
Toca o telefone, à hora da refeição. O ‘ring-ring’ confunde-se com o tilintar dos talheres, em pleno movimento. Não tarda que um dos familiares ouça o inconfundível toque. “Vais lá?”, pergunta o marido à mulher. Ela atende, ainda sem ter engolido a última garfada. “Sim? Ah, és tu...diz... Ai sim? É capaz de ser interessante. o António há-de querer ir, com certeza... sim... fica já combinado. Até logo.”

Continua o tilintar dos talheres, a sopa por acabar, as panelas por esvaziar e pelo meio a pergunta do marido: “Quem era?” “ A tua irmã. Convida-nos para assistir a um espectáculo da filha... parece que é genial a dançar. Aceitei o convite. É hoje, ao final da tarde.” “ A tia tem a mania que é a maior. É uma chata de primeira”, resmunga o filho mais velho. “ Além disso, a Alice é grotesca a dançar. Eu já a vi”, comenta a filha do meio. “ Recuso-me a ir. São uma cambada de patetas. E nunca nos ligam. Exibicionistas”, conclui o mais novo. “Bem, eu confesso que não tenho grande paciência, mas sempre é a vossa tia”, remata a mãe. “Mas porque é que não lhe dizes isso na cara? Estão a ser muito hipócritas”, interrompe o pai, que se levanta em direcção ao telefone. “ Vou-lhe ligar a dizer que não vamos.” O auscultador, mal desligado, levanta-se e antes que o pai marque o número, ouve-se uma voz familiar do outro lado dizendo: “ Não te preocupes António, os bilhetes já estão esgotados.”
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