lá aprendem a ler e a escrever por respeito à professora. O caminho de volta é sempre feito em passinhos rápidos, sem mais contemplações. A vida só recomeça quando se abre a cancela. Três ou quatro casinhas isoladas, os mesmos vizinhos, a mesma algazarra, o cão neurótico, o vizinho adolescente que as espia por detrás das cortinas amarrotadas. Casa, ufa! Estão ali.
Ao fim da tarde, Dora esquece o silêncio do ermo. A amiga também. Recuperam o tempo, danadas pela brincadeira. O mundo é enorme e explode dentro delas. Correm, saltam, escondem-se, atropelam-se e encontram-se novamente. O jantar engole-se, a banana já vai no ar, Dora nem aquece o lugar. A amiga chega e ali ficam, as duas, a inventar coisas.
Um dia, o ermo acena às meninas. O passo abranda, a timidez ganha olhos vivos.

– Ia jurar c’ aquela árvore nunca existiu…
– Árvores, queres tu dizer…
– Pois… mas nunca demos por isso!
– Não sei…devíamos ‘tar tontas ou cegas! Anda lá, senão a professora prega-nos um sermão daqueles…

Chegam à escola, o pensamento a voltear no ar, pela primeira vez. Prestes a completar a primária, o medo acanha-se, as cadeiras arrastam-se para a segunda fila das carteiras. Cresce a curiosidade, avolumam-se as perguntas, a professora responde. Riem-se menos, porém. Trilham o caminho de mulher, ainda sem o ser. O futuro não lhes larga as costas, não pára de lhes puxar os cabelos, não se coíbe de lhes sarrazinar os ouvidos: Como é? Como vai ser a vida daqui por diante? O ermo, carreiros a caminhar para o obscuro? O colinho do pátio? Não sabemos, não sabemos…, balbuciam os corpos imberbes, a meninice por acabar.
Dora avança, a despontar peitos, corpo esticado, cabeça erguida, olhos muito além do ermo.

– Eu vou…
– Vais pa’ onde?
– …vou… vou continuar a estudar…

A amiga olha-a, espantada e estremece. Uma utopia. Antes o trabalho infantil, as fábricas, o dinheiro imediato, pois sim, para ajudar a família, mas certamente a sobrar alguma coisa para ela. Não a compreende. A liberdade a assomar-lhe com evidência e ela a alongar carreiros sem fim à vista.

– Tens a certeza?
– Tenho… já tomei a decisão.
– Mhmm… e só agora é que me falas nisso… ´tá bem… não contes comigo pa’ te acompanhar… eu também já decidi, já falei com os meus pais. Eles acharam bem… sempre vou ganhar algum, percebes?
– Percebo… não temos que andar sempre pegadas uma à outra, não é?
– Bem.. ‘tá decido, ‘tá decidido… vemo-nos amanhã?
– Não sei, se calhar… tenho que ir às matrículas de manhã cedo, logo se vê…

A amiga levanta-se e corre esbaforida em direcção ao pátio. Voa pelo ermo sem se deter até casa. Sem olhar. Sem hesitar. Dora fica ali, pregada à sua decisão, a ver a menina de longe, cada vez mais longe, a diminuir a cada passo até desaparecer. Vai…

Dora levanta-se sem esforço, apesar da noite em vigília. A amiga virou-lhes as costas. Sem hesitar. Pela primeira vez, separava-se do seu outro eu. Come em silêncio e mastiga a realidade. Pela primeira vez, outra realidade. A mãe estranha a torrada quase inteira no prato, o leite entornado, o ar de fastio com a comida, se calhar com ela, mãe e com tudo o resto. Melhor será não dizer nada, isto são os nervos, a criança já não anda bem há uns dias, porque é que ela meteu aquilo na cabeça?

– Vou à escola, mãe.
– Fazer?
– Matricular-me, não vou ficar aqui a vida toda, né?
– Eu não disse nada!! Vais com a Dina?
– Não, vou sozinha.
– Então???
– Então, nada. Ela já não vai, não quer continuar…
– Ah... então, vou eu contigo!
– Não precisas ir comigo… já sou crescidinha, ou não?


Pisca-lhe o olho, esboça um sorriso, mostra-se confiante e sai, airosamente. A cancela parece mais pesada. Alguém a empenou. Tenta mais uma vez e desta cede, abrindo de rompante. Os primeiros raios de sol iluminam o carreiro, distinguindo-o do ermo misterioso. Sente o corpo dividido, os pés pesados a empatar a marcha, a alma a fugir para o pátio. Respira fundo, lança um braço mais à frente e depois o outro, num ritmo cadenciado. Os olhos estão fixos lá para o fundo, já no final de todos os carreiros.
A aragem calma inquieta-se, subitamente. O carreiro mexe-se, os ramos sussurram ao vento, primeiro de mansinho, depois mais vigorosos, entrelaçados uns nos outros numa dança agitada. O vento uiva pelo ar e revolve as folhas à sua passagem. A natureza, agora tão barulhenta como uma multidão, espia-lhe os gestos e alonga o caminho no tempo e nas passadas.
Dora esforça-se por um sorriso, um trago de confiança que engole de embute. Alinha a passada com o ritmo do burburinho envolvente até tropeçar num ruído diferente. Estaca, põe-se à escuta e agarra uma respiração ofegante à solta no ar. A sombra envolve a sua própria e descobre o vulto grande de cheiro forte e diferente. Morde o monstro, pontapeia-o, até o ver puxar de uma navalha, com um sorriso maléfico, o olhar esbugalhado e suado, de tão transtornado. Que imaginação a dela! Dora, o receio do destino a pregar-lhe o corpo ao chão. Dora que se faz crescida, que mergulha no vento, galgando folhas e árvores e o caminho a direito pelo carreiro fora. Foge da sombra e do medo. E fica maior, bem maior que ele.

Dina ficou lá escondida. Que é feito da minha amiga? Que caminho foi o dela? Dora abraça o regresso. Move a curiosidade, percorre o caminho inverso pelo marulhar das folhas, pelos ramos altos e distintos. Não tão vigorosos nem imponentes como outrora. Tropeça outra vez. O medo bisa neste caminho de volta. Mas já não é o vulto glutão que a engole. É a ausência. É o lapso de tempo, tanto tempo. O tino recupera a passada da mulher feita. Dina descobre-se do lado de lá da cancela. Também ela mulher feita. Um confronto de meninas. As duas mulheres feitas, sem mágoa de anos, anos de histórias opostas. O medo infantil cresceu na proporção do percurso adulto, cheio de cautelas e receios antecipados. Os passos já não seguem lestos para sítio algum. Os carreiros são apalpados antes de serem caminhados. As meninas encontram-se para lá do portão, as mulheres abraçam-se, as experiências cruzam-se. Desconfiam do acaso e protegem-se mutuamente. O pátio parece-lhes agora mais pequeno.
Ainda assim, a velha cancela continua lá, cada vez mais empenada, a dificultar a passagem a quem tanto quer sair. Ufa! Estamos aqui.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

O desabafo

É quase fim de tarde quando ela entra no café. Um hábito de anos, depois de despejar compras em casa, mudar a comida ao gato, orientar o jantar, ao som da televisão que desperta o marido para outras vidas, muito para além das quatro paredes. Cabelo arranjado, corpo ainda direito, lá vai ela, ladeira acima, passada rápida, a desprezar a respiração ofegante, até à portinhola do café. Àquela hora, já desapareceram os clientes do dia, a confusão dos almoços e dos cafés, da gente apressada de dedos no ar, da comida a chegar às mesas, em espaço pequeno e patinhado. Desta vez ela faz um ar sério. A dona, que se desprendeu do balcão para limpar o chão, pergunta-lhe, enquanto o cheiro a lixívia se vai impregnando no ar: “Parece triste. O que aconteceu?” “Estou velha. São seis da tarde. O que eu já teria feito até a esta hora, há uns anos atrás. Agora faço as camas, limpo a casa, vou às compras e estou acabada. É uma vida estúpida. Arranje-me outra coisa para fazer, ou morro de vez.” “Quer trocar comigo, só para experimentar?” pergunta-lhe a dona, meio a gozar. “Está a brincar, mas eu respondo-lhe de verdade: gostava. Silêncio tenho de sobra em casa. E a canseira não me assusta. Iria rejuvenescer.” A dona encolhe os ombros, sem resposta.



