quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

O estendal


Prédios que se juntam sem querer. Vizinhos que nada têm em comum, a não ser um bom dia de fugida, muitas vezes carrancudo. Por detrás deste anonimato, os percursos de cada um, as vidas que não se conhecem e que correm ao mesmo tempo. As regras do bom senso e o velho respeito pelo próximo. Neste cenário estão dois vizinhos, um por cima do outro, a exibirem estendais para a rua principal, não que isto seja uma opção dos próprios, mas antes algo a que o prédio inteiro não pode fugir, descurando a hipótese das traseiras; ninguém sabe quem foi o responsável, o que é certo é que em dia de sol o prédio fica mais colorido e adornado com as roupas dos vizinhos viradas do avesso.
Um dos vizinhos convida dois ou três amigos para jantar, o outro vizinho escuta pelas paredes finas do prédio e parece-lhe um desacato enorme; mudo fica pelas horas que ainda permitem a diversão, mas a atenção apura-se em seguir o rastro do vizinho social, na esperança de encontrar uma infracção à norma. Nesse serão, um gentil convidado tem a iniciativa de despejar as migalhas da toalha por cima do estendal do vizinho. Na ausência de roupa estendida. Isto, a altas horas da noite.
Os bons dias que se seguem não são nada amigáveis. O vizinho de cima não percebe a antipatia. Esforça-se por ser gentil, sorri, estende a mão, comenta o tempo e a proximidade do fim de semana, mas apanha com portas fechadas, elevadores subidos à pressa, correrias, caras irreconhecíveis.
O vento seca a roupa dos estendais, formando um conjunto de bandeiras agitadas e desordenadas, quando o vizinho de cima resolve fazer o mesmo e por acaso espreitar cá para baixo. Há um letreiro com letras gordas preso com molas de roupa e virado para o céu, dizendo: “ Não deitar lixo pela janela”. Faz sentido agora o vizinho virado do avesso com a roupa vestida do direito. É uma nova forma de comunicação que se inicia. Nem virtual, nem próxima; também não é impessoal. Nem sequer casual.
Apreensivo, o vizinho de cima reflecte sobre o assunto. Apesar da grotesca situação, o vizinho de baixo tem razão. É apenas um pouco desajeitado na forma de o dizer. Como lhe agradecer?
As roupas voltam-se a estender em dias solarengos, de maior ou menor vento, intercalados com os dias de chuva e o vizinho de cima também a estende, com o olhar pregado no andar de baixo. O aviso nunca é retirado, teimoso e receoso das fracas consciências. Mas o tempo ganha e esboroa o papel, esbate as letras e o aviso corre o risco de ser esquecido. O vizinho de cima toca à campainha do vizinho de baixo, preocupado com a situação. Este abre a porta, surpreso, mal tendo tempo para pôr a cara do avesso. O outro apenas lhe lembra o letreiro deteriorado, ouvindo ainda um obrigado.
Quando o vizinho de cima estende a roupa já não olha para o chão. Nem sequer tem curiosidade em saber se está lá algum letreiro. Como se uma espécie de cegueira o tivesse atacado sobre estendais e vizinhos.

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