É de manhã. Uma manhã enevoada, um frio que corta o ar, de vidros embaciados nas vitrinas por onde ele passa. Os dedos, escondidos sob as luvas, desenham bonecos e letras ainda mal feitas. A berma do passeio protege-o, curva sobre curva, dos carros que passam rente. O caminho ainda é longo, até à escola. Quatro vezes por dia. A ida, a vinda, e pelo meio, o almoço no restaurante dos pais. O corpo pequeno, a atravessar estradas movimentadas, sem receio. É mais um dia de escola, com letras para aprender, sons novos, num espaço que pouco conhece. Ainda está aprender a língua, que é muito diferente da sua. Os colegas acham-lhe graça; apesar de mal o entenderem, brincam com ele, como todos os meninos sabem fazer. Hoje, ele não tem vontade de brincar, apesar de continuar a rir-se para a professora, para os colegas. O corpo está mole, pede-lhe que se sente e sossegue. A professora desconfia e põe-lhe a mão na testa. O corpo arde. “Não estás bem! O que te dói?” O menino encolhe os ombros, sem responder. A professora insiste, fazendo mímica, a querer saber mais. Ele ouve os sons, vê os gestos, sem adiantar muito. A mãe não ligou aos arrepios de frio. Provavelmente, confundiu com o frio que faz cá fora. Pobres ignorantes. A mãe é chamada à escola, sem compreender. Fala e gesticula, com ar zangado. A professora pede ajuda a outras colegas e as colegas lembram-se de chamar um aluno mais velho, que fala a mesma língua. Este, traduz, de imediato, o tom aflito da mãe: “Acabei de chegar, ninguém vai trabalhar por mim; não posso largar o restaurante... os meus clientes... porque se metem na minha vida? É meu filho, não vosso...”
terça-feira, 29 de janeiro de 2008
O som das palavras
É de manhã. Uma manhã enevoada, um frio que corta o ar, de vidros embaciados nas vitrinas por onde ele passa. Os dedos, escondidos sob as luvas, desenham bonecos e letras ainda mal feitas. A berma do passeio protege-o, curva sobre curva, dos carros que passam rente. O caminho ainda é longo, até à escola. Quatro vezes por dia. A ida, a vinda, e pelo meio, o almoço no restaurante dos pais. O corpo pequeno, a atravessar estradas movimentadas, sem receio. É mais um dia de escola, com letras para aprender, sons novos, num espaço que pouco conhece. Ainda está aprender a língua, que é muito diferente da sua. Os colegas acham-lhe graça; apesar de mal o entenderem, brincam com ele, como todos os meninos sabem fazer. Hoje, ele não tem vontade de brincar, apesar de continuar a rir-se para a professora, para os colegas. O corpo está mole, pede-lhe que se sente e sossegue. A professora desconfia e põe-lhe a mão na testa. O corpo arde. “Não estás bem! O que te dói?” O menino encolhe os ombros, sem responder. A professora insiste, fazendo mímica, a querer saber mais. Ele ouve os sons, vê os gestos, sem adiantar muito. A mãe não ligou aos arrepios de frio. Provavelmente, confundiu com o frio que faz cá fora. Pobres ignorantes. A mãe é chamada à escola, sem compreender. Fala e gesticula, com ar zangado. A professora pede ajuda a outras colegas e as colegas lembram-se de chamar um aluno mais velho, que fala a mesma língua. Este, traduz, de imediato, o tom aflito da mãe: “Acabei de chegar, ninguém vai trabalhar por mim; não posso largar o restaurante... os meus clientes... porque se metem na minha vida? É meu filho, não vosso...”
O comboio
O comboio apita, avisando que está a chegar. A noite vai caindo, de manto cerrado. A lua adormece e a escuridão senta-se na estação, a ver quem chega. Não se vê vivalma. Dentro do comboio, espreitam-se pessoas no fim de um dia de trabalho; a cara macilenta pregada à janela, o pensamento esvaziado, o corpo quebrado e a vontade de não querer abandonar aquele torpor. O cansaço a escorregar, os olhos cavados, as bocas que bocejam e a respiração profunda de quem pede uma pausa ao tempo. Uma mulher que entrou noutra estação, pouco antes. De cor escura, fundindo-se com a noite. O lenço na cabeça, uns andrajos pelo corpo e a idade indeterminada, atrás de uns olhos vivos, escuros como ela. A boca que não se cala, que entra a derrapar em cima dos outros, a sobressaltá-los com palavras, frases sem sentido, àquela hora. As cabeças que se vão virando, de curiosidade, de indignação, de ofensa, de divertimento e o torpor a cair no chão. A mulher a fazer de profeta; a acusá-los de serem tristes, de serem perseguidos pela cobardia, pela hipocrisia. De se alimentarem mal, falando de comida mesmo, e depois do coração e da alma. Proclama a sua diferença, falando cada vez mais alto, apregoando a alma bem alimentada em cada trapo que veste. As pessoas riem-se, outras abanam a cabeça, ao mesmo tempo que o comboio trava e chega ao seu destino. Todos saltam energicamente para a saída, sem deixar de olhar para trás, a observar a mulher que faz das carruagens a sua morada. O comboio parte, ante a estação apinhada de gente. Apesar de continuar noite cerrada, ninguém se incomoda com a escuridão, a calcorrear caminhos até casa.
domingo, 27 de janeiro de 2008
A confissão
Juro que não me sinto bem. Olho para trás e tento agarrar-me por um braço, enfio-me num túnel em busca de mim, mas não tenho hipótese, sempre que me espreito, esvoaço por ali sem eira nem beira; novamente tento prender-me, mas perco-me de vez. Julguei que fosse possível. Não existe margem de erro na linha do tempo. Nunca me apercebi da inexistência do retorno. Agora conserto bocados de mim, aqui neste refúgio que nem sequer me pertence, é casa-mãe, de uma mãe que outrora também voou, sem razão aparente. Está na massa do sangue, provavelmente, um gene especial que se transmite, que nos leva a desarvorar assim de repente, sem termos tempo de fazer malas ou de fazer despedidas. O Sérgio ficou para trás, agarrado a uma doença invisível, da qual me fui apercebendo aos poucos, que transformava a nossa vida num inferno. Estranhamente e por mais que me queixasse, confesso que havia fases em que o inferno não me desgostava. Era a única altura em que conseguíamos comunicar, os sentimentos intensificavam-se e aqueles códigos aberrantes que tínhamos construído eram a nossa plataforma de entendimento e ao mesmo tempo uma tábua de salvação. Um vício que nos agarrou silenciosamente, e na penumbra se tornou dono e senhor. Pelo meio há a Maria e a Joana, dois anjos que oscilam entre cá e lá, sou eu a pintar-me de serena e o pai a exibir loucuras; vai ser fácil ganhar a guerra no tribunal, mesmo longe das condições ideais, sou a melhor opção por falta de alternativa.
Contemplo a paisagem a partir de um apartamento minúsculo e os horizontes apertados sufocam-me. Passaram-se meses e realmente experimentei uma vida normal; o retorno à universidade, um emprego de dia, a correria para levar e trazer as crianças da escola, a lida da casa e a promessa a mim própria que é uma fase transitória, de construção de uma vida certa e segura, uma aposta na estabilidade e serenidade, amarras que me seguram e me impedem de voar.
Juro que não me sinto bem. Sou um pássaro ferido, invadido pela loucura. Agora sou eu, a par do Sérgio. Esta não é a minha normalidade. Minto com todos os dentes, finjo que sou dona de outra pessoa, abro sorrisos sem querer. Expludo sem motivo, mesmo quando estamos tranquilamente num parque, mesmo quando os pássaros nos roçam, assobiando para nos encantar. As minhas filhas abrem até não poder mais os lindos olhos azuis, sem compreenderem. Não lhes consigo dizer que é a minha pele a rebentar, sem eu controlar. Mesmo já fora do túnel, continuo a escapar-me por entre os dedos, a voar ainda mais longe. Perco a noção do tempo e do espaço. Mesmo sabendo que não existe retorno.
Hoje acordei numa cama muito confortável, quentinha dentro dos lençóis, num espaço asseado, que não era o meu quarto, nem a minha casa, nem a casa da minha mãe. Da janela, vejo tudo verde, árvores, relva e uma luz clara que me faz esfregar os olhos. As minhas filhas visitam-me, de vez em quando, com os seus olhitos abertos; muitas vezes vamos até ao parque em frente à minha janela, como costumávamos fazer. O azul dos seus olhos já não brilha, nem consigo ouvir as suas risadas; talvez esteja anestesiada de forma mágica, mas de alguma forma desintoxicada.
Deixei de correr, deixei de fugir, já não ligo à normalidade. Provavelmente, cheguei a casa.
"Devil May Care"
No cares for me
I'm happy as I can be
I learn to love and to live
Devil may care
No cares and woes
Whatever comes later goes
That's how I'll take and I'll give
Devil may care
When the day is through, I suffer no regrets
I know that he who frets, loses the night
For only a fool, thinks he can hold back the dawn
He was wise to never tries to revise what's past and gone
Live love today, love come tomorrow or May
Don't even stop for a sigh, it doesn't help if you cry
That's how I live and I'll die
Devil may care
O telefone
Toca o telefone, à hora da refeição. O ‘ring-ring’ confunde-se com o tilintar dos talheres, em pleno movimento. Não tarda que um dos familiares ouça o inconfundível toque. “Vais lá?”, pergunta o marido à mulher. Ela atende, ainda sem ter engolido a última garfada. “Sim? Ah, és tu...diz... Ai sim? É capaz de ser interessante. o António há-de querer ir, com certeza... sim... fica já combinado. Até logo.”
Continua o tilintar dos talheres, a sopa por acabar, as panelas por esvaziar e pelo meio a pergunta do marido: “Quem era?” “ A tua irmã. Convida-nos para assistir a um espectáculo da filha... parece que é genial a dançar. Aceitei o convite. É hoje, ao final da tarde.” “ A tia tem a mania que é a maior. É uma chata de primeira”, resmunga o filho mais velho. “ Além disso, a Alice é grotesca a dançar. Eu já a vi”, comenta a filha do meio. “ Recuso-me a ir. São uma cambada de patetas. E nunca nos ligam. Exibicionistas”, conclui o mais novo. “Bem, eu confesso que não tenho grande paciência, mas sempre é a vossa tia”, remata a mãe. “Mas porque é que não lhe dizes isso na cara? Estão a ser muito hipócritas”, interrompe o pai, que se levanta em direcção ao telefone. “ Vou-lhe ligar a dizer que não vamos.” O auscultador, mal desligado, levanta-se e antes que o pai marque o número, ouve-se uma voz familiar do outro lado dizendo: “ Não te preocupes António, os bilhetes já estão esgotados.”quinta-feira, 24 de janeiro de 2008
A companhia
- Claro que vou contigo!
- Mas é uma simples consulta de rotina!
- Faço-te companhia, sempre é mais agradável, não achas?
- És capaz de ficar à espera...
- Dou uma volta.
- Nesse caso, veste o casaco, o comboio está quase a passar.
- Já estou pronto.
- Olha, lá está ele a apitar. Incrível, vem mesmo ao minuto.
- E deve vir cheio de gente.
- Vamos para as últimas carruagens, temos sempre sorte.
- Pronto, já cá estamos. Os degraus são altos, cada vez me custam mais a subir.
- Pois, tu não notas, mas vamos ganhando idade...
- É verdade, Maria.
- Encolhe-te um bocadinho, é por causa dos sacos, não os quero pôr no chão.
- Olha-me este sol, num dia de Inverno... não é normal, é que é um sol quente... e a luz está tão bonita. Gosto sempre desta viagem, sabes? Não ter que conduzir nem estacionar já é fantástico, mas este sol... anima-me.
- Antes assim. Querias apanhar uma chuvada? Ainda chegávamos encharcados ao hospital e se calhar só adoecia depois de lá sair.
- Isso é verdade.
- Pois, lá se iam os exames ao ar. Estamos quase a chegar... espera, não te levantes já, isto abana muito, podes cair. Temos tempo.
- Já se vê o hospital daqui.
- Sim... sempre te disse que era muito mais prático vir de comboio, não apanhamos trânsito, não temos que estacionar e é muito mais rápido.
- Pois é Maria, pois é. Que confusão está aqui. São milhares de pessoas.
- Sabes que é sempre assim. Inscreves-te na consulta e esperas pela tua vez. A confusão é fogo de vista. CUIDAAADOOOO!!!!!!
- Oxalá tenhas razão... ai, ai o pilarete, aiiiiii, AIIIII!!!!!!!!
CATRAPUM. António escarrapachado no chão, cabeça a sangrar, nariz amolgado e o resto a esperar pelo resultado das radiografias. Maria dividida entre a ambulância e o hospital; a sirene a entrar em acção, a rodopiar, a espalhar luz, as portas a fecharem-se, lá dentro o António a acenar-lhe e a entreabrir os lábios, parecendo dizer “eu já cá volto”. Maria volta ao balcão de atendimento combalida com as dores que não se vêem, mas decidida a levar a consulta avante, mais as carradas de exame marcadas com uma razoável antecedência. A perturbação é evidente para alguns olhos, mas ninguém percebe ao certo o raio que a atingiu, uma tremura constante atrás do sorriso aberto, de quem se dispõe a esperar o tempo que for preciso.
Os telemóveis de ambos ligam-se de um lado para o outro, à socapa dos médicos e enfermeiras. Nunca coincidem, está um desligado, logo a seguir o outro o imita. As notícias tardam a chegar e Maria receia os resultados. As horas atrasam-se naquele lugar, apesar de ela se querer adiantar, a descrever círculos no átrio do hospital, a empatar-se com o telemóvel, a fingir que observa as pessoas, a tentar ler o que está escrito nos placares, a olhar para as suas radiografias sem interesse, a ler os relatórios dos médicos já de esguelha. Até que o telemóvel toca, com o António do outro lado.
- Sou eu!
- Estás vivo?
- Que te parece?
- Estás um bocadinho...
- Daqui a pouco estou aí. Espera por mim.
- A sério?
- Verdade. Voltamos no nosso comboio.
- Mas... tu estás capaz?
- Estou quase a chegar. Até já.
Pouco tempo depois António aparece, com o curativo feito, o diagnóstico escrito, as radiografias nas mãos. Teve sorte, dentro do azar. O comboio já vem a apitar, lá ao longe.
- O raio deste comboio não falha um minuto! – Exclama ele.
- Pois é! O pior é que os degraus custam cada vez mais a subir e eles não contam com isso. Arrancam sem dó nem piedade.
- Há coisas bem piores que os degraus.
- Bom, olha, o que é giro é que voltaste para me fazer companhia...
- Não fui grande companhia...
- Julgas tu... e agora estás cansado. Também não é para menos, não achas? Foi um dia bem fora do normal!
- Já viste Maria, como o final de tarde está bonito, com aquele sol alaranjado a querer esconder-se? Podia lá agora perder este comboio!
- Mas é uma simples consulta de rotina!
- Faço-te companhia, sempre é mais agradável, não achas?
- És capaz de ficar à espera...
- Dou uma volta.
- Nesse caso, veste o casaco, o comboio está quase a passar.
- Já estou pronto.
- Olha, lá está ele a apitar. Incrível, vem mesmo ao minuto.
- E deve vir cheio de gente.
- Vamos para as últimas carruagens, temos sempre sorte.
- Pronto, já cá estamos. Os degraus são altos, cada vez me custam mais a subir.
- Pois, tu não notas, mas vamos ganhando idade...
- É verdade, Maria.
- Encolhe-te um bocadinho, é por causa dos sacos, não os quero pôr no chão.
- Olha-me este sol, num dia de Inverno... não é normal, é que é um sol quente... e a luz está tão bonita. Gosto sempre desta viagem, sabes? Não ter que conduzir nem estacionar já é fantástico, mas este sol... anima-me.
- Antes assim. Querias apanhar uma chuvada? Ainda chegávamos encharcados ao hospital e se calhar só adoecia depois de lá sair.
- Isso é verdade.
- Pois, lá se iam os exames ao ar. Estamos quase a chegar... espera, não te levantes já, isto abana muito, podes cair. Temos tempo.
- Já se vê o hospital daqui.
- Sim... sempre te disse que era muito mais prático vir de comboio, não apanhamos trânsito, não temos que estacionar e é muito mais rápido.
- Pois é Maria, pois é. Que confusão está aqui. São milhares de pessoas.
- Sabes que é sempre assim. Inscreves-te na consulta e esperas pela tua vez. A confusão é fogo de vista. CUIDAAADOOOO!!!!!!
- Oxalá tenhas razão... ai, ai o pilarete, aiiiiii, AIIIII!!!!!!!!
CATRAPUM. António escarrapachado no chão, cabeça a sangrar, nariz amolgado e o resto a esperar pelo resultado das radiografias. Maria dividida entre a ambulância e o hospital; a sirene a entrar em acção, a rodopiar, a espalhar luz, as portas a fecharem-se, lá dentro o António a acenar-lhe e a entreabrir os lábios, parecendo dizer “eu já cá volto”. Maria volta ao balcão de atendimento combalida com as dores que não se vêem, mas decidida a levar a consulta avante, mais as carradas de exame marcadas com uma razoável antecedência. A perturbação é evidente para alguns olhos, mas ninguém percebe ao certo o raio que a atingiu, uma tremura constante atrás do sorriso aberto, de quem se dispõe a esperar o tempo que for preciso.
Os telemóveis de ambos ligam-se de um lado para o outro, à socapa dos médicos e enfermeiras. Nunca coincidem, está um desligado, logo a seguir o outro o imita. As notícias tardam a chegar e Maria receia os resultados. As horas atrasam-se naquele lugar, apesar de ela se querer adiantar, a descrever círculos no átrio do hospital, a empatar-se com o telemóvel, a fingir que observa as pessoas, a tentar ler o que está escrito nos placares, a olhar para as suas radiografias sem interesse, a ler os relatórios dos médicos já de esguelha. Até que o telemóvel toca, com o António do outro lado.
- Sou eu!
- Estás vivo?
- Que te parece?
- Estás um bocadinho...
- Daqui a pouco estou aí. Espera por mim.
- A sério?
- Verdade. Voltamos no nosso comboio.
- Mas... tu estás capaz?
- Estou quase a chegar. Até já.
Pouco tempo depois António aparece, com o curativo feito, o diagnóstico escrito, as radiografias nas mãos. Teve sorte, dentro do azar. O comboio já vem a apitar, lá ao longe.
- O raio deste comboio não falha um minuto! – Exclama ele.
- Pois é! O pior é que os degraus custam cada vez mais a subir e eles não contam com isso. Arrancam sem dó nem piedade.
- Há coisas bem piores que os degraus.
- Bom, olha, o que é giro é que voltaste para me fazer companhia...
- Não fui grande companhia...
- Julgas tu... e agora estás cansado. Também não é para menos, não achas? Foi um dia bem fora do normal!
- Já viste Maria, como o final de tarde está bonito, com aquele sol alaranjado a querer esconder-se? Podia lá agora perder este comboio!
terça-feira, 22 de janeiro de 2008
A psiquiatra

