
Um sujeito rodopia, entre cada grupo, entre cada quadro, entre cada copo que se bebe, entre olhares que não se conhecem, entre outros olhares, que ao contrário, são alvo de atenção. O sujeito circula, circula, por fora, de costas para os quadros, a espiolhar, como uma ave de rapina, o centro da galeria, o centro dos interesses, as pessoas também de costas voltadas para os quadros, cada uma a farejar o que os outros têm para dar. Qual não é o espanto do sujeito, quando repara num segundo personagem, que acabou de se esgueirar das gargalhadas estridentes, das baforadas de fumo e das conversas de circunstância e apressa o passo atrás dele, observando o olhar que absorve o grupo de pessoas, envolto em si. Atrás deste surge um terceiro, intrigado com a atitude dos dois, resolve segui-los, até perceber onde a charada o leva. E depois um quarto e um quinto... É uma roda de homens atrás de um mistério nascido ali, que circulam uns atrás dos outros, perante o ar impávido do grupo central, alheio aos quadros e aos homens. O primeiro sujeito cansa-se dos tenazes seguidores; não só trava de repente, como se vira para o segundo homem, indignado, perguntando que paródia vem a ser aquela, ele é artista, exibe quadros naquela exposição, apenas tenta conhecer alguém interessado na sua obra. “Nós também”, respondem os outros. “Ninguém nos apresentou. Nem fomos apresentados. Já agora, qual é a sua obra? E a sua?” Os dedos apontam-se em várias direcções, a vista arregala-se e os homens reiniciam a sua ronda, em passo lento e apreciador, desta vez de costas voltadas para o grupo convidado, que continua a desfrutar do agradável cocktail.
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