É de manhã. Uma manhã enevoada, um frio que corta o ar, de vidros embaciados nas vitrinas por onde ele passa. Os dedos, escondidos sob as luvas, desenham bonecos e letras ainda mal feitas. A berma do passeio protege-o, curva sobre curva, dos carros que passam rente. O caminho ainda é longo, até à escola. Quatro vezes por dia. A ida, a vinda, e pelo meio, o almoço no restaurante dos pais. O corpo pequeno, a atravessar estradas movimentadas, sem receio. É mais um dia de escola, com letras para aprender, sons novos, num espaço que pouco conhece. Ainda está aprender a língua, que é muito diferente da sua. Os colegas acham-lhe graça; apesar de mal o entenderem, brincam com ele, como todos os meninos sabem fazer. Hoje, ele não tem vontade de brincar, apesar de continuar a rir-se para a professora, para os colegas. O corpo está mole, pede-lhe que se sente e sossegue. A professora desconfia e põe-lhe a mão na testa. O corpo arde. “Não estás bem! O que te dói?” O menino encolhe os ombros, sem responder. A professora insiste, fazendo mímica, a querer saber mais. Ele ouve os sons, vê os gestos, sem adiantar muito. A mãe não ligou aos arrepios de frio. Provavelmente, confundiu com o frio que faz cá fora. Pobres ignorantes. A mãe é chamada à escola, sem compreender. Fala e gesticula, com ar zangado. A professora pede ajuda a outras colegas e as colegas lembram-se de chamar um aluno mais velho, que fala a mesma língua. Este, traduz, de imediato, o tom aflito da mãe: “Acabei de chegar, ninguém vai trabalhar por mim; não posso largar o restaurante... os meus clientes... porque se metem na minha vida? É meu filho, não vosso...”
terça-feira, 29 de janeiro de 2008
O som das palavras
É de manhã. Uma manhã enevoada, um frio que corta o ar, de vidros embaciados nas vitrinas por onde ele passa. Os dedos, escondidos sob as luvas, desenham bonecos e letras ainda mal feitas. A berma do passeio protege-o, curva sobre curva, dos carros que passam rente. O caminho ainda é longo, até à escola. Quatro vezes por dia. A ida, a vinda, e pelo meio, o almoço no restaurante dos pais. O corpo pequeno, a atravessar estradas movimentadas, sem receio. É mais um dia de escola, com letras para aprender, sons novos, num espaço que pouco conhece. Ainda está aprender a língua, que é muito diferente da sua. Os colegas acham-lhe graça; apesar de mal o entenderem, brincam com ele, como todos os meninos sabem fazer. Hoje, ele não tem vontade de brincar, apesar de continuar a rir-se para a professora, para os colegas. O corpo está mole, pede-lhe que se sente e sossegue. A professora desconfia e põe-lhe a mão na testa. O corpo arde. “Não estás bem! O que te dói?” O menino encolhe os ombros, sem responder. A professora insiste, fazendo mímica, a querer saber mais. Ele ouve os sons, vê os gestos, sem adiantar muito. A mãe não ligou aos arrepios de frio. Provavelmente, confundiu com o frio que faz cá fora. Pobres ignorantes. A mãe é chamada à escola, sem compreender. Fala e gesticula, com ar zangado. A professora pede ajuda a outras colegas e as colegas lembram-se de chamar um aluno mais velho, que fala a mesma língua. Este, traduz, de imediato, o tom aflito da mãe: “Acabei de chegar, ninguém vai trabalhar por mim; não posso largar o restaurante... os meus clientes... porque se metem na minha vida? É meu filho, não vosso...”
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário