segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

A luz da manhã

Sonhou ontem com outra vida, que nem sequer chegou a viver. A sua cara era a de hoje, as outras eram rostos que conheceu e não chegaram a envelhecer.
Tinha chegado à idade da razão, talvez tarde demais, mas mesmo assim, merecedora dos prémios falhados e revisora dos insucessos marcados lá no canto da alma.
A vida amaciou-se, fundiu cores e envolveu-a numa tonalidade azul pálida, estreitando os corredores do tempo. As caras do passado deram as mãos e iniciaram o caminho curto até à luz azul. Vinham ter com ela, de sorriso misterioso. Pessoas que não via há anos. Suspendeu aquela imagem por momentos e meteu-os na terra, a contracenarem uns com os outros. Soltava gargalhadas, à medida que os ia apanhando desconcertados, a olharem-se perplexos, a conhecerem-se, percebendo que pertenciam a histórias diferentes.
Abriu os olhos e viu-os a aproximarem-se. A luz continuava azul e estendia-se até ao último deles. Modelou-os ao seu gosto, eliminou o que lhe desagradava, valendo-se do facto de ser o único elo de ligação. Desenterrou desejos e viveu em silêncio momentos que se viravam do avesso em relação ao que realmente tinha acontecido.

Não deve ter passado de um segundo com cada pessoa e um segundo que apenas faz de conta. Os olhares derreteram icebergs e o toque das mãos curaram feridas, invisíveis à vista desarmada. A gentileza das pessoas provocou-lhe uma sensação de plenitude, talvez por ser alvo de tanta atenção.
Durante o uso dos segundos repara num homem que vem na fila. Ao longe parece maior que os outros, destacando-se a cabeça e ainda parte dos ombros. Abandona a fila sem aviso, vindo ao encontro dela. É novo e bem parecido. É alguém que lhe proporcionou uma experiência desagradável ao tornar-se seu companheiro. A personificação do inatingível, deixando-lhe os lábios mordidos de frustração. A escurecer o horizonte, pontapeando a vida.
Está à sua frente, espantado com a cor da luz. Olha-a como se ela fosse uma miragem. Os segundos que não existem alargam-se, criando um vácuo no tempo. Os dois estão recortados no espaço e visíveis de qualquer ponto do Universo. Tocam-se e trocam corpos sem se fundirem. Rodopiam, unem as mãos e repetem a habilidade. O bailado prolonga-se até se aperceberem que a fila desistiu de esperar e desapareceu, deixando-os a sós mais a luz, que rapidamente se extingue, apagando as suas silhuetas.
Ela acorda de manhã, à procura da luz azul. Ele entra em surdina no quarto. Esqueceu-se do perfume e começa a esgravatar nas gavetas. Os lenços saltam, mais as cuecas e as bugigangas de uma vida. A respiração dela denuncia-a. Ele volta-se, surpreendido. “Ah, és tu, já acordada… desculpa, não queria incomodar. Hoje venho tarde. Já me esquecia... era para te dizer... este fim de semana tenho um congresso. Depois falamos. Até logo, querida”.
É o homem dos seus sonhos. Apenas mais engelhado.
Ela olha em redor, ainda ensonada. É apenas mais uma manhã, igual a tantas outras.



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