quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

O casamento

Casamento à vista, tumulto em redor, turbilhão que corre, lá fora e cá dentro. Olhos que nos seguram pelo canto, mal disfarçados de intenções, que nos despem em praça central, em julgamento popular, pelas aparências furtivas, que nem sequer se chegam a desenhar, de tanta irregularidade acontecida, de tanta estranheza dentro da vida.

Estou em casa do António, sem imaginar que me irá pertencer. Os móveis espiam-me, aquele louceiro da sala, sempre atento, incomoda-me. São presenças supérfluas, às quais nunca me adaptarei. Já lho disse, respondeu-me que era uma questão de hábito, não sei bem o que fazer, dormimos ontem, hoje, vamos dormir amanhã e depois; o consentimento dos pais, da aldeia inteira foi mudo e recatado, por falta de alternativa. Mesmo assim, carrego um céu pesado, de nuvens negras, inchadas de pecado. António diz-me que é essa sensação que entope a minha adaptação àquele espaço, a ele e à nossa vida. O casamento tem que ser feito, quanto antes. Apressamos a data, apressamos os abraços, condensamos o afecto. Continuo a estranhar a cama, o quarto com a janela pequena, as nesgas de sol, a cal a esboroar-se das paredes, o cheiro a mofo, a casa a gritar por vida e eu sem conseguir amar aquelas paredes, aquele soalho enegrecido, aquele fresco ali preso, mesmo sob o pino do calor. António adivinha-me e em duas palavras decide “Vendemos, não há problema nenhum, mas casamos na data marcada”. O esconderijo deixa de ser esconderijo e deixa de ser futuro, também. Relaxo e enrolo-me no seu corpo, à frente dos móveis velhos, que se despedem, acenando-me com as suas loiças.
Dia do casamento. Um vestido branco sujo, curto, sem cauda. Feito por mim, com a ajuda da minha mãe. As tias, os tios, os primos e as primas, enfeitados para o dia de festa, de apetites aguçados para o melhor que venha. O resto da aldeia, apinhado na praça central, espalhado pelas ruas, pelas janelas que oferecem vistas. A igreja e um padre, logo ali. O meu desfile, pela mão do meu pai, longo caminho até à igreja, perto demais para ir de limusina, sacrifício oferecido à população sobre os meus pés, população sequiosa de pormenores, de espreitadelas, de fracos nunca vistos, população que se esquece de si, quando vai para a praça pública. Caminho lentamente para não desmanchar o meu sorriso, o meu penteado, afinado com uma grinalda cheia de flores verdadeiras, caminho de pernas à vista e de sapatos de salto alto, sem cauda para carregar. Os oohs de espanto ouvem-se debaixo da surdina, preocupando o meu pai, que apressa o passo, precipitando o ritual, fazendo gala em empurrar a filha para o altar e entregar a responsabilidade a outro.

Casamento à vista, tumulto em redor, turbilhão que corre, lá fora e cá dentro. Olhos que nos seguram pelo canto, mal disfarçados de intenções, que nos despem em praça central, em julgamento popular, pelas aparências furtivas, que nem sequer se chegam a desenhar, de tanta irregularidade acontecida, de tanta estranheza dentro da vida.

António surge lá do outro lado, descido do seu pequeno monte, da casinha das janelas pequenas, mundo pequeno e distante; surge em passo corrido, bonito de se ver no fato de cerimónia, tez bronzeada da guerra e do pó, homem esculpido a preceito pela natureza, sorriso aberto para mim, sorriso feliz e descarado, sorriso que a multidão não viu, caminho dos dois, sem ninguém à vista, felicidade invisível aos olhos dos curiosos. Chocamos os dois à porta da igreja, chocamos num longo abraço, o meu pai embaraçado com os procedimentos, as pessoas a empurrarem-nos para dentro da igreja; somos cuspidos para dentro, o meu pai fica para trás e de repente estamos perante o padre, com todos lá atrás, vestidos de silêncio, a sussurrar comentários surdos, à espera que a voz do mensageiro de Deus finalmente se levante. E o mensageiro levanta-se, contra vontade de muitos, dando início ao ritual. Nas últimas filas dos bancos corridos, chega apenas um eco difuso dos movimentos labiais do padre. Já toda a gente conhece a ladainha, apenas se observam uns aos outros; os nossos gestos, as nossas expressões ante a iminência de uma nova condição, os fatos dos outros, quem marcou presença, quem cochicha de graça e quem comenta com graça a procissão que se forma, quando viramos costas ao padre e entramos no mundo, no dia de hoje, perante o sol nu.

Casamento à vista, tumulto em redor, turbilhão que corre, lá fora e cá dentro. Olhos que nos seguram pelo canto, mal disfarçados de intenções, que nos despem em praça central, em julgamento popular, pelas aparências furtivas, que nem sequer se chegam a desenhar, de tanta irregularidade acontecida, de tanta estranheza dentro da vida.

Banquete rico, rica gente, rica terra. Os garfos tilintam, tilintam, exigindo o beijo tradicional. Beijamo-nos, por dentro só nós, num mundo colorido, de formas ausentes, onde rodopiamos, enlouquecidos com o brilho que se acende, com a plenitude que nos invade. Cá fora desenha-se um beijo vigiado, discreto aos olhares, contido demais, dando início ao repasto prometido. A gula absorve as atenções; devagarinho, cada um se lembra de si, investindo na comida que vem aí, largando as más línguas, as invejas do nada, os ciúmes de nós. António está longe de repente. Come com a vista para a frente, na confusão dos convidados. Agarro-lhe a mão, debaixo da mesa, para que não fuja, sem me levar também.

Casamento à vista, tumulto em redor, turbilhão que corre, lá fora e cá dentro. Olhos que nos seguram pelo canto, mal disfarçados de intenções, que nos despem em praça central, em julgamento popular, pelas aparências furtivas, que nem sequer se chegam a desenhar, de tanta irregularidade acontecida, de tanta estranheza dentro da vida.

Sem comentários: