Uma família à mesa, os sogros de um lado, o filho e a nora, ao lado dos netos. O fim de semana a começar e a conversa a desfiar-se, mesmo ali, por cima do assado da sogra. Dias em falta, de novidades para contar; são semanas que trazem anos atrás, que de repente espalham memórias em cima da mesa. A mesa redonda, armada com talheres, a fazê-los sentar e falar, sôfregos, ao mesmo tempo. O sogro comenta, de boca meio cheia, o assado da mulher; que bem que sabe, a mãe dela ainda o fazia melhor; os outros concordam, a nora puxa os galões dos dotes culinários da sua família e os netos rematam o desafio, concluindo que a comida ali em casa sabe toda ao mesmo; é simplesmente deliciosa.
Deste tema sobra uma frase que é entendida pela sogra de outra maneira; o sogro apanha-lhe ainda outro sentido e desenvolve-o, a gracejar com o filho. A nora intervém, sobre a última palavra que ouve dos dois, voando para um assunto diferente. Os netos participam, também, gritando palavras soltas sobre a escola e os amigos, com o prato ainda cheio, já frio e esquecido. O sogro e o filho misturam frases e comida; quem acaba com o vinho, quem se lembra daquele fulano, que andava por aquele jardim, a pedir esmola sem precisar.
A nora serve o café, depois da mesa levantada, pousando as chávenas sobre nódoas de vinho e manchas de comida. Há uns segundos de pausa e a sogra, intrigada, volta atrás, à primeira frase: “Agora é que percebi o que querias dizer há bocado... julgava que estavas a falar de outra coisa...” o sogro ri-se, respondendo: “E eu também!” Continua a sogra: “Falas do quê?” Retorna ele: ”Olha, não sei! De tudo o que se disse hoje!”
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