“Há sempre um episódio para contar”, pensa ela, antes de entrar para a consulta. “ Esta semana não aconteceu nada de especial, mas talvez não seja importante, o que interessa é analisar o que já se passou, sobre outras perspectivas. Lança-se uma frase ao acaso e nasce assunto que preenche pelo menos três sessões.” A porta abre-se, o paciente anterior sai e ela entra, já com a frase preparada. A doutora está em frente, sentada, de pernas cruzadas, a caneta e o bloco em cima do colo, um sorriso reservado e a voz calma. “Então? Como é que correu a semana?” ”Não estive com ele este fim de semana, doutora. Ainda lhe telefonei, mas estava muito ocupado.” A doutora levanta os olhos e o tom de voz, perguntando: “Como se sente?” Ela ri-se, confessando que desta vez, é-lhe indiferente. A doutora deixa escapar a surpresa, muda de posição, põe o bloco e a caneta de parte e comenta, intrigada: “Bom, bom, explique-me como é que conseguiu dar a volta à questão. No último dia estava perdida, chorava baba e ranho... em pequenina... os seus pais? Bloqueavam, de um instante para o outro?” A doutora tenta descobrir razões plausíveis para tal mudança. Até que passa, sem nada o fazer prever, para a sua própria história. Um caso triste, paixão sombria, mal correspondida, um período negro, do qual ainda não vê cor. A voz sai trémula e a respiração torna-se pesada. Parece envelhecer um par de anos, naquele instante. No fim, olha para o relógio e espanta-se, com o adiantado da hora. De regresso à voz branda e ao bloco de notas, termina a sessão, dizendo: “Temos que ficar por aqui. Até para a semana, à mesma hora.”
A queda do pano