É mais um desabafo, ao fim do dia. Ela regressa a casa e acaba de fazer o jantar, com o gato a ronronar, colado às suas pernas. Ao serão, sentada na poltrona ao lado do marido, dormita, sonhando com a troca. De repente, a voz da televisão confunde-se com a da dona do café, que lhe segreda ao ouvido: “ Dê-me o meu café, que eu não aguento mais. E mais, não estou velha. Felicito-a. Deve ter inventado muito, ao longo destes anos todos.”

sábado, 3 de maio de 2008

Sai da frente



O meu amigo jurou sair do apartamento até ao final da semana. Após uma acesa discussão, é claro, a revermos metodicamente – e desde o início – a podridão das nossas vidas em conjunto. Não conseguimos chegar a conclusão nenhuma, à excepção do desamor que nutrimos um pelo outro desde há muito, para não falar na quantidade de vezes que tomámos as mentiras por verdades, abafando a vontade de gritar bem alto, estou farto(a), desampara-me a loja!
Rosa ainda não sabia disto, quando na manhã seguinte entrou no nosso quarto, sempre com medo de encontrar mais vestígios que lhe comprovassem as lágrimas que iam caindo aqui e acolá, ao longo deste penoso processo.
Saímos os dois de manhã, calados e atrapalhados – imaginem a nossa noite – após a costumada rotina da manhã, que curiosamente, fluiu com naturalidade e sem atropelos de maior. Ele pedia-me licença para respirar e desculpa por se atrever a passar por mim. Decididamente, estava mais formal que nunca e eu não estava preparada para reagir a tão súbito respeito.
Despedi-me baixando a cabeça e acenando-lhe com vergonha. «Até logo…», murmurei, para que não me ouvisse, apavorada com a ideia.
Vi Rosa no nosso quarto, a abrir as persianas, deixando a luz matinal entrar através das vidraças, aclarando o ambiente, fazendo realçar a forma e a cor dos objectos ali existentes. Estremeci. Aproximava-se do nosso edredão liso, cor-de-salmão, enrolado ao fundo da cama, descobrindo o lençol de baixo, cujas rugas delineavam os contornos de dois corpos, claramente separados.
– Bem, a ver pelo sítio das almofadas, tão apartadas, vê-se que a coisa não anda bem… Valha-nos Deus, não sei como não caíram ao chão…
Fiquei embaraçada – como explicar esta maçada, depois de tantos anos? – e logo comovida, quando imediatamente tratou de desfazer as ‘impressões corporais’, puxando o edredão para cima e alisando-o dos lados. Ajeitou ainda a bata, respirou fundo e começou a apanhar a roupa suja do chão.
À saída voltou-se, olhou a cama composta e sorriu, satisfeita. Afinal, aquilo não tinha passado de uma mera ilusão de óptica.
O pesadelo do dia iniciou-se. Estava sentada à secretária de uma multinacional, com um dos directores mesmo em frente de mim, separados apenas por um vidro.
Os telefones inundavam-me os ouvidos, a papelada acumulada – discretamente empilhada, criava um pequeno reduto, onde pelo menos conseguia esconder o olhar e o gesto por escassos segundos – a que tinha que dar vazão, enlouquecia-me de vez.
Naquela manhã atrevi-me a mostrar-me, onde não existia pilha de papéis que me valesse, excomungando a filosofia ‘trabalhar, trabalhar para rentabilizar’. Gesticulei, bati com os punhos na mesa, bufei, levei as mãos à cabeça e enfrentei o olhar desconfiado que o director me lançava, de quando em quando. Como não passou do olhar esporádico – com o meu nível de responsabilidade lá dentro, só mesmo com o pescoço apertado – foquei antes a mira telescópica em Rosa e concentrei nela toda a atenção.
Pôs a roupa suja na máquina, agarrou num pano de pó e entrou no escritório. Hesitou. Onde começar? Enquanto se decidia por uma ponta ou outra, os seus olhos passaram distraidamente sobre uns papéis espalhados sobre a secretária. Daqueles amarelos, pequenos, quadrangulares, que já vêem com cola e que servem – em princípio – para apontar assuntos fundamentais.
Pousou o pano, intrigada. O Senhor Doutor tinha-os colado alinhadamente, à beira da secretária. Não anunciavam datas de julgamentos, audições, ou encontros com clientes, mais parecia uma conversa a dois, furtiva – talvez a situação em que se encontrassem não fosse favorável – e já com sabor de romance. A letra dela era gorda, redonda e grande, obviamente precisaria de vários papéis amarelos para transmitir o sentimento avassalador que a cobria todos os dias mais um bocadinho. Ele ainda tinha tentado manter o decoro no primeiro bilhete, em letra pequena, apertada, misturando a hesitação com assuntos profissionais, mas logo tinha ultrapassado essa barreira, escrevendo outros, talvez ainda mais atrevidos que os dela.
Rosa deixou cair uma lágrima, jurando a si mesma que o assunto nunca iria chegar aos meus ouvidos. Pegou nos bilhetes, arrumou-os, mantendo a ordem e guardou-os numa gaveta da secretária.

Findo o turno da manhã, apressei-me a sair do escritório, aproveitando a pausa para me ausentar a cem por cento. Não me senti chocada – ao contrário do que Rosa pudesse pensar – nem tão pouco surpreendida. O encontro amoroso era a desejada fuga ao nosso desencontro, que em certas fases, era extremamente doloroso de se conviver. Significava apenas um esconderijo de eleição, a hipótese de se poder passar bons momentos, sem a rotina a corroer-nos o coração e a boa vontade a apanhar-nos desgrenhados, indesejáveis e de mau hálito, logo pela manhã.
Pergunto-me porque não me lembrei de semelhante ideia. Andarei demasiado work aholic, ou nem sequer chego a ter percepção de mim, das minhas vontades e desejos? Serão os tempos modernos, que na magia da tecnologia e da informação em tempo real, nos consomem? Será que os mais ínfimos pormenores perderam o encanto das pequenas e agudas vibrações?
Se é vida virtual ou desvirtuada, não o sei, o certo é que escorreguei pelo túnel da insegurança, atravessei cruzamentos inesperados e ainda por cima de luz apagada. Estrebuchei, ripostei, tentei revestir-me de fortes convicções, mas apenas obtive a imagem do escuro, que entretanto me ocultou outros caminhos.
Passei por umas montras espelhadas e utilizei-as discretamente, para me avaliar. Roupas demodé, corte de cabelo ultrapassado, objectivos fora de prazo, desejos sobre desejos, comprimidos, entretanto esquecidos. Em suma, tinha-me tornado numa ‘não-pessoa’, comandada pelo piloto automático. Só a minha indiferença – que revestia o meu pobre invólucro de alto a baixo – me tinha conseguido proteger da infelicidade prolongada.
Voltei para casa, depois de aterrar firme com os pés na terra, desejosa de encontrar Rosa. Os papéis amarelos assolavam-me a memória. Precisava da cumplicidade dela, até à máxima indiscrição, para me identificar novamente, ganhar rosto, cor e sombra. Para viver sem receio.
O Luís apareceu, convicto da sua decisão. Seria no fim-de-semana. Baixei os olhos, atravessei o hall e entrei na sala de estar, oprimida com os objectos construídos a dois, as fotografias de mais de uma década e surpreendida pelo pano de pó, que me rasou o nariz, fazendo-me espirrar mesmo em cima dela.
– O que fazes?
– Cuido da casa. Que mais poderia fazer?

Rosa sorriu, pediu desculpa por ter despoletado a súbita alergia e continuou com a sua tarefa, certa de que eu iria direita ao escritório, no encalço dos papelinhos amarelos.
As portas bateram, simultaneamente. Abri a minha, confirmando se teria sido a porta da rua, pesada, que tinha fechado, contrariada. Luís tinha saído, provavelmente atrofiado pelo ar pesado que se respirava em casa. Suspirei, incomodada com o silêncio forçado. Alheei-me e abri a gaveta, alimentando a curiosidade mórbida em conhecer o perfil do terceiro elemento.
Reconheci imediatamente o molho. Agarrei-o de repente, não fosse algum papelinho esvoaçar, e com ele, sumisse também o sentido do alucinado diálogo.
Recomecei a fazer o puzzle do Luís. Devia ser uma sucessão de mensagens muito importantes, talvez daquele tipo de declarações que muitos não se atrevem, sequer a experimentar.
Desfolhei-os. Procurava a letra redonda e gorda. Procurei novamente, desta vez com mais cuidado. Estava perturbada e a visão desfocava, à medida que a ansiedade aumentava. Como se não tivesse visto nada semelhante, comecei a colá-los por aquela ordem. Talvez nascessem entretanto, dos cantos do escritório.
A letra continuava pequena, escondida, tímida. Inclinava-se por vezes para a direita, como se quisesse apressar o destino. Era um diálogo imaginado a dois, escrito pela mesma pessoa. Luís falava comigo, tal como éramos, há quinze anos atrás, doces, apaixonados, próximos um do outro.
Quedei-me, estupefacta, com o grau da traição. Comigo mesma? Espera… com quem foste… procura-se rosto! Loira, morena, mais ruga, menos ruga, alguém que consiga protagonizar a história que se passou, alguém que esteja à altura… a partir do próximo fim-de-semana… sai da frente…
Rosa tinha acabado as limpezas. Despiu a bata, vestiu o impermeável, atou o lenço por baixo do pescoço, pontas espetadas, e deixou a patroa a braços com a vida.
Fiz as malas. Antes do fim-de-semana. Já não conseguia recuar no tempo. Não tive ânimo para ir de encontro ao Luís.
Talvez andasse a precisar de um novo rosto, colado a uma história antiga.











