quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

A companhia

- Claro que vou contigo!
- Mas é uma simples consulta de rotina!
- Faço-te companhia, sempre é mais agradável, não achas?
- És capaz de ficar à espera...
- Dou uma volta.
- Nesse caso, veste o casaco, o comboio está quase a passar.
- Já estou pronto.
- Olha, lá está ele a apitar. Incrível, vem mesmo ao minuto.
- E deve vir cheio de gente.
- Vamos para as últimas carruagens, temos sempre sorte.
- Pronto, já cá estamos. Os degraus são altos, cada vez me custam mais a subir.
- Pois, tu não notas, mas vamos ganhando idade...
- É verdade, Maria.
- Encolhe-te um bocadinho, é por causa dos sacos, não os quero pôr no chão.
- Olha-me este sol, num dia de Inverno... não é normal, é que é um sol quente... e a luz está tão bonita. Gosto sempre desta viagem, sabes? Não ter que conduzir nem estacionar já é fantástico, mas este sol... anima-me.
- Antes assim. Querias apanhar uma chuvada? Ainda chegávamos encharcados ao hospital e se calhar só adoecia depois de lá sair.
- Isso é verdade.
- Pois, lá se iam os exames ao ar. Estamos quase a chegar... espera, não te levantes já, isto abana muito, podes cair. Temos tempo.
- Já se vê o hospital daqui.
- Sim... sempre te disse que era muito mais prático vir de comboio, não apanhamos trânsito, não temos que estacionar e é muito mais rápido.
- Pois é Maria, pois é. Que confusão está aqui. São milhares de pessoas.
- Sabes que é sempre assim. Inscreves-te na consulta e esperas pela tua vez. A confusão é fogo de vista. CUIDAAADOOOO!!!!!!
- Oxalá tenhas razão... ai, ai o pilarete, aiiiiii, AIIIII!!!!!!!!


CATRAPUM. António escarrapachado no chão, cabeça a sangrar, nariz amolgado e o resto a esperar pelo resultado das radiografias. Maria dividida entre a ambulância e o hospital; a sirene a entrar em acção, a rodopiar, a espalhar luz, as portas a fecharem-se, lá dentro o António a acenar-lhe e a entreabrir os lábios, parecendo dizer “eu já cá volto”. Maria volta ao balcão de atendimento combalida com as dores que não se vêem, mas decidida a levar a consulta avante, mais as carradas de exame marcadas com uma razoável antecedência. A perturbação é evidente para alguns olhos, mas ninguém percebe ao certo o raio que a atingiu, uma tremura constante atrás do sorriso aberto, de quem se dispõe a esperar o tempo que for preciso.
Os telemóveis de ambos ligam-se de um lado para o outro, à socapa dos médicos e enfermeiras. Nunca coincidem, está um desligado, logo a seguir o outro o imita. As notícias tardam a chegar e Maria receia os resultados. As horas atrasam-se naquele lugar, apesar de ela se querer adiantar, a descrever círculos no átrio do hospital, a empatar-se com o telemóvel, a fingir que observa as pessoas, a tentar ler o que está escrito nos placares, a olhar para as suas radiografias sem interesse, a ler os relatórios dos médicos já de esguelha. Até que o telemóvel toca, com o António do outro lado.
- Sou eu!
- Estás vivo?
- Que te parece?
- Estás um bocadinho...
- Daqui a pouco estou aí. Espera por mim.
- A sério?
- Verdade. Voltamos no nosso comboio.
- Mas... tu estás capaz?
- Estou quase a chegar. Até já.
Pouco tempo depois António aparece, com o curativo feito, o diagnóstico escrito, as radiografias nas mãos. Teve sorte, dentro do azar. O comboio já vem a apitar, lá ao longe.
- O raio deste comboio não falha um minuto! – Exclama ele.
- Pois é! O pior é que os degraus custam cada vez mais a subir e eles não contam com isso. Arrancam sem dó nem piedade.
- Há coisas bem piores que os degraus.
- Bom, olha, o que é giro é que voltaste para me fazer companhia...
- Não fui grande companhia...
- Julgas tu... e agora estás cansado. Também não é para menos, não achas? Foi um dia bem fora do normal!
- Já viste Maria, como o final de tarde está bonito, com aquele sol alaranjado a querer esconder-se? Podia lá agora perder este comboio!

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