A média luz impede-a de confirmar aquela impressão. Uma sensação de “déjà vu” recente, ou talvez vivida ao longo de um período de vida. Contudo, a comida deliciosa, apresentada de forma requintada, o bom vinho e a conversa dos anfitriões entretêm-na, confundindo-lhe as sensações. Talvez já tenha bebido demais. Talvez o cansaço a esteja a atormentar. Talvez a atmosfera a esteja a embebedar. Talvez, talvez. Os olhos piscam, tentando desembaciar as lentes. Talvez esteja a ver a realidade deturpada. Mas mesmo na terra dos “talvez”, prevalece a dúvida teimosa. Aquele homem é a cópia de alguém que conheceu a vida inteira. Um verdadeiro clone. Quer dizer, descontando o exagero, o riso, os olhos, o nariz, a voz, as opiniões, a curta história de vida que ouve naqueles escassos minutos, a certeza surge-lhe agora, iluminada em ambiente escuro. Recua duas décadas e lembra-se do amigo igual. Recua ainda mais e lembra-se das histórias que ouviu de um rapazinho único, feliz no seu bote, a traçar rumos no mar e na areia, que aos olhos dos outros possuía o mundo, ou pelo menos assim parecia. Intrigada, regressa à luz velada, observando-o. O amigo é filho único. Os pais existem. Chegou a ir a casa dele, várias vezes. Cresceram juntos, lá na praia. Às vezes há coisas estranhas. É assim que se arranjam os duplos, embora não passe de conversa de filmes. Os pensamentos são cortados pela gargalhada contagiante, que ela bem conhece. Pela simpatia e o à vontade que a fazem sentir como se o conhecesse de uma vida inteira. Aparentemente escondida na sua timidez, surpreende os amigos, soltando a pergunta surgida do nada: “Tens irmãos?” O desconhecido reage em cena de filme: cospe o vinho, apaga uma das velas sem querer, e no meio dos sopros pesados parece balbuciar, não, sim, não, sim. Por lapsos de segundo a voz some-se e o rubor enche-lhe as faces, esquecendo-se das falas e do resto da encenação. Deixando cair a máscara. Aprisionado entre dois muros, sem espaço para pular. Até que decide, naquele curto momento, ser ele próprio:
- Claro que tenho!
- Alfredo?
- Como adivinhaste?
- És igualzinho! Não sabia que ele tinha um irmão. Desculpa.
- Não tens que pedir desculpa. Dou-me muito bem com ele.
- Nunca te vi, ao longo destes anos todos.
- É normal. Não fomos criados juntos. Mas eu conheço a vida dele.
- Ah...
A luz das velas apaga-se, sem ninguém soprar. Os amigos, atrapalhados, acendem as luzes. A magia dos sabores exóticos dilui-se, junto com o vinho. Os pratos desmancham-se e da apresentação requintada, apenas sobram restos de comida. A mesa tem agora um aspecto vulgar e insignificante, ao pé das emoções transtornadas pela confirmação de um mistério. É uma noite abruptamente cortada, pelo desconforto causado, que ninguém poderia prever. Os amigos saem, em elevadores separados. Mais tarde, ela conta-lhes que teve um sonho sobre o seu amigo. Eram dois irmãos que viviam na mesma rua, em dois apartamentos diferentes, um com pai e mãe, outro só com mãe. O irmão enjeitado pulava, estrebuchava, soltando-se da mão da sua mãe sempre que via passar o irmão com os pais. Temia o pai, que tanto o tomava por estranho nessas alturas como o enchia de mimos e presentes, quando se escapava até à sua casa. Com o tempo, a vontade de ter um pai esmoreceu; resignado, mantinha a sua mão dada com a da mãe, observando o resto da família ao longe. De tanto se cruzar com o irmão apanhou-lhe o sorriso, o gesto e a forma de falar. O resto, contava-lhe o pai. Assim que tomou conta da sua vida, nunca mais deixou cair o pano. Até encontrar a tal amiga.
Os amigos sorriram, desejando nunca ter conhecido aquela história. Continuaram a dar jantares à luz das velas e a mimar o paladar dos seus amigos, apesar de nunca mais terem convidado os dois amigos desconhecidos.
- Claro que tenho!
- Alfredo?
- Como adivinhaste?
- És igualzinho! Não sabia que ele tinha um irmão. Desculpa.
- Não tens que pedir desculpa. Dou-me muito bem com ele.
- Nunca te vi, ao longo destes anos todos.
- É normal. Não fomos criados juntos. Mas eu conheço a vida dele.
- Ah...
A luz das velas apaga-se, sem ninguém soprar. Os amigos, atrapalhados, acendem as luzes. A magia dos sabores exóticos dilui-se, junto com o vinho. Os pratos desmancham-se e da apresentação requintada, apenas sobram restos de comida. A mesa tem agora um aspecto vulgar e insignificante, ao pé das emoções transtornadas pela confirmação de um mistério. É uma noite abruptamente cortada, pelo desconforto causado, que ninguém poderia prever. Os amigos saem, em elevadores separados. Mais tarde, ela conta-lhes que teve um sonho sobre o seu amigo. Eram dois irmãos que viviam na mesma rua, em dois apartamentos diferentes, um com pai e mãe, outro só com mãe. O irmão enjeitado pulava, estrebuchava, soltando-se da mão da sua mãe sempre que via passar o irmão com os pais. Temia o pai, que tanto o tomava por estranho nessas alturas como o enchia de mimos e presentes, quando se escapava até à sua casa. Com o tempo, a vontade de ter um pai esmoreceu; resignado, mantinha a sua mão dada com a da mãe, observando o resto da família ao longe. De tanto se cruzar com o irmão apanhou-lhe o sorriso, o gesto e a forma de falar. O resto, contava-lhe o pai. Assim que tomou conta da sua vida, nunca mais deixou cair o pano. Até encontrar a tal amiga.
Os amigos sorriram, desejando nunca ter conhecido aquela história. Continuaram a dar jantares à luz das velas e a mimar o paladar dos seus amigos, apesar de nunca mais terem convidado os dois amigos desconhecidos.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2008
O espectador
É raro vê-lo fora de um espectáculo. Tão raro, que quando acontece, parece que acabou de passar o seu sósia. Claro que assiste também a espectáculos ao ar livre, mas a verdade é que é diferente cá fora. O tom da pele, a barba por fazer, os cabelos desalinhados, os braços sem poiso, as pernas sem destino, enfim, todo ele caminha desconjuntado à luz do dia, na berma do passeio, a atravessar uma passadeira, a passear-se à beira do rio, a fingir-se um vulgar transeunte, na ausência de um espectáculo. Como se mais nada à sua volta tivesse expressão; as crianças que pulam no parque e que correm desenfreadamente atrás do cão e da bola, os velhos que caminham de mão dada, sobrando as mãos que se vão apoiando na bengala, os jovens enamorados que proliferam como cogumelos nos bancos do jardim, a luz do rio que se mete pelos olhos adentro, os barcos à vela que vão desfilando no estuário, o comboio que passa de vez em quando a estropiar a paisagem e os minutos que correm, invisíveis, cheios de coisas por dentro e por fora e ele ali, fora da sua pele. Um crítico de arte, das artes todas e de todas as formas de expressão. Religião professada diariamente, na cuidadosa consulta da agenda e na escolha criteriosa dos eventos. De tanto assistir, muda-se para dentro da sala de espectáculo. Conhece as cadeiras de cor, plateias, balcões, funcionários e artistas, as várias sessões, os horários de sábado e domingo. A rotina dos espectáculos, da arte e de tudo o mais, hipnotiza-o, congela-o, transformando-o num boneco de cera, reformado da luz cá fora, das pessoas, do rio e da brisa que teima em lhe assobiar. É só o palco que o motiva, o ecrã animado, as pessoas disfarçadas de outros personagens, a acenarem e a perguntarem “Voltas amanhã?”
Nesse dia raro ele aparece, a passear-se à beira do rio, esgotado de tanto espectáculo, roto nas vestes, cego com a luz, sem dar conta do vento e das pessoas que lentamente fazem uma clareira à roda dele. Um pouco atrás, está uma carrinha com uma equipa de filmagem e um guião que tem como personagem central um vagabundo que andarilha pelas ruas da cidade. A história é verdadeira e filmada em situação real. Alguém disse que passava por ali a pessoa ideal e de facto a equipa não perde tempo; acorre ao local e inicia as filmagens, perante uma enorme assistência.
Ele sente a multidão e junta-se a ela, na expectativa de assistir a mais um espectáculo. Toda a gente aponta o dedo na sua direcção e até o realizador lhe faz um gesto, tentando que ele se aproxime. Demora algum tempo até que se aperceba que é a personagem principal. Em pânico, foge por um buraco aberto na clareira humana, sentindo pela primeira vez o asfalto debaixo dos pés, apercebendo-se dos limites da beira do rio, do parque, cujo verde se perde de vista, das pessoas estupefactas, do ar atrás dele e de todas as cores à volta.
É já noite quando regressa a casa. Para ele, parece que passaram anos.
Nesse dia raro ele aparece, a passear-se à beira do rio, esgotado de tanto espectáculo, roto nas vestes, cego com a luz, sem dar conta do vento e das pessoas que lentamente fazem uma clareira à roda dele. Um pouco atrás, está uma carrinha com uma equipa de filmagem e um guião que tem como personagem central um vagabundo que andarilha pelas ruas da cidade. A história é verdadeira e filmada em situação real. Alguém disse que passava por ali a pessoa ideal e de facto a equipa não perde tempo; acorre ao local e inicia as filmagens, perante uma enorme assistência.
Ele sente a multidão e junta-se a ela, na expectativa de assistir a mais um espectáculo. Toda a gente aponta o dedo na sua direcção e até o realizador lhe faz um gesto, tentando que ele se aproxime. Demora algum tempo até que se aperceba que é a personagem principal. Em pânico, foge por um buraco aberto na clareira humana, sentindo pela primeira vez o asfalto debaixo dos pés, apercebendo-se dos limites da beira do rio, do parque, cujo verde se perde de vista, das pessoas estupefactas, do ar atrás dele e de todas as cores à volta.
É já noite quando regressa a casa. Para ele, parece que passaram anos.
Conversas cruzadas
Uma família à mesa, os sogros de um lado, o filho e a nora, ao lado dos netos. O fim de semana a começar e a conversa a desfiar-se, mesmo ali, por cima do assado da sogra. Dias em falta, de novidades para contar; são semanas que trazem anos atrás, que de repente espalham memórias em cima da mesa. A mesa redonda, armada com talheres, a fazê-los sentar e falar, sôfregos, ao mesmo tempo. O sogro comenta, de boca meio cheia, o assado da mulher; que bem que sabe, a mãe dela ainda o fazia melhor; os outros concordam, a nora puxa os galões dos dotes culinários da sua família e os netos rematam o desafio, concluindo que a comida ali em casa sabe toda ao mesmo; é simplesmente deliciosa.
Deste tema sobra uma frase que é entendida pela sogra de outra maneira; o sogro apanha-lhe ainda outro sentido e desenvolve-o, a gracejar com o filho. A nora intervém, sobre a última palavra que ouve dos dois, voando para um assunto diferente. Os netos participam, também, gritando palavras soltas sobre a escola e os amigos, com o prato ainda cheio, já frio e esquecido. O sogro e o filho misturam frases e comida; quem acaba com o vinho, quem se lembra daquele fulano, que andava por aquele jardim, a pedir esmola sem precisar.
A nora serve o café, depois da mesa levantada, pousando as chávenas sobre nódoas de vinho e manchas de comida. Há uns segundos de pausa e a sogra, intrigada, volta atrás, à primeira frase: “Agora é que percebi o que querias dizer há bocado... julgava que estavas a falar de outra coisa...” o sogro ri-se, respondendo: “E eu também!” Continua a sogra: “Falas do quê?” Retorna ele: ”Olha, não sei! De tudo o que se disse hoje!”
terça-feira, 15 de janeiro de 2008
A avenida do vento