terça-feira, 29 de abril de 2008

O pedinte



Todos os dias o Zé entra no bairro, dentro do prédio rosa, do cinzento, do creme desbotado. Todos os dias à mesma hora, a campainha ouve-se e a porta abre-se, deixando-o subir por ali cima, andrajoso, vagabundo, imundo, de físico decrépito a anunciar os maus tratos auto-infligidos de quem não se gosta, talvez por desgosto. De passado suspeito, mas a quem ninguém ousa perguntar, o Zé impõe-se pelo seu ar, assumido com naturalidade e sem nada exigir. Pede qualquer coisinha. Qualquer coisa que seja. Sai do bairro carregado de pão, leite, fruta, arroz, farinha e até de roupa que já não serve aos vizinhos. De dia para dia o Zé vai perdendo o corpo, até que mal pode andar, das dores que o invadem e das tremuras que o assaltam. Mesmo assim, não deixa de visitar o bairro. As pessoas, de consciência tranquila, perguntam-lhe: “... O que é que se passa Zé? Isso não anda bem... devias ir ao médico...”. Passados uns meses o Zé desaparece, sem deixar rasto, deixando as campainhas silenciosas àquela hora. Todos estranham a ausência e questionam-se sobre o que terá acontecido. Tempos depois, talvez por alguém ouvir falar do generoso bairro, aparece um novo pedinte, de ar robusto e saudável, a cumprir o mesmo horário.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

A brincadeira

O quarto tem a porta entreaberta. Os brinquedos, espalhados por todo o lado, rolam até cá fora, entupindo a passagem, a quem queira entrar. Num mundo diferente, onde não se pára de correr, de brincar, de rir, de cair e chorar, está ela, travessa, endiabrada, a saltar de brinquedo em brinquedo, a aborrecer-se, a procurar nova fonte de diversão, a cansar-se outra vez, e, novamente, a explorar, sem desistir, outros jogos. Imagina que o quarto está numa selva; paredes derrubadas, limites fora de vista, árvores gigantes, vegetação cerrada e o perigo, sempre iminente, pregado a qualquer som, a qualquer movimento.


Os bonecos são a sério; animais selvagens que se animam, e os brinquedos, armas de defesa, lianas que tecem uma rede, de árvore em árvore, barcos improvisados, que atravessam rios infestados de crocodilos. Do outro lado do mundo, a mãe chega, desbravando a vegetação. Tropeçando por mais que uma vez, chama-a, irritada. Os trabalhos da escola por fazer, uma jarra de estimação partida, a bulha com as irmãs, os ouvidos moucos, que nunca dão sinal de si. A mãe dá-lhe um safanão e puxa-lhe as orelhas; desta vez, tem que a ouvir. Há um castigo a cumprir. O mundo interrompido, a visita àquelas terras distantes, os brinquedos escondidos.


Ela sai do quarto, por instantes. A mãe está na cozinha, atarefada. Ela dirige-lhe a palavra, docemente, falando-lhe duma mala que viu, linda, na montra de uma loja. “Compras-me?” Do outro mundo, já não há sombra. A mãe mal acredita. “Não te lembras? Estás de castigo!”. Ela acena negativamente com a cabeça. Os brinquedos estão proibidos, mas nada a impede de inventar uma nova história.

O segredo



Há um dentista novo, que acabou de se instalar no bairro. O consultório também cheira a novo, apesar de se ouvir o barulho das brocas e de se sentir o cheiro das anestesias, continua a ser novo, talvez por o espaço ser diferente. Uma assistente mais simpática que o habitual, que também faz as vezes de recepcionista. Uma sala de espera cheia de luz, animada por quadros, cadeiras de cor e música ambiente. Um doutor sempre bem disposto, que atende a horas. Os pacientes a saírem, acompanhados pelo doutor e pela recepcionista, ainda com a boca inchada da anestesia, a comentarem: “afinal não doeu nada, o medo é um fantasma que já não existe, marcamos já a próxima consulta.” A fama a espalhar-se nas redondezas. O doutor e a assistente sem mãos a medir; os pacientes já fazem fila de espera, apesar de os preços terem subido. As pessoas lamentam-se à assistente; as consultas já não são a horas, é uma pena, mas pelo doutor, esperamos o que for preciso. A assistente começa a responder com maus modos; talvez por excesso de trabalho, pensam alguns e o doutor até muda de cara, reparam outros. Não passam de meras impressões. Mesmo fora de horas e com menos disposição, o doutor e a assistente cumprem o seu trabalho, com êxito. Um dia, alguém descobre que o famoso doutor não é médico, mas sim um habilidoso competente, trabalhando ao lado da companheira. A notícia espalha-se entre os pacientes que esperam na fila. Comentários em surdina, olhares que se escapam e espiam os movimentos dos dois impostores. O próximo paciente entra e o silêncio espreita toda a gente. Por fim, todos os pacientes tratam os dentes, apesar do burburinho instalado. Todos, já conhecendo o segredo dos dois.

sábado, 12 de abril de 2008

A pilha de papéis



Sentada a uma secretária, acumula papéis que vão fazendo pilha, ao longo do dia. Lê um por um, em velocidade vertiginosa, despachando os assuntos pendentes, os actuais e os que estão para vir. Vira-se apenas para cumprimentar quem passa, e mal retorna à secretária, dá de caras com a pilha, que já lhe tapa a cara. O trabalho nasce de todos cantos da sala, aproveitando-se da sua eficiência e generosa disponibilidade. Maria faz uma pausa. Enfrenta o director, o vice-director e o secretário deste, que misturam ordens em voz alta. Mesmo assim, continua a atravessar a sala, a ouvir os colegas, que lhe despejam dúvidas e a sobrecarregam com pedidos. Sempre solícita, responde a todos, de cara alegre e sorriso franco. Só pede um minuto a sós. Que a deixem ir até ao átrio de entrada, fumar um cigarrinho. Um prazer merecido. Um dia, ainda antes do sol acordar, Maria entra com um sorriso torto. O olho está negro e a cara inchada, coberta de zonas arroxeadas, mas o entusiasmo nem por isso parece ter diminuído. A pilha de papéis continua à espera dela, incólume. Os directores e os colegas aproximam-se da sua secretária e alguns deles até se atrevem a derrubar a famosa pilha, perante o seu ar atónito. As ordens e os pedidos são substituídos por perguntas, a rebentar de estranheza e curiosidade. Naquele dia, todos ouvem a Maria.



quinta-feira, 3 de abril de 2008

O preconceito

Ele chega sempre atrasado, semana após semana, encavalita actividades, umas nas outras, actividades dispersas e metidas em mundos diferentes. É jovem, fala de forma afectada, pisca os olhos e sopra o cabelo liso para trás. Sempre de risco ao lado. Parece não ter censura; diz o que lhe apetece no momento, sempre com um ar gentil e educado. É dado às pessoas, gosta dos desprotegidos, dos seres diferentes, dos seres à margem. Meio dentro, meio fora, ele próprio respira ares diferentes; dói-lhe a opção, dói-lhe a barreira, fez-se um alpinista entretanto; galga muros e paredes sem nunca cair. Contudo, há uma inquietude que invade o seu corpo, talvez os tiques dos olhos e dos cabelos o denunciem, talvez a correria de um lado para o outro adie o confronto, talvez o nunca estar de corpo inteiro o resguarde. Mas o que é certo é que as corridinhas continuam, as falas a este e àquele não acabam e os assuntos sérios ficam à porta, mortos por entrarem em casa.
Um destes dias acompanhou-me até à saída; lanchámos e devagarinho começa a contar-me uma história terrível de uma prostituta encontrada morta num contentor de lixo, uma Gisela qualquer. Abri os olhos, chocada. Contou pormenores e eu a meio do galão, do queque e tudo aquilo a parecer-me sórdido. Assumiu-se activista; pensei que pertencesse a alguma organização de solidariedade, dizendo-me que distribuía preservativos às prostitutas e travestis e que as conhecia bem demais; íntimo delas, era uma espécie de anjo salvador que aparecia a meio da noite.
Falou do nome da organização, não soava a nada parecido com beneficência. Lentamente comecei a descodificar o activismo; um grito de desespero a apelar à morte à diferença. Porque vocês, heterossexuais, porque nós homossexuais, porque a discriminação, porque a ofensa, porque o ridículo, porque o exibicionismo, porque a clandestinidade, porque os direitos... porque. E eu para ali, calada, espantada com o desabafo, sem nunca ter pensado em duas equipas tão separadas. Fiquei a cismar no preconceito, cruel e destruidor, que o deixava a tremer e a largar aquelas frases.
Subimos a calçada e vimos outras gentes. Despedimo-nos com se nada fosse, ele a distribuir falas pelos conhecidos, eu à espera de o encontrar amanhã, apertado com a falta de tempo, a cerrar portas a quem passa.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Arranha os céus

Cresci dissimulado, entre quatro paredes de bom cimento, num minúsculo apartamento, entre muitos, comprimidos numa torre – no meio de muitas – cujos últimos andares já entravam na estratosfera, onde o ar parecia rarear.
A comprida torre cedo se dividiu em duas partes: os moradores que apunhalavam magicamente as nuvens, tocando o céu várias vezes ao dia e os acanhados cá em baixo, que assomavam às janelas espreitando, desmoralizados, a tonalidade eternamente ‘cinzento-pálida’ do ar completo, mas poluído.
Contudo, ambos saíam à rua. Os superiores, de cabeça levantada e olhos postos nas alturas, respiravam com prazer o ar viciado cá de baixo. Faziam invariavelmente o mesmo percurso, todas as manhãs, com a visão empinada, sem nunca tropeçarem em alguém. Não viam os vizinhos de baixo, nem tão pouco os cumprimentavam.
Os residentes dos pisos inferiores saíam à rua, também. Com os olhos postos no chão, envergonhados com a sua posição, saturados da cor das ruas e da atmosfera carregada, que atrofiava pensamentos e apertava sensações. Não viam os outros, apesar de se cruzarem todos os dias, à mesma hora.
Crescia escondido dos meus, a esbarrar neles no quarto, na sala, em cada minúsculo canto. Ouvia-os a repetirem as mesmas palavras em iguais circunstâncias, sem nunca se olharem. Ouvia-os a repetirem-me as mesmas recomendações, os mesmos reparos, sem tão pouco ouvirem a minha voz.
Olhei para eles. Estavam cegos e surdos. Furavam apenas o ar viciado, vencendo dia após dia, fundindo-se com os vizinhos desconhecidos.
Continuei a crescer sozinho, à desgarrada, tão à solta quanto preso estava. A crescer, sem coragem para o fazer.
Agarrei-me às paredes que conhecia e depois aproximei-me da janela. Abri-a, sem me importar com tudo o que era cinzento. A minha janela tinha vista para as traseiras, comuns à de outro arranha-céus, que se erguia a poucos metros de distância.

Em frente, vivia outra família. Os pais e uma menina. Comecei a observá-los, sempre que encontrava uma pausa na minha vida diária, que tal como os outros, compreendia um encadeamento de tarefas inesgotável, cuja ordem era inalterável. Pausas raras, que fui alargando, combatendo a escassez do tempo.
No arranha-céus onde morava e naqueles que nos rodeavam, ninguém reparava em ninguém. Não era suposto. Por isso, quando me escondia e resolvia expor-me apenas para as traseiras, sentia-me seguro. Tinha a certeza que não me iriam ver, muito menos observar.
Olhei para a Diana – foi este o nome que lhe pus, pois nunca chegámos de facto a falar – e iniciei o diálogo dos surdos-mudos, que nos protegia dos perigos da proximidade e da amizade.
Acenei-lhe com vivacidade, sorri com os olhos e meti conversa – a fazer mil trejeitos com os lábios – sem me importar com o que ela poderia pensar. Como seria de prever, reagiu assustada, fechando a janela e as persianas com estrondo.
No dia seguinte insisti e emoldurei-me na janela, horas a fio, na esperança de que Diana fosse surpreendida pela curiosidade. Ao fim da tarde, lá se abriram, amedrontadas, as persianas, um fio de cabelo liso a espreitar, esvoaçante da corrente de ar e um olho claro, temeroso da vista de estranhos, à procura do cúmplice proibido.
Esperei que olhasse o céu, distante para ela e o arranhasse, exprimindo vontades longínquas, por caminhos a que o sonho não punha limites. Desceu à terra, os olhos passaram pelo chão, como era costume nos moradores dos pisos baixos e estabilizou de forma surpreendente nos meus, fixos e corajosos, abertos ao desafio.
Os arranha-céus desapareceram, as traseiras desprezadas também e de repente vi-me numa clareira cheia de luz, num meio de um bosque. Diana permanecia do outro lado, misteriosa, continuando a fixar-me o olhar. Estendi um braço, devagarinho e como a luz me encadeasse, comecei a caminhar na direcção dela. Não vi nada, a certa altura. Quanto mais andava, mais a luz me cegava. Quando cheguei ao outro lado a luz tinha desaparecido e com ela, Diana. Esfreguei os olhos e voltei às traseiras. As persianas estavam novamente fechadas.
Recolhi-me, desiludido. Porque teria reagido daquela forma?

Foi preciso a noite desfilar, para que a vida recomeçasse. O dia nasceu, a tentar empurrar o sol – sem êxito – para lá das nuvens teimosas e da mancha cinzenta. Como brilharia, sobre o alto do arranha-céus?
Saí cedo, de mochila às costas. Contornei uma esquina, dei mais uns passos e entrei na grande avenida. Olhei para trás e observei por instantes o formigueiro vivo que saía do arranha-céus. Cabeças para cima, cabeças para baixo, a conhecer de cor o percurso, previsto ao minuto. Ri-me e pensei – aposto que sabem quantas pedras existem na calçada e quais hão-de pisar…
No quadro perfeito, em que as personagens, de cabeças desactivadas, desenham percursos geométricos, em passada certa, num único andamento – sem correrem o risco de chocar com o vulgar transeunte – eis que surge Diana, o cabelo loiro, rosto pálido, as roupas de tonalidades suaves, o olhar centrado em mim. Ao lado dela, os pais, as roupas escuras, a disfarçar contornos, o olhar carregado, de encontro ao passeio.
Hesito, quanto ao percurso a seguir. Olho para o relógio, depois para ela e arranco-lhe um sorriso.
Sobem a grande avenida, até ao meio e desaparecem, numa curva à direita, descendo na estação subterrânea. Diana atrasa o passo, para que não a perca de vista, apesar de os pais lhe torcerem as mãos com força, obrigando-a a apressar-se.
Sigo-os, intrigado, já indiferente às minhas horas de escola. Assumo que hoje é o dia nacional da gazeta. Tenho tanto medo de a perder, que olho continuamente, sem pestanejar.
Saem da estação e retomam as ruas da cidade, em direcção desconhecida. Viram umas vezes à direita, outras à esquerda, passando por gente alheada, de olhos postos em lado nenhum.
Sou atraído por uns arbustos, enquanto tocam à campainha de uma casa solitária, bonita, protegida por um jardim cuidado. Diana tapa a cara com os olhos e entra, contrariada. Os pais constroem sorrisos que não são seus, cumprimentam com enorme deferência quem lhes abre a porta e entram também sem vontade.
Mais uma vez quero saber dela, para além dos míseros reflexos que me chegam, através da janela da frente, escondida pelos cortinados.
Leio-lhe a aflição, estampada no rosto e logo a seguir, o pedido de salvamento, guiado pela premonição da existência de um anjo, algures à solta, guarda dos abandonados, cuja existência se presta a ser perturbada.
Os pais saem sozinhos. Parecem inverter o percurso. O ar é desolado, o passo mais lento, os olhos já nem olham obedientemente para o chão. Levantam-nos até ao céu e arranham-no com as suas preces, esperando dias melhores. Uma fábrica fechada, os dois desempregados, por tempo incerto, a renda por pagar, a menina por sustentar. Sem poderem. Tempo não há, certo ou incerto, resta a rua por palmilhar, o albergue por improvisar e um dia, recuperar o tempo perdido e a sua menina.
Volto a casa, com ideias peregrinas. Olho para os meus pais, absortos na televisão – julgo que nem deram conta de que faltei à escola – e vacilo, entre pedir para aceitarem temporariamente uma segunda filha, ou simplesmente fazer entrar Diana às escondidas e enfiá-la no meu quarto. Talvez não dessem por isso.
Vou até à janela, confirmar se ela realmente se evaporou. Tudo fechado. No dia seguinte também. Aguardo outros tantos e decido ir ao arranha-céus vizinho, saber quem lá morou.
Vejo pessoas a entrarem e a saírem. Como no meu prédio. Os olhares baços vagueiam em direcção definida pela altura do piso que ocupam. Procuro o porteiro. Não sei para onde olhará. Ah, encontrei-o. Tenho sorte, porque decide encarar-me. Pergunto-lhe pelo piso térreo, porta C, será? Descrevo a família ao pormenor, a menina com cara de anjo, seria impossível passarem despercebidos.
Responde-me – fazendo-me cair do último piso do arranha-céus – que nunca viu tal gente, o andar está ocupado sim, mas por outras pessoas, dois filhos, um cão enorme, um casal ainda jovem. Alegres da sua condição. A olharem para o chão com orgulho, assumidamente.
Fujo a correr, assustado com as suas palavras e só paro frente à minha janela. Nessa tarde, decido esperar uma eternidade.
Consigo vislumbrar o sol, para mim acinzentado, a despedir-se com os últimos raios. Estou prestes a desistir quando finalmente a janela de Diana se abre, de rompante.
Acredito que o cabelo dela vai voar, novamente, espalhando-se pelo ar, indomável, às vezes a tapar-lhe o rosto. E eu vou conseguir ver-lhe aqueles olhos, que se fixaram tantas vezes nos meus e me revelaram a história de uma vida, sem dizerem uma única palavra.
Esfrego os olhos e ao longe ouço o ladrar forte de um cão encorpado. Aparece à janela em frente, desejoso de saltar para as traseiras. Atrás dele, estão os risos de duas crianças, divertidas com os ímpetos do seu animal. Tinham chegado da escola. Rufus atira-se para cima delas, num grande alarido, convidando-as para a brincadeira. Passou o dia sozinho, apertado entre quatro paredes. Quando as vê, espera apenas que o levem a furar aquela torre, a saltar pela tão desejada janela.
A alegria que sente embriaga-o, fazendo-o crer que todas os finais de tarde os seus pequeninos donos o irão levar até ao paraíso.






sexta-feira, 28 de março de 2008

O caleidoscópio

Uma paisagem ao longe, lá dentro, duas pessoas de mãos dadas. A paisagem a mudar, as cores a misturarem-se, a transformarem-se, a rodarem, à excepção das duas pessoas, que se mantêm em pé, firmes e de mãos coladas. As testemunhas vão espreitando por este caleidoscópio; observam a vida às voltas, torta, de pernas para o ar e o casal intocável, direito que nem um fuso, no meio das reviravoltas que vão acontecendo. A certa altura, o casal já não traz novidade e faz com que se atire o caleidoscópio ao lixo. As testemunhas seguem o seu caminho, esquecendo a ponta de inveja que sentiram quando conheceram o casal pelo óculo. Tempos depois, uma testemunha mais curiosa decide recuperar o caleidoscópio. O casal traz as mãos na cabeça, parece estar em sofrimento. Alguém comenta que o marido ganhou uma doença esquisita, que os médicos não adivinham. A mulher continua a dar-lhe as mãos, como se nada fosse, mas ele deixa-as cair mais que uma vez, sem querer. As cores tornaram-se sombrias e já não se misturam, é como se o caleidoscópio se recusasse a iludir quem olha, como se proibisse a vida de causar mais atropelos. A testemunha volta a espreitar e não reconhece o caleidoscópio. O óculo não roda, nem para um lado nem para o outro, trancou-se à volta de uma imagem pouco definida. Parece ser o casal de costas voltadas, acocorado no chão, de rosto sobre os joelhos. É uma imagem sem movimento, num tempo parado. A testemunha, decepcionada, abana o objecto, tentando recuperar o sentimento de magia, da visão das cores animadas que antes existiam. O caleidoscópio apaga-se de repente, e mais uma vez, é atirado para o caixote de lixo mais próximo.















quarta-feira, 26 de março de 2008

A zaragata

O homem velho vai sentado no banco do autocarro, ao lado da mulher. O arranque, os solavancos, as curvas, as travagens e as novas paragens sucedem-se todos os dias, num trajecto que lhe é familiar. As portas abertas, os bilhetes obliterados, as vozes misturadas que entram ao mesmo tempo, empurrando-se, num barulho que cresce, que se torna ensurdecedor, captam-lhe a atenção. O autocarro apinhado, as pessoas em busca de uma nesga de espaço, a tentar sobreviver naquela hora de aperto e o homem velho incomodado, desassossegado, rodopiando a cabeça em todas as direcções, perante o ar sereno da mulher. Um rapazola fura a multidão, em busca de melhor assento, tropeça e cai em cima do homem velho, que imediatamente estica o peito e exibe os restos de um porte atlético, em atitude ameaçadora. O rapazola encolhe os ombros, balbucia uma desculpa esfarrapada e vira costas, fechando o episódio. O homem velho deixa livre o banco do autocarro e atira-se às costas do indivíduo, felino no ataque, imprevisível para os outros. As pessoas dão-se conta do burburinho e reagem, separando os dois, o rapazola indefeso e espantado, o velho descontrolado, possuído de uma força desconhecida. Palavras gritadas, gestos agressivos e a mulher do velho a perder a serenidade e a defender o marido, indignada com a multidão. As portas abrem-se, as paragens espreitam e o autocarro esvazia-se, como por magia, deixando a mulher e o homem velho a sós, desta vez, de mãos dadas e de olhares trocados.

sexta-feira, 21 de março de 2008

A vida passada a pente fino

Ela passa, apressada, desligada dos outros, como de costume. Em sintonia com alguns, por força das circunstâncias. Controlando os outros, para se fortalecer. Amesquinhando os demais, para se esquecer de si.

Sonha com o reconhecimento da maioria. Não lhe basta existir, com o corpo que tem e com a vida que naturalmente poderia ter. Depende dos outros no alcance desta existência, para ela ideal. Força sistemas, inventa leis, quebra respeitos. Apura-se na corrida do tempo, atenta aos gostos e mudanças, com a habilidade de um cata-vento.

Ela passa, apressada, desligada dos outros. Está num momento alto da vida. Os amigos, mais que muitos, são todos importantes e garantem-lhe um lugar ao sol, por cada pedaço de terra que vai pisando. Está cada vez mais confiante e despreza com prazer os que imploram uma migalha da sua atenção. Veste roupas extravagantes, usa um chapéu alto e cumprimenta, de sorriso rasgado, as almas gémeas.

Ela vai passando e atrás dela cola-se o tempo, a pisar-lhe os calos. A harmonia sentida – colada com cuspo – desmorona-se e atira-a para o autoritarismo, coberto de gelo. É chegada a hora da cegueira, o momento em que o umbigo a engole de vez. Um tempo de magnitude.

Ela vai passando, vagarosamente. De fascinante e inatingível passa a mulher feia e insignificante, apesar de teimar em conjugar roupas extravagantes e chapéus de formato variado, que mesmo assim, deixam à vista o frágil equilíbrio.

A ambição perde-se na linha do horizonte, cansada de ser querida e nunca alcançada. É um sonho confuso que se esvai, consumido num esforço evaporado. São os caminhos da vida, transformados em sulcos e vincos sobre aquele rosto.

Hoje ela passa, sem ninguém dar conta. Agarra-se às pessoas, tentando sacudi-las da indiferença a que ela própria as votou.
Não passa de uma velha tonta, que por ali sempre passou.







O nosso jardim

Resolvo tudo através da discussão. Desde sempre. Não conheço outro sistema. E não se entenda por isto que são discussões construtivas, fórum aberto, tipo vamos lá trocar de opinião para ver se chegamos a alguma conclusão. Não. São discussões acaloradas, animosas, atingindo às vezes níveis de violência impensáveis. Sou eu contra o obstáculo, inimigo sem identidade. Descarrego energias empilhadas, alimento ódios e raivas várias. Sem razão aparente. Exponho sem pudor a frustração que não agarro, exibo o lado mau com muita lata. Encerro-me num autismo que pisa sem querer – mas até quer – o outro, transformo-o num verbo de encher. Ou apenas convencido que o semelhante não passa de um alien por apurar. Uma entidade distante que teima em chocar comigo.

Tomei-lhe o gosto em pequeno, ao assistir, quedo e mudo, às fantásticas demonstrações que os meus pais me proporcionavam de forma sistemática e a cada vez mais elaborada. É óbvio que tal escola não me deixa indiferente. Assimilei-a com naturalidade e de bom hábito, também a mim se pegou como vício e entranhou-se-me na pele como uma droga. Evito a todo o custo a ressaca.Viver torna-se então a antítese de si mesmo. O Inferno por si só. A consciência perde-se nas entranhas do ser. Desesperada, pendura-se nas amarras da sobrevivência. O instinto reage e a infelicidade pespega-se-me nas trombas.

Arrasto-me em dias, em anos e mais séculos nesta condição. No meio desta praga, acredito que vou vencer. É este pensamento que segura a minha vida presa por um fio. Queimo o tempo, precipito os acontecimentos. Até nas discussões estou mais rápido e eficiente.

No meio deste despautério, viajo a um jardim. Um qualquer e como em qualquer um, a Natureza corre os seus ciclos sem acidentes. Observo árvores e plantas. Escuto o seu doce murmurar. Pasmo com a beleza e simplicidade. Admiro-as no seu posto de vigia, bem lá no alto, quase alheias à sua vida natural. As folhas debotam, os ramos secam, caiem por terra para abraçar uma nova vida e tudo começa outra vez. É a Natureza a falar, tranquila na sua nudez, renovada sem dramas, viçosa na serenidade. Na verdade tudo o que me incomoda e o que me atrai.

