terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Os quadros



Um sujeito rodopia, entre cada grupo, entre cada quadro, entre cada copo que se bebe, entre olhares que não se conhecem, entre outros olhares, que ao contrário, são alvo de atenção. O sujeito circula, circula, por fora, de costas para os quadros, a espiolhar, como uma ave de rapina, o centro da galeria, o centro dos interesses, as pessoas também de costas voltadas para os quadros, cada uma a farejar o que os outros têm para dar. Qual não é o espanto do sujeito, quando repara num segundo personagem, que acabou de se esgueirar das gargalhadas estridentes, das baforadas de fumo e das conversas de circunstância e apressa o passo atrás dele, observando o olhar que absorve o grupo de pessoas, envolto em si. Atrás deste surge um terceiro, intrigado com a atitude dos dois, resolve segui-los, até perceber onde a charada o leva. E depois um quarto e um quinto... É uma roda de homens atrás de um mistério nascido ali, que circulam uns atrás dos outros, perante o ar impávido do grupo central, alheio aos quadros e aos homens. O primeiro sujeito cansa-se dos tenazes seguidores; não só trava de repente, como se vira para o segundo homem, indignado, perguntando que paródia vem a ser aquela, ele é artista, exibe quadros naquela exposição, apenas tenta conhecer alguém interessado na sua obra. “Nós também”, respondem os outros. “Ninguém nos apresentou. Nem fomos apresentados. Já agora, qual é a sua obra? E a sua?” Os dedos apontam-se em várias direcções, a vista arregala-se e os homens reiniciam a sua ronda, em passo lento e apreciador, desta vez de costas voltadas para o grupo convidado, que continua a desfrutar do agradável cocktail.



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