O vento sopra furiosamente, ao longo das árvores que enfeitam a avenida até ao fim. Embaraça-lhe o cabelo, bate-lhe na cara, levanta-lhe as saias. É quase sempre assim, naquela zona. Faça Verão ou Inverno, lá está o vento a assobiar, a meter-se com as pessoas. Ela encolhe os ombros, sem se importar. É um percurso de quase todos os dias, já não sente o vento, nem olha para o número da porta, sabe que é o prédio amarelo mais antigo, com a porta verde de ferro, com aquela maçaneta enorme. É um segundo andar sem elevador, com a campainha avariada. Galga a escada, três em três degraus, fazendo um barulho característico, que a amiga já conhece. Cumprimentam-se como se não tivessem estado juntas há muito tempo, têm sempre segredos para contar e passam, sem esforço, a tarde inteira a conversar. Tornou-se complicado viver sem este confessionário diário; parece que fica um vazio incómodo por preencher, algo que ela não compreende nem identifica.
A casa da amiga não é grande e por sua vez divide-se em pequenos mundos. O irmão fecha-se no quarto, a mãe na biblioteca, a irmã no seu canto e o pai está ausente, apesar de em espírito se materializar dentro daquele espaço. À hora do lanche ouve-se a mãe a pôr a mesa na cozinha, enchendo-a de croissants, manteiga, compotas, bolos. De olhos sorridentes, a amiga pisca-lhe o olho e corre para a cozinha, ainda a tempo de apanhá-la e fazer-lhe um cerco; uma voz de criança em corpo de mulher, a suplicar meiguices.
O vento amaina e a luz esmorece devagarinho, sem ambas darem conta. Os bancos da cozinha tornaram-se duros para quem está sentado há tantas horas. A amiga é uma excelente ouvinte e parece ter uma paciência infinita para as suas queixas. As paixonetas, os dilemas, os estudos, a descrição pormenorizada dos dias, em que a cada minuto, acontece sempre algo novo. É uma sorte ter alguém disponível para partilhar os caminhos que se vão descobrindo aqui e acolá. A amiga convida-a para jantar, sem querer interromper o seu desabafo. Ela sabe que o seu pai nunca vem, nem avisa. É uma vida misteriosa, passada ao longe daquela avenida, muito para lá do vento, que refila ali todos os dias. O único segredo que não partilha com a amiga. A televisão continua avariada, a lâmpada do candeeiro da sala está fundida, a pintura estala nos rodapés e amarelece nas paredes. O tempo parece estar aprisionado naquela sala. Ao jantar, a mãe e os filhos falam normalmente, como se as portas dos quartos tivessem estado sempre abertas. Os assuntos são banais e revelam tanto como uma conversa entre estranhos. Enquanto os talheres tilintam e as bocas devoram a comida, ela perscruta-lhes o olhar. A roupa do pai está a monte, em cima do sofá, sem nunca abandonar o poiso. Um sinal feroz da sua presença.

Os anos passam, na avenida ventosa do prédio amarelo antigo, no apartamento dos quatro quartos fechados, ao contrário do que se desejaria. Ela já não sente a necessidade do confessionário tão amiúde quanto antes; também se cansou da amiga ouvinte e da amarga sensação de nunca a ter realmente conhecido. Separam-se mundos cá fora e cada uma parte à descoberta. O afastamento é natural e indolor; é uma imagem que se vai esbatendo no tempo, os quartos fechados, a mãe de sorriso esfíngico, a irmã excêntrica, o irmão que fazia elevações na ombreira da porta, o pai que nunca chegou para jantar. De vez em quando, ainda relembra a curiosidade acerca do interior daqueles quartos.
Recentemente, as amigas encontraram-se, por acaso. Escolheram a mesma profissão e coincidem no local de trabalho, fingindo a amiga nunca ter conhecido a intimidade partilhada entre as duas. Como se uma borracha gigante tivesse apagado o que ficou para trás. Ela é apenas um rosto novo que circula por ali, como o resto dos colegas. A amiga tem pressa, desvia-se a todo o custo quando a vê ao longe, atira-lhe um sorriso rasgado, proibindo-a de se aproximar. Será que o vento ainda ruge, naquela avenida?
Ela sobe as escadas, absorta em pensamentos. Sem nada fazer prever, tropeça na amiga e percebe que a borracha não chegou a apagar tudo. A necessidade de falar é evidente; a respiração agitada, um leve rubor nas faces, as palavras praticamente inteligíveis. Finalmente conta o acidente do pai; uma perna partida, umas costelas em mau estado, o internamento no hospital e a cena das visitas. Ela, a mãe e um dia, a outra. Ela e a outra, à beira da cama do pai. “Já sabias?”, pergunta, antevendo a resposta. Ela acena afirmativamente com a cabeça. “Porque não me disseste?” A outra comenta: “Iria adiantar?”

O tempo voltou a passar e as duas amigas nunca mais se viram. A velha borracha acabou por apagar o mesmo emprego. No outro dia, ela passou por acaso pela avenida larga e parou em frente ao que julgava ser o prédio amarelo antigo. Um novo prédio tinha nascido, no lugar daquele; a porta verde já não batia e a campainha tinha deixado de estar avariada. Os apartamentos eram novos e espaçosos. As árvores ainda balançavam, parecendo-a reconhecer. Os cabelos voaram e os olhos cerraram-se. O vento ainda continuava a soprar da mesma maneira.

Os anos passam, na avenida ventosa do prédio amarelo antigo, no apartamento dos quatro quartos fechados, ao contrário do que se desejaria. Ela já não sente a necessidade do confessionário tão amiúde quanto antes; também se cansou da amiga ouvinte e da amarga sensação de nunca a ter realmente conhecido. Separam-se mundos cá fora e cada uma parte à descoberta. O afastamento é natural e indolor; é uma imagem que se vai esbatendo no tempo, os quartos fechados, a mãe de sorriso esfíngico, a irmã excêntrica, o irmão que fazia elevações na ombreira da porta, o pai que nunca chegou para jantar. De vez em quando, ainda relembra a curiosidade acerca do interior daqueles quartos.
Recentemente, as amigas encontraram-se, por acaso. Escolheram a mesma profissão e coincidem no local de trabalho, fingindo a amiga nunca ter conhecido a intimidade partilhada entre as duas. Como se uma borracha gigante tivesse apagado o que ficou para trás. Ela é apenas um rosto novo que circula por ali, como o resto dos colegas. A amiga tem pressa, desvia-se a todo o custo quando a vê ao longe, atira-lhe um sorriso rasgado, proibindo-a de se aproximar. Será que o vento ainda ruge, naquela avenida?
Ela sobe as escadas, absorta em pensamentos. Sem nada fazer prever, tropeça na amiga e percebe que a borracha não chegou a apagar tudo. A necessidade de falar é evidente; a respiração agitada, um leve rubor nas faces, as palavras praticamente inteligíveis. Finalmente conta o acidente do pai; uma perna partida, umas costelas em mau estado, o internamento no hospital e a cena das visitas. Ela, a mãe e um dia, a outra. Ela e a outra, à beira da cama do pai. “Já sabias?”, pergunta, antevendo a resposta. Ela acena afirmativamente com a cabeça. “Porque não me disseste?” A outra comenta: “Iria adiantar?”

O tempo voltou a passar e as duas amigas nunca mais se viram. A velha borracha acabou por apagar o mesmo emprego. No outro dia, ela passou por acaso pela avenida larga e parou em frente ao que julgava ser o prédio amarelo antigo. Um novo prédio tinha nascido, no lugar daquele; a porta verde já não batia e a campainha tinha deixado de estar avariada. Os apartamentos eram novos e espaçosos. As árvores ainda balançavam, parecendo-a reconhecer. Os cabelos voaram e os olhos cerraram-se. O vento ainda continuava a soprar da mesma maneira.
domingo, 13 de janeiro de 2008
O desconcerto
O homem passa pelos corredores da sala de concerto, coxeando de uma perna. A língua prende-se a dizer “Boa noite” e as palavras seguintes são balbuciadas com dificuldade, em articulação deficiente, tornando incompreensível o seu sentido. Quem passa, já não olha nem vê, habituado à presença diária, à rotina das pequenas frases sem nexo. Transforma-se num personagem invisível, apesar de não desistir de abordar as pessoas, espalhando palavras estranhas sobre o sonho de tocar naquela sala.Muitos fingem não
ouvir, armados de indiferença, outros sentem-se constrangidos com a situação; são raros os que perdem um minuto a responder-lhe. O homem coxo tocou toda a vida, e acredita que também ele tem direito a tocar naquele espaço, perante aquela plateia. Um dia, surge a notícia nos placards. Quem o conhece, mal acredita, mas quem lê o nome, não suspeita o esforço que é subir torto e manco até ao palco, enfrentando uma sala cheia de gente. Uma sala de olhos postos nele. De ar digno, mas desconjuntado, abeira-se do piano de cauda, fazendo uma vénia ao público, que, meio desconcertado, responde com umas fracas palmas, em sinal de agradecimento.
Os primeiros acordes fazem-se ouvir, espalhando-se o som pela sala, forte e vigoroso. Quem conhece o reportório, admira-se de tal coragem. Existem momentos coxos na música. Existem alturas em que a música é inventada, desfigurada, estropiada. Por instantes, igual a si própria. Mas percorre aquele salão sem parar. Do princípio ao fim, até arrancar algo mais que umas fracas palmas, não interessa a razão.
A seguir ao concerto, o homem continua a cumprimentar as pessoas, recebendo eco. De repente, o “Boa noite” é dito de uma vez. E o resto das palavras fazem-se ouvir. Devagarinho, as frases começam a fazer sentido.quinta-feira, 10 de janeiro de 2008
O casamento
Casamento à vista, tumulto em redor, turbilhão que corre, lá fora e cá dentro. Olhos que nos seguram pelo canto, mal disfarçados de intenções, que nos despem em praça central, em julgamento popular, pelas aparências furtivas, que nem sequer se chegam a desenhar, de tanta irregularidade acontecida, de tanta estranheza dentro da vida.
Estou em casa do António, sem imaginar que me irá pertencer. Os móveis espiam-me, aquele louceiro da sala, sempre atento, incomoda-me. São presenças supérfluas, às quais nunca me adaptarei. Já lho disse, respondeu-me que era uma questão de hábito, não sei bem o que fazer, dormimos ontem, hoje, vamos dormir amanhã e depois; o consentimento dos pais, da aldeia inteira foi mudo e recatado, por falta de alternativa. Mesmo assim, carrego um céu pesado, de nuvens negras, inchadas de pecado. António diz-me que é essa sensação que entope a minha adaptação àquele espaço, a ele e à nossa vida. O casamento tem que ser feito, quanto antes. Apressamos a data, apressamos os abraços, condensamos o afecto. Continuo a estranhar a cama, o quarto com a janela pequena, as nesgas de sol, a cal a esboroar-se das paredes, o cheiro a mofo, a casa a gritar por vida e eu sem conseguir amar aquelas paredes, aquele soalho enegrecido, aquele fresco ali preso, mesmo sob o pino do calor. António adivinha-me e em duas palavras decide “Vendemos, não há problema nenhum, mas casamos na data marcada”. O esconderijo deixa de ser esconderijo e deixa de ser futuro, também. Relaxo e enrolo-me no seu corpo, à frente dos móveis velhos, que se despedem, acenando-me com as suas loiças.
Dia do casamento. Um vestido branco sujo, curto, sem cauda. Feito por mim, com a ajuda da minha mãe. As tias, os tios, os primos e as primas, enfeitados para o dia de festa, de apetites aguçados para o melhor que venha. O resto da aldeia, apinhado na praça central, espalhado pelas ruas, pelas janelas que oferecem vistas. A igreja e um padre, logo ali. O meu desfile, pela mão do meu pai, longo caminho até à igreja, perto demais para ir de limusina, sacrifício oferecido à população sobre os meus pés, população sequiosa de pormenores, de espreitadelas, de fracos nunca vistos, população que se esquece de si, quando vai para a praça pública. Caminho lentamente para não desmanchar o meu sorriso, o meu penteado, afinado com uma grinalda cheia de flores verdadeiras, caminho de pernas à vista e de sapatos de salto alto, sem cauda para carregar. Os oohs de espanto ouvem-se debaixo da surdina, preocupando o meu pai, que apressa o passo, precipitando o ritual, fazendo gala em empurrar a filha para o altar e entregar a responsabilidade a outro.
Dia do casamento. Um vestido branco sujo, curto, sem cauda. Feito por mim, com a ajuda da minha mãe. As tias, os tios, os primos e as primas, enfeitados para o dia de festa, de apetites aguçados para o melhor que venha. O resto da aldeia, apinhado na praça central, espalhado pelas ruas, pelas janelas que oferecem vistas. A igreja e um padre, logo ali. O meu desfile, pela mão do meu pai, longo caminho até à igreja, perto demais para ir de limusina, sacrifício oferecido à população sobre os meus pés, população sequiosa de pormenores, de espreitadelas, de fracos nunca vistos, população que se esquece de si, quando vai para a praça pública. Caminho lentamente para não desmanchar o meu sorriso, o meu penteado, afinado com uma grinalda cheia de flores verdadeiras, caminho de pernas à vista e de sapatos de salto alto, sem cauda para carregar. Os oohs de espanto ouvem-se debaixo da surdina, preocupando o meu pai, que apressa o passo, precipitando o ritual, fazendo gala em empurrar a filha para o altar e entregar a responsabilidade a outro.
Casamento à vista, tumulto em redor, turbilhão que corre, lá fora e cá dentro. Olhos que nos seguram pelo canto, mal disfarçados de intenções, que nos despem em praça central, em julgamento popular, pelas aparências furtivas, que nem sequer se chegam a desenhar, de tanta irregularidade acontecida, de tanta estranheza dentro da vida.
António surge lá do outro lado, descido do seu pequeno monte, da casinha das janelas pequenas, mundo pequeno e distante; surge em passo corrido, bonito de se ver no fato de cerimónia, tez bronzeada da guerra e do pó, homem esculpido a preceito pela natureza, sorriso aberto para mim, sorriso feliz e descarado, sorriso que a multidão não viu, caminho dos dois, sem ninguém à vista, felicidade invisível aos olhos dos curiosos. Chocamos os dois à porta da igreja, chocamos num longo abraço, o meu pai embaraçado com os procedimentos, as pessoas a empurrarem-nos para dentro da igreja; somos cuspidos para dentro, o meu pai fica para trás e de repente estamos perante o padre, com todos lá atrás, vestidos de silêncio, a sussurrar comentários surdos, à espera que a voz do mensageiro de Deus finalmente se levante. E o mensageiro levanta-se, contra vontade de muitos, dando início ao ritual. Nas últimas filas dos bancos corridos, chega apenas um eco difuso dos movimentos labiais do padre. Já toda a gente conhece a ladainha, apenas se observam uns aos outros; os nossos gestos, as nossas expressões ante a iminência de uma nova condição, os fatos dos outros, quem marcou presença, quem cochicha de graça e quem comenta com graça a procissão que se forma, quando viramos costas ao padre e entramos no mundo, no dia de hoje, perante o sol nu.
Casamento à vista, tumulto em redor, turbilhão que corre, lá fora e cá dentro. Olhos que nos seguram pelo canto, mal disfarçados de intenções, que nos despem em praça central, em julgamento popular, pelas aparências furtivas, que nem sequer se chegam a desenhar, de tanta irregularidade acontecida, de tanta estranheza dentro da vida.
Banquete rico, rica gente, rica terra. Os garfos tilintam, tilintam, exigindo o beijo tradicional. Beijamo-nos, por dentro só nós, num mundo colorido, de formas ausentes, onde rodopiamos, enlouquecidos com o brilho que se acende, com a plenitude que nos invade. Cá fora desenha-se um beijo vigiado, discreto aos olhares, contido demais, dando início ao repasto prometido. A gula absorve as atenções; devagarinho, cada um se lembra de si, investindo na comida que vem aí, largando as más línguas, as invejas do nada, os ciúmes de nós. António está longe de repente. Come com a vista para a frente, na confusão dos convidados. Agarro-lhe a mão, debaixo da mesa, para que não fuja, sem me levar também.