Vejo o Joaquim, ainda criança, acocorado à beira do lago. Os patos e os cisnes aproximam-se e disputam as migalhas que ele vai atirando em ritmo lento. A vida corre com mais vagar naquele lugar. Ali, teria tempo para pintar um quadro com o Joaquim ao pé do lago, os animais que comem o que lhe vem das mãos, as árvores que sussurram para a terra. Shshshhshshshshsshshshs…..

Atrás está a mãe, ainda nova, distante do filho. É bonita e parece preocupada. Anda devagar e assim que agarra uma árvore esconde-se atrás dela. No fim do percurso – que repete uma, outra e mais uma vez – reaparece, de cara vermelha e olhos inchados.


Joaquim tem olhos atrás das costas. Habituou-se a fingir que não percebe. Habituou-se a ser criança sem nunca o ter chegado a ser. Compreende a mãe à distância e assim a deixa horas a fio, a ajustar-se à sua infelicidade em silêncio. O dia é longo naquele jardim, a avaliar pela posição do sol.

Percorro o jardim, investigo os cantos mais secretos. Percebo que não existe mais ninguém, para além de nós os três, dos animais e das plantas. É um jardim só nosso. Um lugar especial.
Volto para baixo e confirmo a impressão de que o tempo não passou. Joaquim continua a atirar migalhas que nunca se acabam e a mãe continua a tropeçar de árvore em árvore, de cara ainda por desinchar. Mãe e filho continuam perto um do outro, sem se aproximarem.

Sinto-me fatigado de o sol teimar em não adormecer. Tenho vontade de perguntar por onde é a fuga, mas sei que não me podem ver nem ouvir. Obrigam-me a procurar: desço, subo, apresso o passo, arfo de cansaço, desconfio que tenho visões de portas sem saída. Estou fechado. Tenho pressa em sair. Não aguento mais o sol, eternamente a pico. Abrasa-me aqueles dois, juntos pela condição da Natureza e por ela separados. Ali, naquele quadro que eu poderia pintar. Não encontro a sintonia que amarra o pincel à tela. Estou cansado de procurar. Sem perceber, deixo-me cair sobre as plantas.

Estremece-me o corpo, apaga-se o sol e a lua acorda. Arrefece subitamente. Os cobertores pesam-me como quilos de mágoa. Afinal, sempre encontrei a porta de saída. A mesma de sempre. Vira o disco e toca o mesmo. O meu jardim é o pesadelo de olhos abertos.
O sol volta a nascer, manso e de tempo contado. É de manhã e chamam-me devagarinho. Acordo e finalmente não me vejo mais.




terça-feira, 11 de março de 2008

A Lâmpada de Aladino



Ela navega toda a noite. O ecrã de 20 polegadas apoia-a, incansável, nas buscas mais incríveis que se possam imaginar. Sem dar conta, atira bocejos cá para fora, as pálpebras baixam e o olho dormita: é o corpo em dilema, a magicar: “saio daqui, não saio, é tão tarde... mas espera, isto é interessante... talvez se for por ali ainda consiga descobrir qualquer coisa. Qualquer coisa que me arranque daqui”. Os sites sucedem-se com rapidez; os dedos hábeis percorrem o teclado sem pedir licença, os olhos voam de imagem em imagem, de informação em informação. O pequeno apartamento desaparece do mapa, a cadeira onde está sentada eclipsa-se, a secretária esconde-se. É apenas ela e o computador a girar no Universo. Sonhos que saltam para dentro do ecrã, desejos fundidos, uma luz mágica a encandeá-la, uma slot machine a apitar, a apregoar prémios e de repente o embate na realidade a grande velocidade, com uma pancada seca. É ela, sem travões, aterrada em cima da cadeira que nunca largou, presa no apartamento do qual nunca saiu. “Será isto?” Um chat, um sujeito que tropeça e que se abre; interesses em comum, simpatia, empatia virtual, o chat continua nessa noite, nas outras que se seguem e a impressão mantém-se na cabeça dela: “Pode ser que se esteja a vestir de alma gémea, pode ser que não, nunca o saberei se continuarmos a navegar nas marés altas do ecrã.” Falta uma fotografia para consolidar o sonho; ela publicou uma no chat, ele esquivou-se sem razão aparente, mesmo assim ela arrisca e combina um encontro numa bomba de gasolina anónima, longe das casas de um e de outro, longe de dizerem a quem quer seja onde vão naquele dia.
Faz sol. Dia brilhante, céu destapado, a afundar-se em azul a perder de vista. Longe do breu da noite, do brilho do ecrã, dos flashes de luzes que vêm de todos os lados. Terreno firme, a bomba da gasolina, o posto de abastecimento, a normalidade a passear-se por aquelas bandas. E ela dentro do carro, motor a trabalhar, encostada à berma, de coração aos pulos, as mãos que se esfregam no volante, para cima para baixo, os músculos que tremem, a cara com manchas.
Ele chega numa carrinha e descobre-a facilmente; encosta atrás e sai, a anunciar perna curta, cara disforme num sorriso prometedor; ela observa-o pelo retrovisor; o sangue parece que se encolhe dentro do corpo, é uma palidez súbita que a invade e lhe corta a fala, vai ter que se esforçar para que ele não pense que é muda, são coisas que não se percebem nos chats, a palavra é rainha e o mistério é rei.
O sorriso aparece-lhe à frente e o corpo pequeno dissimula-se, sentado no carro. As palavras nascem, como no chat. E são iguais, tão iguais que ela fica impressionada. Conhece os temas de cor, foram noites a fio a esmiuçá-los. Hoje é igual, apenas é de dia e é cara a cara. O cenário muda, o carro avança em direcção à montanha que observa o mar. O vento ali é forte, a vegetação é rasteira, de tanto se agachar ao sopro que ruge.
O fim de tarde é magnífico, embora eles não se apercebam. Ela tem a cara tapada pelos cabelos que voam sem dar tréguas. Ele fala mais alto que o vento, sem receio de espalhar segredos. O sol desce rapidamente, alaranjado, avermelhado, até se extinguir.
Naquela tarde, as horas deixam de ter importância.
O vento despede-se e ele convida-a a ir a sua casa. Ela aceita, depois de ter viajado pela vida dele. Já noite dentro, ele quer saber dela, e pela primeira vez, ouve que tem um filho a cargo, a mãe doente, um cão e um papagaio. Ele baixa os braços, abana a cabeça e confessa-lhe: “Assim, não serves. Procuro alguém totalmente livre, que me compreenda e se me dedique. Lamento.”
Ela volta a ficar sem fala, despede-se, conseguindo ainda articular um “Obrigada”.
Meses mais tarde, recebe um e-mail dele, dizendo que finalmente tinha realizado o seu sonho; primeiro dentro do ecrã e depois à beira daquele penhasco sobre o mar: uma mulher livre, que tinha abraçado o seu corpo pequeno e beijado a cara disforme. Mesmo com os cabelos nos olhos, mesmo no meio do vento.

quinta-feira, 6 de março de 2008

O senhor X



O cliente nunca mais comprou aquela marca de telemóveis. Não é porque se tivesse aborrecido com a qualidade da assistência, ou até com a qualidade dos próprios aparelhos. Sempre teve um fraco por telemóveis; cada vez que saía um modelo novo, lá estava ele, rente aos balcões da empresa, fiel àquela marca. Nas várias lojas da marca do aparelho, o Sr. X era conhecido como “O maluquinho dos telemóveis”, com direito a tratamento preferencial. Os empregados bulhavam entre si, para o atender, na esperança de caírem nas boas graças do chefe. Encantado com tanta gente à sua roda, o Sr. X não resistia; acabava por levar o melhor telemóvel do mercado, o topo de gama, a melhor relação preço/qualidade. Um dia, o Sr. X tropeça numa revista que lhe desperta a atenção: um retrato de algumas empresas, entre elas, a dos telemóveis. E abre os olhos, chocado: as mulheres estão em maioria, entre os trabalhadores. Os contratos são precários. Engravidam, o que faz baixar os níveis de produtividade. São despedidas, depois de serem mães. Os ordenados parecem baixos. De condições pouco se fala. E de direitos, nem pensar. No entanto, a marca é cotada como uma das melhores no mercado. Pouco tempo depois, o Sr. X entra numa das lojas coloridas da empresa, com um saco de telemóveis que despeja em cima do balcão. Os empregados correm em bando, à procura de explicação: “Mas, Sr. X, são todos novos...” O Sr. X não consegue responder. Fica paralisado com a quantidade de caras que lhe sorriem ao balcão. Os clientes continuam a fazer fila para serem atendidos e os empregados dispersam, retomando as suas tarefas. O “maluquinho dos telemóveis” sai, tão silencioso quanto entrou.