Casamento à vista, tumulto em redor, turbilhão que corre, lá fora e cá dentro. Olhos que nos seguram pelo canto, mal disfarçados de intenções, que nos despem em praça central, em julgamento popular, pelas aparências furtivas, que nem sequer se chegam a desenhar, de tanta irregularidade acontecida, de tanta estranheza dentro da vida.
António surge lá do outro lado, descido do seu pequeno monte, da casinha das janelas pequenas, mundo pequeno e distante; surge em passo corrido, bonito de se ver no fato de cerimónia, tez bronzeada da guerra e do pó, homem esculpido a preceito pela natureza, sorriso aberto para mim, sorriso feliz e descarado, sorriso que a multidão não viu, caminho dos dois, sem ninguém à vista, felicidade invisível aos olhos dos curiosos. Chocamos os dois à porta da igreja, chocamos num longo abraço, o meu pai embaraçado com os procedimentos, as pessoas a empurrarem-nos para dentro da igreja; somos cuspidos para dentro, o meu pai fica para trás e de repente estamos perante o padre, com todos lá atrás, vestidos de silêncio, a sussurrar comentários surdos, à espera que a voz do mensageiro de Deus finalmente se levante. E o mensageiro levanta-se, contra vontade de muitos, dando início ao ritual. Nas últimas filas dos bancos corridos, chega apenas um eco difuso dos movimentos labiais do padre. Já toda a gente conhece a ladainha, apenas se observam uns aos outros; os nossos gestos, as nossas expressões ante a iminência de uma nova condição, os fatos dos outros, quem marcou presença, quem cochicha de graça e quem comenta com graça a procissão que se forma, quando viramos costas ao padre e entramos no mundo, no dia de hoje, perante o sol nu.
Casamento à vista, tumulto em redor, turbilhão que corre, lá fora e cá dentro. Olhos que nos seguram pelo canto, mal disfarçados de intenções, que nos despem em praça central, em julgamento popular, pelas aparências furtivas, que nem sequer se chegam a desenhar, de tanta irregularidade acontecida, de tanta estranheza dentro da vida.
Banquete rico, rica gente, rica terra. Os garfos tilintam, tilintam, exigindo o beijo tradicional. Beijamo-nos, por dentro só nós, num mundo colorido, de formas ausentes, onde rodopiamos, enlouquecidos com o brilho que se acende, com a plenitude que nos invade. Cá fora desenha-se um beijo vigiado, discreto aos olhares, contido demais, dando início ao repasto prometido. A gula absorve as atenções; devagarinho, cada um se lembra de si, investindo na comida que vem aí, largando as más línguas, as invejas do nada, os ciúmes de nós. António está longe de repente. Come com a vista para a frente, na confusão dos convidados. Agarro-lhe a mão, debaixo da mesa, para que não fuja, sem me levar também.

Casamento à vista, tumulto em redor, turbilhão que corre, lá fora e cá dentro. Olhos que nos seguram pelo canto, mal disfarçados de intenções, que nos despem em praça central, em julgamento popular, pelas aparências furtivas, que nem sequer se chegam a desenhar, de tanta irregularidade acontecida, de tanta estranheza dentro da vida.
terça-feira, 8 de janeiro de 2008
O silêncio
“ Detesto festas de família... não suporto aquelas reuniões obrigatórias, com toda a gente a falar em voz alta... que barulho insuportável”, desabafa ele, perante ela. “O empertigado do teu irmão e a vaidosa da mulher... as criancinhas, meu Deus, tão malcriadas... não aguento... e o teu pai, sempre a vangloriar-se... parece que não vales nada... só mesmo a tua mãe... essa pelo menos, não chateia...”, queixa-se ele, debaixo das baforadas de fumo do cigarro dela.
“Há pessoas que sabem apreciar o silêncio. A tua mãe é uma delas. Vou, por respeito a ela. Mas não abuses. E reza para que me contenha, o disparate às vezes é tanto, que um santo não aguentaria”, continua ele, ao mesmo tempo que ela apaga a beata. “Desculpa, mas não estou habituado. Quer dizer, a tanta gente. Na minha família... somos só nós. Ninguém fala assim. Tão alto, pelo menos... existe harmonia e consegue-se ouvir o silêncio”, remata ele, enquanto se dirigem os dois para o carro. “Está na hora. Vamos. Guias tu? Temos tempo. Ah, estamos a chegar. Estaciona aí. Está óptimo. O que aconteceu? Não sais?”, pergunta ele, pela primeira vez, caído em si.
Ela confessa que não está bem disposta; pede-lhe que entre sozinho, que invente uma desculpa. Lamenta o sucedido, mas tem a certeza que ele compreenderá. Neste momento, ela precisa de voltar a abraçar o silêncio.segunda-feira, 7 de janeiro de 2008
A luz da manhã
Sonhou ontem com outra vida, que nem sequer chegou a viver. A sua cara era a de hoje, as outras eram rostos que conheceu e não chegaram a envelhecer.
Tinha chegado à idade da razão, talvez tarde demais, mas mesmo assim, merecedora dos prémios falhados e revisora dos insucessos marcados lá no canto da alma.
A vida amaciou-se, fundiu cores e envolveu-a numa tonalidade azul pálida, estreitando os corredores do tempo. As caras do passado deram as mãos e iniciaram o caminho curto até à luz azul. Vinham ter com ela, de sorriso misterioso. Pessoas que não via há anos. Suspendeu aquela imagem por momentos e meteu-os na terra, a contracenarem uns com os outros. Soltava gargalhadas, à medida que os ia apanhando desconcertados, a olharem-se perplexos, a conhecerem-se, percebendo que pertenciam a histórias diferentes.
Abriu os olhos e viu-os a aproximarem-se. A luz continuava azul e estendia-se até ao último deles. Modelou-os ao seu gosto, eliminou o que lhe desagradava, valendo-se do facto de ser o único elo de ligação. Desenterrou desejos e viveu em silêncio momentos que se viravam do avesso em relação ao que realmente tinha acontecido.
Tinha chegado à idade da razão, talvez tarde demais, mas mesmo assim, merecedora dos prémios falhados e revisora dos insucessos marcados lá no canto da alma.
A vida amaciou-se, fundiu cores e envolveu-a numa tonalidade azul pálida, estreitando os corredores do tempo. As caras do passado deram as mãos e iniciaram o caminho curto até à luz azul. Vinham ter com ela, de sorriso misterioso. Pessoas que não via há anos. Suspendeu aquela imagem por momentos e meteu-os na terra, a contracenarem uns com os outros. Soltava gargalhadas, à medida que os ia apanhando desconcertados, a olharem-se perplexos, a conhecerem-se, percebendo que pertenciam a histórias diferentes.
Abriu os olhos e viu-os a aproximarem-se. A luz continuava azul e estendia-se até ao último deles. Modelou-os ao seu gosto, eliminou o que lhe desagradava, valendo-se do facto de ser o único elo de ligação. Desenterrou desejos e viveu em silêncio momentos que se viravam do avesso em relação ao que realmente tinha acontecido.
Não deve ter passado de um segundo com cada pessoa e um segundo que apenas faz de conta. Os olhares derreteram icebergs e o toque das mãos curaram feridas, invisíveis à vista desarmada. A gentileza das pessoas provocou-lhe uma sensação de plenitude, talvez por ser alvo de tanta atenção.
Durante o uso dos segundos repara num homem que vem na fila. Ao longe parece maior que os outros, destacando-se a cabeça e ainda parte dos ombros. Abandona a fila sem aviso, vindo ao encontro dela. É novo e bem parecido. É alguém que lhe proporcionou uma experiência desagradável ao tornar-se seu companheiro. A personificação do inatingível, deixando-lhe os lábios mordidos de frustração. A escurecer o horizonte, pontapeando a vida.
Está à sua frente, espantado com a cor da luz. Olha-a como se ela fosse uma miragem. Os segundos que não existem alargam-se, criando um vácuo no tempo. Os dois estão recortados no espaço e visíveis de qualquer ponto do Universo. Tocam-se e trocam corpos sem se fundirem. Rodopiam, unem as mãos e repetem a habilidade. O bailado prolonga-se até se aperceberem que a fila desistiu de esperar e desapareceu, deixando-os a sós mais a luz, que rapidamente se extingue, apagando as suas silhuetas.
Ela acorda de manhã, à procura da luz azul. Ele entra em surdina no quarto. Esqueceu-se do perfume e começa a esgravatar nas gavetas. Os lenços saltam, mais as cuecas e as bugigangas de uma vida. A respiração dela denuncia-a. Ele volta-se, surpreendido. “Ah, és tu, já acordada… desculpa, não queria incomodar. Hoje venho tarde. Já me esquecia... era para te dizer... este fim de semana tenho um congresso. Depois falamos. Até logo, querida”.
É o homem dos seus sonhos. Apenas mais engelhado.
Ela olha em redor, ainda ensonada. É apenas mais uma manhã, igual a tantas outras.
Durante o uso dos segundos repara num homem que vem na fila. Ao longe parece maior que os outros, destacando-se a cabeça e ainda parte dos ombros. Abandona a fila sem aviso, vindo ao encontro dela. É novo e bem parecido. É alguém que lhe proporcionou uma experiência desagradável ao tornar-se seu companheiro. A personificação do inatingível, deixando-lhe os lábios mordidos de frustração. A escurecer o horizonte, pontapeando a vida.
Está à sua frente, espantado com a cor da luz. Olha-a como se ela fosse uma miragem. Os segundos que não existem alargam-se, criando um vácuo no tempo. Os dois estão recortados no espaço e visíveis de qualquer ponto do Universo. Tocam-se e trocam corpos sem se fundirem. Rodopiam, unem as mãos e repetem a habilidade. O bailado prolonga-se até se aperceberem que a fila desistiu de esperar e desapareceu, deixando-os a sós mais a luz, que rapidamente se extingue, apagando as suas silhuetas.
Ela acorda de manhã, à procura da luz azul. Ele entra em surdina no quarto. Esqueceu-se do perfume e começa a esgravatar nas gavetas. Os lenços saltam, mais as cuecas e as bugigangas de uma vida. A respiração dela denuncia-a. Ele volta-se, surpreendido. “Ah, és tu, já acordada… desculpa, não queria incomodar. Hoje venho tarde. Já me esquecia... era para te dizer... este fim de semana tenho um congresso. Depois falamos. Até logo, querida”.
É o homem dos seus sonhos. Apenas mais engelhado.
Ela olha em redor, ainda ensonada. É apenas mais uma manhã, igual a tantas outras.
sábado, 5 de janeiro de 2008
O labirinto
Passa por dias negros, sem se aperceber. Faça sol ou chuva, tanto faz, é um labirinto onde ela se enreda, onde se perde, onde ganha o hábito de viver todos os dias. Há caminhos que parecem atalhos, prometem uma saída airosa até à estrada principal, mas depressa desembocam em becos sem saída, muros altos de tijolos grossos, sem uma janela, sem um buraco por onde espreitar. A nossa amiga vive em céu destapado, presa fácil para quem espreita de fora. No meio desta aflição há um amigo que promete destruir a sensação de labirinto, de escuridão invisível, do desespero que lhe enche a alma. O começo de uma nova vida, de uma vida que, afinal está sempre a começar. O entusiasmo nasce da nova proposta; um negócio fácil, em terreno desconhecido, com pormenores desconhecidos, contrato à frente, com cara de tábua de salvação. As dívidas, a má sorte, os anseios, os sonhos. Tudo. Despem-se as paredes do labirinto, desaparecem os caminhos difíceis, nascem saídas. E deitam-se mãos ao trabalho, com uma energia contagiante. Desfolham-se dias, em que tudo parece correr bem.
Em cada um, há sempre um pormenor que não consta do contrato, tão pequeno, que só uma lupa consegue detectar. As decepções são curtas, apesar de se irem avolumando, causando uma estranheza que lhe desperta sentimentos contraditórios. Quando a imagem se aclara, ela vê com nitidez o que a escuridão escondeu antes. Uma trapaça simples, armada por um agiota sem classe. Revoltada, luta sob fúria, tentando repôr a verdade. Compreende que a estrada está deserta, e continua, até se perder de vista. Inesperadamente, o labirinto reaparece, envolvendo-a. Uma luz diferente penetra, derrotando a escuridão. São caminhos novos, a repensar.
Em cada um, há sempre um pormenor que não consta do contrato, tão pequeno, que só uma lupa consegue detectar. As decepções são curtas, apesar de se irem avolumando, causando uma estranheza que lhe desperta sentimentos contraditórios. Quando a imagem se aclara, ela vê com nitidez o que a escuridão escondeu antes. Uma trapaça simples, armada por um agiota sem classe. Revoltada, luta sob fúria, tentando repôr a verdade. Compreende que a estrada está deserta, e continua, até se perder de vista. Inesperadamente, o labirinto reaparece, envolvendo-a. Uma luz diferente penetra, derrotando a escuridão. São caminhos novos, a repensar.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2008
O chapéu e o laço
A voz dele domina o ar, por onde quer que passe. Sem levantar o tom. Apropria-se do espaço, das pessoas, levitando acima das multidões. Ecoa antes que alguém fale, transforma-se em ordem, antes que alguém pense. Com uma delicadeza perfeita, envolvida em gestos atenciosos, modos gentis, galanteios inesperados. Traz um chapéu na cabeça, um laço ajustado ao pescoço e as gargalhadas confiantes, de quem vê por cima dos outros. Um dia, uma criança, espantada com tal energia, interrompe-lhe a gargalhada: “Nunca te sentes triste?” O sorriso paralisa e as gargalhadas emudecem. O rosto perde a cor e os gestos enfraquecem. As palavras largam o brilho e balbuciam em segredo: “às vezes...” E a criança insiste: “O que fazes, quando estás assim?” “Rio-me”, responde ele. Surpreendido com a conversa, atreve-se a pensar. Muda de paisagem e enfrenta um céu aberto, intenso, que lhe ilumina o rosto. Segue por uma estrada solitária e contempla a imensidão dos campos calados. Assusta-se com o silêncio, num dia sem vento. Mesmo assim, ganha coragem e decide projectar a voz no espaço, para ter a certeza de si. O eco devolve-lhe a imagem, petrificando-o. Nunca se tinha ouvido. Lentamente, tira o chapéu e desaperta o laço, deixando-os ali, à mercê do acaso.
quarta-feira, 2 de janeiro de 2008
O jardim
Um jardim desenha-se, atrás da casa. A relva aparada, as árvores arranjadas, os ramos cortados a ondular, mostrando o caminho ao vento. As crianças em movimento, espalhadas pela relva, correndo até às sebes altas, que guardam o jardim. Uma mesa repleta de iguarias. Uma outra, mais distante. As pessoas à volta, pratos na mão, um copo que se pede, mil conversas que se cruzam. Uma festa de vida. A filha e o noivo, as testemunhas presentes, a prova viva de que ele ainda existe e que afinal, continua a lutar. Contra todos os prognósticos. Chega a pensar ser feito de um material diferente. Invencível. A filha despede-se do jardim e tempos depois, dá-lhe uma neta, igual a ela, igual a ele. Como se fossem dois espelhos dele, de reflexo luminoso. O tempo corre, sem ninguém pensar nele. Só ele pergunta que horas são, que dia é hoje, quantas semanas faltam, quanto tempo já passou. Boas e más notícias vão-se intercalando, confundindo-o. Até que um dia, uma dor lancinante o atinge. Levanta-se da cadeira, e antes que alguém descubra o segredo, corre a chamar a família. Naquele dia, almoçam no jardim e o vento volta a soprar, como se a vida fosse continuar. A neta ri-se, puxa-lhe a mão e pede que brinque com ela, a filha encara-o nos olhos, comentando a sua boa disposição. O genro dá-lhe uma palmada nas costas e serve-lhe uma bebida. A mulher comenta o dia lindo e vira costas, sem poder mais. Um último sorriso assoma-lhe, a querer despedir-se do vento e daquele jardim.
FragileIf blood will flow when fresh and steel are one
Drying in the colour of the evening sun
Tomorrow's rain will wash the stains away
But something in our minds will always stay
Perhaps this final act was meant
To clinch a lifetime's argument
That nothing comes from violence and nothing ever could
For all those born beneath an angry star
Lest we forget how fragile we are
On and on the rain will fall
Like tears from a star like tears from a star
On and on the rain will say
How fragile we are how fragile we are
On and on the rain will fall
Like tears from a star like tears from a star
On and on the rain will say
How fragile we are how fragile we are
How fragile we are how fragile we are
Drying in the colour of the evening sun
Tomorrow's rain will wash the stains away
But something in our minds will always stay
Perhaps this final act was meant
To clinch a lifetime's argument
That nothing comes from violence and nothing ever could
For all those born beneath an angry star
Lest we forget how fragile we are
On and on the rain will fall
Like tears from a star like tears from a star
On and on the rain will say
How fragile we are how fragile we are
On and on the rain will fall
Like tears from a star like tears from a star
On and on the rain will say
How fragile we are how fragile we are
How fragile we are how fragile we are
O estendal