Não queiras acordar



O despertador toca, desabotoando o silêncio que se aperta no escuro. Ruidosamente, a interromper sonhos e a esfregar na cara mais uma manhã que nasce. Leva tempo a colar-se à realidade. Ignora o insistente despertador – o seu anjo de guarda – que continua a apitar de cinco em cinco minutos e refugia-se em dupla escuridão, debaixo do edredão.
Gasta o tempo, os minutos, os segundos. Até não poder mais. Umas mãos invisíveis agarram-no e colocam-no defronte ao espelho da casa de banho: pálido, olheirento, cabelo em pé, ar miserável, assim está, inexplicavelmente, todas as manhãs.

Entra no duche, para acordar, de uma vez por todas. Até o sangue retomar os seus habituais circuitos, até o cérebro começar a funcionar. Sai recomposto, disposto a arrancar aquela manhã da rotina de todas as manhãs. Vai ao quarto e abre as persianas. A luz entra, fraca e sem cor, parecendo não derrotar a escuridão.
É uma manhã chuvosa e cinzenta. Os carros deslizam cautelosamente ao som da água, e o vento empurra as pessoas, a querer apressar-lhes os destinos. Veste o impermeável e sai.

A calçada, polida do trajecto diário, recebe-o novamente, escorregadia da chuva insistente. Agarra-a com as botas de sola de borracha e inicia a caminhada, com os sentidos atentos.
A pedinte da esquina continua a estender o braço, indiferente ao bater da água. Encharcada até aos ossos, ali fica, sem procurar abrigo. Apenas de mão esticada, à espera de não receber nada. Como um vício que não se explica, mas que a manda fazer de estatueta naquele sítio.
Uns metros mais à frente, esbarra-se na fruta fresca e hortaliças viçosas do Senhor Manuel. Já nem dos preços altos se podem queixar, quem pode competir com as grandes superfícies? Resta o sorriso cansado, o bom dia a cada instante.

Continua, encolhido no impermeável. A chuva retoma o seu ritmo, desta vez enfurecida, a furar a calçada e a derreter o alcatrão com os seus fios de água aguçados. Entra no café logo à frente, esperando que a sua ira se apazigue. Fica espantado com a mudança. O Senhor Costa tinha trespassado o café e agora o espaço estava transformado; obras feitas, o pré-pagamento a recebê-lo, o balcão corrido cheio de gente e uma série de empregados pouco amáveis, mas eficientes. Bebe o café, come um queque e sai, atordoado.

Já se vê uma nesga de céu azul, embora as nuvens ainda o aprisionem. Os primeiros raios iluminam com esforço a avenida larga. Pouco depois os transeuntes voltam aos passeios e os carros retomam o seu ritmo habitual, sem se preocuparem com o piso ainda molhado.
Obedece aos semáforos e atravessa a primeira passadeira. A segunda, ainda longe, tem os sinais intermitentes. Os carros passam, ligeiros, por nunca verem o vermelho. O laranja confunde-se com o verde, avaria no sistema ou não, o peão fica entregue a si próprio, desprotegido, corpo exposto a passar rapidamente, com sorte alcança o outro lado, são e salvo, orgulhoso da habilidade do dia.

Ela está a uns metros de distância. Deixa-se guiar pela fiel bengala, que tacteia incansavelmente todo o pedaço de chão por onde passa. Os ouvidos protegem-na, avisando-a do perigo iminente. Espera pelo silêncio. Espera pelo seu verde, espera que os motores se aquietem. Não chega a confirmar essa interrupção. Ouve passos rápidos, para trás, para a frente e o barulho dos carros, de motores vigorosos, a passarem à beira dela, os cabelos no ar, as saias assopradas.
Ele percebe que ela vai arriscar.

A distância entre os dois desaparece, assim que ela ousa dar o primeiro passo em falso. O carro que se aproxima, doido de velocidade, precipita-se sobre a passadeira. Ele lança-se no ar e cai em cima dela, conseguindo arremessá-la uns metros à frente. A travagem vertiginosa, os pneus a chiarem, a pancada seca, o corpo projectado para longe. No espaço de escassos segundos. E no fim, o verdadeiro silêncio, perturbado apenas pelo fumo e o cheiro a queimado.

Acorda enrolado em tubos, numa cama branca, com lençóis brancos, no meio de gente vestida de branco. Dorido no corpo inteiro, sem perceber porquê. As cabeças inclinam-se, com curiosidade. De mais não se lembra, a memória fica suspensa no tempo, no Senhor Costa em debandada, no Senhor Manuel, o eterno resistente, a pedinte na esquina e a calçada molhada.

Ela entra sem ver nada. Coxeia discretamente, apoiada na bengala. Traz contusões ligeiras, o trauma da pancada e a família poderosa atrás, a querer saber dela e do salvador.
Ele ouve os toc-toc de quem abre caminho e vira a cabeça, contrariando o movimento dos tubos. Respira com dificuldade, partido em vários sítios, lesões profundas, a vida mais atrapalhada do que nunca. Vê-a e lembra-se da silhueta na passadeira. Cabelos lisos escuros, os óculos de sol de aros grossos, a gabardina bege, a camisola de gola alta preta e o ar impaciente, de quem não espera.
Pára à beira da cama, sorri-lhe, ignorando o estado dele. Os brancos retiram-se, recomendando à rapariga que a visita tem que ser curta.
– Vinha-lhe agradecer...
Ele fixa-a, aflito. Depois da passadeira, não tinha acontecido mais nada.
– Mas de quê?
– De me ter salvo!
– Deve estar a falar com a pessoa errada...
– Estou-lhe a dizer... você estava lá... toda a gente disse...
Volta à passadeira, lembra-se dos carros que aceleravam, ao ver o sinal intermitente. Lembra-se dela, aflita, tacteando uma pausa entre o barulho dos motores. Depois o desespero e o salto no abismo. Dela e dele. E finalmente percebeu. O barulho da pancada, agora as dores e o corpo partido.
– Ah, é a rapariga da passadeira...
– Já se lembra... se não fosse você, não estaria aqui, tranquilamente... agora descanse...

Ela sai, sem perceber que ele adormece, ao som das suas poucas palavras.
No dia seguinte e nos outros que lhe seguiram a rapariga visita-o. Traz sempre algo com ela. Uma flor, um livro, umas palavras de ânimo.

O tempo resolve passar, sem querer ajudar. Saudades da casa, do despertador, do escuro, da luz, de si, miserável todas as manhãs. Das ruas que palmilhava diariamente, da gente com que falava, dos cafés que frequentava. Do emprego invisível, a que corria atrás todas as manhãs. Das pernas que não queriam voltar a andar.
Deixa o hospital, excedendo o tempo limite de permanência. Conta paga por mãos alheias. Mãos invisíveis, que passam a tomar conta dele.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Carta a um defunto



As praias desertas continuam nossas. Lembras-te? Escapulias-te à pressa, tu, eu, também, num chorrilho de mentiras a empurrar-nos para lá dos limites. Início da adolescência? Não quero mentir. Sentia-me já bem desperta, por sinal, crescida, porque não, tão crescida como aquelas árvores centenárias, que guardavam a nossa paisagem. Vimos os nossos corpos dentro das ondas, a quererem tocar-se, primeiro a medo, depois com naturalidade. Tu de peito liso, bigode por semear, imberbe encantador, gracejavas do meu corpo por compor, até que o foste arranjando, muito devagarinho e eu a ti e por fim nos fundimos, talvez cedo demais, não importa, para nós foi decisão acertada.
Fizemos juras, tecemos planos, vivemos em segredo. Durante anos. Sempre um do outro.
Mudámos de paisagem, mudámos de continente. Atraiçoámos as praias, o mar, a paisagem que tão bem nos conhecia. Trocámos de mundo. Aproximámo-nos dos outros. Arranjaste um emprego modesto, eu também. Apesar de tudo, continuava sempre a viver numa dimensão extraordinária. Bastava estares ao meu lado. Mesmo quando estava prestes a acinzentar-me e a perder a coragem para enfrentar uma vida sem eco, lá vinhas tu, a colorires-me com o teu sorriso, a ergueres-me do chão com graça, a enterrares-me num abraço que parecia não ter fim. Pintavas-me num quadro, com cores vivas, eu olhava-me e lá estávamos nós, nas praias desertas, tu de barba rija, corpo forte, eu de peito abundante no meio das outras formas.
Vieram as crianças. Primeiro uma, depois um e ainda outra. Continuavas a beijar o meu corpo de alto a baixo, apesar de quereres uma vida melhor, ambição a crescer, em detrimento das coisas simples.
Entretanto, eu continuava a pintar a vida. Sempre gostei de o fazer. Os meus quadros eram realmente a sério. Até fiz algumas exposições. Podia ter corrido melhor, o tempo era pouco, as crianças começaram-nos a absorver muito.
Aos poucos deixámos de falar. Evitámos, até. Julgámo-nos protegidos pelas nossas praias. Começámos a contornar os desafios, as chatices, as arrelias e por fim as tristezas, com uma perícia inigualável.
A minha lembrança dos tempos idos começou a esbater-se. Não havia fotografias da época. Apalpei a tua memória, tentando recolher provas da nossa outra existência. Respondeste-me com ar vago e distante que tinha sido maravilhoso, único, como é que eu poderia estar tão esquecida? E entre beijos fogosos e festas perturbadoras disseste-me teres sido promovido a director de uma firma importantíssima, agora até poderíamos voltar à nossa terra, àquele continente distante, recuperar o tempo e a originalidade dos nossos seres.
Fizemos a viagem os dois. As praias continuavam sozinhas, à espera de alguém. Aparecemos, irreconhecíveis. Não houve convite por parte das ondas, antes um mar calmo, apático, à mercê da nossa presença. As árvores tinham crescido ainda mais, alargando a sua sombra, mas, estranhamente, tolhiam-se à nossa passagem, deixando o sol abrasador penetrar e quase incendiar os nossos corpos, desabituados há muito, daquele clima. Permanecemos em silêncio, por instantes. A certa altura, ficaste irritado com o confronto e disseste-me, com ar impaciente:
– O que fazemos aqui?
– Não sei. Dantes gostavas muito.
– Foi há muito tempo…
– És o mesmo… cresceste aqui, comigo…
Surpreendeste-te. Afinal quem eras tu?
Regressámos, desiludidos. Eu, porque tive a certeza que não delirava ao longo dos meus dias solitários, apenas confirmava as minhas suspeitas; tu, porque percebeste que estavas perdido.
À medida que o avião se aproximava da terra de eleição, aliviaste o semblante, sorriste, passaste-me a mão pelo cabelo e continuaste devagarinho pelas costas, insinuando outros caminhos. Em pleno avião. A prometer, no mínimo, que todo o pingo de gelo se derreteria à nossa passagem, todo o gato-sapato morreria de inveja da nossa fusão.
Conversaste, animadamente. Parecias outro. Colaborei, novamente, acreditando na mudança. Talvez fosse da terra, do ar, do clima, das gentes. Porque não?
Pousamos as malas, descuidadamente. Senti o aeroporto inóspito, cheio de correntes de ar viciadas, apesar de os miúdos nos terem assaltado em grande velocidade, em pulos radiantes, com as suas mãozinhas a enlaçarem-nos, a gritarem-nos baboseiras aos ouvidos, que ecoavam para além dos intermináveis corredores. Pareciam dizer «não fujam, por favor!». Foi um sufoco maravilhoso.
Tu revigoravas a cada minuto, eu, ao invés, apagava-me aos poucos, acabrunhada por sensações estranhas, que me invadiam sistematicamente.
A partir daí, nunca mais te encontrei.
A vida recomeçou, num faz de conta insuspeito, mais que não fosse, para mostrarmos às crianças que o fiel da balança nunca vacilava. As oscilações não passavam de uma temática absurda, quando aplicada às nossas vidas.
Ao longo desta proximidade ‘faz-de-conta’ aprendi a identificar os novos sinais que emitias, depois de teres vestido outro fato. Confesso que tive momentos em que quase amei o ‘Senhor Enigmático’, bem vestido e perfumado, homem galanteador, de aparência perfeita, cuja vida fantástica eu desconhecia, que me enviava postais curtos e secos, de sítios encantados, inacessíveis, como ele. Essa distância transformou-me, a certa altura, num ser pequenino. Ansiava obsessivamente pelo dia em que chegasses e até lá, anestesiava o cérebro.
Deixei de pintar, deixei de pensar. Mirrei ao ponto de pensar que não existia. Não deixei entrar nada. Nem sair. Um único afecto. E as sensações, nem sei se me pertenciam, se eram dos outros.
Chegaste num curto intervalo, à beira de mim, numa excitação nova. Circulaste em frenesim, todo o serão. Porém, os teus olhos evitavam-me. Disfarçaste, como de costume. Uns beijos forçados, uns afagos esquivos, adiaram a questão. E por fim confessaste. Estavas apaixonado. Incrivelmente apaixonado. E visivelmente emocionado, continuaste, afirmando que eras um ser original, que eram dois, os objectos da tua paixão desenfreada. Eu e outra. Que fazer?
Passaram-se meses e a nossa vida mudou. Continuaste a ir jantar lá a casa; coitados dos miúdos, estranhariam, se não o fizesses.
Mantiveste a promessa de ouro, que garantia a vida dos pequenos: a prestação dos colégios, a assistência na doença, as viagens, um beijo na testa à chegada e outro à saída, o pai adora-vos, nunca se esqueçam.
Devagarinho, redescobriste novos encantos no lar. Presumi que a situação no outro lado havia esmorecido. Na realidade, continuavas a detestar estar sozinho.
Trepaste pelas minhas pernas acima e ‘ronronaste’, verdadeiramente arrependido, «mea culpa, mea culpa…» não passava de um desvio à norma e não havia nada nesta vida que não contemplasse as suas excepções.
Foi neste clima, e com o meu consentimento de última hora, que regressaste, de cabeça baixa, lábios caídos, gravata torta, cabelo desalinhado, mas de olho inquieto, desta vez, para empreendermos viagem até ao Inferno.
De início, os serões foram fielmente cumpridos lado a lado, embora estivesses provavelmente escondido atrás das grandes árvores, a ver-me banhar nas águas calmas que o calor tropical amaciava. Esperaste sempre que eu desaparecesse e deixasse que o mar te apaziguasse e provavelmente te levasse, para parte incerta.
Nunca estivemos tão longe um do outro, como naqueles serões.
A vida profissional retomou, entretanto o seu curso normal. Compromissos inadiáveis, reuniões intermináveis, viagens frequentes às terras de ninguém. E novamente, a tempestade de mentiras, que nunca acabava.
Arranjei uma concha ainda maior e deitei-me lá dentro, quietinha. Pouco depois, descobriste que padecias de um mal irreversível, confirmado por exames minuciosos.
Extinguiste-te rapidamente, sem dar tempo de nos refazermos da cruel verdade. Talvez a única verdade em ti, depois de tantos anos.
Chorei amargamente a tua perda, sem contudo ter ficado intrigada com a mulher jovem, que ao longo das exéquias, se mostrava inconsolável, lutando incansavelmente por controlar o desespero, estampado no rosto, nos olhos assustados e no corpo trémulo.
Reuni os teus objectos pessoais e olhei para o telemóvel. Esteve sempre à tua cabeceira, no hospital, na recta final. As últimas chamadas, as últimas mensagens…
Senti um calafrio. Estaria a ser injusta?
Atrevi-me a violá-lo. Violei-te, sim, já quando estavas morto. Se não fosse assim, nunca o teria sabido. Palavras de amor. Mesmo débil, parecias iluminado. A voz tremia, de emoção, as palavras eram espaçadas, mas arrancadas ao teu âmago. Nunca tinha ouvido nada assim.
Afinal, sempre tinhas voltado às praias desertas…





Os sonhos

“Não escolhemos os sonhos”, diz o menino à mãe. “Nem conseguimos controlar a forma como eles se misturam... São tal e qual uma manta de retalhos. Bocados do dia, sem relação uns com os outros, a participarem numa história, às vezes sem princípio e sem fim, mas uma história na mesma. Estranho... e sabes? Às vezes surgem personagens desconhecidos, bonecos animados na escola, na carteira ao lado da minha. Dizem e fazem coisas que eu já vi, ouvi e se calhar li, não sei muito bem aonde. Coisas mais antigas. Pessoas que já não existem. A avó, por exemplo. No outro dia, levou-me ao parque, com a idade que tenho agora. Pegou-me na mão como se tivesse dois anos. Esse sonho fechou-se, antes de eu sair do parque. E nunca mais a vi. Ontem, misturei-me com os meus amigos e outros meninos que conheço de vista. Brincámos todos com os meus heróis que vivem nos jogos. A música não foi excepção. Visitou-me também, quando estava na sala de aula. Multiplica quatro colcheias por três fusas. A professora cantou, quando me pôs o problema. Absurdo, não é?” A mãe sorri, abanando a cabeça afirmativamente. A criança continua, intrigada: “Nos meus sonhos passam-se histórias diferentes daquilo que realmente vivi. Umas agradam-me, outras não. Mas é o único lugar onde tudo é possível e confesso-te, é muito divertido. Mesmo assim, gostava de poder escolher um sonho, de vez em quando. Afinal, sempre são pequenos filmes, onde sou actor principal. Por ser surpreendido, acordo meio zonzo e saio estremunhado da cama. Levo sempre algum tempo a desfazer-me dos sonhos. Se hoje pensar todo o dia no sonho que quero ter, provavelmente o meu desejo vai realizar-se. E amanhã já não vou chegar atrasado à escola.”