Prédios que se juntam sem querer. Vizinhos que nada têm em comum, a não ser um bom dia de fugida, muitas vezes carrancudo. Por detrás deste anonimato, os percursos de cada um, as vidas que não se conhecem e que correm ao mesmo tempo. As regras do bom senso e o velho respeito pelo próximo. Neste cenário estão dois vizinhos, um por cima do outro, a exibirem estendais para a rua principal, não que isto seja uma opção dos próprios, mas antes algo a que o prédio inteiro não pode fugir, descurando a hipótese das traseiras; ninguém sabe quem foi o responsável, o que é certo é que em dia de sol o prédio fica mais colorido e adornado com as roupas dos vizinhos viradas do avesso.
Um dos vizinhos convida dois ou três amigos para jantar, o outro vizinho escuta pelas paredes finas do prédio e parece-lhe um desacato enorme; mudo fica pelas horas que ainda permitem a diversão, mas a atenção apura-se em seguir o rastro do vizinho social, na esperança de encontrar uma infracção à norma. Nesse serão, um gentil convidado tem a iniciativa de despejar as migalhas da toalha por cima do estendal do vizinho. Na ausência de roupa estendida. Isto, a altas horas da noite.
Os bons dias que se seguem não são nada amigáveis. O vizinho de cima não percebe a antipatia. Esforça-se por ser gentil, sorri, estende a mão, comenta o tempo e a proximidade do fim de semana, mas apanha com portas fechadas, elevadores subidos à pressa, correrias, caras irreconhecíveis.
O vento seca a roupa dos estendais, formando um conjunto de bandeiras agitadas e desordenadas, quando o vizinho de cima resolve fazer o mesmo e por acaso espreitar cá para baixo. Há um letreiro com letras gordas preso com molas de roupa e virado para o céu, dizendo: “ Não deitar lixo pela janela”. Faz sentido agora o vizinho virado do avesso com a roupa vestida do direito. É uma nova forma de comunicação que se inicia. Nem virtual, nem próxima; também não é impessoal. Nem sequer casual.
Apreensivo, o vizinho de cima reflecte sobre o assunto. Apesar da grotesca situação, o vizinho de baixo tem razão. É apenas um pouco desajeitado na forma de o dizer. Como lhe agradecer?
As roupas voltam-se a estender em dias solarengos, de maior ou menor vento, intercalados com os dias de chuva e o vizinho de cima também a estende, com o olhar pregado no andar de baixo. O aviso nunca é retirado, teimoso e receoso das fracas consciências. Mas o tempo ganha e esboroa o papel, esbate as letras e o aviso corre o risco de ser esquecido. O vizinho de cima toca à campainha do vizinho de baixo, preocupado com a situação. Este abre a porta, surpreso, mal tendo tempo para pôr a cara do avesso. O outro apenas lhe lembra o letreiro deteriorado, ouvindo ainda um obrigado.
Quando o vizinho de cima estende a roupa já não olha para o chão. Nem sequer tem curiosidade em saber se está lá algum letreiro. Como se uma espécie de cegueira o tivesse atacado sobre estendais e vizinhos.
Um dos vizinhos convida dois ou três amigos para jantar, o outro vizinho escuta pelas paredes finas do prédio e parece-lhe um desacato enorme; mudo fica pelas horas que ainda permitem a diversão, mas a atenção apura-se em seguir o rastro do vizinho social, na esperança de encontrar uma infracção à norma. Nesse serão, um gentil convidado tem a iniciativa de despejar as migalhas da toalha por cima do estendal do vizinho. Na ausência de roupa estendida. Isto, a altas horas da noite.
Os bons dias que se seguem não são nada amigáveis. O vizinho de cima não percebe a antipatia. Esforça-se por ser gentil, sorri, estende a mão, comenta o tempo e a proximidade do fim de semana, mas apanha com portas fechadas, elevadores subidos à pressa, correrias, caras irreconhecíveis.
O vento seca a roupa dos estendais, formando um conjunto de bandeiras agitadas e desordenadas, quando o vizinho de cima resolve fazer o mesmo e por acaso espreitar cá para baixo. Há um letreiro com letras gordas preso com molas de roupa e virado para o céu, dizendo: “ Não deitar lixo pela janela”. Faz sentido agora o vizinho virado do avesso com a roupa vestida do direito. É uma nova forma de comunicação que se inicia. Nem virtual, nem próxima; também não é impessoal. Nem sequer casual.
Apreensivo, o vizinho de cima reflecte sobre o assunto. Apesar da grotesca situação, o vizinho de baixo tem razão. É apenas um pouco desajeitado na forma de o dizer. Como lhe agradecer?
As roupas voltam-se a estender em dias solarengos, de maior ou menor vento, intercalados com os dias de chuva e o vizinho de cima também a estende, com o olhar pregado no andar de baixo. O aviso nunca é retirado, teimoso e receoso das fracas consciências. Mas o tempo ganha e esboroa o papel, esbate as letras e o aviso corre o risco de ser esquecido. O vizinho de cima toca à campainha do vizinho de baixo, preocupado com a situação. Este abre a porta, surpreso, mal tendo tempo para pôr a cara do avesso. O outro apenas lhe lembra o letreiro deteriorado, ouvindo ainda um obrigado.
Quando o vizinho de cima estende a roupa já não olha para o chão. Nem sequer tem curiosidade em saber se está lá algum letreiro. Como se uma espécie de cegueira o tivesse atacado sobre estendais e vizinhos.
terça-feira, 1 de janeiro de 2008
Os quadros

Um sujeito rodopia, entre cada grupo, entre cada quadro, entre cada copo que se bebe, entre olhares que não se conhecem, entre outros olhares, que ao contrário, são alvo de atenção. O sujeito circula, circula, por fora, de costas para os quadros, a espiolhar, como uma ave de rapina, o centro da galeria, o centro dos interesses, as pessoas também de costas voltadas para os quadros, cada uma a farejar o que os outros têm para dar. Qual não é o espanto do sujeito, quando repara num segundo personagem, que acabou de se esgueirar das gargalhadas estridentes, das baforadas de fumo e das conversas de circunstância e apressa o passo atrás dele, observando o olhar que absorve o grupo de pessoas, envolto em si. Atrás deste surge um terceiro, intrigado com a atitude dos dois, resolve segui-los, até perceber onde a charada o leva. E depois um quarto e um quinto... É uma roda de homens atrás de um mistério nascido ali, que circulam uns atrás dos outros, perante o ar impávido do grupo central, alheio aos quadros e aos homens. O primeiro sujeito cansa-se dos tenazes seguidores; não só trava de repente, como se vira para o segundo homem, indignado, perguntando que paródia vem a ser aquela, ele é artista, exibe quadros naquela exposição, apenas tenta conhecer alguém interessado na sua obra. “Nós também”, respondem os outros. “Ninguém nos apresentou. Nem fomos apresentados. Já agora, qual é a sua obra? E a sua?” Os dedos apontam-se em várias direcções, a vista arregala-se e os homens reiniciam a sua ronda, em passo lento e apreciador, desta vez de costas voltadas para o grupo convidado, que continua a desfrutar do agradável cocktail.
A janela

É depois de virar aquela esquina. Um pouco mais à frente, há uma janela minúscula, sempre entreaberta. Umas cortinas barram o olhar aos indiscretos, esvoaçando de vez em quando pela frincha. A janela é de uma velhota que vigia a rua todos os dias, sem ninguém lhe pedir. Uma doença arrastada, o declínio próprio da idade, deixaram-na frente à janela, única abertura para espreitar a vida. Conhece quase todos os habitantes das redondezas; os hábitos, as manias, os segredos. Conhece, inclusive, a hora a que costumam passar pela rua, a picar bilhete debaixo da sua janela. Nesta azáfama de ver quem lá vem, a velhota dá por uma cara nova, que passa encolhida. Semicerra os olhos, focando a jovem mulher. “É a filha do Horácio... mas hoje foi o funeral dele. Porque não está com a família?” De falinhas mansas, a velhota interrompe o seu passo lento: “O que aconteceu minha filha? Vens tão triste e tão alegremente vestida...” A jovem dá um pulo para trás, encara-a, e sem dizer uma palavra, continua o seu caminho, deixando a velha pendurada. Nos dias seguintes, a jovem passa pela janela da velha, cabisbaixa, mas vestida com cores alegres. Esta, intrigada, comenta: “ Ó menina, isso então é que é fazer luto? Ainda o paizinho não arrefeceu, já andas por aí toda garrida... olha que ele não merece... era um santo homem, Deus o tenha lá bem guardado.” A jovem finge não ouvir, mas as palavras cravam-se-lhe como setas. Como explicar à velha que não aguenta tal infelicidade, que se sente nua, se não se disfarçar? Passado um tempo, a jovem passa, vestida de preto. A velhota repara: “Quem não te conheça, vai pensar que és viúva antes do tempo”. A jovem sorri e responde: “ Já não preciso que reparem em mim.”
A calçada

É hora de ponta. Ele desce a calçada, apressado, ziguezagueando por entre milhares de rostos anónimos. O dia é vivido ao dobro da velocidade. 120 segundos por minuto, 120 minutos por hora, 48 horas por dia. Oxalá pudesse viver esta proeza ao quádruplo da velocidade. Os outros ficariam ainda mais para trás. Não é que perca muito tempo com eles. Cada vez perde menos. E o tempo não se pode desperdiçar. No meio da calçada, encontra duas ou três caras conhecidas, talvez mais. Actualmente, é reconhecido debaixo de qualquer disfarce. “É o preço da fama”, pensa com orgulho. Acelera o passo no passeio concorrido, desviando-se dos conhecidos. A mão acena ao longe, a cabeça abana, dizendo que está tudo bem, o sorriso de medida certa corta o diálogo.

Ainda se ouve: “Desculpe, estou cheio de pressa!” Os dias aceleram, na companhia dele. Destacado dos outros, como se de uma maratona se tratasse, continua a correr, aumentando ainda mais a distância que, por si só, se tornou inalcançável. Um dia, de regresso à calçada, cruza-se com alguém mais famoso do que ele. Um ídolo que venera, um ícone de uma geração. A calçada despe-se de todas as pessoas que por ali passam, deixando-os a sós no cruzamento. Ele aborda a pessoa, confiante de que ambos pisam o mesmo tapete. A expressão carrancuda do famoso não ajuda, mais o guarda-costas atrás, que o repele como a um vulgar mosquito. Mais tarde, na mesma calçada, ainda meio atordoado com o episódio, ele abranda o passo, queixando-se a um ou outro conhecido que passa. Ninguém reconhece a lentidão dos gestos, o ar abatido e a voz que não se cala. Ninguém compreende porque é que o tempo deixou de existir.

Ainda se ouve: “Desculpe, estou cheio de pressa!” Os dias aceleram, na companhia dele. Destacado dos outros, como se de uma maratona se tratasse, continua a correr, aumentando ainda mais a distância que, por si só, se tornou inalcançável. Um dia, de regresso à calçada, cruza-se com alguém mais famoso do que ele. Um ídolo que venera, um ícone de uma geração. A calçada despe-se de todas as pessoas que por ali passam, deixando-os a sós no cruzamento. Ele aborda a pessoa, confiante de que ambos pisam o mesmo tapete. A expressão carrancuda do famoso não ajuda, mais o guarda-costas atrás, que o repele como a um vulgar mosquito. Mais tarde, na mesma calçada, ainda meio atordoado com o episódio, ele abranda o passo, queixando-se a um ou outro conhecido que passa. Ninguém reconhece a lentidão dos gestos, o ar abatido e a voz que não se cala. Ninguém compreende porque é que o tempo deixou de existir.
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